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sábado, 24 de janeiro de 2026

Desenvolvimento Territorial e Valor: uma leitura marxista das desigualdades regionais e do caso fluminense

Como a transferência espacial de valor e a lógica combinada do território moldam o subdesenvolvimento regional e os limites da agricultura no Rio de Janeiro

por Almir Cezar Filho

Resumo

O artigo propõe uma leitura marxista do desenvolvimento territorial a partir da teoria do valor e da dependência.  Defende que as desigualdades regionais no Brasil — e particularmente no estado do Rio de Janeiro — são expressões espaciais da acumulação capitalista desigual, na qual o excedente flui das regiões produtivas para os centros de comando financeiro e político.  A análise combina os aportes de Marx, Preobrazhensky, Kalecki e Celso Furtado, articulando-os em torno da noção de acumulação coerente territorial, segundo a qual o desenvolvimento exige compatibilidade entre ritmos setoriais, escalas espaciais e estruturas sociais. Com base em dados recentes sobre desindustrialização e desagriculturalização fluminense, o texto demonstra como o território foi esvaziado de valor, ao mesmo tempo em que manteve nichos extrativos e uma agricultura familiar fragmentada.  Defende-se que a reindustrialização verde e cooperativa, ancorada na agricultura familiar, no cooperativismo e na agroecologia, constitui caminho possível e necessário para reconstruir a base produtiva e a soberania regional.  Propõe-se, por fim, um modelo preobrazhenskiano de planejamento territorial, em que o excedente do petróleo e das rendas urbanas financia a industrialização difusa, a agroindustrialização artesanal e o turismo de base comunitária — formando uma nova geografia da acumulação social.


Palavras-chave: Desenvolvimento territorial; desigualdade regional; lei do valor; acumulação coerente; reindustrialização; agricultura familiar; cooperativismo; agroecologia; Preobrazhensky; Kalecki; Celso Furtado; Rio de Janeiro; soberania produtiva.

I. Introdução – O espaço como forma e contradição do desenvolvimento

O desenvolvimento territorial é, antes de tudo, uma questão de valor e poder.  Não se trata apenas de distribuir investimentos ou equilibrar indicadores regionais, mas de compreender como o capitalismo produz, concentra e desloca valor no espaço.  O território, longe de ser cenário neutro, é parte ativa da acumulação: ele organiza os fluxos de capital, define as hierarquias produtivas e expressa, em sua geografia, a estrutura de classes e de dependência.  Assim como o tempo estrutura o ciclo econômico, o espaço estrutura a desigualdade — é o seu corpo visível, o mapa das contradições da acumulação.

A economia regional brasileira é marcada por uma geografia de desigualdades historicamente produzidas.  A centralização industrial e financeira no Sudeste, o esvaziamento das periferias e a primarização das economias interioranas não são efeitos naturais, mas resultado de políticas e estruturas de valorização seletiva do capital.

O território é, portanto, o palco onde a lei do valor se espacializa, redistribuindo o excedente de modo desigual: o que é produzido em um ponto é apropriado em outro.  Como observou Preobrazhensky, a acumulação não é apenas setorial, mas também espacial — uma transferência territorial de excedente, que enriquece alguns espaços enquanto empobrece outros.

Na formação econômica do Brasil, essa lógica assumiu a forma de um centro dinâmico e periferias dependentes, estruturadas pela extração de matérias-primas e pela subordinação tecnológica.
A industrialização, em vez de romper essa hierarquia, a reconfigurou internamente: o Sudeste tornou-se o centro industrial e financeiro, e o restante do território, sua zona de abastecimento. Mesmo dentro dos estados, como no caso fluminense, essa divisão interna do trabalho reproduz a assimetria nacional — metrópoles concentradoras de serviços e capital convivendo com interiores agrários fragilizados, dependentes e desarticulados.

As tentativas de políticas regionais e de desconcentração produtiva, embora bem-intencionadas, não alteraram as relações de valor entre os territórios. Investimentos públicos e incentivos fiscais dispersaram a renda, mas não construíram capacidade produtiva endógena.  Em muitos casos, os programas de desenvolvimento regional criaram enclaves industriais e corredores logísticos voltados à exportação, sem internalizar as cadeias de valor.

Assim, o território se tornou apenas o canal de passagem do excedente, e não seu locus de acumulação.  O resultado é uma economia espacialmente desequilibrada: ilhas de modernização cercadas por mares de estagnação.

O caso do estado do Rio de Janeiro ilustra esse paradoxo com nitidez.  Antigo polo industrial e energético, o estado viu sua base produtiva se esvaziar ao longo das últimas décadas, convertendo-se em economia de serviços e royalties. O interior, especialmente as regiões Norte e Noroeste fluminense, vive a contradição de possuir riqueza agrícola e energética sem reter valor — exporta produção e importa desenvolvimento.  Nessa perspectiva, o problema territorial não é apenas distributivo, mas estrutural: o Rio de Janeiro tornou-se um território de passagem do valor, não de sua reprodução.

Partindo dessa leitura marxista do espaço, este artigo busca repensar o desenvolvimento territorial como processo de acumulação coerente em escala regional, no qual a produção, o investimento e a reprodução social se enraízam no território e se retroalimentam.

