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domingo, 18 de novembro de 2012

14-N: o dia em que o internacionalismo ressurge como força social e política.


Por Valério Arcary*

O dia de greve geral unificada de 14 de novembro de 2012 em Portugal, Grécia e Estado Espanhol, com ações simultâneas como a greve metalúrgica na Itália e outras, seja qual for a sua dimensão e repercussão imediata, entrará para a história como um novo momento do internacionalismo. Nada remotamente semelhante já aconteceu, e isso diz tudo. Esta greve é uma resposta em terreno novo e muito animador. Será um acontecimento extraordinário, mesmo que venha a ser somente um ensaio geral.

O internacionalismo proletário poderá renascer, nesta quarta feira, como uma força social e política capaz de derrotar a Troika. Se a união do movimento operário e sindical com os movimentos sociais de juventude vier a se consolidar estará aberta uma nova situação política no Mediterrâneo. Estarão começando a serem reunidas, quiçá, as condições para impor aos governos uma nova relação de forças, ameaçando todos os planos de austeridade.

O capitalismo está se confrontando, a cada crise (1990/92; 2000/2001; 2008/12), com seus limites históricos. A perspectiva de situações revolucionárias nos países mediterrânicos da Europa está mais próxima. Contudo, paradoxalmente, as duas premissas anteriores não permitem ainda concluir que o socialismo está mais perto. Porque o futuro do socialismo depende da afirmação de um sujeito social com disposição de luta, consciência anticapitalista, e organização independente capaz de atrair para o seu projeto a maioria dos oprimidos. Esta afirmação só será possível com uma capacidade de ação internacionalista. Por isso a greve geral de 14 de novembro será um momento magnífico de resistência, ou seja, uma demonstração de que há energias no proletariado da Europa, aquele que tem maior tradição histórica no mundo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Crise européia: tudo aos bancos, nada aos cidadãos

Marcos Oliveira e Sergio Souto | Monitor Mercantil, 25/01/2012

Soberano indeciso 
Ex-diretor do Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos da França e diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique e da presidência da Associação Francesa de Economia Política, o economista André Orleán, sustentou, em entrevista, ao jornal Le Monde esta semana, o que, embora óbvio, é indizível pela maioria dos seus pares: quem governa hoje a Europa é o mercado, mas, não o mercado de bens tangíveis, mas o de capitais: "O poder político se conforma às suas prioridades e teme suas avaliações", observa, acrescentando que o mercado financeiro é um soberano indeciso e incoerente.

Fim da democracia 
Orleán, que acaba de publicar o livro L´Empire de la Valeur, Refonder l´Economie, afirma que, historicamente, o primado da política sobre a economia se baseava no controle dos bancos centrais. Ou seja, os BCs eram diretamente submetidos ao poder político, o que deixou de ocorrer na Europa, onde o Banco Central Europeu (BCE) obedece apenas ao sistema financeiro internacional. Para Orléan, tal anomalia constitui-se numa ameaça de morte à democracia européia. E observa que a autonomia do BCE implica o fim da democracia na região.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

"Mais sacrifícios" e queda de governos na Europa. A máscara democrática desaparece

A queda de mais um governo europeu com a inevitável renúncia de Berlusconi conta muito mais do que uma mera vitória da oposição. Até porque, em muitos casos,  a oposição exige medidas fiscais ainda mais duras, à despeito da opinião contrária dos próprios eleitores. A democracia parlamentar européia se transformou em mero condomínio partidário de gerentes pró-financistas, desaparecendo com isso a velha máscara de "democracia européia"

Berlusconi na Itália é mais um de uma longa cadeia, que incluí Portugal, Espanha, Grécia, e não sinaliza um vitória da esquerda, no seu caso - ou da direita como caso de José Sócrates em Portugal. E isso não acontece apenas nos PIGSs (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) e na Itália, a própria Inglaterra foi outro grande exemplo, com a queda de Brown, do centro-esquerdista Labour Party, e a ascensão de Cameron, do centro-direitista Partido Conservador.

Por sua vez, a dupla Alemanha e França (sede dos grandes bancos) gritaram contra a proposta de convocação de um plebiscito e agora a Comissão Europeia deu um ultimato aos parlamentares gregos, exigindo compromisso com o pacote de julho, sem o que a Grécia não verá a cor da nova parcela do empréstimo. Além disso, a União Europeia praticamente  impôs um interventor como premiê, Lucas Papademos, ex-vice presidente do BCE. No caso da Itália, "sugerem" que o país desista de fazer eleições tão cedo ou antes de se comprometer com o pacote de "reformas" prometido por Berlusconi (privatizações, liberalização do mercado de trabalho, reforma previdenciária etc). Além disso, tenta empurrar outro eurotecnocrata para o posto de premiê, o ultraliberal Mario Monti, comissário europeu em duas pastas econômicas entre 1995-2004.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Zona do Euro: políticas e políticos empoados e falidos

Zona do Euro: políticas e políticos empoados e falidos
Petros Panayotídis, Sucursal dos Bálcãs - Monitor Mercantil, 01/08/2011

Nada se faz para responder à profunda crise da Europa

Atenas - Com as habituais "receitas" do euroneoliberalismo e generosa dose de longo prolongamento do super-endividamento da Grécia, tentam os poderosos da Zona do Euro responder à profunda crise da Europa.

Em embalagem especial de super-endividamento da Grécia e com fortes garantias (leia-se atendimento incessante) dos banqueiros delinquentes, recorreram os empoados eurolíderes ao guarda-chuva protetor do estranho casal "Frau" Merkel e "Monsieur" Sarkozy após o término da última reunião de emergência dos chefes de Estado e de governo da União Européia (UE).

Diante do temor dos mercados e do poder alemão, concordaram e prometeram um pacote para enfrentar - de qualquer maneira - a assustadoramente gigantesca dívida da Grécia, a fim de se evitar que o ameaçador dominó atinja os demais países integrantes da Zona do Euro. Aliás, determinados europarceiros da Grécia exigiram como garantia o Partenon!

É possível que o primeiro-ministro grego, Geórgios Papandreu, e os papagaios governamentais que o cercam tentem servir, por uma vez mais, o prato do quadro de "sucesso", mas estão em um beco sem saída com seus sucessivos desmentidos por causa dos resultados negativos e os dilemas de suas políticas sem solução.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Só a Grécia paga mais juro da dívida que Brasil

Economia para remunerar rentistas no 1º semestre salta de R$ 42 bi para R$ 78 bi

Só a Grécia paga mais juro da dívida que Brasil
Monitor Mercantil, 29/07/2011

Segundo informação da BBC Brasil, o serviço da dívida pública brasileira consumiu 5,1% do PIB do país no ano passado, proporção inferior apenas aos 5,47% do PIB gastos pela Grécia. A partir de dados da Economist Intelligence Unit (EIU) coletados em 25 países mais a União Européia, verifica-se que outros países europeus afetados pela crise das dívidas têm uma proporção bem menor de gastos com juros. Portugal (3,04%), Espanha (1,6%), Irlanda (3,2%) e a Itália (4,53%) são exemplos de países que, apesar de enfrentarem crises de suas dívidas, pagam menos juros que o Brasil.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O Euro vai desmoronar? E daí?

