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sábado, 17 de janeiro de 2026

O Produtor Rural não é Empresário! Os Limites da Abordagem Empresarial na Agropecuária

E o Papel do Cooperativismo e da Economia Solidária no Desenvolvimento Rural Sustentável


Almir Cezar de Carvalho Baptista Filho


ABSTRACT

This article critiques the push to frame rural producers as entrepreneurs and farms as businesses, arguing that this approach is unsuitable for the realities of small and medium-sized farmers. Using insights from General Administration Theory, Microeconomics, and Political Economy, the article reveals the limitations of applying entrepreneurial principles to agriculture. It also critiques the misinterpretation of the concept of agribusiness in Brazil. As an alternative, the article promotes cooperativism, the solidarity economy, and environmental sustainability as more appropriate models for rural development, prioritizing social justice, collective action, and ecological balance.

Palavras-chave: Empreendedorismo rural, agronegócio, agrobusiness, cooperativismo, economia solidária, sustentabilidade ambiental, crítica econômica, desenvolvimento rural, Teoria Geral da Administração, Microeconomia.


Nas últimas décadas, tem-se observado um esforço crescente para promover o campo brasileiro sob a ótica do empreendedorismo e da gestão empresarial. Esse movimento busca enquadrar o produtor rural como um empresário e o estabelecimento agropecuário como uma empresa, adotando estratégias típicas do setor corporativo. Essa abordagem é muitas vezes vendida como uma forma de modernizar a agricultura, aumentar a competitividade e integrar o Brasil às cadeias globais de valor. No entanto, essa visão ignora a complexidade da realidade rural e impõe uma lógica que não se adequa às condições socioeconômicas e ambientais da maioria dos produtores.

Este artigo propõe uma crítica a essa tese, defendendo que o produtor rural não deve ser equiparado a um empresário ou a um empreendedor. Argumentamos que essa transposição do modelo empresarial para a produção agrícola é falha e prejudicial, especialmente para pequenos e médios agricultores, totalmente incompatível com a estrutura de uma empresa. Para isso, utilizaremos conceitos da Teoria Geral da Administração, da Microeconomia — com ênfase nas teorias do Equilíbrio Geral e do Equilíbrio Parcial — e da Economia Política, a fim de demonstrar os limites dessa estratégia.

Ao longo do texto, também procura-se refutar a adoção indiscriminada do conceito de "agronegócio", que, em grande parte, é uma tradução inadequada do termo norte-americano agrobusiness, o que distorce a compreensão da realidade agrícola brasileira.

Por fim, apresentaremos como alternativa ao modelo empresarial o cooperativismo, a economia popular solidária e as práticas de sustentabilidade ambiental, que se mostram mais adequadas para o desenvolvimento rural no Brasil, respeitando suas particularidades e promovendo justiça social e equilíbrio ecológico.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Sobre a Política Econômica no Governo Federal: A criação de um “sistema estruturante” e o papel central dos servidores economistas

por Almir Cezar Filho*

Resumo:

Este artigo (escrito em 2022)** analisa a dispersão da política econômica na Administração Pública da União e propõe a criação de um Sistema Federal de Política Econômica. Destaca a falta de uma estrutura específica para essa área, enfatizando a necessidade de reestruturação. O texto destaca a presença de setores e instrumentos de política econômica em diversos ministérios, propondo a coordenação para melhor desenvolvê-los. Aponta a viabilidade da reforma, dada a existência das atribuições e da presença atual de servidores no quadro de pessoal do Poder Executivo com perfil profissional especializado para composição desse sistema. Por fim, destaca a importância desse sistema estruturante para facilitar a cooperação governamental, participação social, avaliação contínua e transparência.


Palavras-chaves: Política Econômica,  Administração Pública Federal, Sistema Federal de Política Econômica, Economistas, Descentralização, Coordenação setorial


Este artigo analisa a política econômica na Administração Pública Federal**, destacando sua dispersão por várias pastas governamentais e propondo uma estrutura coordenativa com pessoal especializado em cada órgão e articulado entre si. O texto apresenta o conceito e a importância da política econômica, examina o marco jurídico atual e identifica a falta de um sistema estruturante específico para essa área. Embora haja uma estruturação geral na Administração Pública Federal, não existe uma organização específica para a política econômica. 