Defende-se que o combate às desigualdades regionais não pode se limitar a políticas compensatórias, mas deve se orientar por um planejamento territorial integrado, baseado na valorização produtiva local, na agroecologia e na rearticulação entre campo e cidade.  Trata-se, em última instância, de repor a categoria de valor territorial no centro da análise econômica — compreender o território como forma da luta de classes e da redistribuição do excedente, e o desenvolvimento como construção coletiva de autonomia espacial e social.

sábado, 22 de novembro de 2025

Dossiê | Tetralogia de ensaios sobre "Acumulação Coerente"

Ensaios sobre Desenvolvimento, Planejamento e Soberania Social

Por Almir Cezar Filho | Série Limiar e Transformação Econômica

Juntas, quatro dimensões - explicáveis abaixo - compõem o que podemos chamar de "Teorema da Acumulação Coerente", isto é, um sistema econômico é sustentável quando o excedente é gerado de forma produtiva, distribuído de modo planificado e reaplicado socialmente.

Apresentação
A  presente tetralogia de ensaios reúne quatro textos teóricos e críticos que, em conjunto, formulam uma teoria marxista contemporânea do desenvolvimento, articulando macroeconomia, estrutura produtiva, política industrial e transformação social. Inspirada em Evguêni Preobrazhensky, Michał Kalecki, Celso Furtado e Theotonio dos Santos, esta obra desenvolve o conceito de acumulação coerente — uma síntese entre racionalidade planificada, proporcionalidade intersetorial e redistribuição solidária.

Ao longo dos textos, o autor reconstrói, sob novas condições históricas, a tradição do planejamento e da economia política do desenvolvimento no Brasil e na América Latina. Mais que uma teoria da produção ou da política econômica, trata-se de uma teoria da coerência social do desenvolvimento — um esforço de reintegração entre economia, política e ética, num tempo em que a acumulação capitalista global se mostra desordenada, excludente e insustentável.

A Tetralogia propõe, assim, um paradigma alternativo de modernização, no qual o Estado, o trabalho e a comunidade se tornam sujeitos conscientes da acumulação, transformando o excedente em bem comum e o crescimento em soberania.

sábado, 15 de novembro de 2025

Economia Solidária e a Nova Racionalidade do Desenvolvimento: a autogestão como forma social da coerência econômica

Como a organização solidária do trabalho pode transformar o excedente produtivo em soberania social e reconstrução nacional**

Por Almir Cezar Filho*

Resumo
A Economia Solidária é apresentada como dimensão social e territorial da teoria da acumulação coerente, integrando os conceitos de Preobrazhensky, Kalecki e Furtado em uma perspectiva marxista-estrutural contemporânea. Mais que uma política pública ou alternativa de renda, ela constitui um novo paradigma de racionalidade econômica, baseado na autogestão, na propriedade coletiva e na reintegração entre trabalho e comunidade. O artigo analisa suas formas organizacionais, seus instrumentos financeiros (bancos comunitários, moedas sociais, microcrédito orientado), e sua integração com o planejamento estatal e territorial. Defende que a Economia Solidária é o elo que liga a coerência macroeconômica e a redistribuição social, completando o ciclo iniciado nos artigos anteriores sobre crescimento garantido, doença egípcia e acumulação primitiva nacional. Como síntese teórica e prática, propõe que o desenvolvimento brasileiro do século XXI depende da capacidade de transformar solidariedade em estrutura produtiva e excedente em emancipação.

Palavras-chave
Economia solidária; autogestão; desenvolvimento; planejamento econômico; acumulação coerente; Preobrazhensky; Kalecki; Celso Furtado; cooperativismo; economia popular; soberania produtiva; Estado solidário.

I. Introdução – O retorno do trabalho como sujeito do desenvolvimento

A Economia Solidária surge, nas últimas décadas, como uma das expressões mais avançadas da crítica prática ao capitalismo contemporâneo. Ela não é mero programa compensatório de geração de renda nem política pública de combate à pobreza, mas a reemergência da auto-organização dos produtores — trabalhadores que retomam, de forma coletiva e consciente, o controle sobre os meios, os fins e os frutos do seu próprio trabalho. Trata-se de uma racionalidade econômica alternativa, enraizada em valores de cooperação, sustentabilidade e justiça social, que se contrapõe frontalmente à lógica do lucro e da acumulação privada do capital.

Num cenário de crise estrutural da globalização neoliberal, desindustrialização prolongada e precarização do trabalho, a Economia Solidária reaparece como projeto de reconstrução produtiva e social a partir de baixo. Enquanto o capitalismo convencional concentra renda e mercantiliza a vida, a economia solidária descentraliza a produção, redistribui o excedente e restabelece os laços entre economia e comunidade. Ela opera onde o mercado fracassa e o Estado se ausenta — mas vai além da mera substituição: propõe uma nova forma de planejamento democrático da produção e do consumo, em que a finalidade é a reprodução ampliada da vida, não do capital.

Essa perspectiva dialoga com as formulações de Preobrazhensky, que, ao teorizar a acumulação socialista primitiva, identificou o papel histórico das formas não capitalistas na transição ao desenvolvimento planificado. Também se aproxima de Kalecki, para quem a dinâmica macroeconômica só é sustentável quando a distribuição funcional da renda sustenta o investimento produtivo e o pleno emprego. E, ainda, de Celso Furtado, que via na articulação entre estrutura produtiva, cultura e solidariedade social o núcleo do verdadeiro desenvolvimento. A Economia Solidária, nesse sentido, é a tradução microeconômica e territorial dessa coerência macroestrutural — uma forma de desenvolvimento endógeno, inclusivo e socialmente racional.

Diferente de programas assistenciais ou políticas de subsistência, a Economia Solidária se ancora na autonomia dos trabalhadores e no enraizamento comunitário da produção. Suas experiências — cooperativas, empresas recuperadas, redes de produtores, bancos comunitários, moedas sociais e tecnologias sociais — compõem um mosaico de resistência e inovação que desafia a hegemonia da empresa capitalista tradicional. Cada experiência local, por pequena que pareça, representa um ato de reconstrução da economia nacional a partir de suas bases sociais, culturais e ecológicas.