O Euro vai desmoronar? E daí?
Escrito por José António Dias e Ana Paula Amaral   
Sex, 08 de Julho de 2011
Ganha força a ideia de que a “tragédia grega” de não ter dinheiro para pagar a sua dívida, mesmo com a injeção do empréstimo externo, seria a tragédia da União Europeia e poderia levar à sua implosão.
 
Já é compreensível para muitos: o pacote de “ajuda” de € 78 bilhões do FMI/União Europeia não vai ajudar em nada o povo português nem salvará a economia portuguesa da recessão. Basta olhar para a Grécia, enterrada numa crise social sem precedentes após o pacote similar de Maio de 2010, ou para a Irlanda, forçada a aceitar um empréstimo em Novembro passado para salvar a banca privada dos resultados das suas próprias iniciativas especulativas, e onde a crise não apresenta fim à vista. O resgate do FMI não está aí para relançar a economia do nosso país em bases produtivas (única maneira de fazê-lo sair da recessão), mas sim para salvar os mercados financeiros, ou seja, os interesses dos credores.
 
Ganha assim força a ideia entre os comentadores da nossa praça de que o colapso da Grécia rapidamente contagiaria os dois países também intervencionados pelo FMI/UE (Irlanda e Portugal), o que seria um golpe profundo no “projeto europeu”. A tragédia grega de não ter dinheiro para pagar a sua dívida mesmo com a injeção do empréstimo externo seria a tragédia da União Europeia (UE) e poderia levar à sua implosão. E o primeiro passo desta implosão seria a saída da Grécia do euro – podendo seguir-se a mesma solução para a Irlanda e Portugal.
 
O que é o euro?
 
Criado em finais do século passado com o objetivo de concorrer com o dólar nos mercados cambiais, o euro foi uma tentativa de unificar os interesses distintos e por vezes contraditórios das várias burguesias europeias face ao imperialismo americano sob a direção da Alemanha e da França. A adoção desta moeda única significou a perda de soberania nacional na emissão de moeda – foi o Banco Central Europeu (BCE) que passou a deter essa prerrogativa – e a imposição de critérios comuns para os défices orçamentais (exigindo-se que não ultrapassem 3% do PIB em cada país) e para as dívidas públicas (que não podem ser superiores a 60% do PIB).
 
Atualmente são 16 os países que integram o euro, ao passo que 11 outros pertencem à UE, mas mantêm as suas moedas nacionais. O que prova que há vida para além do euro, ao contrário do que muitos comentadores do sistema pretendem fazer crer…
 
O que significaria para a classe trabalhadora sair do euro?
 
Sair do euro implica regressar às moedas nacionais, o que permitiria aos governos usarem o mecanismo da desvalorização cambial para conseguirem exportações mais baratas. Isso poderia trazer a uma economia anêmica como a nossa uma vantagem concorrencial imediata nos mercados internacionais, daí que possa haver algum interesse da burguesia nesta saída para a crise.
 
Mas os países que optassem por sair da moeda única teriam também dificuldades em aceder a financiamentos externos (muito mais caros por continuarem a ser feitos em euros), e os credores veriam as suas dívidas em risco de não ser pagas. As importações seriam mais caras, os salários perderiam poder de compra, etc.
 
Mas o certo é que os trabalhadores estão já a perder poder de compra com sucessivos cortes salariais e aumentos de impostos …e estamos no euro! Quanto aos credores, quem são eles senão capitalistas financeiros que especulam com as dívidas soberanas dos países? Aliás, desde a adoção do euro que é visível uma maior sucção da mais-valia produzida pelos trabalhadores e uma cada vez maior concentração dessa riqueza na banca. O capital financeiro já ganhou muito, perderia com a saída do euro… E depois?
 
Risco de implosão da UE
 
O pânico da burguesia europeia de qualquer dos países mais endividados decidir sair do euro tem razões políticas: é provável que a própria UE implodisse, já que o nível de desacordo acerca do euro dificilmente permitiria aos países continuarem juntos no projeto europeu. E daí? Não é a UE uma união das burguesias europeias contra os trabalhadores europeus? Não tem sido uma máquina de guerra contra os direitos sociais e laborais de quem trabalha ou trabalhou? Na verdade, a desagregação do euro e da UE poderia até dar mais força à luta dos trabalhadores contra o capital, que agora estaria mais fraco e, como tal, fragmentado.
 
Que política de esquerda para o euro e a dívida?
 
Por isso não entendemos que um partido como o Bloco de Esquerda tanto se assuste com a ideia da saída do euro e da UE (ver textos da última Convenção). Assim como não entendemos que quer BE quer PCP defendam a renegociação da dívida externa, ou seja, a concertação entre governos e instituições do capital para pagamentos da dívida mais “suaves”, com juros mais “benéficos”, etc.
 
Trata-se de uma ilusão, porque significaria continuar a deixar a economia nas mãos do capital financeiro e permitir que ele continue a ditar as regras. Seria como quando alguns de nós renegociamos as dívidas das nossas casas: as condições são menos draconianas, mas os altos juros continuam lá, os lucros da banca continuam lá. As nossas casas já estão realmente pagas há anos, mas a banca não abdica de sufocar as famílias com décadas de prestações, mesmo que um pouco mais suaves…
 
Do que o povo português (e o grego, e o irlandês) necessitam é de deixarem de pagar a dívida que os sufoca, e tomarem medidas anticapitalistas para uma verdadeira recuperação econômica, a começar pelo relançamento da produção industrial, agrícola e pesqueira, sob controle dos trabalhadores. Isto poderia ser feito desde logo com os €16 bilhões que estão em off-shores e que em 2010 representavam 10% do PIB (e cuja cobrança de impostos pelo Estado faria com que o défice passasse de imediato para 1,9%!). Tais medidas certamente implicariam romper com os privilégios do capital financeiro e o euro.
 
Fonte: Jornal Ruptura no. 117, julho/2011

domingo, 3 de julho de 2011

Produção industrial dos Piigs desaba

Periféria européia à beira do colapso. Produção industrial dos Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) desaba, enquanto isso Alemanha se recupera - à custa da sua periféria.

Produção industrial dos Piigs desaba
Monitor Mercantil, 01/07/2011


A produção industrial na Grécia, Itália, Irlanda e Espanha teve contração em junho. A indústria grega teve o pior desempenho entre os países da Zona do Euro, com o índice de produção manufatureira caindo para 45,5 pontos. Abaixo de 50 pontos significa contração. Portugal o quinto integrante do grupo chamado de Piigs, não entra na pesquisa.