O objetivo é analisar como está instituído na Administração Público Federal a política econômica, não se limitando às pastas da assim chamada “Equipe Econômica do Governo”** (Ministério da Fazenda, do Planejamento, da Gestão, da Indústria e Comércio, entre outros), mas ao contrário disso, dispersa por todo o Poder Executivo, buscando dar um novo formato, que preserve a sua descentralização e segmentação setorial, mas busque uma estrutura comum coordenativa e com pessoal especializado para melhor desenvolvê-la em cada órgão.

A ideia que o permeia é preparar subsídios para repensar e de fato constituir o Sistema Federal de Política Econômica, motivada pela necessidade de reformá-lo em profundidade, o que se pretende mostrar evidente. Mas, principalmente, pela viabilidade tecnopolítica de empreender tal reforma, pois os recursos críticos requeridos para levá-la à frente estão quase todos sob o controle do Poder Executivo Federal.

Os instrumentos de política econômica criados pela Constituição Federal de 1988 (CF/1988) têm sofrido diversas interpretações e experimentado variadas tentativas de aplicação prática sem, no entanto, se afirmarem de maneira mais duradoura e sem conquistarem adesões políticas e intelectuais que os legitimem e os transformem em efetivos mecanismos de condução dos processos de governo.

À primeira vista, a política econômica é atribuição nata do atual Ministério da Economia** (Ministérios da Fazenda, do Planejamento e da Gestão, e até mesmo com o de Indústria e Comércio, e outros casos até Agricultura, Infraestrutura, etc.), mas, se é verdade que a política macroeconômica e de desenvolvimento econômico estão concentradas no Ministério da “Economia”, e de maneira auxiliada pelo Banco Central (política monetária), cada outro ministério possui seu próprio setor, secretaria, assessoria de conjuntura econômica, e/ou próprios instrumentos de realização de política econômica setorial. 

Seja de pastas explicitamente ligadas à produção nacional, tal como o Ministério da Agricultura, ou das Minas e Energia, passando pelos Transportes, ou do Desenvolvimento Regional e das Cidades. Mas até mesmo, o da Cultura (política de fomento e regulação) do mercado cultural, passando pelo das Comunicações e pela da Ciência, Tecnologia & Inovação, chegando até o do Turismo. Muitos desses Ministérios contêm secretarias inteiras de Política “X”, referindo-se a propriamente dita política econômica setorial de sua própria Pasta.

O artigo aborda diferentes aspectos relacionados à política econômica na Administração Pública Federal. Inicialmente, são apresentados conceitos e finalidades da política econômica, tanto como política pública quanto na teoria econômica, destacando sua dispersão por várias pastas de governo. Em seguida, é analisado o marco jurídico atual da política econômica, seguido pela identificação de sistemas estruturantes existentes na Administração Pública, que visam melhorar as atividades administrativas, mas que não abrangem adequadamente a política econômica. 

O texto também menciona a existência de carreiras segmentadas para cada sistema estruturante, mas a ausência de equivalente para a política econômica. A partir disso, é apontado que os servidores do cargo de “economista” possuem as habilidades necessárias para compor um sistema estruturante dedicado à política econômica. 

Por fim, nas considerações finais, destaca-se que um sistema estruturante para a política econômica pode facilitar a cooperação governamental, a participação social, a avaliação contínua e corretiva, bem como a transparência.

domingo, 14 de setembro de 2025

Rede, Valor e Capitalismo: Por uma Economia Sintrópica e Inteligente - A Economia & a Revolução

Economia de Rede e Inteligência de Rede versus o Mercado e o Capitalismo
Uma crítica marxista e cibernética à ideologia do mercado e à entropia do capitalismo, em defesa de uma economia colaborativa, sintrópica e baseada em redes inteligentes.

por Almir Cezar Filho

Resumo

Este artigo propõe uma crítica radical à concepção do mercado como ordem espontânea natural, analisando a economia a partir do paradigma das redes complexas e da cibernética. A partir de conceitos como entropia, sintropia, planejamento, colaboração e economia participativa, argumenta-se que o capitalismo — entendido como mercado generalizado de fatores de produção — não expressa a inteligência coletiva, mas sim sua degradação. Ao invés de um sistema espontaneamente eficiente, o mercado impõe desigualdade, opressão e desperdício. A superação de sua entropia exige redes colaborativas, inteligência sintrópica e planejamento democrático. Propõem-se, como alternativas sistêmicas, os modelos da Economia Participatória (ParEcon) e da Economia Baseada em Recursos.