Por fim, a Economia Solidária ocupa um lugar estratégico na nova teoria do desenvolvimento que propomos ao longo desta série. Se o primeiro artigo tratou da coerência macroeconômica entre crescimento e estabilidade, e o segundo diagnosticou a “doença egípcia” como estagnação estrutural das economias dependentes, e o terceiro resgatou a acumulação primitiva nacional como fundamento da reindustrialização soberana, agora a Economia Solidária fecha o ciclo ao apresentar o sujeito social desse processo: o trabalho coletivo, consciente e autogestionário. É nele que o desenvolvimento se reconcilia com o humano — onde a economia volta a servir à sociedade, e não o contrário.

sábado, 25 de outubro de 2025

A Doença Egípcia: um paradigma invertido da Doença Holandesa

Da reprimarização impossível à estagnação dependente: uma teoria estrutural do subdesenvolvimento e da inflação crônica nas economias periféricas*

Por Almir Cezar Filho**

Resumo

O artigo apresenta o conceito de Doença Egípcia, uma categoria teórica proposta como inversão da clássica Doença Holandesa. Enquanto esta descreve o retrocesso industrial de economias que prosperam graças ao sucesso de seu setor primário, a Doença Egípcia caracteriza países que nunca completaram o processo de industrialização, mas permanecem presos à dependência de exportações primárias frágeis e instáveis. O texto demonstra que, nesses casos, a escassez de divisas, e não a abundância, desencadeia um ciclo de desvalorização cambial, inflação de custos, desinvestimento e estagnação produtiva. Inspirado nas formulações de Preobrazhensky e Kalecki, o modelo expõe como o desequilíbrio entre setores e a ausência de planejamento convertem a economia periférica em um sistema de reprodução sem acumulação, no qual o Estado administra a escassez em vez de superá-la. Aplicado ao Brasil e a outras nações do Sul Global, o conceito propõe uma releitura estrutural da inflação e do subdesenvolvimento, recolocando o planejamento, a reindustrialização e a soberania cambial como fundamentos da estabilidade e do crescimento de longo prazo.

Palavras-chave:

Doença Egípcia; Doença Holandesa; subdesenvolvimento estrutural; inflação de custos; dependência; planejamento econômico; industrialização tardia; Preobrazhensky; Kalecki.


I. Introdução – O Paradoxo da Periferia e a Inversão da Doença Holandesa

A expressão “Doença Holandesa” tornou-se, nas últimas décadas, um dos conceitos mais difundidos para descrever o dilema de países que, após descobertas ou valorização de recursos naturais, sofrem os efeitos colaterais de seu próprio sucesso. O boom das exportações de commodities provoca a valorização cambial, reduz a competitividade das manufaturas e leva à reprimarização da estrutura produtiva. Em essência, trata-se de uma patologia do êxito: o país industrializado é traído por seu setor primário pujante.

Entretanto, nas economias periféricas e dependentes, o fenômeno assume contornos inversos. O problema não é o “excesso de sucesso” das exportações, mas sua fragilidade estrutural. Aqui surge o que denominamos Doença Egípcia — uma versão invertida da Doença Holandesa. Não se trata de uma regressão a partir de uma base industrial consolidada, mas de um bloqueio histórico que impede a industrialização de se completar. A “doença”, portanto, nasce não do apogeu, mas da insuficiência.

A metáfora egípcia é reveladora. O Egito antigo foi uma das civilizações mais sofisticadas do ponto de vista agrário, mas cuja produtividade agrícola sustentava um Estado extrativo e elites improdutivas, incapazes de converter o excedente social em acumulação produtiva. A abundância relativa não se transformava em progresso técnico, mas em monumentos e privilégios. Da mesma forma, nas economias periféricas contemporâneas, o excedente proveniente do setor primário — mesmo modesto — é canalizado para o consumo das elites, a especulação financeira e o serviço da dívida, não para a transformação estrutural da base produtiva.

Enquanto na Doença Holandesa o câmbio valorizado corrói a competitividade industrial, na Doença Egípcia o câmbio desvalorizado reflete a ausência de base industrial capaz de reagir à desvalorização. O resultado é um círculo vicioso: a queda dos preços das commodities reduz as reservas internacionais e desvaloriza a moeda; a moeda fraca encarece importações de insumos e maquinário; os custos industriais sobem e o investimento declina. Surge, assim, uma inflação estrutural de custos, não compensada por expansão produtiva — uma estagnação inflacionária de natureza dependente.

A Doença Egípcia é, portanto, a patologia da periferia que nunca se industrializou plenamente, mas que experimenta as desvantagens cambiais e estruturais da dependência primário-exportadora. Ao contrário da doença holandesa, que se manifesta como uma perda de complexidade após um ciclo virtuoso, a egípcia é o sintoma de uma ausência estrutural de complexidade. É a doença de economias onde o Estado arrecada sobre a base agrária ou mineral, o capital lucra pela intermediação financeira e a sociedade paga o preço da desindustrialização sem jamais ter vivido seu auge.

sábado, 18 de outubro de 2025

Crescimento, Inflação e Coerência Estrutural: uma síntese Preobrazhensky–Kalecki para o desenvolvimento brasileiro

 Entre o fiscal e o monetário: um modelo interdepartamental de crescimento garantido e não inflacionário para economias em desenvolvimento*