O índice médio da Zona do Euro ficou no menor nível em 18 meses, segundo o índice Markit: 52 pontos em junho, ante 54,6 em maio. A média do primeiro trimestre do ano era de 57,9 pontos.

O melhor desempenho em junho foi da Alemanha, com 54,6 pontos. Ainda assim, o pior nível em 17 meses.

A indústria da China teve o menor crescimento em 28 meses em junho, devido a um menor avanço das encomendas motivado pelo enfraquecimento da economia global e um aperto monetário interno. O índice oficial do setor manufatureiro caiu para 50,9 em junho, ante 52 em maio. Acima de 50 pontos indica expansão.

A produção industrial norte-americana apresentou recuperação em junho, depois de uma queda brusca da atividade manufatureira em maio. O índice de atividade manufatureira aumentou de 53,5 pontos em maio para 55,3 pontos em junho. Apesar da alta, foi o crescimento mais lento em 20 meses.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

EUA se juntam a Grécia e Irlanda

A crise econômica mundial iniciada em 2008 assumiu uma nova face, como grave crise fiscal dos Estados. A insolvência dos Estados Nacionais, provocada pela botim dos rentistas, banqueiros e financistas em geral - aqueles mesmos que foram socorridos em 2008/2009 - ameaça não apenas a periferia da União Européia, os PIIGS (Portual, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), mas o próprio centro do sistema mundial capitalistas, os EUA, algo nunca visto, nem mesmo na Crise de 29.

Catastrofismos à parte, se eventualmente os EUA recorrerem ao FMI ou derem calote, estaremos às vésperas de uma crise muitíssimo maior do qualquer outra vivida pelo Capitalismo. A oposição se aproveita politicamente toda vez que ocorre essa votação sobre aumentar limites para o endividamento. Na verdade, tentam tirar dividendos políticos, passar a idéia de que o governo está gastando demais. O mais provável é o Congresso estadunidense subir o teto legal de endividamento público, à custa de grandes cortes orçamentários e de direitos sociais, a exemplo do que faz a Grécia e outros países europeus, como Portugal. Contudo, isso provocará uma forte retração da demanda agregada, ainda não totalmente recuperada da depressão de 2008, empurrando o país ainda mais para a Crise.

EUA se juntam a Grécia e Irlanda
Monitor Mercantil, 17/06/2011


O diretor do departamento de mercados monetários e de capital do FMI, Jose Vinals, diz que se entrou "claramente numa nova fase da crise global, ou seja, da fase política da crise" e alerta contra a falta de liderança política no que respeita à crise da dívida europeia.

Vinals disse que os quatro países que mais trabalho terão a fazer para restaurar as contas públicas e reduzir a dívida são "a Grécia, a Irlanda, o Japão e os Estados Unidos".

O relatório Monitor Fiscal, do FMI, avalia que, se o Congresso norte-americano não aprovar a ampliação da dívida do país, "existe um risco de enorme reação adversa do mercado". "Manter a emissão líquida de dívida em zero iria requerer cortes de gastos irreais no resto do ano fiscal", diz o documento.

O teto da dívida dos Estados Unidos já foi elevado 70 vezes na história. Nos últimos dez anos, o limite legal foi ampliado dez vezes. "Nós temos 187 países-membros. Estamos prontos a emprestar para todos eles, mas os EUA não precisam do apoio do FMI", disse o diretor de assuntos fiscais do Fundo, Carlo Cottarelli.

Economia dos EUA segue ladeira abaixo
Monitor Mercantil,15/06/2011


Nova York (EUA) - Os temores sobre a economia norte-americana continuaram a crescer com novos dados divulgados, apontando números desapontadores para a indústria e a inflação se acelerando para o maior patamar em quase três anos.

Além disso, a confiança dos construtores atingiu o menor patamar desde setembro passado, indicando que o setor, fundamental para a retomada da economia, vai continuar a derrapar.

A combinação de dados, associada aos temores cada vez maiores de um calote da Grécia, derrubou as Bolsas mundiais.

Obama alerta para risco de colapso nos EUA
Rogério Lessa, Monitor Mercantil,14/06/2011


O presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, afirmou que o impasse sobre dívida pública, que atingiu o limite de US$ 14,3 bilhões em maio, pode gerar novo colapso econômico de proporções mundiais, num mome nto em que o país vive tímido compasso de recuperação. O governo precisa elevar o teto da dívida do país até 2 de agosto, data limite estipulada pelo Congresso.

"Não quero ver os EUA declarando default (moratória) de nossas obrigações", declarou o presidente.

Já o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, disse que encontrou "formas paliativas" para manter as operações governamentais por mais dois meses antes de o governo declarar moratória de suas obrigações.

O economista Adriano Benayon, da Universidade de Brasília (UnB), não crê que o impasse se materialize, mas recomenda acompanhar o comportamento do ouro até a decisão do congresso americano. Nesta terça-feira, o ouro fechou cotado a US$ 1.523,80, em alta de 0,89%.

"A oposição se aproveita politicamente toda vez que ocorre essa votação sobre aumentar limites para o endividamento. Na verdade, tentam tirar dividendos políticos, passar a idéia de que o governo está gastando demais", disse, lembrando que o Tesouro dos EUA já interrompeu a operação de recompra de títulos, que provocou aumento substantivo da liquidez em nível mundial.

"A declaração de Obama deve dar um novo impulso ao ouro, pois não há moeda em condições de substituir o dólar", resumiu o economista.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Entenda a crise econômica em Portugal

O jornalista Marcelo Bernardes ouviu o cientista político português Miguel Soares Domingues que dá sua opinião sobre a grave crise econômica no país europeu. Para ele, a crise não é um desdobramento da crise financeira de 2009 iniciada nos EUA ou da crise da dívida grega de 2010 e sim um reflexo de que em Portugal se constituiu um padrão de desenvolvimento econômico e social dependente, baseado num crédito exterior (endividamento), e que desde 1964 Portugal deixou de ser um país soberano para ser um Estado que se submete a decisões econômicas que flutuam com os mercados financeiros do mundo.

Entenda a crise econômica em Portugal
Marcelo Bernardes, Monitor Mercantil - 23/05/2011


Paris - Corrupção, má utilização de recursos financeiros e de fundos econômicos europeus levou Portugal a uma situação econômica semelhante a que passou pelos anos de 1910. Atualmente, aquele país tem um déficit em torno de 125% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme disse ao MONITOR MERCANTIL Miguel Soares Domingues, estudioso do assunto com Licenciatura em Ciências Políticas pela Universidade de Lisboa, Portugal, para quem essa má gestão econômica levou a "jovem democracia portuguesa à bancarrota".

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Alemanha cresce à custa do resto da Zona do Euro

PIB da região com 17 países cresceu apenas 0,8%, número puxado pelo crescimento da Alemanha e França. A política monetária do BCE, comandada pelos banqueiros alemães, transfere as perdas da crise econômica mundial para seus parceiros na UE (sua semiperiferia). Enquanto isso, Portugal entra no "socorro" e a Grécia está às portas da moratória. Superendividamente da periféria da Zona Euro, com os sacrifícios de seus trabalhadores, é o combustível da recuperação da Alemanha.