Introdução


A inteligência das colmeias, das florestas, das células e das sociedades humanas é, antes de tudo, uma inteligência de rede. Não se trata de uma mente centralizada emitindo comandos, mas de um entrelaçamento de interações e sinais que se propagam por múltiplos caminhos, de forma distribuída, adaptativa e, por vezes, cooperativa. A economia contemporânea — sob o véu do mercado e do capitalismo — é, em sua base, também uma rede. Mas é uma rede tensionada pela exploração, pela desigualdade, pelo comando e pela entropia.

Este artigo propõe uma crítica radical à ideia de que mercado e capitalismo são expressões naturais da inteligência coletiva. Sustenta que a economia de rede — como potencial sintrópico da colaboração social — é anterior e superior ao mercado capitalista. Para tanto, discutiremos os conceitos de rede, valor, entropia, sintropia, cooperação, cibernética e planejamento em uma perspectiva econômica crítica.

1. Rede, organismo, sociedade: o substrato da vida

Do ponto de vista biológico, um organismo é uma rede integrada de redes: tecidos são redes de células; órgãos são redes de tecidos; sistemas são redes de órgãos. O mesmo vale para a sociedade: famílias, coletivos, empresas, cidades, instituições — todos formam redes complexas de interação. Como nas colmeias, a inteligência social emerge da combinação de diferenças complementares, da partilha de recursos comuns e da constante comunicação entre seus elementos.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

TEMPO, PLANEJAMENTO E TRANSFORMAÇÃO: A coerência motivacional retroativa como princípio para a teoria econômica, a política pública e o fomento ao desenvolvimento

Um ensaio heurístico-dialético aplicada à Economia


Por Almir Cezar Filho


Vivemos em um tempo de incertezas profundas, marcado por choques externos, transições tecnológicas aceleradas e limites ambientais. Nesse contexto, cresce a exigência por políticas públicas que não apenas resolvam problemas imediatos, mas que preservem a coerência estratégica e histórica de seus objetivos. Este ensaio propõe uma lente alternativa para pensar a racionalidade econômica e a ação governamental no tempo: a coerência motivacional retroativa.

Este ensaio propõe uma lente alternativa para pensar a racionalidade econômica e a ação governamental no tempo: a coerência motivacional retroativa.

Trata-se de uma heurística — ou seja, uma regra prática orientadora que ajuda a pensar e agir em cenários complexos, instáveis ou incertos. Heurísticas não pretendem fornecer soluções fechadas, mas sim guiar decisões eficazes quando os modelos tradicionais não dão conta da realidade. No planejamento e na formulação de políticas públicas, esse tipo de ferramenta é essencial, pois permite alinhar intenção e efeito mesmo quando as condições mudam e os resultados são parcialmente imprevisíveis.

Originalmente inspirada por reflexões filosóficas e paradoxos da literatura de ficção científica, essa noção assume aqui um novo papel: o de princípio heurístico para o planejamento e o fomento ao desenvolvimento. Ela parte de uma pergunta fundamental: uma política continua justificável quando seus efeitos anulam ou distorcem os fins que a motivaram? Em outras palavras, os resultados de uma intervenção pública ainda legitimam a motivação que a originou?

A Economia contemporânea já opera com modelos baseados em expectativas retroalimentadas, como no caso das expectativas racionais. Entretanto, a teoria da coerência motivacional retroativa sugere um passo além: considerar não apenas as consequências econômicas previstas, mas a manutenção ou transformação da motivação que justifica as decisões.

Políticas econômicas ou movimentos de mercado só se sustentam historicamente se os efeitos retroativos dessas ações reproduzem ou atualizam a motivação que as impulsionou.

Exemplo: Um país adota uma política de juros altos para conter a inflação. Se, de fato, a inflação cai, mas ao custo de uma recessão prolongada, desemprego em massa e precarização social, a motivação original — estabilizar a economia — pode perder sua legitimidade.

Nesse caso, os sujeitos sociais/agentes econômicos exigem mudanças, ou até reversão, na política econômica, mesmo que ainda esteja em curso ou até nem tenha completado/finalizado a sua atuação. Isto é, a ação entra em contradição retroativa: os meios deslegitimam o fim.

Esse critério permite uma avaliação histórica da legitimidade das políticas econômicas, não apenas em termos de eficácia técnica, mas de coerência estratégica ao longo do tempo.


1. A Crise da Causalidade Linear nas Políticas Econômicas

Grande parte da teoria econômica moderna opera com um modelo de causalidade linear: políticas geram efeitos que, por sua vez, são avaliados por indicadores. Entretanto, crises sucessivas — como a estagflação, o colapso financeiro de 2008, ou os efeitos distributivos regressivos de reformas estruturais — mostraram que resultados econômicos podem deslegitimar a intenção original de uma política.