Por Almir Cezar Filho**

Resumo

O artigo propõe um modelo interdepartamental de crescimento garantido e não inflacionário, fundamentado na síntese entre Evgeni Preobrazhensky e Michał Kalecki. A partir de uma releitura marxista das relações entre produto efetivo e produto potencial, o texto demonstra que a estabilidade de preços não depende da contração fiscal ou monetária, mas da compatibilidade estrutural entre os ritmos de expansão setoriais. O modelo formaliza o produto agregado como a soma das respostas diferenciais da produção (YΣ=∑1/dXiY_{\Sigma} = \sum 1/dX_i), identificando um ponto ótimo de coerência (Y^0\hat{Y}_0) em que o crescimento da renda coincide com a capacidade produtiva sem gerar inflação.Essa formulação integra o teorema de Preobrazhensky sobre inflação e desproporção nos países em desenvolvimento e a taxa de crescimento garantido de Kalecki (g=s/vg = s/v, resultando em uma equação composta (gNI=s/∑βivig^{NI} = s / \sum \beta_i v_i) que expressa a taxa de expansão compatível com a estrutura produtiva real. Aplicado ao caso brasileiro, o modelo revela que a inflação recente decorre não de déficits fiscais, mas de gargalos produtivos intersetoriais — a superposição de cadeias de oferta descompassadas. O artigo conclui propondo substituir a atual política de metas de inflação por uma meta de coerência estrutural, que combine planejamento produtivo, investimento coordenado e mensuração periódica do crescimento não inflacionário. Essa abordagem redefine o papel da política macroeconômica, colocando o planejamento e a proporcionalidade produtiva como fundamentos da estabilidade e do desenvolvimento sustentável em economias periféricas.

Palavras-chave: 

Preobrazhensky; Kalecki; crescimento garantido; inflação estrutural; coerência interdepartamental; planejamento econômico; Brasil.

Introdução – Crescimento, Inflação e a Falácia do Desequilíbrio Fiscal

Nas últimas décadas, o debate econômico brasileiro tem sido sequestrado por uma falsa oposição entre responsabilidade fiscal e expansão produtiva. À política fiscal atribui-se a origem das pressões inflacionárias; à política monetária, o papel de guardiã da estabilidade. Sob essa narrativa, o crescimento seria, por definição, inflacionário; e a austeridade, sinônimo de sensatez. Contudo, a experiência recente do país — inflação persistente mesmo com juros recordes e baixo dinamismo — revela que algo fundamental está errado nesse raciocínio.

A inflação brasileira contemporânea não nasce do “excesso de gasto público”, mas dos gargalos estruturais de uma economia heterogênea, dependente e desproporcional. Em vez de se propagar de cima para baixo pela demanda, ela emerge de dentro do sistema produtivo, das descompensações entre setores e departamentos, que limitam a expansão da oferta e elevam os custos antes mesmo que o consumo popular se recupere. A política monetária restritiva, ao inibir o investimento justamente nos elos mais frágeis — energia, logística, indústria de base e agricultura —, apenas aprofunda o desequilíbrio que pretende corrigir.

É nesse ponto que o pensamento de Evgeni Preobrazhensky e Michał Kalecki recupera toda a sua atualidade. Ambos demonstraram que o equilíbrio entre crescimento e estabilidade de preços não depende do freio da demanda, mas da compatibilidade entre os ritmos de expansão dos setores e departamentos da economia. Em Preobrazhensky, essa compatibilidade material expressa-se no equilíbrio entre os Departamentos I (meios de produção) e II (meios de consumo); em Kalecki, na proporção entre poupança, investimento e capacidade produtiva, que define a taxa de crescimento garantido.

Partindo dessa dupla herança teórica, este artigo propõe um modelo interdepartamental de crescimento garantido e não inflacionário, no qual o produto efetivo YΣY_{\Sigma} resulta da soma das respostas diferenciais setoriais dXidX_i, e o ponto ótimo Y^0\hat{Y}_0 representa a coerência estrutural entre o produto efetivo e o potencial. O modelo sintetiza o teorema de Preobrazhensky sobre a inflação em economias em desenvolvimento e a equação kaleckiana do crescimento g=s/vg = s/v, mostrando que o crescimento sem inflação decorre da proporcionalidade entre investimento, capacidade e estrutura produtiva — e não da contração da demanda.

A aplicação dessa abordagem ao caso brasileiro permite reinterpretar a atual conjuntura: a inflação decorre menos do fiscal e mais da superposição de gargalos produtivos; a estabilidade não virá de juros altos, mas da recomposição das proporções materiais do desenvolvimento. Ao restituir a economia política ao terreno da totalidade concreta, o modelo propõe uma nova racionalidade macroeconômica para países periféricos — uma racionalidade do planejamento e da coerência estrutural, que recoloca o crescimento, e não a austeridade, como fundamento da estabilidade de preços e do equilíbrio social.

sábado, 11 de outubro de 2025

O Tempo dos Ciclos: Irregularidade, Tendência e Transição na Dinâmica do Capitalismo

Entre a repetição e a transformação: como o movimento cíclico revela o tempo histórico do capital e anuncia seus limites.*


Por Almir Cezar Filho**

Resumo

Os ciclos econômicos não são meras oscilações estatísticas, mas expressões da própria lógica contraditória do capitalismo. Através de períodos de expansão e crise, o sistema reconfigura suas condições de reprodução, revelando uma regularidade que se manifesta por meio da irregularidade. Este artigo analisa, sob a ótica marxista, a natureza dialética dos ciclos: suas sobreposições temporais, suas tendências estruturais e suas mutações históricas. Da “irregularidade regular” à financeirização contemporânea, buscamos compreender o ciclo como forma temporal do capital — e o planejamento socialista como sua negação consciente.

Introdução – O Movimento como Forma da Contradição

Desde que Marx descreveu o ciclo industrial como “a forma viva do movimento do capital”, o pensamento crítico reconhece que a economia capitalista não se desenvolve de modo linear, mas pulsante, alternando prosperidade e colapso, avanço e retração. A repetição das crises não é um desvio, mas uma necessidade interna da acumulação: o capital só se renova destruindo parte de si mesmo, purgando os excessos que sua própria lógica produz.