A economia da Zona do Euro (17 países que usam a moeda) cresceu 0,8% no primeiro trimestre sobre os três últimos meses de 2010. Mas o resultado não é homogêneo. Mais uma vez há uma Europa que vai bem (Alemanha e seus vizinhos) e outra muito mal (países do Sul). Maior economia do bloco, a Alemanha foi a que mais cresceu: 1,5%. O país já recuperou tudo o que perdera desde a crise global de 2008. E deve crescer 2,6% em 2,6%. Fortes performances das economias da Alemanha e da França impulsionaram o crescimento da zona do euro para acima do esperado por analistas no primeiro trimestre. Os números enfatizaram também a diferença entre o desempenho dos países do bloco.

O Produto Interno Bruto (PIB) da região com 17 países cresceu 0,8% no primeiro trimestre sobre o quarto trimestre de 2010, informou a agência de estatísticas Eurostat nesta sexta-feira, impulsionado por uma alta de 1,5% da economia alemão e de 1% da francesa. Economistas previam para a zona do euro um avanço de 0,6%. Alemanha e França são responsáveis por quase metade do PIB do bloco. Ambos os países recuperaram-se após um desempenho bastante modesto no quarto trimestre, quando o clima frio abateu a produção. Analistas de instituções financeiras inclusive apontam que há uma boa chance de o crescimento do PIB da zona do euro alcançar 2% em 2011 pela primeira vez desde 2007. Em um relatório separado, a Comissão Européia previu que a zona do euro crescerá 1,6% neste ano, com inflação acima do teto do Banco Central Europeu (BCE), a 2,6%.

A Alemanha deve continuar sendo um dos motores. Assessor econômico do governo, Wolfgang Franz disse à TV alemã ARD que a economia do país pode se expandir 3% ou mais neste ano. Os analistas são um pouco menos otimistas sobre a França, dizendo que o primeiro trimestre provavelmente foi o pico do crescimento, já que os cortes do governo terão seus impactos na economia.

Comissão Européia: Portugal irá desacelerar 2,2% em 2011

Em outro extremo estão outros países da UE, especialmente os chamados PIIGS. A Comissão Européia previu que a economia de Portugal irá desacelerar 2,2% em 2011, acima da projeção anterior de contração de 1% feita no outono do ano passado - no Hemisfério Norte. Para 2012, a Comissão Européia espera contração de 1,8% da economia portuguesa, uma inversão de direção da expectativa do ano passado de expansão de 0,8%.

A dívida do governo deve atingir 102% do PIB este ano, segundo a comissão, e ampliar-se para 107% do PIB em 2012, resultando em um rápido aumento dos pagamentos de juro. Os vencimento relacionados a juro devem se tornar o item de gasto com o crescimento mais acelerado durante esses dois anos e um grande limite à rápida redução do déficit, disse a comissão.

"A prevista ampliação da deterioração das condições do mercado de trabalho, dos cortes significantes dos salários do setor público, a aceleração temporária dos preços ao consumidor após elevação do imposto de valor agregado e uma oferta limitada de crédito pelos bancos para as pessoas físicas, devem pesar fortemente sobre os cidadãos", disse a comissão no relatório de primavera. comissão estima que a taxa de desemprego chegará a 12,3% no ano que vem.

A comissão previu também que o déficit orçamentário de Portugal ficará em 5,9% do PIB este ano, 4,5% do PIB em 2012 e a 3% do PIB em 2013, as mesmas metas estabelecidas pelo pacote de ajuda da União Européia e do FMI.

Grécia às portas moratória
A agência de classificação financeira Standard & Poor"s (S&P) reduziu em dois graus a nota da Grécia, de "BB-" para "B". A empresa alegou que a mudança se deve á crescente probabilidade de o país reestruturar sua dívida. Ou seja, decretar que não pagará a íntegra da dívida, obrigando os investidores a dividirem as perdas com os gregos, que têm tido seus direitos sociais e trabalhistas retirados.

Embora as agências de risco enfrentem forte crise de legitimidade por sua atuação desastrosa antes da crise, a decisão deve ajudar a operar os mercados, obrigando a Grécia a pagar juros mais altos para rolar sua dívida. Na prática, ao encarecer o pagamento, também deixa o país mais perto da moratória.

A nota B significa risco especulativo, o que exclui a Grécia do grupo de países mais seguros para se investir. A agência advertiu que o país está sob perspectiva negativa e que novo rebaixamento pode ser anunciado.

Um ano depois de se submeter ao programa recessivo do FMI para receber um empréstimo do fundo e da União Européia (UE), a Grécia vê sua economia despencar, alimentando a percepção de que está cada vez mais perto da moratória.

"Na nossa visão, há grande risco de que a Grécia vai tomar ação para reestruturar os termos de sua dívida comercial, incluindo os títulos do governo previamente emitidos", disse a agência Reuters, acrescentando que os países da Zona do Euro, provavelmente, pedirão aos credores que estendam o prazo de pagamento, enquanto consideram reduzir as exigências do pacote imposto à Grécia.

Por sua vez, Grécia nega que vá abandonar o euro, porém apesar do desmentido, país estuda medida
com UE, bem como reestruturar dívida. O governo grego e a União Européia (UE) negaram que a Grécia considere deixar a Zona do Euro. A informação foi divulgada pelo site da revista alemã Der Spiegel, publicação ligada ao governo alemão. A troca seria uma forma de buscar um caminho alternativo à recessiva política exigida por UE e FMI para continuar a liberar o empréstimo para o país honrar a dívida com bancos dos Estados Unidos e da Europa. Contudo, o governo alemão é um dos que mais insistem para a Grécia reestruturar sua dívida, mas o governo grego resiste, porque isso implicaria convocar os investidores a participarem das perdas.

Cresce dívida pública e déficit de orçamento em todos os países
A Convenção de Maastricht foi jogada no lixo e foram superados seus limites máximos permitidos de dívida pública e de déficit de orçamento em toda Europa, tanto nos 27 países-membros da União Européia (UE), quanto nos 17 países integrantes da Zona do Euro. Esta é a conclusão final da análise dos dados, divulgada pela Agência Européia de Estatística da UE (Eurostat).

Embora o limite máximo de déficit de orçamento permitido pela Convenção de Maastricht seja 3% do Produto Interno Bruto (PIB), já atingiu - na média - nos 27 países-membros da UE, o percentual de 6,4%. É característico que 22 dos países-membros superam o limite máximo de 3% e somente em cinco dos demais países o déficit permanece abaixo do limite máximo estabelecido pela Convenção de Maastricht. Os cinco países são os três escandinavos (Suécia, Dinamarca e Finlândia), mais o riquíssimo Luxemburgo e, que surpresa, a Estônia. Também, a situação não é nada melhor nos 17 países integrantes da Zona do Euro. Sua média de déficit do orçamento atinge 6%. Também, neste caso, 14 dos países integrantes registram déficit superior a 3% e somente três (Finlândia, Luxemburgo e Estônia) registram déficit inferior a 3%.