A lógica da coerência motivacional retroativa propõe, nesse cenário, um teste de consistência estratégica ao longo do tempo. Uma ação econômica ou institucional só se sustenta se os contextos que ela gera ainda justificam a sua adoção — ou reconfiguram, de forma coerente, sua motivação inicial.

Esse problema decorre, em parte, da persistência do raciocínio causal linear e do uso sistemático do ceteris paribus nos modelos econômicos, que isolam variáveis como se o restante do sistema permanecesse inalterado. No mundo real, porém, as políticas públicas e as decisões econômicas operam em contextos dinâmicos e interativos, onde cada ação modifica as condições iniciais e afeta outras variáveis relevantes. A coerência motivacional retroativa se apresenta, nesse cenário, como uma alternativa mais adequada: ela rejeita a fixação artificial de parâmetros e propõe um critério de causalidade histórico-dinâmica, em que a ação só se justifica se seus efeitos preservarem — ou reconfigurarem de modo legítimo — a motivação que a originou.

terça-feira, 22 de abril de 2025

Custo de produção e rentabilidade - Estratégia de comercialização para pescadores artesanais e comunidades tradicionais - 4ª parte

Curso de estratégia de comercialização para pescadores artesanais, agricultores familiares e empreendedores da economia solidária. 

"Estratégia de comercialização" - 4ª e última vídeo-aula ministrada para um projeto de Capacitação e Qualificação Profissional de Comunidades Pesqueiras em Turismo de Base Comunitária e Cidadania na Baía de Guanabara.

Nesta parte como não tomar prejuízo: a explicação sobre como calcular o custo de produção e a rentabilidade.

Clique aqui: https://youtu.be/NTV4b9s6pHw?si=7_MY9piR0H72PTdZ



Escoamento, processamento e inspeção de pescado: Estratégia de comercialização para pescadores artesanais e comunidades tradicionais - 3ª parte

Curso de estratégia de comercialização para pescadores artesanais, agricultores familiares e empreendedores da economia solidária. "Estratégia de comercialização" - 3ª parte de uma vídeo-aula ministrada para um projeto de Capacitação e Qualificação Profissional de Comunidades Pesqueiras em Turismo de Base Comunitária e Cidadania na Baía de Guanabara.


Nesta parte, como vender pescado para o governo ("compras institucionais"), seja para alimentação de escolas, hospitais, montagem de cestas básicas, etc. - um canal de escoamento permanente. Explica também sobre beneficiamento e processamento de pescado e sobre selo de inspeção sanitária. E quanto custa e quanto o pescador lucrará após essas etapa.

Clique aqui: https://youtu.be/OyQPwN0FB_Q?si=n52J-gQ2iSz9gp-B



Estratégia de comercialização para pescadores artesanais - 2ª parte

Estratégia de comercialização para pescadores artesanais, agricultores familiares e empreendedores da economia solidária

"Estratégia de comercialização" - 2ª parte de uma vídeo-aula ministrada para um projeto de Capacitação e Qualificação Profissional de Comunidades Pesqueiras em Turismo de Base Comunitária e Cidadania na Baía de Guanabara.

Nesta parte apresentamos a comercialização em si do pescadores, as várias modalidades, em destaque aquelas que se relacionam com o turismo local, mas não só, superando os atravessadores.


Clique aqui: https://youtu.be/aUYkWaN8M8U?si=_OYSpvYyxwXncf2W


Estratégia de comercialização para pescadores artesanais, agricultores familiares e empreendedores da economia solidária

"Estratégia de comercialização" - 1ª parte de uma vídeo-aula ministrada para um projeto de Capacitação e Qualificação Profissional de Comunidades Pesqueiras em Turismo de Base Comunitária e Cidadania na Baía de Guanabara.

Nesta parte conheça o tamanho da oportunidade econômica da pesca artesanal, da aquicultura familiar e do turismo de base comunitária de povo tradicionais ligadas à pesca.