Cada ciclo, no entanto, não é mera repetição do anterior. Ele se dá sobre novas bases técnicas, sociais e geográficas. A superprodução do século XIX não é a mesma de 1929, tampouco a de 2008. Cada uma reflete o modo histórico como o capital reorganiza suas contradições fundamentais — entre produção e realização, trabalho e valor, capital e vida. O ciclo é, portanto, a forma concreta da contradição em movimento.

O olhar marxista sobre os ciclos não busca prever datas ou traçar curvas regulares, mas revelar o tempo histórico inscrito nas flutuações econômicas. Por trás das estatísticas de crescimento e recessão, pulsa a dinâmica real de valorização e desvalorização do capital, isto é, o processo pelo qual a sociedade burguesa tenta perpetuar-se diante de seus próprios limites. O que as escolas econômicas chamam de “recuperação” nada mais é que a reconstrução temporária das condições de exploração.

Neste sentido, estudar os ciclos é estudar a própria historicidade do capitalismo. Cada oscilação, cada crise, cada fase de expansão é parte de uma totalidade maior — o processo contraditório de reprodução de um modo de produção que precisa se reinventar para não sucumbir. Mas há um limite: a regularidade da irregularidade só se sustenta enquanto as contradições puderem ser deslocadas, e não superadas. Quando o capital atinge o ponto em que a crise se torna permanente, abre-se a possibilidade de um novo tempo histórico: o da transição consciente, o da planificação social, o do fim da anarquia do valor.

sábado, 12 de julho de 2025

99 anos do livro `"Nova Economia" de Eugeny Preobrazhensky

por Almir Cezar Filho

Eugeny Preobrazhensky
(foto colorizada)
O livro Nova Economia, como é mais conhecido, ou no original Nova Economia: uma tentativa de uma análise teórica da economia soviética (no original em russo: Novaia ekonomika: Opy t teoreticheskogo analiza sovetskogo khoziaistva) foi escrito pelo economista russo e bolchevique Eugeny Preobrajensky e publicado em 1926.

É considerada sua oppus magnus, embora seja o livro O ABC do Comunismo, coescrita com Nikolai Bukharin, a mais conhecida. O livro A Nova Economia - cujo Capítulo II foi publicado pela primeira vez em agosto de 1924, em Moscou, como um artigo científico - constituiu um dos principais textos econômicos do período. Até hoje, trata-se de uma das mais audaciosas e mais profundas obras de análise teórica da economia soviética do período dos anos de 1920, época pautada pela transição da economia russa ao socialismo, e surgimento do tema do "desenvolvimento econômico".

Por que o título "Nova Economia"?

O título alude a ideia que na URSS daquele período é preciso de uma nova teoria econômica (por isso, muitas vez a tradução se refere como "Nova Econômica") - própria aos dilemas particulares que tanto a ciência como sistema econômico de transição ao socialismo vive - e que a Economia tradicional não oferece respostas. E que, por sua vez, o Marxismo também não. A alternativas aos marxistas seriam desenvolver novas formulações teóricas, recorrendo as bases metodológicas da Economia Política marxista.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Debate sobre o ciclo capitalista de longo prazo entre Trotski vs. Kondratiev e a solução pelas categorias "regulação" e "direção"

Por Almir Cezar Filho

📊 O debate entre Kondratiev e Trotski sobre a dinâmica de longo prazo do capitalismo marcou a teoria marxista. Neste vídeo, explicamos de forma rápida e clara por que a solução passa pela síntese entre dois conceitos: regulação pela lei do valor e direção política.
Descubra como superar o velho dilema entre economicismo e politicismo!
⚙️ Regulação → estrutura os ciclos econômicos 🧭 Direção → conduz o desenvolvimento histórico

Assista - clique aqui: https://youtube.com/shorts/P23hn6w1Asg

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Crise, Ciclo e Desenvolvimento no Capitalismo: A solução do debate Kondratiev-Trótski

 A partir das idéias de regulação e direção1 2


por Almir Cezar de Carvalho Baptista Filho

Prólogo

A relação entre crise e ciclos econômicos e o desenvolvimento do capitalismo é uma tema palpitante, especialmente no período de uma crise. O artigo3 procura fazer um primeiro apanhado do meu entendimento sobre a questão, onde procuro desenvolver a solução do problema de maneira distinta do que a intelectualidade marxista sempre a vem tratando, em especial as naturezas objetiva versus subjetiva e o caráter econômico versus não-econômico do ciclo e da dinâmica econômica.

Embora outros autores4 cheguem a conclusões aproximadas deste artigo, e tratem até com maior profundidade a questão da polêmica e a abordagem diferente sobre ciclo entre Trótski e Kondratiev, esses não tratam as implicações fundamentais dessa controvérsia e os seus três desdobramentos obrigatórios:

i) a relação entre o ciclo e a crise e as determinações dessa dinâmica alternante; 

ii) a relação entre dinâmica de longo prazo e o desenvolvimento econômico; e

iii) que os capitalismos nacionais são partes de um sistema capitalista, totalizante e mundial.

Assim, também se condena qualquer compatibilidade entre a tese de “onda longa” com o entendimento trotskista de dinâmica de longo prazo do Capitalismo, inclusive uma eventual correspondência entre onda longa e ciclo longo.

Por fim, o presente artigo além do debate Trótski-Kondratiev, encontra ainda na própria literatura marxiana a solução do dilema teórico das ligações entre "ciclo e tendência, entre dinâmica e desenvolvimento econômico e entre esfera política e esfera econômica, que de fundo permeou o debate.