O triste campeão do déficit é, novamente, a Irlanda, que decolou, atingindo 32,4% de seu PIB por causa da criminosa decisão de seu governo (já expulso) de estatizar as dívidas dos bancos privados, afundando a economia do país. O segundo lugar dividem a Grécia, com 10,5%, e (quem diria) a Grã-Bretanha, com 10,4%, a qual, segundo denúncia, por escrito, da Eurostat, manipulou seus fundamentos! Seguem, a curta distância, Espanha e Portugal, com 9,2% e 9,1% respectivamente, de seus PIBs; não muito distante encontra-se a França, com 7% de seu PIB.

Não prevalece portanto o limite de 60% do PIB definido pela Convenção de Maastricht limite máximo permitido para a dívida pública. Contudo, também aqui a situação continua se agravando comprovando - de fato - de que trata-se de um muito mais profundo problema estrutural de dimensões paneuropéias e, não só por causa dos gastos dos irresponsáveis e preguiçosos gregos e demais vagabundos povos mediterrâneos que, supostamente, "vivem às custas dos laboriosos trabalhadores alemães".

Supera o percentual de 85% do PIB a dívida pública dos 17 países integrantes da Zona do Euro. Somente cinco dos países integrantes registraram dívida pública abaixo de 60% de seus PIBs, enquanto os demais 12 superam o limite permitido. No total dos 27 membros da UE, a média de dívida pública atingiu 80% do PIB. A Grécia é a "campeã", registrando o percentual de 142,8% de seu PIB, seguida pela Itália, com 119%, a Bélgica, com 96,8%, e a Irlanda, com 96,2%.

Nos últimos dois anos e meio, mais especificamente a partir da quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008 e subsequente pacotes de resgate econômico empreendidos pelos EUA e seguidos por vários países inclusive os membros da União Européia, tem ficado evidente que a trilha fiscal de muitos países, mesmo de grandes potências são insustentáveis. A defasagem entre arrecadação e despesas a cada dia aumenta. Ou seja, o Estado vem se endividando cada vez mais, para dar cabo de custear suas despesas e rolar suas dívidas, numa espiral perigosíssima.

Esse é o dilema atual dos países: a alevação do débito público, seguindo-se a uma crise financeira, é um dos principais mecanismos pelo qual uma recuperação pode ser sustentada no curto prazo. Isso ocorre via espalhamento do tipo keynesiano do consumo entre economias e pela geração de renda por meio da redistribuição de recursos entre setores, pelo Estado, financiados a custas de empréstimos contra a arrecadação e crescimento futuros. Quanto maior o débito público, subentende-se um maior aumento futuro de impostos sob fortunas e renda, o que em contrapartida, prejudica a expansão econômica, dificultando consequentemente o próprio equilíbrio fiscal.

Se, por outro lado, surge um distúrbio maior no mercado de títulos, tudo pode piorar ainda mais. Pois os financistas começam a desconfiar da capacidade de pagamento ou mesmo especular,exigindo mais em cada rolagem de dívida, especialmente em países que detêm status junto a esses de "menos seguros" para posse de ativos, coisa que ocorre com os países da periféria da Zona Euro, e não com os gigantes Alemanha e França e os países europeus mais ao Norte.

O combustível do crescimento alemão é o superendividamento dos vizinhos
Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália, expostos a crise grega, além de República de Malta, República de Chipre, Eslovênia, Eslováquia e demais países "periféricos" do euro, a aderir ao euro, a moeda única, ficam impedidos em poder desvalorizar suas próprias moedas, tornando-se pouco competitivos, o que poderia alavancar as exportações obtendo os recursos e rendimentos necessários para reativar a economia e honrar compromissos externos e fiscais. Assim, a Alemanha, potencial principal alvo dessas exportações, consegue manter um saldo comercial positivo com seus vizinhos, numa megatransferência de excedente econômico. Além disso, os especuladores com medo de inverter recursos na periféria do euro, dirigem seus capitais aos ativos à Alemanha.

Para piorar a situação fiscal desses estados europeus, há uma pressão para elevar a taxa de juros por parte da Alemanha e países mais ao Norte, que veem a "necessidade" emergente de combate dentro da Zona Euro os reflexos da atual inflação mundial. Os superendividados países da periferia européia e de todos os países que tomam empréstimos pagando altas taxas de juros, pressionam contrariamente lembrando que as altas taxas de juros dificultarão, ainda mais, os esforços para gerenciar as dívidas. O Banco Central Europeu (BCE) manterá neste ano sua taxa de juro em 1% que debita para o refinanciamento dos bancos da Zona do Euro, e vigora desde maio de 2009, quando a Europa havia mergulhado na queda em consequência da crise internacional. Apesar disso, a tendência é que as taxas de juros serão novamente elevadas ainda neste ano.

A recente falência dos estados europeus com um superendividamento público após o socorro aos bancos tem um aliado. O maior responsável é a Alemanha - o Estado mais rico e poderoso da UE, e não menos com o maior sistema bancário privado - controla politicamente as instituições comunitárias da política monetária, especialmente o BCE, aplica sua receita aos países-irmãos mais pobres, a barbárie social - as reformas no mercado de trabalho, os aumentos dos impostos e o congelamento e cortes de salários no setor público estão incluídos nas mais sensíveis, sob o ponto de vista político - que estrangulam a economia e inibe o exercício de alguma política de crescimento. Política esta que constituiria o único caminho de saída da crise e da possibilidade de resgate das dívidas.

Falência da UE
A UE de hoje existe um predomínio da economia - e, acima, do sistema financeiro - sobre a política. Em outras palavras, um predomínio do Banco Central Europeu (BCE) e dos bancos alemães, embora não exclusivamente. Tem ocorrido paralisia da sonhada "Europa dos cidadãos e de uma Europa política" da social-democracia. Essa política do governo alemão apesar de levar ao suicídio das finanças públicas e mesmo do "projeto de unidade europeia", beneficia os capitalistas financistas, que tiveram severas perdas em 2008-2009, e são justamente a Alemanha e França onde são encontrados os mais poderosos. Esse é o mecanismo do neo-imperialismo do grande capital germânico: "passar pra frente" sua crise aos seus países-irmãos.

E por que outras burguesias não se levantam? Porque apesar dos prejuízos ao seu estado-nacional e do sacrifício aos trabalhadores de seus países, beneficiam-se da mesma maneira, mesmo que em menor grau. Assim, enquanto durar o controle dos capitalistas sobre a União Europeia essa situação prosseguirá. Os trabalhadores dos países da periféria da Zona Euro seguirão espoliados. Uma unidade européia de verdade só é possível sem os capitalistas a frente do poder.

