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sábado, 25 de maio de 2013

(Dia do Trabalhador Rural) Reforma Agrária paralisada

(Fonte: Portal do Desenvolvimento Agrário)
Hoje, 25 de maio, é Dia da Trabalhadora e Trabalhador Rural. Na última quarta-feira (22) a CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura) e a FETRAF (Federação Nacional dos Trabalhadores Agricultores Familiares) realizaram mobilizações pautando o Grito da Terra Brasil, para exigir do Governo Dilma o atendimento a uma série de reivindicações sobre reforma agrária, agricultura familiar e desenvolvimento rural. 

Coincidentemente, no mesmo dia que o Governo recebia o movimento em uma "sala", anuncia em outra o contingenciamento de mais de R$28 bilhões de reais do orçamento geral de 2013, bloqueando do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e do INCRA quase 1/4 dos recursos de seu orçamento anual. Não foi um caso isolado, nos últimos anos tem sido o patamar recorrente do contingenciamento que os dois órgãos agrários federais sofrem. A diferença é que o contingenciamento do orçamento geral de 2013 foi globalmente o menor dos últimos dois anos (em 2011 e 2012 foram quase o dobro), portanto, o MDA e o INCRA sofreram este ano um corte proporcionalmente maior ao montante geral, em comparação aos anos anteriores.

Retrospectivamente, o Governo Dilma tem tido os números mais baixos de desapropriação e implantação de projetos de assentamento desde a Redemocratização, perdendo até para o Collor. Contudo, ao invés de fazer a denúncia dessa postura do Governo, setores dos movimentos do campo equivocadamente absorveram a tese que a culpa pelo travamento da Reforma Agrária estaria no Judiciário "reacionário". Porém, os números não comprovam isso, embora a metade dos processos de obtenção de imóveis estão parados na Justiça, a outra metade também não anda na esfera administrativa, e também o número total por si só é pequeno.

Fica aqui nosso agradecimento a esses trabalhadores responsáveis de produzir os alimentos que chegam à mesa da população.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

"Dossiê Itaocara" - para onde vai a CUT e MST?

Eduardo Araujo Almeida, do Rio de Janeiro

facha e itaocara 108.JPG
local onde será construída o "paredão" em Itaocara/RJ
Após a retirada do MST/MAB (Movimento dos Sem Terra /Movimento dos Atingidos por Barragens), em Itaocara, município no Noroeste do Estado do Rio de Janeiro, o consórcio liderado pela companhia elétrica Light, veio com toda força sobre a população, já começando a dragagem do rio Paraíba do Sul, no local que será construída uma barragem que inundará toda a região. O mais grave é que as resistência local ficou totalmente sozinha na luta, e só não foram assassinados porque os interessados pelo projeto também são seus parentes. Um caso muito sério em que lideranças e dirigentes com suas cúpulas e acordos com os governos não poderiam deixar os trabalhadores locais sem nenhum auxílio.

Esperamos que o Prefeito eleito de Itaocara Sr. Gelsimar do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) se posicione o mais rapidamente sobre o caso, pois a população nem sequer sabe como e quando serão indenizadas, outro problema é que o próprio Consórcio anuncia o canteiro de obras para março de 213, mas o esvaziamento da região já começou, mas nenhuma placa sequer foi posta para e como orientação.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Reforma agrária agoniza. Desempenho vergonhoso do Incra e MDA

Trecho da Análise de Conjuntura produzida pelo IUH desta semana tratando da situação do Incra e do MDA. O documento na íntegra está em http://www.ihu.unisinos.br/noticias/511918-conjuntura-30-07-2012

Segue a parte:
Reforma agrária agoniza. Desempenho vergonhoso
O primeiro ano do mandato de Dilma Rousseff inscreveu em sua biografia uma marca: o pior desempenho desde a Era FHC na execução da Reforma Agrária. Dados oficiais do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária –Incra, revelam que a presidenta em 2011 registrou a pior marca dos últimos dezessete anos no assentamento de famílias sem terra. Os números de 2011 são vergonhosos. Apenas 21,9 mil famílias de sem-terra foram assentadas no 1º ano do governo Dilma.
Comparando os números relativos ao primeiro ano dos mandatos desde 2003, têm-se o seguinte quadro: FHC – 43 mil famílias em 1995; Lula – 36 mil famílias em 2003 e Dilma – 22 mil famílias em 2011. Os dados são do Incra em levantamento organizado por Paulo Kliass.
Caso sejam analisados os dados de todo o período, percebe-se que o primeiro mandato de Lula foi mais efetivo em termos de reforma agrária. A média de assentamentos de famílias por ano obedeceu ao seguinte quadro: FHC 1(1995-1998) – 72 mil/ano; FHC 2 (1999-2002) – 63 mil/ano; Lula 1 (2003-2006) – 95mil/ano;  Lula 2 (2007-2010) – 58 mil/ano.
Isso significa que, caso Dilma pretenda manter a média do primeiro mandato de Lula, ela terá de assentar uma média de 120 mil famílias nos próximos 2,5 anos que lhe restam. Mas a maioria dos analistas do setor considera muito difícil atingir tal meta, uma vez que o próprio MDA trabalha com a hipótese de assentar apenas 35 mil famílias até o final desse ano de 2012. Destaque-se que segundo o Incra existem cerca de 180 mil famílias esperando um lote.
Para agravar ainda mais o quadro, o orçamento para a execução da Reforma Agrária foi reduzido. Para se ter uma ideia, até agosto de 2011 Dilma tinha gasto R$ 60,3 milhões para desapropriar novas áreas e transformá-las em assentamentos de trabalhadores rurais sem-terra. No auge do investimento em reforma agrária, em 2005, o governoLula gastou mais R$ de 800 milhões no mesmo período. Para 2012, o quadro pouco mudou, o orçamento continuou em baixa.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Abril Vermelho: Recursos do MDA foram os menores dos últimos 7 anos

por Almir Cezar

O orçamento executado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) em 2011 foi o menor dos últimos sete anos, segundo levantamento do site Contas Abertas. O número reforça o argumento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), que realiza neste mês uma série de protestos pela Jornada Nacional de Lutas pela Reforma Agrária, também conhecida por “Abril Vermelho”, em que realizou ocupações e atos em mais de 20 estados, cujo ápice foi a ocupação por um dia da sede do MDA na Esplanada dos Ministérios.

No ano passado, o MDA gastou R$ 3,8 bilhões, ou 63,5% dos R$ 6,1 bilhões previstos. Comparativamente, nos anos de 2010, 2009, 2008 e 2005 os valores chegaram ao máximo de R$ 4,7 bilhões. Em 2006, o ministério desembolsou R$ 6,2 bilhões e, em 2007, R$ 5,4 bilhões.De acordo com o levantamento, o montante de recursos aplicados influencia no número de famílias assentadas. Em 2006, ano de recorde na aplicação das verbas, foi registrado o melhor índice de famílias assentadas: 136.358. No ano passado, de verbas menores, somente 22.021 famílias foram assentadas pelo governo federal – o menor índice registrado nos últimos 16 anos (veja tabela).

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Primeiro ano de Dilma foi perdido para a Reforma Agrária


2011, ano perdido para a Reforma Agrária


Da Página do MST

A presidenta Dilma Rousseff corre o risco de encerrar seu primeiro ano de governo sem ter realizado nenhuma nova desapropriação de terra.

A presidenta recebeu cerca de 90 processos de desapropriações, cujos trâmites técnicos já tinham sido completamente realizados no governo anterior, e bastava apenas a sua assinatura. Todavia, as desapropriações dessas áreas ainda não saíram.

Essa demora adia a criação de novos assentamentos para resolver o problema das famílias acampadas e joga por água a baixo o trabalho do Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária (Incra), que tornou essas áreas passíveis de serem desapropriadas em um processo que leva de um ano e meio a dois anos.

“Temos mais um ano perdido para a Reforma Agrária. A lentidão para o assentamento das famílias acampadas e para a execução de políticas para fortalecer os assentamentos é uma vergonha para um governo que tem como meta acabar com a pobreza no Brasil. Sem Reforma Agrária, superar a pobreza não passa de propaganda”, avalia Marina dos Santos, da Coordenação Nacional do MST.

domingo, 18 de setembro de 2011

Docs "Um dedo de prosa" - sobre a vida em um acampamento e a luta pela terra

O vídeo de hoje são dois da série de documentários "Um dedo de prosa" feito por um coletivo de educadores populares que milita nos assentamentos e acampamentos do MST na região de Campinas está divulgando um trabalho feito num acampamento em Americana com com pessoas do acampamento. Em breve será lançado a terceira parte.  Os dois vídeos estão no Youtube, mas podem ser vistos abaixo. A ideia dos organizadores é divulgá-los para além de círculos de militância/comprometidos com uma luta socialista.

 Um dedo de prosa 1: Seu Pedro, acampado do MST em Americana (ago/2011)



Um dedo de prosa 2: Josefa, Mazé e Larissa, 3 gerações na ocupação do MST em Americana/SP

sábado, 12 de março de 2011

Terremoto no Japão: se fosse no Haiti seria muito mais devastador

Re-publicamos a entrevista com o ativista brasileiro José Luis Petrola, militante do MST, que vem atuando no Haiti. Na entrevista fica evidente que o impacto de um terremoto só é proporcional a situação peculiar que vive a sociedade atingida. Um tremor, como o visto no Japão desta semana, seria muito mais devastador no Haiti, que sofrera com um sismo em janeiro de 2010. Basta comparar o número de vítimas até o momento, com o grau do sismo. Portanto, não é a geografia, entendida aqui especialmente como localização geográfica, que faz a tragédia de um povo, e sim seu padrão de desenvolvimento econômico e social. Que condiciona a prevenção e preparação para as tragédias naturais, o socorro e resgate das vítimas e a própria reconstrução da infra-estrutura e das condições mínimas de vida decente a sua população.