A solução é encontrada pelo método de recortar a realidade sistêmica do Capitalismo entre seus mecanismos de “regulação” e de “direção”, isto é, entre a determinação pela lei do valor e a “primazia” da política, como ficará mais claro ao final do artigo. Como consequência do artigo, esse instrumental permite ao estudioso marxista da conjuntura e/ou da trajetória de desenvolvimento superar o falso dilema “economicismo” versus “politicismo”.

(1) Apresentação

No início dos anos 1920 o economista russo Nicolai Kondratiev pioneiramente produziu um estudo sobre a regularidade do desenvolvimento da economia capitalista e definiu com base em análises estatísticas que a uma fase de expansão segue-se outra de contração. Frequentemente marxistas, e mesmo não-marxistas, costumam analisar a dinâmica de longo prazo do capitalismo a partir da teoria das “ondas longas” de Kondratiev.

Atualmente, vivemos o início de um revival do pensamento de Kondratiev, com a crise econômica mundial aparecida em 2007, finalizando um forte ciclo de prosperidade vivida pelo mundo desde o início da década de 2000. Com isso alguns intelectuais aparentemente passaram a ver nesse fato a manifestação ou prova viva da validade da dessa teoria.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

A "Crise da Tesoura Invertida" no Brasil Contemporâneo: Aplicação da Teoria de Preobrazhenski à Inflação Alimentar, Estagnação Econômica e Desindustrialização

 por Almir Cezar Filho

Resumo

A teoria da "crise da tesoura", formulada por E. A. Preobrazhenski para explicar a divergência de preços entre produtos agrícolas e industriais na União Soviética da década de 1920, pode ser aplicada de forma invertida ao Brasil contemporâneo. No contexto brasileiro, observa-se uma dinâmica oposta: os preços agrícolas sobem mais rapidamente que os industriais, enquanto a indústria nacional se enfraquece e a dependência de importações aumenta. Este artigo explora como o fenômeno pode ser caracterizado como uma "crise da tesoura invertida", analisando suas causas estruturais e as possíveis implicações para a política econômica.

Introdução

No Brasil de 2024-2025, a economia enfrenta um cenário paradoxal. De um lado, há um aumento expressivo nos preços dos alimentos e produtos agrícolas, impulsionado por fatores externos e internos, como a demanda global, eventos climáticos e a especulação de mercado. De outro, a indústria nacional se encontra em estagnação, incapaz de competir com produtos importados e enfrentando dificuldades para expandir sua produção.

Essa situação é diametralmente oposta à "crise da tesoura" identificada pelo economista soviético E. Preobrazhenski na URSS, na qual os produtos industriais subiam mais rapidamente do que os agrícolas, prejudicando os camponeses. No Brasil atual, ocorre o inverso: a agricultura domina o crescimento econômico, enquanto a indústria perde relevância, resultando em um novo tipo de desajuste estrutural – a "crise da tesoura invertida".

O objetivo deste artigo é utilizar os conceitos da economia soviética dos anos 1920, em particular a análise de Preobrazhenski sobre acumulação socialista primitiva, fome de mercadorias e desproporções entre setores produtivos, para explicar a crise atual da economia brasileira.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A CRISE DA INDUSTRIALIZAÇÃO SOVIÉTICA (Ensaios Selecionados), de E.A. Preobrazhensky - "Introdução" do editor em língua inglesa (1981)

 tradução para a língua portuguesa (Brasil) por Almir Cezar Fº


A crise da industrialização soviética - ensaios selecionados

de E.A. Preobrazhensky

editado e com uma introdução por Donald A. Filtzer


Introdução

por Donald A. Filtzer


Com o renascimento do interesse pelas ideias marxistas nos últimos dez ou mais anos, Evgeny Preobrazhensky, uma das principais figuras políticas e intelectuais a emergir da Revolução Boshevique, tornou-se conhecido por um ciclo muito mais amplo do que apenas o especialista ocasional na história soviética [1]. Em parte, isso se deve ao trabalho monumental de Isaac Deutscher, cuja biografia de Trotsky muito contribuiu para manter viva a vitalidade do pensamento marxista durante um período em que a continuidade e as tradições do movimento socialista ainda não haviam emergido do choque da reação do pós-guerra [2]. Para o leitor inglês, a familiaridade direta com os escritos de Preobrazhensky só se tornou possível em 1965, com a publicação de uma tradução da mais famosa obra teórica, A Nova Econômica [3]. Pela primeira vez, estudiosos de língua inglesa que não sabiam russo foram capazes de avaliar em primeira mão a contribuição de Preobrazhensky para os primeiros anos da teoria da economia soviética e a relevância de suas discussões sobre a industrialização soviética para os problemas enfrentados pelo mundo neocolonial contemporâneo. Infelizmente, já que os tiveram apenas uma outra tradução de uma importante obra de Preobrazhensky, Da NEP Ao Socialismo. Uma olhada na bibliografia dos principais escritos de Preobrazhensky no final deste livro mostrará um corpo singular de material valioso que permanece acessível apenas para aqueles que leem russo. Esperamos, é claro, que o presente livro ajude a preencher essa lacuna, mas de maneira alguma consideramos nosso esforço suficiente.

Como observamos em ensaio anterior [4], essa falta de atenção ao vasto corpo dos escritos de Preobrazensky é surpreendente, visto que o escopo de seus interesses teóricos era enorme e englobava problemas como o desenvolvimento da cultura da classe trabalhadora na sociedade pós-revolucionária, a história do pensamento socialista, a teoria do dinheiro e questões de finanças e inflação nos sistemas capitalista e soviético, a teoria das crises capitalistas e, é claro, a teoria do desenvolvimento econômico na URSS.