Com informações: Monitor Mercantil online, Agência Reuters, Agência Estado

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O suicídio do Euro e os banqueiros alemães

A recente falência dos estados europeus após o socorro aos bancos comerciais tem um mecanismo causal: o Banco Central Europeu (BCE) não empresta recursos diretamente ao Estados da Zona do Euro e da UE. Isso mesmo, não empresta aos governos diretamente, mas por intermédio de bancos comerciais.

O BCE concede empréstimos aos bancos comerciais com taxa de juros de 1%. Em seguida, os bancos comerciais compram dos Estados seus bônus, exigindo-lhes taxas de juros de 4% ou 5% ou até mais altas, arrancando o couro dos Estados. Em seguida, depositam os mesmas bônus ao BCE como garantia e retomavam empréstimos de iguais volumes com juro de 1%. Quando os bancos veem que os Estados estão com dificuldade de reciclar seus títulos, preparam ataques especulativos contra os países mais fracos da Zona do Euro. Foi assim que desabou Irlanda, desabou Grécia, desabou Portugal, enquanto prepara-se também Espanha e já estão na fila Itália e Bélgica.

O maior responsável por tal política suicida é a Alemanha, o Estado mais rico e poderoso da UE, e não menos com o maior sistema bancário privado, proibiu ao BCE de imprimir dinheiro. Ainda, proibiu que o BCE comprasse títulos diretamente dos governos dos países-membros da UE. Sua receita aos países-irmãos mais pobres é a barbárie social das medidas de frugalidade fiscal que estrangulam a economia e inibe o exercício de alguma política de crescimento, política esta que constitui o único caminho de saída da crise e da possibilidade de resgate das dívidas.

A política do governo alemão é aquela que leva o euro ao desespero, ao suicídio, mas por outro lado, beneficia os capitalistas financistas locais. Enquanto durar o controle dos capitalistas sobre a União, medidas simples não serão implantadas. Esse o mecanismo do neo-imperialismo do grande capital germânico: "passar pra frente" sua crise aos seus países-irmãos. E por que outras burguesias não se levantam? Porque se beneficiam do mesmo próximo.

Política alemã leva euro ao suicídio
BCE deveria emprestar diretamente a Estados para deter especuladores
Laura Britt | Sucursal da União Européia | Monitor Mercantil, 25/04/2011


Zurique - Surpreendente - no mínimo - a capa da revista britânica The Economist em uma de suas últimas edições. Um senhor, de terno e gravata, que, ao invés de cabeça, tem uma moeda de um euro e aponta o cano de um revolver contra sua têmpora, prepara-se para apertar o gatilho e suicidar-se. "Não faça isso!" é o título da revista.

A verdade é que a ilustração dos riscos políticos que ameaçam a moeda comum européia seria mais fiel à realidade se o revólver que prepara-se para estourar miolos do euro fosse empunhado pela chanceler alemã "Frau" Angela Merkel. A política do governo alemão é aquela que leva o euro ao desespero, ao suicídio.

Despencam as defesas de proteção do euro. O Mecanismo Europeu de Proteção, totalizando 750 bilhões de euros, constituído pela União Européia (UE), revela-se insuficiente para enfrentar - ao seu nascituro - os ataques especuladores contra os países mais fracos da Zona do Euro. Desabou Irlanda, desabou Grécia, desabou Portugal, enquanto prepara-se também Espanha e já estão na fila Itália e Bélgica.

Dilema cruel: permanecerão na Zona do Euro os países que, um após outro, declaram falência, ou serão obrigados a retornar às suas moedas nacionais em busca de salvação? O norte-americano Wall Street Journal posiciona a questão cruamente: "Estes países desejarão permanecer membros de uma união, na qual nada mais existe, a não ser regiões pobres e escravas?", questionou sem meias-palavras.

Solução existe para o euro. Solução simples na feição: o Banco Central Europeu (BCE) deverá começar emprestando recursos diretamente ao Estados da Zona do Euro e da UE. Conceder-lhes empréstimos com vencimentos a longo prazo (dez ou mais anos) com baixas taxas de juros, da ordem de 1% ou de 2%. Emprestar aos governos diretamente, não por intermédio de bancos comerciais.

Cinco por um
Até agora, o BCE concedia empréstimos aos bancos comerciais com taxa de juros de 1%. Em seguida, os bancos comerciais compravam dos Estados seus bônus, exigindo-lhes taxas de juros de 4% ou 5% ou até mais altas, arrancando o couro dos Estados. Em seguida, depositavam os mesmas bônus ao BCE como garantia e retomavam empréstimos de iguais volumes com juro de 1%.

Emprestando aos Estados diretamente, o BCE torna esses Estados inatingíveis contra ataques especulativos. Ainda, reduz drasticamente em termos de tempo a dívida pública, transferindo-a gradualmente ao BCE com baixas taxas de juros. Restringe a barbárie social das medidas de frugalidade que estrangulam a economia e permite o exercício de alguma política de crescimento até para os países mais fracos, política esta que constitui o único caminho de saída da crise e da possibilidade de resgate das dívidas.

Emissão de dinheiro significa, essencialmente, esta política. Aquilo que na imaginação popular é descrito com a frase "o BCE ligará suas impressoras e imprimirá dinheiro". Não se trata nada de novo. Isto estão fazendo os bancos centrais de todos os países desenvolvidos do mundo. O Federal Reserve (Fed) dos EUA já imprimiu e lançou ao mercado nos últimos meses mais de US$ 700 bilhões para fortalecer a economia norte-americana. Só o BCE não faz isso.

A Alemanha proibiu ao BCE de imprimir dinheiro. Ainda, proibiu que o BCE comprasse títulos diretamente dos governos dos países-membros da UE. Finalmente, o BCE compra bônus por intermédio de bancos comerciais, com o processo já descrito, por intermédio do qual enriquecem os bancos comerciais e declaram falência os Estados por causa das usurárias taxas de juros que são obrigados a pagar.

A Alemanha recusa-se a mudar de política. Proíbe, por ora, emissão de euro-debêntures. "A contínua emissão de dinheiro não é solução" doutrina. "As máquinas impressoras de dinheiro não devem cair nas mãos de políticos" decreta o ministério de Economia da Alemanha. Se continuar assim, o euro não sobreviverá, em hipótese alguma, com sua feição atual.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Guerra comercial é nova expressão da crise internacional

A guerra comercial é uma nova expressão da crise econômica internacional

Alejandro Iturbe, da Liga Internacional dos Trabalhadores

Ante o fiasco da última reunião do G-20 para evitar uma “guerra comercial” ou “guerra de divisas” entre as principais potências imperialistas, na qual também estará envolvida a China, os analistas começaram a definir a atual crise econômica internacional como uma “crise mutante”.