Um tremor dessa magnitude no Japão não seria tão devastadorMaria Mello
 Desde janeiro de 2009, a Brigada Internacionalista Dessalines – composta por quatro militantes brasileiros da Via Campesina - atua no Haiti com as organizações camponesas do país para contribuir com o desenvolvimento de agricultura no país, buscando saídas coletivas para o povo, por meio da solidariedade internacional. Lá, os militantes brasileiros atuam em quatro frentes de cooperação: produção de sementes, reflorestamento e produção de mudas, captação de água da chuva e escolas técnicas de nível médio.

José Luis Patrola, militante do MST e integrante da Brigada, está no Brasil desde dezembro e se preparava para voltar ao Haiti na próxima semana. Ele acredita que “o descaso social, acompanhado das precárias condições econômicas vividas pela população e de um Estado que verdadeiramente abandonou seu povo oferecem condições favoráveis para desastres como o ocorrido”.

Segundo ele, os problemas estruturais do país caribenho - que já eram graves - se agravaram enormemente com o terremoto, e avalia a possibilidade de retorno rápido da Brigada para oferecer solidariedade e articular medidas para a reconstrução das áreas atingidas. “No curto e no médio prazo, o problema alimentar afetará gravemente a população, e deveremos buscar formas de ajudar nesse aspecto. Acreditamos ainda que deveremos reforçar a presença de recursos humanos no Haiti, prestando a solidariedade e ajudando a reconstruir um país que há muito necessita da solidariedade internacional que deverá ser construída junto àquele povo”, afirma.

Leia a entrevista.

Qual é a proposta e as atividades de cooperação desenvolvidas pela brigada internacionalista Dessalines no Haiti até agora? Há quanto tempo?

A Brigada se instalou no Haiti em janeiro de 2009. Neste primeiro ano de trabalho, os quatro membros se dedicaram a andar o país em articulação com as organizações camponesas na perspectiva de instalar as bases para o programa de cooperação. Nesse período de diagnóstico da realidade haitiana identificamos quatro áreas de ação. Estas seriam trabalhadas neste ano de 2010. Entre elas se encontram a produção de sementes, reflorestamento, construção de cisternas e construção de uma escola técnica.

Existe uma expectativa muito grande de que o programa de cooperação possa ajudar as frágeis organizações camponesas do Haiti. Nossa brigada se relaciona com todas as organizações camponesas.

Quais as características do meio rural haitiano? Em que aspectos ele pode ser comparado ao Brasil?

O meio rural haitiano é muito pobre. A população pobre daquele país é mais pobre do que todos os países do continente. 65% da população habita o meio rural fazendo com que parcela importante da economia do país dependa da agricultura. No entanto, os camponeses, dentro de seu nível de pobreza, conformam o grupo social mais abandonado da população se localizando em zonas montanhosas e de difícil acesso. Alem de tudo, recursos disponibilizados abundantemente em quase todo o Brasil como água e energia elétrica são raridades no interior do país.

Os camponeses haitianos comercializam seus produtos em grandes feiras instaladas na zona rural e urbana. Ao mesmo tempo, sofrem as dificuldades da abertura comercial que inundou o país de gêneros alimentícios importados. Caso prossiga essa política os problemas dos camponeses que já são terríveis tendem a se agravarem ainda mais.

As consequências do terremoto podem ser consideradas um reflexo do descaso social e político com o povo haitiano? Se os riscos de terremoto sempre foram conhecidos, por que nenhuma providência foi tomada para evitar tantas mortes?

Terremotos ocorrem sem muita previsibilidade. A região onde o Haiti se encontra é suscetível a esses fenômenos. Seguramente, o descaso social, acompanhado das precárias condições econômicas vividas pela população e de um estado que verdadeiramente abandonou seu povo oferecem condições favoráveis para desastres como o ocorrido.

Assim que chegamos ao Haiti, constatamos a ausência de infra-estrutura e recursos básicos na maior cidade do país. Porto Príncipe, onde ocorreu o terremoto, possui em torno de dois milhões de habitantes e a absoluta maioria vive amontoada em bairros pobres. Um tremor dessa magnitude em Tóquio, no Japão, não seria tão devastador devido a preparação e as condições oferecidas pelo Estado à sua população.

Talvez agora, após a catástrofe anunciada, a comunidade internacional faça valer o quarto objetivo das Nações Unidas para aquele país: “formar o desenvolvimento institucional e econômico do Haiti”.

Como a Brigada pretende se mobilizar para ajudar na reconstrução do país e na solidariedade ao povo haitiano a partir de agora?

Após o terremoto, que surpreendeu a todos, teremos que reavaliar nossa estratégia para o médio e longo prazo já que o problema urbano se agravou. Existe, desde agora, um fluxo migratório da capital, afetada pelo tremor de terra, ao interior. Muitos problemas estruturais do Haiti já eram graves antes do terremoto. Agora a situação se agravou enormemente. No curto e no médio prazo, o problema alimentar afetará gravemente a população e deveremos buscar formas de ajudar nesse aspecto. Além disso, a falta de água potável é um grave problema no qual deveremos trabalhar. Ao mesmo tempo a população morre de enfermidades consideradas superadas em países desenvolvidos. Com os desastres naturais elas se agravarão e deveremos pensar com cuidado o aspecto da saúde do povo haitiano. Acreditamos ainda que deveremos reforçar a presença de recursos humanos no Haiti prestando a solidariedade e ajudando a reconstruir um país que há muito necessita da solidariedade internacional que deverá ser construída junto àquele povo.

Fonte: http://alainet.org/active/35573


Da Página do MST - 15 de janeiro de 2010 - http://www.mst.org.br/node/8942

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Haiti: Um tremor dessa magnitude no Japão não seria tão devastador

Entrevista com o ativista brasileiro José Luis Petrola, militante do MST, que vem atuando no Haiti. Na entrevista fica evidente que o impacto do terremoto só foi maior devido a situação peculiar que vive a sociedade haitiana.

Não é a geografia (entedida aqui como localização geográfica) que faz a tragédia de um povo e sim seu padrão de desenvolvimento econômico e social.


Um tremor dessa magnitude no Japão não seria tão devastador

Maria Mello

Desde janeiro de 2009, a Brigada Internacionalista Dessalines – composta por quatro militantes brasileiros da Via Campesina - atua no Haiti com as organizações camponesas do país para contribuir com o desenvolvimento de agricultura no país, buscando saídas coletivas para o povo, por meio da solidariedade internacional. Lá, os militantes brasileiros atuam em quatro frentes de cooperação: produção de sementes, reflorestamento e produção de mudas, captação de água da chuva e escolas técnicas de nível médio.

José Luis Patrola, militante do MST e integrante da Brigada, está no Brasil desde dezembro e se preparava para voltar ao Haiti na próxima semana. Ele acredita que “o descaso social, acompanhado das precárias condições econômicas vividas pela população e de um Estado que verdadeiramente abandonou seu povo oferecem condições favoráveis para desastres como o ocorrido”.

Segundo ele, os problemas estruturais do país caribenho - que já eram graves - se agravaram enormemente com o terremoto, e avalia a possibilidade de retorno rápido da Brigada para oferecer solidariedade e articular medidas para a reconstrução das áreas atingidas. “No curto e no médio prazo, o problema alimentar afetará gravemente a população, e deveremos buscar formas de ajudar nesse aspecto. Acreditamos ainda que deveremos reforçar a presença de recursos humanos no Haiti, prestando a solidariedade e ajudando a reconstruir um país que há muito necessita da solidariedade internacional que deverá ser construída junto àquele povo”, afirma.

Leia a entrevista.

Qual é a proposta e as atividades de cooperação desenvolvidas pela brigada internacionalista Dessalines no Haiti até agora? Há quanto tempo?

A Brigada se instalou no Haiti em janeiro de 2009. Neste primeiro ano de trabalho, os quatro membros se dedicaram a andar o país em articulação com as organizações camponesas na perspectiva de instalar as bases para o programa de cooperação. Nesse período de diagnóstico da realidade haitiana identificamos quatro áreas de ação. Estas seriam trabalhadas neste ano de 2010. Entre elas se encontram a produção de sementes, reflorestamento, construção de cisternas e construção de uma escola técnica.

Existe uma expectativa muito grande de que o programa de cooperação possa ajudar as frágeis organizações camponesas do Haiti. Nossa brigada se relaciona com todas as organizações camponesas.

Quais as características do meio rural haitiano? Em que aspectos ele pode ser comparado ao Brasil?

O meio rural haitiano é muito pobre. A população pobre daquele país é mais pobre do que todos os países do continente. 65% da população habita o meio rural fazendo com que parcela importante da economia do país dependa da agricultura. No entanto, os camponeses, dentro de seu nível de pobreza, conformam o grupo social mais abandonado da população se localizando em zonas montanhosas e de difícil acesso. Alem de tudo, recursos disponibilizados abundantemente em quase todo o Brasil como água e energia elétrica são raridades no interior do país.