O volume e a sofisticação teórica de seus escritos parecem ainda mais impressionantes quando é lembrado que ele foi realmente um erudito que se fez sozinho, tendo apenas o ensino médio e tendo sido um militante bolchevique em tempo integral (e importante) de sua meio da adolescência em diante. Nem ninguém pode duvidar de sua coragem e habilidade política, pois foram precisamente os anos de intensa luta política dentro do Partido Bolchevique - uma luta na qual Preobrazhensky desempenhou um dos dois ou três papéis principais dentro da Oposição Trotskista - que viu seu mais abundante e produção intelectual frutífera. Isso não é para encobrir o súbito colapso político de Preobrazhensky, quando após anos de luta contra as crescentes incursões de Stalin na democracia do Partido e contra as políticas catastróficas da liderança do Partido, ele foi um dos primeiros Oposicionistas a romper sob as tensões do exílio e do isolamento e fazer essa paz com o homem que Trotsky tão apropriadamente chamou de “coveiro da revolução”. Tais atos devem ser explicados, talvez, mas nunca justificados.

O DECLÍNIO DO CAPITALISMO, por E. A. Preobrazhensky - "Prólogo" e "Introdução" da edição em língua inglesa (1985) e "Prefácio" original do autor (1931)

 

O DECLÍNIO DO CAPITALISMO, por E. A. Preobrazhensky


Traduzido por Almir Cezar Filho | “The Decline of Capitalism” - Traduzido (do russo ao inglês) e editado com introdução por Richard B. Day. 1ª edição M. E. Sharpe (1985).

PRÓLOGO

[do editor em língua inglesa, Richard B. Day]


O livro de Evgeny Preobrazhensky O Declínio do Capitalismo é um dos melhores trabalhos na teoria econômica soviética. Minha própria familiaridade com o livro resultado da minha pesquisa para The “Crisis” and the “Crash”: Soviet Studies of the West, 1917-1929 (1981). Descobri que o estudo de Preobrazhensky surgiu de sua análise economia interna soviética (ver E. A. Preobrazhensky, The Crisis da Soviet Industrialization, ed. Donald A. Filtzer, 1979) e ao mesmo tempo dirigiu-se a um todo um novo conjunto de problemas teóricos especificamente do contexto capitalista. Embora várias obras de Preobrazhensky permaneçam indisponíveis em inglês, escolhi realizar uma tradução de O Declínio do Capitalismo como um trabalho que ajudaria os leitores de língua inglesa a apreciar a extensão total da criatividade teórica do homem.

O Declínio do Capitalismo é um trabalho técnico no sentido de que desenvolve os esquemas de reprodução expandida de Marx, incorporando o crescimento desigual (ou cíclico) e a substituição do capital fixo. Preobrazhensky assume, para esse propósito, que seus leitores serão “alfabetizado” no marxismo. Portanto, tentei fornecer uma introdução que ao mesmo tempo lide com as questões técnicas e também situe O Declínio do Capitalismo na história da economia política marxista. Espero que a introdução seja um suplemento útil ao texto do próprio Preobrazhensky. As referências da nota, tanto na introdução e no texto anotado, são para fontes do idioma inglês sempre que possível.

terça-feira, 26 de maio de 2020

A Nova Econômica, por Eugueny Preobrajensky

Tradução para o português (brasileiro) do livro publicado originalmente em 1926, ou no original, "Nova econômica: uma tentativa de uma análise teórica da economia soviética" (em russo: 
Novaia ekonomika: Opy t teoreticheskogo analiza sovetskogo khoziaistva), do economista russo e bolchevique Ievgueniy Alekseiévitch Preobrazhensky. 

O livro A Nova Econômica, cujo capítulo II foi publicado pela primeira vez em agosto de 1924, em Moscou, constituiu um dos principais textos do período. Trata-se de uma das mais audaciosas e mais profundas obras de análise teórica da economia soviética do período dos anos de 1920, época pautada pela transição da economia russa ao socialismo.

Vamos ao livro:

domingo, 17 de maio de 2020

A Utilidade do Estudo Teórico da Economia Soviética, por Evgene Preobrazhensky


Artigo publicado no periódico Bolchevik, nº 15-16 (31 de agosto de 1926). Foi uma resposta as críticas levantadas ao seu livro A Nova Econômica, do mesmo ano, onde analisa, segundo a Economia Política marxista, a dinâmica e o desenvolvimento da economia soviética.

Os capítulos publicados de meu livro A Nova Econômica, consagrado à análise teórica da economia soviética, têm sido objeto de acerbadas críticas. Meus oponentes se têm lançado principalmente sobre o capítulo que trata da lei da acumulação socialista. O capítulo sobre a lei do valor na economia soviética tem recebido, em princípio, uma acolhida muito mais favorável durante os debates que tiveram lugar na Academia Comunista. Alguns críticos chegaram inclusive a felicitar ao autor. Mas, no artigo do camarada E. Goldenberg, publicado no número de 30 de abril de Bolchevik, o novo capítulo é criticado com tanta dureza como o anterior. Ignoro se as críticas são meramente a opinião do camarada Goldenberg; parte de os críticos manifestam em miúdos uma virulência superior ao normal; em todo caso, se as restantes críticas de meu artigo são mais objetivas ela será um bem para todos. No que me concerne, quero proceder com calma e objetividade. Existe uma divergência: por que querer exasperá-la a posteriori ou inventar fatores acessórios a mesma? Os que adotam esta atitude, tanto no plano teórico como no prático, não pensam em nosso futuro, e por ela se concedem o luxo de uma discussão estéril.

sábado, 16 de maio de 2020

As perspectivas da Nova Política Econômica, por Evgene Preobrazhensky

Tradução para o português (brasileiro) do original “Perspektivy Novoi Ekonomicheskoi Politiki”, publicado no periódico Krasnaia nov’3 (Setembro-Outubro 1921).