Conquanto se trate mais de uma frase de efeito jornalístico que de uma definição profunda, este conceito é relativamente verdadeiro: desde o seu início, em agosto de 2007, a crise foi “mutando” a sua forma de manifestar-se, seja pela sua própria evolução como pelas ações dos governos para enfrentá-la e as consequências destas ações.

A primeira fase da crise
A primeira manifestação visível da crise foi o estouro da grande bolha especulativa baseada no mercado imobiliário dos EUA e de outros países imperialistas. Em um ano, a queda do Lehman Brothers mostrou a fragilidade do sistema bancário-financeiro internacional, que esteve à beira da bancarrota global.

Nesse momento, a crise expressou-se com muita força no conjunto da economia e teve dois trimestres (o último de 2008 e o primeiro de 2009) com as piores quedas em décadas do PIB de todos os países imperialistas (um acumulado de mais de 112%), equivalentes ao primeiro impacto da crise de 1929. A queda na produção foi ainda maior e oscilou, segundo os países, entre 15 e 20%.

A segunda fase
Ali começaram a atuar os megapacotes de ajuda dos governos imperialistas e outros, como Brasil, China e Rússia, aos bancos e mercados financeiros, num total de 24 trilhões de dólares (40% do PIB anual mundial). Assim, evitou-se a quebra do sistema financeiro mundial e também se cortou a dinâmica de “plano inclinado” em que a crise arrastava o conjunto da economia.

Abriu-se, então, um período de frágil recuperação cujo pico se deu no primeiro trimestre de 2009, especialmente nos EUA, China, Alemanha e Japão. Podemos defini-lo como de “frágil recuperação”, porque se baseou precisamente nestes pacotes e não em um aumento sustentado do investimento burguês.

A terceira fase
No final de 2009, começa o que denominamos uma terceira fase da crise, que se manifestou por meio de dois processos. De um lado, estourou a crise fiscal (de rendimentos e pagamentos do Estado) de vários países europeus e da Eurozona, como Grécia e Irlanda, ante a impossibilidade de pagar suas dívidas. Houve também uma crise do euro no seu conjunto e a sua própria subsistência como “moeda européia” ficou comprometida.

Nesse momento, a crise adquiriu uma clara dimensão política com a resistência aos planos de ajuste dos seus governos por parte dos trabalhadores e jovens da Grécia, França, Espanha, Reino Unido, Itália e Portugal. A definição de uma feição central da dinâmica da crise econômica passou a jogar no terreno das lutas de classes.

Por outro lado, a frágil recuperação nos EUA mostrou as suas dificuldades de se sustentar e começou a se transformar, segundo palavras do economista Nouriel Roubini, em um “crescimento anêmico”, incapaz sequer de evitar o crescimento do desemprego no país.

Inicia-se a guerra comercial
Foi precisamente a insatisfação com a situação, especialmente o aumento do desemprego, que já se aproxima de 10%, que provocou a derrota de Obama nas eleições legislativas de “médio termo”, nas quais o seu governo perdeu a maioria parlamentar.

Debilitado e obrigado a cogovernar com um parlamento opositor a partir do próximo ano, o governo de Obama apelou ao Federal Reserve (FED, banco central dos EUA) para aplicar uma política de emissão de 600 bilhões de dólares nos próximos 8 meses, para comprar Bônus do Tesouro do seu próprio país em uma tentativa de sair do atoleiro.

Ao lançar uma nova catarata de dólares no mercado internacional, esta medida tem o efeito de desvalorizar a cotação internacional do dólar frente às outras moedas. Assinalemos que bastou o anúncio da medida para que o dólar se desvalorizasse em 10% nos mercados internacionais. E a sua cotação seguirá caindo à medida que o FED for emitindo esses dólares.

Profundo impacto mundial
Quando um país desvaloriza a sua moeda, isso tem um efeito imediato sobre o seu comércio internacional. Por um lado, “rebaixa” os seus custos internos e barateia o preço dos seus produtos exportáveis; por outro, encarece o preço nacional dos produtos importados. Em outras palavras, tende a aumentar as suas exportações e a diminuir as suas importações. Por isso, ao explicar a medida, Obama declarou que o seu objetivo é “duplicar as exportações nos próximos anos”.

Tratando-se de Estados Unidos, a principal economia do planeta, uma mudança na dinâmica do seu comércio exterior terá um impacto muito profundo em toda a economia internacional. Nos últimos 20 anos, os EUA transformaram-se no principal importador do mundo, especialmente de produtos industriais de consumo. Por exemplo, em 2008, importou um valor total de mais de 2 trilhões de dólares (uma cifra maior que o PIB do Brasil e Argentina juntos) e acumulou um déficit na sua balança comercial (saldo negativo entre exportações e importações) de mais de 600 bilhões de dólares. Outras grandes economias do mundo, como Alemanha, Japão, China e Índia, dependem diretamente dessas importações.

Em outras palavras, ao procurar aumentar as suas exportações e diminuir as suas importações, o imperialismo estadunidense lançou uma ofensiva para resolver a sua crise na costa dos outros imperialismos (como os europeus e japonês), dos países semicoloniais e também dos seus próprios trabalhadores.

Ataques à classe trabalhadora estadunidense
A “ofensiva comercial” lançada por Obama vem acompanhada pela continuação de fortes ataques à classe operária estadunidense e ao seu nível de vida para melhorar a competitividade nacional.

Este ataque vem, em realidade, pelo menos desde a década de 80, com o governo de Reagan. Mas, com a crise, deu um salto. Expressa-se em um desemprego de 10%, na redução das plantas das empresas e na queda de salários e benefícios. Muitas empresas, como a GM, exigiram de seus trabalhadores que aceitem uma redução salarial à metade. Todo isso se manifestou em um aumento da pobreza que afeta 14% dos habitantes dos EUA, cifras inéditas há décadas. Ao mesmo tempo, a desvalorização do dólar pode também gerar um processo inflacionário interno que deteriorará ainda mais esse nível de vida.

Também se acirra a política já em curso de cortes orçamentários em serviços como saúde e educação públicas, e se deterioram outros, como segurança, bombeiros e até a coleta de lixo. Segundo uma informação recente, a redução orçamentária sugerida pela comissão bipartidária formada por Obama é tão grande que poderia conduzir a “uma explosão social similar às que se viram recentemente em Paris e Londres” (Clarín, 11/11/2010)

Maior fragilidade do sistema monetário mundial
A política monetária implementada por Obama agrega ainda mais fragilidade ao atual sistema monetário mundial, de moedas de cotação “flutuante”. Vejamos alguns elementos históricos para entendê-lo.

Uma vez decidido o curso da Segunda Guerra Mundial, em 1943, os Estados Unidos aproveitaram a hegemonia econômico-político-militar conseguida para impor, em uma reunião celebrada em Bretton Woods, a proposta do economista britânico John Maynard Keynes de criar uma “autoridade” (o Fundo Monetário Internacional) e um sistema monetário mundial, baseado em uma determinada paridade de conversão entre o ouro e o dólar, que passou a ser a “moeda padrão” do sistema, respaldada pelo ouro armazenado pelo FED em Fort Knox.