Os camponeses haitianos comercializam seus produtos em grandes feiras instaladas na zona rural e urbana. Ao mesmo tempo, sofrem as dificuldades da abertura comercial que inundou o país de gêneros alimentícios importados. Caso prossiga essa política os problemas dos camponeses que já são terríveis tendem a se agravarem ainda mais.

As consequências do terremoto podem ser consideradas um reflexo do descaso social e político com o povo haitiano? Se os riscos de terremoto sempre foram conhecidos, por que nenhuma providência foi tomada para evitar tantas mortes?

Terremotos ocorrem sem muita previsibilidade. A região onde o Haiti se encontra é suscetível a esses fenômenos. Seguramente, o descaso social, acompanhado das precárias condições econômicas vividas pela população e de um estado que verdadeiramente abandonou seu povo oferecem condições favoráveis para desastres como o ocorrido.

Assim que chegamos ao Haiti, constatamos a ausência de infra-estrutura e recursos básicos na maior cidade do país. Porto Príncipe, onde ocorreu o terremoto, possui em torno de dois milhões de habitantes e a absoluta maioria vive amontoada em bairros pobres. Um tremor dessa magnitude em Tóquio, no Japão, não seria tão devastador devido a preparação e as condições oferecidas pelo Estado à sua população.

Talvez agora, após a catástrofe anunciada, a comunidade internacional faça valer o quarto objetivo das Nações Unidas para aquele país: “formar o desenvolvimento institucional e econômico do Haiti”.

Como a Brigada pretende se mobilizar para ajudar na reconstrução do país e na solidariedade ao povo haitiano a partir de agora?

Após o terremoto, que surpreendeu a todos, teremos que reavaliar nossa estratégia para o médio e longo prazo já que o problema urbano se agravou. Existe, desde agora, um fluxo migratório da capital, afetada pelo tremor de terra, ao interior. Muitos problemas estruturais do Haiti já eram graves antes do terremoto. Agora a situação se agravou enormemente. No curto e no médio prazo, o problema alimentar afetará gravemente a população e deveremos buscar formas de ajudar nesse aspecto. Além disso, a falta de água potável é um grave problema no qual deveremos trabalhar. Ao mesmo tempo a população morre de enfermidades consideradas superadas em países desenvolvidos. Com os desastres naturais elas se agravarão e deveremos pensar com cuidado o aspecto da saúde do povo haitiano. Acreditamos ainda que deveremos reforçar a presença de recursos humanos no Haiti prestando a solidariedade e ajudando a reconstruir um país que há muito necessita da solidariedade internacional que deverá ser construída junto àquele povo.

Fonte: http://alainet.org/active/35573

Da Página do MST - 15 de janeiro de 2010 - http://www.mst.org.br/node/8942

sábado, 15 de agosto de 2009

Entrevista de Stédile

Principal liderança do MST, o gaúcho João Pedro Stédile concedeu entrevista ao UOL Notícias, na qual falou sobre a questão agrária no Brasil, as eleições presidenciais de 2010, o governo Lula, a crise no Senado, além de fazer um balanço dos 25 anos do movimento. Suas respostas ilustram ao menos de maneira resumida a ideologia do MST, suas concepções sobre a reforma agrária e seu projeto político para o Brasil.

Na entrevista ao UOL Stédile afirma que há quatro projetos em disputas no Brasil, um deles é o do MST, que além de possível a construção de uma sociedade mais justa por meio das instituições democráticas atuais, defende um projeto diferente ao socialismo do PSTU e de correntes do PSOL: "... há outros setores da esquerda brasileira, mais radicais, correntes do PSOL e do PSTU, que defendem o "socialismo já"...nós, dos movimentos sociais, defendemos um quarto projeto, que chamamos de projeto popular, que é, nos marcos da nossa sociedade, fortalecermos de fato o Estado para que ele adote uma política econômica que leve ao desenvolvimento do país em benefício do povo. (...) seria uma ilusão achar que a solução seria uma reforma agrária socialista"

Vejam alguns trechos da entrevista:

UOL Notícias - É possível pensar em um projeto de esquerda para o Brasil, ou vislumbrar uma sociedade mais justa e igualitária, por meio das instituições democráticas que temos hoje?

Stédile - Claro. Há um debate na sociedade que se aglutina em quatro campos: alguns setores das elites, das classes dominantes, defendem a subordinação total do Brasil ao capital internacional. Aí estão os 5% mais ricos, as empresas transnacionais, os bancos, que são os que defendem políticas neoliberais e que, nos partidos, tem sua expressão, sobretudo, entre os tucanos e entre o DEM; temos um setor nacionalista, que está presente em todos os partidos, que defende um projeto "neo-keynesiano" para o Brasil, com algumas políticas de distribuição de renda, redução da taxa de juros e fortalecimento do mercado interno; há outros setores da esquerda brasileira, mais radicais, como correntes do PSOL e do PSTU, que defendem o "socialismo já". Eles acreditam que o capitalismo já chegou a sua maioridade aqui no Brasil e que não há outra saída sem o socialismo. Só que a palavra socialismo é muito forte. Significa socialização da propriedade dos meios de produção. Não é apenas você ser socialista no sentido humanista, ser socialista por querer uma sociedade mais justa; nós, dos movimentos sociais, defendemos um quarto projeto, que chamamos de projeto popular, que é, nos marcos da nossa sociedade, fortalecermos de fato o Estado para que ele adote uma política econômica que leve ao desenvolvimento do país em benefício do povo. Quais são os problemas fundamentais do povo no Brasil? Desemprego alto, falta de moradia, necessidade de reforma agrária e ausência de educação. Então, [nós defendemos] um programa para a sociedade que coloque o dinheiro público como prioridade para resolver os problemas do povo. Mas não basta colocar no papel "esse é o nosso projeto". É preciso construir, acumular forças populares que atuem para a implementação desse projeto.

UOL Notícias - Esse projeto popular é um caminho para uma sociedade socialista?

Stédile - Ele é fundamental. Ele seria uma espécie de transição para nós construirmos uma sociedade mais igualitária. Primeiro vamos resolver os problemas fundamentais da população. Que é comida, trabalho, moradia e educação. Depois, podemos avançar para a socialização de outros meios de produção da nossa sociedade.

UOL Notícias - Qual é o modelo de reforma agrária defendido hoje pelo MST?

Stédile - Na história das reformas agrárias, há dois tipos clássicos. Primeiro, a reforma agrária capitalista, que todos os países do hemisfério norte fizeram entre a metade do século 19 e ao longo do século 20 até a Segunda Guerra Mundial. E eles fizeram as reformas agrárias clássicas capitalistas distribuindo a propriedade da terra para fortalecer o mercado interno e desenvolver a indústria nacional. Depois houve uma outra reforma agrária clássica, que aconteceu no bojo de revoluções socialistas, ou de revoluções populares, como no Vietnã, China, Rússia, Nicarágua e Cuba. Qual é a realidade hoje no Brasil? Nós tentamos desde o início do movimento defender uma reforma agrária clássica capitalista, mas não há forças acumuladas burguesas que queiram essa reforma. Por isso que o governo não faz reforma agrária. Quem fez as reformas agrárias capitalistas? Foram as burguesias industriais, que queriam desenvolver o mercado interno e a indústria. Também seria uma ilusão achar que a solução seria uma reforma agrária socialista, porque essa reforma só acontece depois de uma revolução. Ela é casada com um processo revolucionário, que não é o que temos hoje no Brasil. O que nós propomos é uma reforma agrária que chamamos de popular, que se diferencia das duas. Nessa reforma não basta distribuir terra, como na reforma capitalista. É necessário também desenvolver agroindústrias na forma cooperativa, criar pequenas agroindústrias nos assentamentos. Assim, o agricultor sai mais rápido da pobreza, porque daí ele não vai só produzir matéria prima, mas também se apropriar do valor agregado dos produtos e gerar emprego no meio rural.

Para ler a íntegra acesse: http://noticias.uol.com.br/politica/2009/08/15/ult5773u2074.jhtm

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Viva a luta Palestina! Segundo Latuff, trilha de Rammstein

Prezados lutadores,

Vejam esse vídeo feito com os trabalhos do cartunista Latuff, um artista a serviço das lutas, o trabalho dele é conhecido no mundo inteiro, principalmente pela causa palestina.

O Rock fica por conta de uma banda alemã chamada Rammstein, os caras são da antiga Alemanha Oriental e fazem um Metal de primeira qualidade, vale ouvir.

Abraços,

http://www.youtube.com/watch?v=ssu0frI0ERY

sexta-feira, 20 de março de 2009

Internacionalismo e campismo: dilemas da aposta estratégica

Recebi esse excelente artigo do próprio Valério Arcary e posto aqui hoje.

Internacionalismo e campismo: dilemas da aposta estratégica

por Valério Arcary
professor do IFECT-SP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo) e doutor em história pela USP

Resumo

A pesquisa sobre o tema do internacionalismo tropeça em um paradoxo. Os marxistas previram que a burguesia seria uma classe, irredutivelmente, nacional. Anteciparam outro prognóstico ainda mais ousado: os proletariados nacionais se elevariam, politicamente, à perspectiva internacionalista. Mas, a história foi mais complicada. A burguesia, quando se sentiu ameaçada no século XX pelo perigo de transformações anticapitalistas, demonstrou capacidade de superar suas divergências nacionais. Já o proletariado encontrou dificuldades, até hoje, intransponíveis, para reconstruir um movimento internacionalista. O destino de sua luta, diante da crise econômica mais séria depois de 1929, parece depender da redescoberta do internacionalismo.