 

Assista em: https://youtu.be/-TKMZSiMFZo?si=iPa1exvD2xkoyaoV

segunda-feira, 10 de março de 2025

"Desmascarando a desmascaração": Sobre os absurdos dos críticos à tributação de lucros e dividendos

É o mínimo de justiça fiscal, não bitributação, como alega a ultradireita, a mídia e o mercado

por Almir Cezar Filho, economista

Nas últimas semanas, ganharam força na mídia e nas redes sociais diversas críticas à proposta de tributar lucros e dividendos no Brasil. Argumenta-se, em tom alarmista, que a medida configuraria uma “bitributação”, um ataque ao setor produtivo ou até mesmo uma violação constitucional. Tais posições, no entanto, ignoram aspectos fundamentais da justiça fiscal e da profunda desigualdade que marca o sistema tributário brasileiro. Enquanto trabalhadores e consumidores arcam com pesados impostos sobre salários e consumo, os lucros distribuídos a acionistas seguem isentos há quase 30 anos. Este artigo propõe uma análise crítica sobre o tema, desconstruindo cinco mitos que têm alimentado essa narrativa e defendendo a urgência de um modelo tributário progressivo, capaz de financiar o Estado sem penalizar quem vive do próprio trabalho.

Um dos textos que expressa essa visão crítica à tributação de lucros e dividendos é o artigo de opinião “Desmascarando o absurdo da tributação de lucros e dividendos”, assinado por Ricardo Sayeg e publicado no portal iG. O autor argumenta que as empresas brasileiras já enfrentam uma carga tributária excessiva e que qualquer taxação adicional sobre lucros e dividendos configuraria bitributação, além de ser um obstáculo ao crescimento econômico. Sayeg acusa o governo de utilizar a medida como manobra para cobrir um suposto descontrole fiscal, criticando também a revogação do teto de gastos e defendendo a austeridade e a redução do papel do Estado como alternativas mais “responsáveis”.

Essa visão, porém, parte de premissas equivocadas e ignora a estrutura regressiva do sistema fiscal brasileiro. Uma abordagem progressista e comprometida com o desenvolvimento econômico e a equidade social permite desmontar, com base em dados e comparações internacionais, os principais argumentos levantados contra a taxação de lucros e dividendos. A seguir, analisamos cinco desses equívocos. Vamos, portanto, “desmascarar a desmascaração”:

1. O mito da carga tributária excessiva sobre as empresas

O autor afirma que as empresas no Brasil já enfrentam uma carga tributária "descomunal" que pode chegar a 40% do faturamento. Esse número é, no mínimo, controverso. A carga tributária total no Brasil gira em torno de 32% do PIB, abaixo da média da OCDE (cerca de 34%). Além disso, grande parte da arrecadação brasileira recai sobre o consumo e a folha de pagamento, enquanto o capital e a renda dos mais ricos são relativamente pouco tributados.

No que se refere ao lucro das empresas, o Brasil tem um dos regimes mais generosos do mundo: não há tributação sobre lucros e dividendos distribuídos a pessoas físicas desde 1995. Em comparação, países como Estados Unidos, Alemanha e França taxam dividendos a taxas superiores a 20%. Ou seja, o Brasil está na contramão da prática internacional, beneficiando especialmente os mais ricos.


2. O erro ao chamar a tributação de lucros e dividendos de "bitributação"

Sayeg argumenta que tributar dividendos equivaleria a uma bitributação, pois as empresas já pagam IRPJ e CSLL sobre seus lucros. Esse argumento ignora um ponto fundamental: lucro e dividendos são coisas distintas.

O IRPJ e a CSLL incidem sobre o lucro da empresa antes da distribuição aos sócios; a tributação de dividendos, por sua vez, recai sobre o rendimento recebido pelo acionista. Isso não configura bitributação, pois são tributos sobre sujeitos distintos: a empresa paga sobre seu lucro, e o acionista paga sobre sua renda. Essa distinção existe em praticamente todas as economias desenvolvidas.


3. A falácia de que tributar dividendos afugentaria investimentos

Outro ponto recorrente é que a tributação de lucros e dividendos afastaria investidores e sufocaria o setor produtivo. Trata-se de uma falácia econômica. Países com tributação de dividendos bem estruturada, como os EUA e a Alemanha, não sofrem fuga massiva de investimentos. Pelo contrário, segurança jurídica e previsibilidade fiscal são fatores muito mais relevantes para o investimento do que a simples isenção sobre dividendos.

Além disso, no Brasil, a isenção de dividendos não se traduz em maior investimento produtivo. Pelo contrário, estimula a distribuição de lucros em detrimento do reinvestimento nas empresas, beneficiando acionistas à custa da geração de empregos e do crescimento econômico.


4. O verdadeiro impacto da isenção de dividendos

O artigo ignora um dado crucial: quem mais se beneficia da isenção de dividendos são os super-ricos. Estima-se que os 0,1% mais ricos do Brasil detêm 70% dos rendimentos isentos de tributação. Enquanto trabalhadores assalariados pagam até 27,5% de Imposto de Renda, empresários e investidores recebem dividendos sem qualquer tributação, aprofundando a desigualdade.