Evgene Preobrazhensky
No prefácio à primeira edição de O Capital, Marx escreve estas frases habitualmente citadas: “Uma nação pode e deve aprender com a história de outra nação. Incluindo quando uma sociedade chegou a descobrir o caminho da lei natural que preside seu movimento (...), não pode nem superar de um salto nem abolir por decreto as fases de seu desenvolvimento natural; mas pode abreviar o período da gestação e suavizar os males de sua gestação”. Anteriormente disse Marx no mesmo prefácio; “O país mais desenvolvido industrialmente não faz mais que mostrar aos que lhe seguem na escala industrial a imagem de seu próprio futuro”.

Desgraçadamente temos, tanto no continente europeu como no continente americano, países sem dúvida muito mais desenvolvida industrialmente que Rússia, mas nenhum deles se encontra em condições de mostrar à Rússia dos sovietes, industrialmente atrasada, “a imagem de seu próprio futuro”.

Este giro inesperado da história – a realidade da vitória e do estabelecimento da ditadura do proletariado precisamente em um dos países mais atrasados de Europa, Rússia, porém que nos países mais avançados economicamente subsiste relações da produção capitalistas – este giro converteu a situação em Europa (no sentido da aprendizagem que podem obter os países atrasados da história dos países mais avançados) em uma situação infinitamente mais complexa que o era quando Marx escreveu as frases citadas.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Marxismo, crise capitalista e princípio da demanda efetiva

É possível, ainda no marcos do capitalismo, haver espaço para correções e diminuir ou encerrar uma crise? E como isso é impossível de ser utilizado recorrente e permanentemente?

por Almir Cezar Filho

A Capitalismo volta e meia apresenta-se em crise. O impacto da pandemia de covid-19 provocada pelo novo coronavírus apenas acelerou e intensificou uma queda iminente, e não causou a recessão. O que chama a atenção que as causas e os receituários para presente crise são as mesmas da de cem e 90 anos atrás.

Triunfo do pensamento marxista, a  Revolução Russa de 1917, ainda no seu berço se viu com duplo problema de crise econômica e pandemia (Gripe Espanhola, em 1918/19), mas com isso, legou um salto na Teoria Econômica, absorvido até mesmo pela escolas mainstream da Economia, nem que seja em conta-gotas e parcialmente. O ineditismo e o preconceito antimarxista e antissocialista fizeram com que fossem rejeitados, boicotados ou negligenciados. Porém, inúmeros desses mesmos avanços teóricos  por conexão direta ou não, nasceram de "novo" na Europa Ocidental e América do Norte, na década seguinte (1930s), e permitiram a burguesia e a burocracia estatal tentar mitigar e pôr fim a crise que o mundo novamente havia mergulhado após o Crash de 1929 e a Grande Depressão. Mas apenas reeditando o que de maneira vanguardista havia surgido originalmente na URSS.

Uma das polêmica é a validade do princípio da demanda efetiva e a sua conexão com a crise capitalista. E com ela, a capacidade do Estado, especialmente o Estado burguês, de encerrar uma crise capitalista, por meio do gasto público, do volume de crédito e do comando estatal parcial ou amplo sobre os investimentos e produção, ao menos temporariamente, pelo potencial dado pela identificação científica das causas, efeitos, manifestações e conexões promotoras da crise. 

O Marxismo encara o princípio da demanda efetiva, porém, não há unanimidade entre os autores marxistas quanto à teoria do princípio da demanda efetiva. Uma das críticas internas no Marxismo é que os autores que trabalham com o princípio da demanda efetiva acabam por ter problemas na identificação da causa das crises do capitalismo, apresentando explicações em termos de subconsumo (nível de consumo agregado abaixo do nível de realização do produto) ou de subinvestimento (nível de investimento abaixo do nível de realização do produto). 

terça-feira, 14 de abril de 2020

Como financiar os gastos públicos de combate a pandemia. O velho debate sobre o setor público, o crédito e a moeda

por Almir Cezar Filho*

Com o advento da pandemia de covid-19 causada pelo novo coronavírus há uma gigantesca preocupação com os recursos para custear as ações sanitárias e de saúde, como também para ações para mitigar os impactos na economia, e para retomada econômica posteriormente. 

O discurso dominante é que se precisa manter a estrutura produtiva do país para o momento em que for possível haver a retomada da atividade econômica. E para isso, seria fundamental irrigar o mercado de crédito, mandar dinheiro rápido para os mais pobres e manter as empresas funcionando. Se as empresas quebrarem, quando chegar o momento da retomada não vai ter nem emprego nem empresa. Acaba que a retomada fica muito lenta. O custo de um choque transitório acaba virando permanente. 

Nesse contexto, surgiu um embate,  sobre as formas de financiar os gastos estatais. Esse embate abarca desde gente com longo histórico na atuação no mercado financeiro, participantes da alta cúpula de grandes bancos, até mesmo economistas que se consideram de esquerda. 

Surge a pergunta: de onde virá os recursos econômicos para custear esse conjunto de ações dos Estados? O que os Estados deverão fazer para obtê-los? Como essa conta será paga no futuro? Para cobrir o rombo decorrente, deve-se ampliar o endividamento? Emitir moeda?

Ressurge assim, o velho debate sobre o papel setor público, o crédito e a moeda no sistema capitalista, que são em si, também formas de intervenção do Estado sobre a economia, de comando sobre o mercado.