Quanto mais zelosamente os governos e a burguesia de todos os países procuram desunir os operários e lançá-los uns contra os outros(...), tanto mais imperioso é o dever do proletariado consciente de defender a sua coesão de classe, o seu internacionalismo, as suas convicções socialistas (...)Num momento da maior importância histórica mundial, a maioria dos dirigentes da Internacional Socialista tenta substituir o socialismo pelo nacionalismo.[1] (Vladimir Ilitch Ulianov, alias, Lenin)


A crise econômica de 2008 colocou na ordem do dia a discussão sobre o futuro da atual ordem mundial. A necessidade intransferível de uma coordenação internacional, algo que seria o mais próximo de um governo mundial, parece urgente. Mas, essa coordenação choca com as assimetrias que dividem o mundo em países centrais e periféricos. Nenhum Estado na história do capitalismo renunciou às vantagens de sua posição dominante no sistema mundial sem resistências.

Amsterdã entrou em guerra com Londres por três vezes no século XVII, até que a Holanda aceitou um papel complementar na relação com a Inglaterra. A Inglaterra entrou em guerra seis vezes com a França pela liderança no sistema europeu de Estados, entre o final do século XVII e a derrota final napoleônica em 1815. Alemanha e Inglaterra mergulharam o mundo, em 1939, em uma guerra total. Depois de 1945, o Japão aceitou o papel complementar na relação com os EUA e, depois da crise dos anos setenta, a França aceitou um papel complementar na relação com a Alemanha. Não será diferente com os EUA: coordenação internacional da crise é um eufemismo para a supremacia de Washington.

A crise contemporânea revela que as instituições erguidas a partir de Bretton Woods em 1944 não correspondem mais às necessidades do capitalismo. FMI, Banco Mundial, OMC, OIT, Banco de compensações internacionais de Basiléia e ONU, todas as organizações de regulação econômica, social e política estarão sendo reavaliadas. As turbulências no mercado mundial ameaçam se transformar em terremotos sociais – como na Grécia em dezembro de 2008, ou na ilha de Guadalupe, depois de trinta dias de greve geral - e exigem que os Estados renegociem o formato do sistema de Estados. Sendo improvável, senão impossível, apesar das pressões que já se manifestaram nos EUA, na Europa e no Japão, uma retração protecionista semelhante aos anos trinta, a questão da regulação mundial passou a ser uma das questões decisivas.

Marx e Engels defenderam no interior da I Internacional que as burguesias nacionais européias seriam classes prisioneiras do nacionalismo, em função da estreiteza de seus interesses econômicos. Previram, em 1871, depois que a guerra defensiva da Alemanha contra o Império francês se transformou em guerra ofensiva, culminando com a derrota da Comuna de Paris pelas tropas do governo francês, protegido pelo exército alemão em Versailles, e a anexação da Alsácia e Lorena, que as lutas fracionais entre as duas burguesias mais poderosas do continente semeavam as condições históricas para uma nova guerra, porém, incomparavelmente, mais destrutiva. A I Guerra Mundial lhes deu razão. O nacionalismo dos Impérios europeus nasceu das rivalidades burguesas, que só eram relevadas diante do perigo da subversão operária.

A segunda geração marxista, na época da II Internacional, defendeu que o “internacionalismo” do capital seria o imperialismo. O imperialismo de uma nação só seria possível com a destruição do direito de existência independente de outras. O nacionalismo das burguesias centrais corresponderia à anexação das burguesias periféricas aos interesses das metrópoles contra os interesses de suas próprias nações à independência. O imperialismo seria a forma mais exaltada e mais perigosa de nacionalismo: o nacionalismo das nações opressoras. Concluíram que o imperialismo seria a fase do apogeu e, ao mesmo tempo, do declínio do capitalismo.

Este prognóstico passou a prova da história? Afinal, o capitalismo uniu econômica e politicamente o mundo, em sucessivas etapas, ao longo de um processo que consumiu séculos. Mas, não é um bom critério histórico confundir o que foi produto do capitalismo com o que foi a obra dos capitalistas. O capitalismo é um sistema que se afirmou em escala internacional. Já os capitalistas são uma classe que permaneceu dividida por antagonismos nacionais. Construíram monopólios e bancos que, embora atuando em escala global, continuaram sendo negócios nacionais. O capitalismo histórico criou o mercado mundial e estruturou um sistema internacional de Estados, mas preservou, intactas, as fronteiras políticas dos países centrais, aqueles que deram forma ao moderno imperialismo.

Os marxistas anteciparam outro prognóstico ainda mais ousado: os proletariados nacionais se elevariam, politicamente, à perspectiva internacionalista, em função de seu impulso revolucionário: “a emancipação da classe operária não é um objetivo nacional, mas social, que abarca todos os países em que existe a sociedade moderna” (Marx, 1988, p.8). Proletários de todo o mundo, uni-vos! Esta foi a palavra de ordem central que o marxismo apresentou como síntese de um programa socialista. Seria uma questão de tempo para que os limites nacionais do capital se manifestassem, incontornavelmente, e para que a grandeza internacionalista do projeto socialista se afirmasse, inelutavelmente. Teria este projeto bases materiais, ou era uma utopia?

A supremacia dos EUA no sistema internacional de Estados

A história foi, todavia, mais complicada do que tinham antecipado os fundadores do moderno movimento socialista. Ao longo do século XX, revolução e contra-revolução mediram forças, mas o capitalismo conseguiu preservar-se. Em quatro ondas de assalto internacionais ao domínio da burguesia – depois de 1917, depois da crise de 1929, depois de 1944, e depois de 1968 - a revolução mundial desafiou o capitalismo e foi derrotada (Hobsbawm, 1996). O Capital se internacionalizou até os limites máximos do mercado mundial. A capacidade demonstrada pela burguesia, depois de duas guerras mundiais devastadoras, de superar as suas divergências nacionais, surpreendeu os marxistas, mas foi muito estudada. Já, a dificuldade do proletariado de se unir à escala mundial contra o capitalismo, depois do triunfo do estalinismo na ex-URSS, decepcionou-os, mas é menos compreendida.

O capital financeiro domina o mundo. E o capital financeiro dos EUA domina o capitalismo mundial. Essa dominação foi incontrariável, e não parece previsível que venha a ser desafiada durante a fase aberta pela atual crise. Haverá conflitos comerciais, mas não haverá guerra comercial entre as potências. A terrível lição dos anos trinta não ocorreu em vão. Uma solução militar para a crise não é plausível. Caberá aos EUA assumir a liderança da coordenação internacional.

O capital financeiro foi o produto histórico da fusão do capital bancário com o capital industrial, sob a liderança do primeiro, na elaboração de Hilferding de 1912, retomada por Lenin no seu Imperialismo, fase superior do capitalismo: “se fosse necessário dar uma definição o mais breve possível do imperialismo, deveria dizer-se que o imperialismo é a fase monopolista do capitalismo (...) o capital financeiro é o capital bancário de alguns grandes bancos monopolistas fundido com o capital dos grupos monopolistas industriais” (Lenin, 1966, p.762).

Depois da Segunda Guerra Mundial, a liderança norte-americana sobre o capitalismo internacional se afirmou de forma incontroversa. Sua supremacia foi ainda maior que a inglesa no século XIX. Essa hegemonia traduziu-se no lugar do capital financeiro yankee no capitalismo erguido após as negociações de Bretton Woods em 1944. A primazia dos capitais norte-americanos sustentou-se, também, nos trinta anos de crescimento do pós-guerra, enquanto Europa e Japão ainda se reconstruíam, na superioridade da sua capacidade industrial, na estabilidade política-social interna do governo dos EUA e, por último, mas não menos importante, no papel insubstituível do seu aparato militar, inclusive, nas armas nucleares.

Na seqüência da restauração capitalista na China e na ex-URSS, contrariando a hipótese de autores como Arrigui, no seu O longo século XX, ou Wallerstein (2002), o papel da liderança norte-americana não só não diminuiu, como aumentou. A transferência de indústrias para o Oriente nos anos 90 não parece ter sido expressão somente da decadência, mas, sobretudo, da fortaleza do capital norte-americano, que se aproveitou da oportunidade histórica da restauração capitalista para tentar incorporar a China como semicolônia na sua área de dominação direta. O papel do capital financeiro dos EUA adquiriu dimensões espantosas durante a globalização dos últimos quinze anos. Os capitais fictícios – aqueles que acumulam hoje, na perspectiva da valorização futura – agigantaram-se até dimensões colossais, algo próximo de dez vezes o PIB mundial, ou mais de US$500 trilhões, segundo o Banco de Compensações Internacionais de Basiléia, alimentando as bolhas dos preços dos ativos que começaram a explodir no segundo semestre de 2007, e mergulharam em colapso em setembro de 2008, após a falência do Lehmann Brothers.