Se o Brasil adotasse uma alíquota moderada sobre dividendos, seria possível arrecadar mais de R$ 100 bilhões por ano, aliviando a carga sobre o consumo e o trabalho, que hoje sustentam o sistema tributário.


5. O verdadeiro problema fiscal

Sayeg acusa o governo de descontrole fiscal e irresponsabilidade, mas ignora que a verdadeira distorção está na falta de progressividade do sistema tributário. O chamado Novo Arcabouço Fiscal, implementado pelo governo Lula e Haddad, não revogou a responsabilidade fiscal, apenas substituiu o teto de gastos, que se mostrou ineficaz e socialmente perverso, por outro mecanismo — que, na verdade, é alvo de críticas justamente por talvez repetir essa mesma consequência.

“Reduzir o tamanho do Estado”, como propõe o autor, significaria menos serviços públicos, mais desigualdade e menor capacidade de indução ao crescimento econômico.


Conclusão

A defesa da isenção sobre lucros e dividendos, como apresentada por Sayeg, apoia-se em premissas frágeis e falácias econômicas que não resistem ao escrutínio de uma análise séria. Tributar dividendos não é bitributação, tampouco um ataque ao setor produtivo — trata-se, antes, de uma medida de justiça fiscal amplamente adotada em economias desenvolvidas, essencial para combater a concentração de renda e tornar o sistema tributário brasileiro mais equitativo. Se o país almeja um modelo econômico mais justo e sustentável, precisa urgentemente reequilibrar sua estrutura tributária, aliviando o peso sobre o consumo e os trabalhadores, e cobrando mais de quem realmente pode pagar: o topo da pirâmide, hoje ainda amplamente poupado.

Importa destacar, contudo, que por trás dos argumentos técnicos circula uma visão de mundo marcada por interesses de classe. A retórica dramatizada e o uso de jargões jurídicos servem mais para blindar privilégios do que para propor soluções efetivas. Trata-se de uma perspectiva típica da direita ultraliberal, que, sob o verniz da racionalidade econômica, opera como linha auxiliar do capital rentista e concentrador. Ao ignorar os efeitos sociais da desigualdade e defender a austeridade como panaceia, essa posição se recusa a reconhecer o papel redistributivo do Estado num país ainda marcado por desigualdades brutais.

Em vez de contribuir para um debate honesto sobre justiça tributária, esse discurso atua como trincheira ideológica contra qualquer avanço civilizatório na taxação do capital. No fim, o que se revela é menos uma preocupação com o desenvolvimento nacional e mais a defesa cega de um sistema que perpetua os privilégios de poucos às custas da maioria.

Vamos ver se o presidente Lula e o ministro da Fazenda terão coragem de avançar e aprovar essa medida.


Artigo revisado em: 03/04/2024

sábado, 14 de dezembro de 2024

Não podemos deixar o entendimento da Economia nas mãos da burguesia e mídia

CORTE - O economista Almir Cezar Filho, titular do programa Economia É Fácil, foi entrevistado pelo podcast ‪@podcastmesadedebates-detud971‬ .


https://youtu.be/8TQJSCpU58Y?si=_AgZmdAdVMlKJOBn
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terça-feira, 23 de julho de 2024

A Economia & a Revolução - Introdução: Sínteses de uma Teoria Contemporânea Marxista do Desenvolvimento Econômico Capitalista

por Almir Cezar Filho

A economia contemporânea é um vasto campo de estudo que, para ser compreendido em sua totalidade, deve considerar tanto as interações internas quanto externas de um sistema. Neste contexto, é essencial reconhecer que não existe um sistema econômico puro, seja no plano mundial ou nacional. Cada esfera econômica está interconectada com uma superior, moldando-se a partir dessas interações e influências. O resultado é uma combinação de modos de produção e setores econômicos diversos, oriundos de diferentes épocas e dispersos espacialmente.

Para uma análise profunda do desenvolvimento econômico, é imprescindível adotar o princípio do desenvolvimento desigual e combinado, juntamente com a teoria da revolução permanente. O desenvolvimento econômico é, essencialmente, uma dinâmica de longo prazo, acumulativa tanto em termos quantitativos quanto qualitativos. Essa dinâmica não apenas constrói a estrutura econômica do sistema, mas também delimita sua constituição.