Uma ordem mundial menos estável depois da dissolução da URSS

Em resumo, a configuração do sistema mundial de Estados mudou em 1945, com a hegemonia inconteste dos EUA sobre os outros imperialismos. Uma ordem mundial incomparavelmente mais estável se construiu, em comparação com a primeira metade do século, pela inapelável derrota alemã e japonesa, e pelo papel auxiliar vital de Moscou ao garantir a coexistência pacífica, ou seja, ao se comprometer em não incentivar revoluções que desafiassem a ordem capitalista. Em perspectiva histórica, temos hoje a dimensão de que os conflitos entre os EUA e a URSS eram condicionados pelo interesse mútuo de preservação da ordem, e foram até teatralizados pelos dois Estados, como destacou Wallerstein (2002).

Karl Kautsky tinha previsto no início do século XX a possibilidade do ultra-imperialismo. E antecipava que a época do ultra-imperialismo seria uma época de paz, porque seria a superação dos imperialismos nacionais. O ultra-imperialismo seria a expressão política de uma transformação econômico-social: assim como com o imperialismo, na virada do século XIX para o XX, teria ficado para trás a época da livre concorrência, a fusão dos monopólios nacionais em grandes corporações multinacionais deixava para trás a época das guerras burguesas pelo controle do mercado mundial. Seria a época de uma burguesia, enfim, internacionalista. O ultra-imperialismo seria a época do Império mundial. Mas, duas guerras catastróficas em menos de trinta anos desmoralizaram a idéia do ultra-imperialismo. Toni Negri e Michael Hardt, com seu Império(2002), retiraram a hipótese de Kautsky do esquecimento. Cem anos depois não parece que seu livro terá melhor destino.

Depois da dissolução da URSS, nove entre cada dez interpretações exaltavam a vitória histórica do capitalismo e da democracia e a inauguração de uma época de paz. Revoluções seriam rebeliões arcaicas para sempre enterradas. O socialismo teria sido derrotado pelo próprio proletariado que, supostamente, deveria representar. A superioridade da propriedade privada e do mercado teria sido confirmada pela história. Uma maior estabilidade no sistema internacional de Estados garantiria uma época de prosperidade sustentável.

É verdade que a supremacia dos EUA no sistema mundial de Estados não diminuiu depois de 1989/91, ficou maior. Mas, a estabilidade de sua dominação não aumentou, na verdade, diminuiu. O que foi interpretado, apressadamente, como o fim da época aberta pela revolução de Outubro, revelou-se uma virada histórica transcendental, mas não como foi previsto. A possibilidade de reformas durante as décadas de ajuste neoliberal ficou menor. As desregulamentações ultra-liberais abriram caminho para uma financeirização do capitalismo que fermentou as bolhas que explodiram em 2000 e agora em 2007.

Sem o papel de contenção que era cumprido pelo Estado soviético, a instabilidade política e social aumentou nos dois elos mais frágeis da dominação imperialista: o Oriente Médio e a América Latina. Moscou perdeu a capacidade de cumprir a função de controle que exerceu durante décadas no Golfo Pérsico: a OLP perdeu influência para o Hamas, o Hisbolah assumiu a liderança da resistência a Israel no Líbano e o Irã se consolidou como Estado independente. Na América Latina, os velhos Partidos Comunistas desmoronaram, e abriu-se um novo ciclo político com as insurreições populares que deslocaram mais de dez presidentes eleitos, em menos de dez anos, como conseqüência das crises econômicas de 1989/1992 e 1999/2003, sem que a extensão das políticas sociais focadas e compensatórias assegure condições de estabilidade social quando se abaterem sobre o continente as seqüelas da nova crise.

O lugar da política da casta dirigente na URSS na etapa 1945/89 não deveria ser subestimado, como ficou claro na revolução portuguesa em 1974/75. Apesar de Moscou, todavia, inúmeras situações revolucionárias se precipitaram no pós-guerra – como na Bolívia em 1952, Guatemala em 1953, na Indonésia em 1965, ou no Chile em 1973 – e foram derrotadas. Entretanto, revoluções triunfaram, também, como em Cuba em 1959, Argélia em 1961/63, ou ainda na Nicaragua e Irã em 1979. Em meados dos anos setenta aconteceu o impensável: uma derrota militar de Washington no Vietnam.

Foi a desconfiança das massas trabalhadoras nas suas próprias forças o maior obstáculo a ser vencido em todas as revoluções contemporâneas: essa permaneceu sendo a força de inércia reacionária mais poderosa na história. Mas essa insegurança social não pode ser compreendida, plenamente, sem analisar o papel dos seus partidos dirigentes. Estes partidos, socialdemocracia e estalinismo, estavam comprometidos com a defesa da coexistência pacífica, portanto, com o status quo no sistema internacional de Estados. Depois de 1989/91, a ruína dos PC’s foi a ruína, também, de um dos pilares da estabilidade no Ocidente. Foi o atraso de reformas que incendiou, invariavelmente, a possibilidade de revoluções. Depois de 1989/91, com o desemprego crônico e o salário médio estagnado ou em queda, as ilusões nas possibilidades de uma mobilidade social ascendente diminuíram.

Do internacionalismo marxista ao nacionalismo campista

O curso regressivo do proletariado do internacionalismo ao nacionalismo, entre os anos 20 e os anos trinta do século XX, correspondeu a um processo histórico de acumulação de derrotas da revolução mundial. Na etapa aberta pela vitória da revolução de Outubro, a dinâmica tinha sido inversa. Depois da vitória da revolução russa em 1917, e da crise de 1929, o futuro do capital pareceu, seriamente, ameaçado. A revolução contemporânea foi, objetivamente, uma revolução mundial. A forma de expansão em ondas de contágio dentro de cada continente não foi excepcional: Europa central depois de 1918, Europa do Mediterrâneo depois de 1929, os Bálcãs depois de 1944, o Mediterrâneo depois de 1968, a América Latina depois de 1959, etc...

Mesmo as formas cada vez mais aterrorizadoras do regime tirânico estalinista na URSS, nos anos trinta, não anulavam as façanhas econômicas e sociais que o planejamento econômico e a propriedade estatizada estavam permitindo realizar. A III Internacional cresceu durante seus primeiros quinze anos, rapidamente, como pólo de atração do movimento socialista mundial. Entretanto, desde meados dos anos vinte, e ainda mais acentuadamente depois dos anos trinta, quando dos julgamentos de Moscou, sua orientação política evoluiu, vertiginosamente, do internacionalismo para o campismo.

Os campistas apoiavam seus argumentos com uma demonstração simples de sua estratégia. O mundo estava dividido em dois campos, o capitalista e o socialista. Seria uma questão de tempo para que a superioridade do socialismo fosse arrasadora. Revoluções sociais tinham sido enterradas pela história, porque o arsenal nuclear do imperialismo ameaçava a própria existência da civilização. Logo, toda a tática consistia em ganhar tempo para que a transição ao socialismo por via pacífica, respeitando as formas democráticas das Repúblicas burguesas, fosse conquistada. A coexistência pacífica favorecia, presumia-se, a passagem ao socialismo. A luta de classes deveria estar subordinada aos interesses diplomáticos da URSS nas relações com os EUA: a situação mundial se resumia a uma luta entre Estados.

O campismo socialista parecia ter desmoronado no início da década de 90 com a restauração capitalista no Leste e a desintegração da URSS. O campismo foi, na segunda metade do século XX, ao lado do gradualismo democrático-reformista, a mais influente teoria na esquerda mundial. Influenciou gerações, afirmando que o mundo estava dividido em dois campos: o capitalista e o socialista, irreconciliáveis, sendo este último, presumidamente, a retaguarda estratégica das lutas de classes contra o imperialismo, apesar das oscilações da coexistência pacífica. Uma análise lúcida das distintas interpretações campistas – pró Moscou, ou pró Pequim - foi feita por Perry Anderson no seu clássico Considerações sobre o marxismo occidental.(1996)

Algumas poucas vozes marxistas alertaram para as perigosas conseqüências dos critérios campistas. A tradição associada à elaboração de Leon Trotsky se destacou na reivindicação da centralidade do internacionalismo socialista: o antagonismo entre capital e trabalho permanecia a contradição ordenadora para um projeto socialista. Os internacionalistas reconheciam a existência de inúmeras outras contradições. Admitiram que seria justo se posicionar em defesa dos Estados pós-capitalistas contra os capitalistas, em defesa das nações oprimidas contra as opressoras, em defesa de regimes democráticos quando ameaçados pelo perigo de quarteladas ditatoriais, em defesa dos direitos da mulher contra a prepotência do machismo, em defesa do meio-ambiente, etc...

Mas, sustentaram que os antagonismos de classe continuavam sendo a contradição fundamental do capitalismo. Um projeto anticapitalista dependeria, estrategicamente, da reconstrução de um movimento operário internacional. Esta tradição político-programática não hesitou em defender a URSS e, de resto, qualquer Estado periférico diante do imperialismo. Não compartilhava, contudo, o critério da defesa incondicional de Moscou, Pequim, Tirana ou Havana, porque associava o futuro do socialismo à defesa, também, dos interesses da classe trabalhadora na URSS, na China, na Albânia ou em Cuba, contra os privilégios das castas burocráticas no poder nesses países. Nem todos os defensismos da URSS e dos Estados que surgiram das revoluções sociais do século XX eram, portanto, campistas. Existiu uma alternativa à estalinofilia, e à estalinofobia. Uma insuperável divisão, no entanto, se estabeleceu durante décadas entre as lutas no Ocidente e no Oriente, acabando de enterrar o internacionalismo como um movimento político organizado, tal como tinha existido ainda, por exemplo, diante da revolução espanhola.