A política, descrita como economia concentrada, desempenha um papel crucial nesse processo. Embora a esfera econômica determine o capitalismo, a esfera política tem primazia. Este ponto é particularmente relevante ao resgatar e atualizar a Teoria do Imperialismo na era do capitalismo monopolista transnacional. A estrutura econômica define a conjuntura econômica e limita a ação da política econômica, enquanto a conjuntura se configura na dinâmica de curto prazo, ou "equilíbrio dinâmico".

quarta-feira, 1 de março de 2023

Americanas: caso de polícia. Os donos roubaram a própria empresa


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#corrupção
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#economia
#economiaéfácil 
#webrádiocensuralivre 
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terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

ECONOMIA É FÁCIL | Caso Lojas Americanas: cadê o dinheiro? Quais as perdas para empregados e pequenos fornecedores.



 Caso Lojas Americanas: cadê o dinheiro? Quais as perdas para empregados e pequenos fornecedores.
📢 O tema desta edição é… O caso da gigantesca fraude promovida pelos principais acionistas e diretores executivos das Lojas Americanas é uma vitrine da decadência capitalista no Brasil. Envolve nada menos que os homens mais ricos do país: Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, da controladora 3G Capitais, cuja fortuna ultrapassa R$ 180 bilhões. Envolve também os principais acionistas da InBev (maior cervejaria do mundo)  e da recém-privatizada Eletrobras e que hoje possuem cerca de 30% das ações das Americanas. A varejista interrompeu contratos com fornecedores e encerra serviço de televendas. A empresa afirmou que atua em seu processo de recuperação judicial, que visa garantir a continuidade de suas atividades, incluindo o pagamento de salários e benefícios aos funcionários. As maiores centrais sindicais do país divulgaram comunicado conjunto nesta segunda-feira defendendo a participação direta do Ministério do Trabalho no processo de recuperação judicial da Americanas.
📻 O programa Economia É Fácil com mais uma edição ao vivo, esse que é o seu espaço de economia, na sua linguagem e com os temas analisados pela ótica dos trabalhadores.
🎙️ Apresentação do economista Almir Cezar Filho.
🎙️ Convidado: Geraldo Batata, ex-dirigente da CSP-Conlutas/MG e articulista do jornal Opinião Socialista.

🎧Ouça o Podcast em Spotify, Deezer, Anchor, Google Podcast e principais agregadores

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Fraude nas Americanas: caso de polícia ou decadência do capitalismo brasileiro. Os semideuses e os demônios: cadê o dinheiro dos funcionários e pequenos fornecedores?

 
📢 O tema desta edição é… O caso da gigantesca fraude promovida pelos principais acionistas e diretores executivos das Lojas Americanas é uma vitrine da decadência capitalista no Brasil. Envolve nada menos que os homens mais ricos do país: Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, da controladora 3G Capitais, cuja fortuna ultrapassa R$ 180 bilhões. Envolve também os principais acionistas da InBev (maior cervejaria do mundo)  e da recém-privatizada Eletrobras e que hoje possuem cerca de 30% das ações das Americanas. A varejista interrompeu contratos com fornecedores e encerra serviço de televendas. A empresa afirmou que atua em seu processo de recuperação judicial, que visa garantir a continuidade de suas atividades, incluindo o pagamento de salários e benefícios aos funcionários. As maiores centrais sindicais do país divulgaram comunicado conjunto nesta segunda-feira defendendo a participação direta do Ministério do Trabalho no processo de recuperação judicial da Americanas.
📻 O programa Economia É Fácil com mais uma edição ao vivo, esse que é o seu espaço de economia, na sua linguagem e com os temas analisados pela ótica dos trabalhadores.
🎙️ Apresentação do economista Almir Cezar Filho.
🎙️ Convidado: Geraldo Batata, ex-dirigente da CSP-Conlutas/MG e articulista do jornal Opinião Socialista.



🎧Ouça o Podcast em Spotify, Deezer, Anchor, Google Podcast e principais agregadores
📺 Assista a 'live' no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=prCLua5bHUk) , Facebook e Twitter. 

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Economia Solidária na Constituição: O que muda com a PEC? A opinião do movimento?

 🗣️A Economia Solidária na Constituição... O trabalho por conta própria cresce, mas desaba à renda. O Senado aprovou PEC que inclui a economia solidária na Constituição. O que muda?  O que o movimento acha do projeto? A ecosol é uma alternativa ao trabalhador brasileiro?
🎙️Com Celecina Rodrigues, vice-presid. Conselho de EcoSol de Niterói/Rj
🎙️Apresentação: Almir Cezar Filho.



https://youtu.be/6Tz0E5Un64c

#economiasolidária
#desemprego
#geraçãoderenda
#EconomiaÉFácil 
#WebRadioCensuraLivre

segunda-feira, 16 de maio de 2022

#podcast ECONOMIA É FÁCIL | Economia Solidária na Constituição. É uma alternativa ao desemprego?