O “nacionalismo” da URSS nunca foi o mesmo que internacionalismo

Este desafio teórico-programático do movimento socialista desdobrou-se, no século XX, no que podemos resumir como um dilema entre posições internacionalistas e posições nacionalistas. Os nacionalistas observam o mundo a partir de seus países, e os internacionalistas observam seus países a partir do mundo. Os nacionalistas avaliam cada processo revolucionário como o desenlace de uma luta que começa e termina dentro de suas fronteiras. Os internacionalistas consideram cada processo revolucionário como uma refração da revolução mundial. Os marxistas reconheceram, contudo, que o nacionalismo das nações dominantes era reacionário e o das nações dominadas era progressivo.

Mesmo as lutas das nações oprimidas, aquelas que a divisão do mundo ao longo dos últimos quinhentos anos condenou à periferia, como colônias ou semi-colônias, só poderiam erguer Estados independentes de forma efêmera. A ruptura com o sistema mundial de Estados colocaria o desafio anticapitalista, mais cedo ou mais tarde, como inadiável. Estados independentes na periferia, como foi em seu tempo o Egito de Nasser, ou permanece hoje o Irã do partido-igreja islâmico xiita ou Cuba, foram excepcionais, porque a ordem mundial é imperialista e tem um centro. Governos nacionalistas foram e são transitórios.

A primeira perspectiva, o nacionalismo, ainda quando radical, conduziu a resultados, invariavelmente, desanimadores: a esquerda chilena no início dos anos setenta estava cavando, involuntariamente, sua própria sepultura, ao desprezar as lutas no Peru e na Bolívia; os sandinistas da Nicarágua enterraram sua revolução nos acordos de Contadora, dando as costas para El Salvador; a revolução iraniana foi sufocada pelos anos de guerra com o Iraque

Eis o dilema do método: uma análise que equaciona os conflitos entre as classes nos países, ou continentes decisivos, diminuindo o lugar e a política dos Estados na situação mundial, será incapaz de explicar as relações de forças entre as classes, porque o posicionamento dos Estados é uma determinação – na verdade, um elemento central - dos contextos políticos. Pecará por unilateralidade, diminuindo a força da contra-revolução.

Um exemplo: seria ingênuo imaginar uma dinâmica anticapitalista da revolução nicaragüense, como se fosse possível uma nova Cuba, após 1979, ignorando que a política de Washington, com Reagan, tinha como eixo impedir a qualquer preço – como depois ficou claro pela participação de militares israelenses na formação do exército dos “contras”- derrotas como a sofrida em Teerã e na América Central. E a política do Estado cubano não era o apoio à revolução salvadorenha, para que se repetisse em San Salvador o desenlace que ocorreu em Manágua, mas o apoio a negociações que, finalmente, culminaram no acordo de Contadora.

O caminho inverso seria ainda mais desastroso. Quando se subestimam os conflitos entre as classes em cada sociedade, a análise redundará, fatalmente, em avaliações impressionistas, porque as lutas de classes subvertem, em maior ou menor medida, o posicionamento dos Estados. Pecará por superficialidade, exagerando a força da contra-revolução.

Mais um exemplo: seria completamente unilateral imaginar que a ALCA era um projeto econômico-político imbatível, somente porque a maioria dos Estados latino-americanos eram favoráveis ao acordo impulsionado pela administração Bush no início da década, ignorando que as crises sociais agravadas nos anos noventa pelos ajustes neoliberais tinham alterado a relação de forças sociais no continente, de tal maneira, que De La Rua foi defenestrado em 2001, o golpe na Venezuela foi derrotado em 2002, FHC e os tucanos foram eleitoralmente vencidos no Brasil, e Gonzalo de Losada viu-se obrigado a fugir de helicóptero de La Paz em 2003.

As três ondas da revolução latino-americana

A etapa aberta no sistema internacional de Estados após a dissolução da URSS acentuou duas contradições chaves: por um lado, o imperialismo norte-americano manteve a liderança política e militar e lançou-se, primeiro nos Bálcãs, e depois na Ásia Central e no Oriente Médio, em guerras de recolonização, apesar da fragilização de sua economia, em função do crescimento dos déficits gêmeos que preservam o dólar como moeda mundial, porém, à custa da sua desvalorização, como destacou César Benjamim (2003).

Por outro lado, a acelerada internacionalização do capital financeiro veio impondo a necessidade de uma ofensiva contra as conquistas sociais dos trabalhadores nos países periféricos que atinge, também, embora em outra proporção, os proletariados dos países centrais. O início do novo século coincidiu com uma terceira vaga revolucionária na América Latina, e fez ressurgir com a máxima intensidade o tema do internacionalismo.

Não foi a primeira vez que o continente foi incendiado por uma onda revolucionária internacional. A primeira vaga começou na Bolívia em 1952, aprofundou-se com a vitória em Havana em 1959 e foi derrotada no Rio de Janeiro em 1964. A segunda começou com o triunfo em Manágua em 1979, passou pelas quedas das ditaduras nos países chaves do Cone sul – Argentina e Brasil - entre 1982 e 1985, mas a relação de forças foi se invertendo com a derrota da situação revolucionária na Bolívia em 1985 e, na virada da década, com as eleições de Menem e Collor e, depois FHC, no Brasil. Em janeiro de 2000 em Quito começou a terceira vaga revolucionária latino-americana, que permanece em aberto, porque a hora dos combates decisivos ainda não chegou.

O continente latino-americano escreveu sua primeira página na história da revolução socialista com o triunfo da revolução cubana em 1959. O medo de que a revolução se alastrasse de Cuba para todo o continente explicou a política burguesa nos vinte anos que vão de 1960 a 1980. Mas, quando Cuba triunfou, a primeira vaga da revolução anti-burocrática no Leste europeu já tinha sido derrotada na Hungria e na Polônia. E enquanto a quarta vaga da revolução mundial pós-68 se alastrava na Europa para a Itália e Lisboa, e seus ecos instigavam a juventude mexicana a ocupar a Praça do Zócalo na terceira maior cidade do mundo, ao mesmo tempo em que 100.000 saiam às ruas do Rio de Janeiro para gritar ‘abaixo a ditadura’, a situação na América Latina evoluía, desfavoravelmente, para a causa da revolução.

A vaga latino-americana já tinha sido derrotada, anos antes, no golpe do 31 de Março no Rio de Janeiro e a esquerda inspirada no exemplo cubano de inspiração guevarista foi dizimada. No início dos anos oitenta, as ditaduras latino-americanas foram caindo, umas após as outras, mas as classes dominantes lograram estabilizar os regimes democrático-liberais com a promessa da alternância eleitoral. A geração mais velha da esquerda latino-americana tinha medido forças com a contra-revolução e tinha sido esmagada. Um fio de continuidade histórica tinha sido interrompido sem que, porém, as ilusões reformistas na possibilidade de um capitalismo desenvolvimentista e distribuidor de renda – o programa hegemônico da esquerda do pós-guerra, mesmo daquela que pegou em armas - tivessem sido superadas. A onda de revoluções que sacodiu a América Latina entre 2001/2005 reabriu, necessariamente, discussões estratégicas sobre o futuro da luta socialista. Partidos associados aos ajustes neoliberais da década de noventa foram, uns após os outros, sendo derrotados, levando ao poder Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia, Daniel Ortega na Nicarágua, Rafael Correa no Equador, além da reeleição de Hugo Chávez na Venezuela. Fernando Lugo foi eleito no Paraguai. O processo de luta de classes que permitiu derrubar mais de dez presidentes eleitos na América Latina, mas foi absorvido até o momento nos limites dos regimes democrático-eleitorais, poderia avançar até que limites? Governos nacionalistas com políticas sociais compensatórias poderão estabilizar os seus países, mesmo depois que se inverteu a tendência do ciclo econômico, e a crise mundial precipita o continente em uma nova recessão generalizada, senão em depressão? Poderiam voltar a ocorrer revoluções anti-capitalistas protagonizadas por sujeitos sociais não proletários? Em que medida, a pressão da luta de massas poderia empurrar as forças políticas dirigentes – Evo e o MAS na Bolívia, Chávez e o PSUV, por exemplo - além do rubicão da propriedade privada? Os governos nacionalistas alimentam, como seria previsível, novas ilusões campistas.

Não é, contudo, provável que quaisquer destes governos venham a romper os limites do capital e, de resto, da institucionalidade burguesa, como ficou mais ou menos claro no plebiscito negociado por Evo Morales na Bolívia com os governadores das províncias da chamada meia-lua, ao final de 2008. O capitalismo andino de Morales não deverá ter um futuro muito superior às experiências dos governos militares no Peru, no início dos anos setenta. Chávez não parece querer ser um novo Fidel. As diferenças entre o castrismo dos anos sessenta e o chavismo, remetem à relação de forças no sistema internacional de Estados. Cuba não pode ocupar, face à Venezuela, o papel que a URSS ocupou em relação a Cuba. Ao contrário, é tal a fragilidade de Cuba, que os planos de restauração capitalista “a la chinesa” em Havana, fizeram Cuba depender, crescentemente, da Venezuela.

A época dos substitucionismos ficou para trás

No Programa de Transição de 1938, Leon Trotsky tinha previsto que, excepcionalmente, em condições extraordinárias de crise, aprisionados entre a pressão do imperialismo e a pressão da mobilização de massas, direções nacionalistas poderiam ir além dos limites do capitalismo. O que tinha sido previsto como improvável, acabou sendo quase um padrão entre 1945 e 1973. Uma parcela das direções nacionalistas radicalizadas, acossadas pelo imperialismo e apoiadas na mobilização das massas populares, mas ameaçadas, também, pelo perigo de um desbordamento pela sua esquerda, expropriaram o capital. O substitucionismo social do proletariado por massas camponesas e populares, e o substitucionismo político dos marxistas por direções nacionalistas traduziram a grandeza e, também, os limites das revoluções do pós-guerra.

Ao mesmo tempo, em uma parte das ex-colônias ou semicolônias que mergulharam em situações revolucionárias, mas aonde não se deu a ruptura anti-capitalista - como Argélia nos anos sessenta, ou na Nicarágua e Irã, no final dos setenta - surgiram Estados independentes. Alguns lograram manter esta independência, sobretudo, em países com recursos estratégicos como o petróleo. Entretanto, revoluções sociais anti-capitalistas não aconteceram mais desde a derrota americana no Vietnam. Portugal, Nicarágua, Irã, Haiti, Filipinas, Indonésia e África do Sul, entre outros países, conheceram revoluções políticas que derrubaram regimes ditatoriais pró-imperialistas, mas não transbordaram em revoluções sociais. Os processos revolucionários estagnaram e foram contidos nos limites dos novos regimes.

As direções nacionalistas, não só recuaram, primeiro, de qualquer veleidade anti-capitalista – vide o PC da África do Sul, o mais influente partido comunista depois da restauração do capitalismo na URSS - como recuaram depois, em sua maioria – vide a OLP de Arafat - do projeto de se afirmar até como Estados independentes.


A crise ameaça a ordem mundial construída depois da dissolução da URSS

A crise econômica aberta em meados de 2007, agravada em 2008 com sinais depressivos, e que tem nos EUA o seu epicentro mais grave, colocará à prova a dominação capitalista do mundo. A saída para a crise exigirá uma destruição nunca vista de capitais, com desvalorização de ativos, falências, fusões e concentração que já está acontecendo.

Mas, esta crise é diferente de todas as outras pós-1945. Ela não poderá ser superada sem uma ofensiva capitalista reacionária em escala mundial proporcional à gravidade do colapso econômico e financeiro. Serão necessárias cinco iniciativas, todas muito difíceis de serem implementadas, porque despertarão gigantescas resistências político-sociais: um aumento dos níveis de exploração absoluta da classe trabalhadora norte-americana e mundial com aumento das jornadas e redução salarial – e um desemprego em massa que políticas compensatórias dificilmente poderiam neutralizar - que poderá potencializar uma resistência unificada dos proletariados dos países centrais e periféricos; uma deflação dos preços das matérias-primas e, portanto, uma degradação das condições desfavoráveis de troca no comércio mundial entre os países centrais e a periferia, que poderá potencializar uma instabilidade no sistema internacional de Estados e, até favorecer que cheguem ao poder governos nacionalistas como os da Venezuela e Irã; uma redução de custos pela aceleração das inovações tecnológicas, e o desenvolvimento de novos ramos produtivos que acelerem a passagem de uma produção industrial ainda dependente dos combustíveis fósseis, processos que só poderão ser obtidos com o aumento de investimentos que a crise desestimula, e teriam que ser feitos por Estados com déficits gigantescos, apavorados com o crescimento vertiginoso das dívidas públicas; uma ainda mais intensa internacionalização até à última fronteira, tencionando com as pressões protecionistas; e, finalmente, mas não menos importante, uma maior financeirização, que exigirá reformas no sistema monetário internacional, para proteger o dólar como moeda de reserva, ameaçado por uma desvalorização que teria conseqüências imprevisíveis.

Mas, ao contrário do que alguns apressadamente concluíram, as burguesias nacionais não se transformaram em uma classe mundial. A burguesia permaneceu uma classe nacional. O imperialismo norte-americano continuou sendo o imperialismo de uma classe nacional, ainda que com responsabilidades maiores sobre a estabilidade do mercado mundial e do sistema internacional de Estados.

Foi a força dessa supremacia dos EUA de um lado, e o perigo da revolução mundial por outro, que condicionou os limites muito reduzidos para os conflitos entre as potências rivais entre 1945 e 1989/91. Foi a hegemonia reforçada dos EUA durante os anos que ficaram conhecidos como globalização, entre 1991/2008 - anos de uma intensa expansão da financeirização internacional que engrandeceram o lugar do capital yankee, em uma proporção maior do que o crescimento da economia mundial - que manteve a ordem imperialista, apesar das guerras na Yugoslávia, no Iraque e no Afeganistão ainda, relativamente, estável, se fizermos a comparação com a etapa pré-1945.

A explicação para este maior “internacionalismo do capital” é mais político-histórica do que econômica. Os “instintos” contra-revolucionários da burguesia se manifestaram em potência máxima. O capital, quando se sentiu ameaçado, no século XX, pelo perigo da revolução mundial, demonstrou capacidade de superar suas divergências nacionais. As burguesias européias e a japonesa, parceiras, porém, também, rivais imperialistas dos EUA, uniram-se a Washington na defesa do sistema que garantiu a sua sobrevivência social e política. Os investimentos norte-americanos na Alemanha e no Japão, entre outros, tinham sido decisivos para garantir a recuperação nas décadas imediatas do pós-guerra. Tornaram-se mais sócias dos EUA, economicamente - até aceitaram papéis complementares como o Japão - porque as competições políticas ficaram obsoletas, após 1945, diante da disparidade de forças que os distanciava dos EUA, e do desafio estratégico colocado pelas revoluções anticapitalistas.

A crise do campismo socialista

A pesquisa sobre o tema do internacionalismo contemporâneo tropeça em um paradoxo. As lutas do proletariado e dos seus aliados sociais em cada país nunca foram tão dependentes da solidariedade internacional como nos últimos quinze anos, mas a capacidade da classe trabalhadora constituir um campo de resistência de classe – contra o desemprego e a precarização, por exemplo - e ser um pólo de atração à escala mundial permaneceu reduzida.

Surgiram iniciativas progressivas, à escala internacional, como as mobilizações de Seattle, nos EUA e de Genova, na Itália, contra a OMC e o FMI, que lograram despertar entusiasmo em uma nova geração da juventude estudantil. Foram realizadas campanhas na América Latina contra a ALCA. Na seqüência do Fórum Social de Porto Alegre – uma frente única anti-neoliberal que se apoiava nas ilusões do que poderia vir a ser a experiência de um governo Lula no Brasil – foi possível realizar as maiores manifestações de massas contra o governo Bush. Fortaleceu-se um internacionalismo pacifista contra a ameaça de mais guerras coloniais – como no Afeganistão (2001), Iraque (2003), no Líbano (2007) e Faixa de Gaza (2008); um internacionalismo ambiental contra o perigo da devastação ecológica; um internacionalismo humanitário contra genocídios (Bósnia, Kosovo, Ruanda, Darfur); um internacionalismo feminista contra a opressão machista e pela legalização do aborto. Mas, o internacionalismo proletário, ou seja, anticapitalista, o internacionalismo do movimento social mais longevo da história contemporânea não se reconstruiu ainda.

O proletariado, em especial nos países centrais, encontrou no último pós-guerra dificuldades, até hoje intransponíveis, para reconstruir um movimento internacionalista. O internacionalismo exigiu, historicamente, uma organização de classe independente e forte o bastante para resistir às pressões sociais hostis dentro das fronteiras nacionais. A influência dos projetos de colaboração de classes, que se expressou na influência duradoura da socialdemocracia, como na Alemanha e na Inglaterra, ou dos partidos alinhados com Moscou, como na Itália e na França , teve como conseqüência, a renúncia ao internacionalismo. A aliança com frações das burguesias nacionais cobrava o preço da divisão proletária internacional.

A precarização das condições de trabalho – flexibilização das jornadas de trabalho com redução salarial para que as corporações não transferissem as fábricas - foram negociadas pelas direções sindicais com o argumento de que as novas condições impostas pela globalização financeira tornavam inevitáveis concessões para evitar um desemprego ainda maior. A ilusão de que seria possível, dentro de fronteiras nacionais, forjar um projeto político-social capaz de garantir reformas reguladoras do capitalismo, evitando a vertigem de uma ruptura revolucionária, isto é, a medição de forças frontal com suas próprias burguesias, levou os proletariados dos principais países imperialistas a regredir ao nacionalismo.

Essa involução foi potencializada pelas décadas de crescimento econômico, quando reformas foram negociadas gerando o chamado Welfare State. Quando as crises econômicas voltaram com maior intensidade, e a precarização das relações trabalhistas e a queda dos salários médios fizeram retroceder as condições de vida, em algumas camadas do proletariado mais ameaçadas pelo desemprego, e em alguns países em que a emigração de trabalhadores estrangeiros foi satanizada – Áustria e Itália, entre outros – aconteceu uma regressão ao nacionalismo mais estreito.