O que muda com a PEC da EcoSol aprovada no Senado? É uma alternativa ao desemprego e queda na renda?
📻 Mais uma edição do programa Economia É Fácil nesta segunda-feira 16/05 às 20h ao vivo nas plataformas da web Rádio Censura Livre. 
Apresentação: 🎙️ Almir Cezar Filho, economista e comunicador popular
Convidadas: 
🎤 Celecina Rodriges, vice-presidente do Conselho Municipal de Economia Solidária de Niterói/RJ

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Os criptoativos se tornaram seguros e valem a pena?

Nesta segunda-feira 04/04 às 20h, mais nova edição do programa ECONOMIA É FÁCIL ao vivo pelo site e em outras plataformas da web RÁDIO CENSURA LIVRE. 
🎙️ Apresentação do economista Almir Cezar Filho. 
📣Tema da semana: A Prefeitura do Rio anunciou em 25/03, que os moradores da cidade poderão pagar o IPTU do ano que vem (2023) com criptomoedas. Com a iniciativa, o Rio passa a ser a primeira cidade do Brasil a oferecer o pagamento de um tributo via criptoativos. Outra novidade já apontadas em um relatório, está a criação de NFTs da Prefeitura com imagens de pontos turísticos e a criação de espaços para artistas fazerem intervenções que depois virariam NFT. Finalmente os criptoativos são seguros e valem a pena? Ou continua isca de golpistas e fonte de risco de bolha financeira?



 📺 Assista a live pelo YouTube (https://youtu.be/jCnwHhL29E0) e Facebook.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

INFORME ECONÔMICO | Com estaglação consumo de carne cai. Metade dos empregados fazem bicos por mais renda

Corte do quadro INFORME ECONÔMICO que vai ao ar no programa ECONOMIA É FÁCIL, na edição de 13 dez. 2021. As seguintes notícias em destaque nos últimos dias foram analisadas pela ótica dos trabalhadores e em linguagem fácil, pelo economista Almir Cezar Filho.
NOTÍCIA 1 | Com estagflação consumo de proteína cai para 76% dos brasileiros. Carne de frango passou a ser o mais consumido pela população. 67% alegaram que não compram mais outros cortes de carne de boi.
NOTÍCIA 2 | Mais da metade dos empregados fazem bicos para complementar renda. Falta de reajuste salarial é um dos motivos que levam a população a buscar ganhos alternativos.



quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

#podcast ECONOMIA É FÁCIL | Economia & Política nas grande sagas da ficção científica. Utopia, distopia e lutas sociais: Duna, Fundação, Star Trek, Star Wars,...


Nesta segunda-feira (6/12), às 20h, mais um episódio inédito e ao vivo do programa Economia É Fácil, o economista Almir Cezar Filho e seus convidados, aqui nas plataformas da Web Rádio Censura Livre, debatendo os temas econômicos mais importantes do momento, em linguagem fácil e na ótica dos trabalhadores.
📰 E mais: o quadro INFORME ECONÔMICO, com a análise das notícias econômicas em destaque dos últimos dias.
🎤Convidado: Ademar Lourenço, jornalista e apresentador do Conexão Brasília
📣 tema da semana: Economia & Política nas grande sagas da ficção científica. Utopia, distopia e lutas sociais. Duna, Fundação, Star Trek, Star Wars,...

domingo, 5 de dezembro de 2021

INFORME ECONÔMICO | Queda no consumo afeta varejo. Mercado de olho na ômicron. Consumidor já pode sacar com PIX

📰 O quadro INFORME ECONÔMICO, com a análise das notícias econômicas em destaque dos últimos dias foi ao ar em mais um episódio inédito e ao vivo do programa Economia É Fácil (29/11), com apresentação do economista Almir Cezar Filho, nas plataformas da Web Rádio Censura Livre, em linguagem fácil e na ótica dos trabalhadores.

NOTÍCIA 1 | Supermercados em estado de alerta diante de queda do consumo no varejo alimentar. Grandes redes reveem suas estratégias. 
NOTÍCIA 2 | Mercado financeiro mundial está de olho na variante ômicron da covid-19
NOTÍCIA 3 | Pix: consumidor poderá sacar dinheiro no comércio a partir de 2ª feira. Limite das transações será de R$ 500 de dia, e de R$ 100 de noite.