Os fundamentos graníticos do internacionalismo

O internacionalismo marxista tinha como premissa “granítica” a compreensão de que o capitalismo domina o mercado mundial, mas as relações sociais capitalistas se estruturam no interior de um sistema mundial de Estados que, na época imperialista, seria dilacerado pelos antagonismos entre as potências. O capitalismo seria desafiado pelo proletariado e seus aliados sociais em cada país dentro de fronteiras nacionais, mas sua permanência seria decidida na escala internacional. A perspectiva internacionalista dos socialistas estava alicerçada, portanto, na idéia de que a burguesia seria uma classe com interesses, irremediavelmente, nacionais. A forma degenerada dos nacionalismos exaltados das potências européias ao final do XIX e, sobretudo, depois da I Guerra Mundial, com o nazi-fascismo, confirmou esta análise.

O movimento socialista se constituiu, a partir da experiência da I Internacional nos anos sessenta do século XIX, com a premissa de que a burguesia era uma classe, social e politicamente, mais heterogênea que o proletariado. Os limites históricos do capital – a impossibilidade de manter a valorização ilimitada - se manifestariam na hora das crises econômicas, e nas rivalidades entre os imperialismos. A partir da vitória da revolução russa, os marxistas reagrupados na III Internacional previram que a concorrência entre os grandes monopólios e a competição entre os Estados seriam a força de impulso de guerras mundiais. Este prognóstico foi confirmado até meados do século XX, mas, depois, não.

A classe trabalhadora seria capaz de ir além dos interesses nacionais mais imediatos, e afirmar o seu movimento como internacional. O internacionalismo marxista sempre foi uma questão de método, na análise, de política, na linha de intervenção, de programa, na perspectiva histórica, e de organização no compromisso com o projeto da construção da Internacional. Os trabalhadores deveriam constituir um movimento internacionalista nas metrópoles que seria solidário com a revolução mundial, e apoiaria, portanto, os movimentos nacionalistas da periferia. Porque a hora da revolução social nas metrópoles, seria a hora da libertação nacional das nações oprimidas.

Um capital mais internacional, um movimento operário mais nacional

Quis a ironia da história que este vaticínio fosse confirmado, porém, ao contrário. Nem o governo do Labour party, mesmo depois da greve geral na Inglaterra nos anos vinte, nem a Frente Popular na França de Leon Blum, nos anos trinta, mesmo depois da greve geral que conquistou o direito de férias remuneradas, por exemplo, aceleraram a libertação das colônias dos Impérios britânico e francês. Aconteceu o inverso deste prognóstico fundador: predominou na dinâmica da revolução mundial o oposto. Sem a derrota dos planos de De Gaulle na Argélia, seria impossível compreender a crise de 1968 em Paris, sem a derrota de Salazar nas colônias africanas seria impossível compreender a revolução dos cravos em Lisboa em 1974.

Resumindo: as duas antecipações históricas que fundamentavam a perspectiva internacionalista dos marxistas confirmaram-se, porém, apenas parcialmente. Foram, portanto, subvertidas pela história. O projeto socialista revelou-se muito mais difícil que o previsto pelos fundadores. A capacidade dos imperialismos se articularem diante do perigo da revolução mundial, consolidando uma frente contra-revolucionária que os levou até a aceitar, em circunstâncias excepcionais, a coexistência pacífica com Moscou, surpreendeu. Por outro lado, as dificuldades do proletariado de oferecer, à escala internacional, uma resistência às reestruturações produtivas e ataques aos direitos sociais a partir dos anos 80 do século passado, por exemplo, decepcionou.

Os imperialismos europeus, norte-americano e japonês desenvolveram relações, fundamentalmente, complementares, nos últimos sessenta anos, e não parece razoável prever que a liderança norte-americana no Sistema Mundial de Estados venha a ser desafiada na crise econômica aberta em meados de 2007, e que deu um salto de qualidade no segundo semestre de 2008. Londres manteve uma aliança, para o essencial, quase sem fricções com Washington, e essa perspectiva deverá se manter. Paris e Berlim à frente da União Européia têm as suas diferenciações, como na decisão da invasão do Iraque em 2003, todavia, negociam aceitando o lugar da supremacia norte-americana.

A desestabilização da dominação capitalista mundial, desde o final da II Guerra Mundial, dependeu mais da luta nacionalista revolucionária de massas populares e camponesas não proletárias dos países periféricos, do que da ação internacionalista dos proletariados dos países centrais. É verdade que a onda revolucionária aberta em 1968 começou em Paris, alastrou para a Itália, passou pela queda da ditadura dos coronéis na Grécia, e depois ameaçou a dominação burguesa na área do Mediterrâneo, com a revolução portuguesa de 1974/75, e o ascenso espanhol entre 1976/78. Mas, foi contida. A liderança da socialdemocracia e do estalinismo sobre os batalhões pesados da classe operária – França, Itália, Alemanha, Inglaterra - explica, em grande medida, as derrotas políticas e sociais, um país atrás do outro, ao longo dos anos oitenta e noventa do século XX. O processo de superação da hegemonia dos partidos eleitorais-reformistas sobre os trabalhadores, iniciado em 1968, foi interrompido e retrocedeu.

A revolução mundial deslocou-se outra vez nas décadas seguintes, como entre 1945-1968, para os países periféricos, onde, à exceção do Brasil (1978/1989), Argentina (1982/1989, menos em 2001) e Bolívia (1985 e, mais recentemente, 2003/2005), o proletariado cumpriu um papel auxiliar nas lutas revolucionárias mais significativas: Nicarágua e Irã (1979) ou Venezuela (1989 e, muitos anos depois, 2002).

A explicação do paradoxo não é simples. Toda situação internacional foi sempre o resultado de um processo de lutas entre as classes, mas também, de luta entre Estados. E a competição entre Estados assumiu formas diferentes nos últimos cento e cinqüenta anos. Esgotada a época de expansão e apogeu do capitalismo, sob liderança inglesa, abriu-se uma época histórica de longa decadência do capitalismo e, ao mesmo tempo, uma etapa política, na primeira metade do século XX, de lutas furiosas entre os impérios pela disputa da liderança no sistema internacional, que culminou em duas guerras mundiais que quase liquidaram a civilização, encerrando-se com a consolidação da supremacia econômica e política norte-americana em 1945.

Três ondas da revolução mundial ameaçaram a dominação capitalista na primeira metade do século XX - ao final das duas guerras mundiais, e como conseqüência da crise de 29 - mas, apesar da vitória da revolução russa, foram derrotadas. Os bolcheviques tinham previsto que ou a revolução russa seria a ante-sala da revolução européia, ou a restauração capitalista seria uma questão de tempo. Confirmou-se o vaticínio de Lênin, esquecida pela esquerda mundial: depois Agosto de 1914, na Conferência de Zimmervald, na Suíça, o líder de Outubro de 1917 tinha defendido a imediata fundação da III Internacional, polemizando com a esquerda alemã dirigida por Rosa Luxemburgo e com o próprio Trotsky. Argumentou que o desafio da Internacional concentrava todo o dilema estratégico.

Bibliografia:

ANDERSON, Perry. Considerações sobre o marxismo occidental. Lisboa, Afrontamento, 1976.

ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX. São Paulo, UNESP, e Rio de Janeiro, Contraponto. (s/d).

BENJAMIM, Cesar, Tendências da nova ordem mundial e o lugar do Brasil. www.contrapontoeditora.com.br/docs/00.julho_2003_Nova_ordem_mundial.pdf,
Acessado em 15/05 2007.

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos, o breve século XX – 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.

LENIN, Vladimir Ilitch Ulianov, El imperialismo, fase superior del capitalismo, in Obras Escogidas, volume 1. Moscou, Editorial Progresso, 1966.

MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. Estatutos provisórios da Associação Internacional de Trabalhadores, in La Internacional. Mexico, Fondo de Cultura Económica, 1988.

NEGRI, Toni, e HARDT, Michael. Imperio. Buenos Aires: Paidós, 2002.

WALLERSTEIN, Immanuel. Os Estados Unidos e o mundo: hoje, ontem e amanhã, in Após o liberalismo. Petrópolis, Editora Vozes, 2002.



[1] LENIN, Vladimir Ilitch, A Guerra e a Social-Democracia da Rússia, in http://www.marxists.org/portugues/lenin/1914/09/28.htm, acesso em 10-05-2007

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Selvageria da PMERJ a ativistas contrários a entrega de petróleo brasileiro

Nesta quinta-feira as manifestações contra a 10ª Rodada de Licitações de Blocos para a Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural - um protesto era pacífico - acabaram com uma brutal violência da Polícia Militar e da Guarda Municipal no Rio de Janeiro. Num repressão brutal e perseguição implacável pelas ruas do centro do Rio, que lembra os tempos da ditadura militar. O saldo foram cerca de 50 feridos e três presos.

Eduardo Henrique Soares da Costa, diretor do Sindipetro-RJ e militante do PSTU, foi internado às pressas, gravemente ferido com um corte na cabeça. Um militante do MST teve o braço quebrado. Emanuel Cancella, coordenador-geral do Sindipetro-RJ, Gualberto Tinoco “Pitéu”, professor, diretor do Sepe-RJ e militante do PSTU, e Thigo Lúcio Costa, estudante de jornalismo, estão detidos.

Já existe uma moção de repúdio a violência, e muitos sindicatos e movimentos já assinaram. Está circulando na internet e é muito importante que ela consiga o máximo de apoio. É preciso saber quem deu a ordem. Se foi o comando, se foi a ANP, o governo do estado.
É obvio que os PMS agiram assim para proteger a entrega do petróleo. Entregaram 50 no primeiro dia. A Petrobras, a ANP (dirigida pelo PCdoB) e o governo Lula também precisam se pronunciar.

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