Os EUA não só possuíam a “moeda mundial”, como eram também os donos da “máquina de imprimir dólares”. Como não se tinha estabelecido nenhum mecanismo de auditoria para verificar se a quantidade de dólares circulantes no mundo coincidia com o ouro armazenado em Fort Knox, o seu governo e a sua burguesia dispunham de capital a seu bel-prazer pelo simples mecanismo de imprimir bilhetes.

Esta “sobreimpressão” de dólares foi uma das razões que levaram à queda do sistema monetário de Bretton Woods, por decisão do governo de Richard Nixon, em 1971. Este definiu unilateralmente que o dólar já não seria conversível em ouro. Isto é, os possuidores de dólares no mundo não podiam reclamar aos EUA que respaldasse com ouro esses bilhetes.

Conquanto depois da ruptura dos acordos de Bretton Woods o dólar seguiu sendo, de fato, a moeda padrão do mercado mundial, agora o fazia sem a “ordem monetária formal”, nem a suposta segurança que garantiam estes acordos.

Uma das consequências desta ruptura foi que o sistema monetário internacional se tornou bem mais instável, sujeito às flutuações permanentes das cotações das moedas, especialmente do dólar e das moedas “duras” dos países imperialistas. E também ficou bem mais exposto às intervenções especulativas no mercado de moedas.

É neste enquadramento que Obama inicia a “guerra de divisas” que agrega maior fragilidade a um sistema já frágil porque situado no meio de uma crise econômica internacional e, ademais, afeta e prejudica as outras moedas de importância no mundo, como o euro, o iene ou o yuan.

A impossibilidade de outro Bretton Woods
Diante da perspectiva de guerra cambial e as suas graves consequências, vários setores burgueses começaram a falar da necessidade de um “novo Bretton Woods”. Em um artigo publicado pelo Financial Times, Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, propôs criar um novo sistema monetário mundial baseado em uma cesta de moedas (o dólar, o euro, o iene, a libra e o yuan chinês) que tome como referência o padrão ouro para as paridades entre essas moedas.

No entanto, esta proposta, aparentemente “racional” frente à atual “anarquia” monetária internacional, é hoje absolutamente inaplicável. O acordo de Bretton Woods só foi possível porque foi impulsionado pela burguesia imperialista estadunidense, que aproveitou a sua incontestável hegemonia no mundo para pôr esse sistema a serviço dos seus interesses.

Hoje, essa mesma burguesia está na contramão de reconstruir um acordo desse tipo porque assim pode aproveitar as brechas de um sistema monetário mais “livre”. E, sem o seu acordo e impulso, outro Bretton Woods é impossível. E nenhum país ou grupo de países está em condições de deslocar o dólar como moeda padrão. Em última instância, é uma expressão de que, no enquadramento de uma decadência geral do sistema capitalista imperialista, a hegemonia estadunidense segue vigente.

Inclusive resulta extremamente difícil criar “moedas regionais”, como o mostra a crise do euro ou a impossibilidade da China de levar adiante a sua bravata de criar uma “moeda asiática”.

As dificuldades da EU
A “guerra comercial” encontra mau parada às burguesias imperialistas européias, especialmente a dos países integrantes da “eurozona”. Estas burguesias já tinham graves problemas: um crescimento econômico mais anêmico que o dos EUA; a impossibilidade de ter uma política monetária flexível pela contradição de usar uma moeda comum (o euro) sem unificação dos países; uma crise fiscal em vários países e a necessidade de efetuar duríssimos ataques aos trabalhadores para sair dessa crise fiscal, com uma forte resposta de parte destes. Uma situação que, de conjunto, põe em risco a própria existência do euro, um mecanismo de “defesa de espaços” frente ao imperialismo estadunidense, resultado de uma construção de mais de 50 anos.

A anterior desvalorização do euro frente ao dólar abria uma possibilidade de exportar mais e começar a sair do pântano. Foi o caso da Alemanha, a economia mais forte do continente: no início deste ano, teve uma melhora nas suas exportações industriais, especialmente para os EUA, que permitiu um verdadeiro crescimento da economia do país. Agora, com a desvalorização do dólar e o aumento da cotação do euro, essa porta começou a se fechar e as suas consequências já se sentem: em setembro passado, a produção industrial alemã caiu 0,8%.

A desvalorização do dólar significa também que as burguesias europeias deverão redobrar os seus ataques contra os seus trabalhadores, pela necessidade muito maior de rebaixar os salários e endurecer ainda mais as condições laborais para reduzir custos e manter a “competitividade” internacional frente aos Estados Unidos.

Mas estes ataques dar-se-ão em um momento em que os trabalhadores europeus já estão lutando, em vários países, contra os planos de ajuste dos seus governos e abrem a possibilidade de que essa luta se incremente ainda mais.

As medidas do FED também afetarão o Japão, cuja economia, depois de anos de estancamento e queda, teve uma débil recuperação no final de 2009 e início de 2010, baseada nas exportações aos EUA. Cabe assinalar que o governo japonês foi o primeiro, antes dos Estados Unidos, a lançar medidas protecionistas por meio da desvalorização do iene.

A pressão sobre a China
Uma feição importante da política dos Estados Unidos é a pressão sobre a China para que rompa o sistema de paridade fixa entre o dólar e o yuan, ferreamente controlado pelo governo chinês, e passe a um sistema de cotação flutuante do yuan, sujeito aos vaivens do mercado. Assinalemos que o principal comprador dos produtos industriais chineses são os EUA (30% das suas exportações).

Atualmente, o sistema é de “paridade fixa”: se o dólar se desvaloriza, o governo chinês desvaloriza o yuan na mesma proporção, pelo que o efeito monetário no comércio entre ambos os países é nulo. Pelo contrário, se o yuan passasse a ter uma cotação livre, o grande agregado de divisas internacionais realizado pela China, pelo saldo favorável da sua balança comercial, levaria a uma subida do preço do yuan frente ao dólar.

Isto encareceria o preço internacional dos seus produtos industriais, algo que, ademais, somar-se-ia à alta de custos internos como resultado dos aumentos salariais que os trabalhadores de importantes fábricas do país estão conseguindo com suas greves. De conjunto, o processo prejudicaria suas exportações, que já vêm sofrendo uma dinâmica negativa como efeito da crise econômica internacional. Digamos que, atualmente, a maioria dos ramos centrais da economia chinesa está com capacidade ociosa, isto é, em uma situação de superprodução. Por isso, até agora, o governo chinês se nega a romper a paridade cambial fixa.

Entrar no mercado financeiro chinês
Alguns analistas econômicos internacionais assinalaram que, apesar de todo o peso que terá uma “guerra comercial”, o verdadeiro objetivo de Obama ao pressionar a desvalorização do yuan é conseguir a abertura e o livre acesso ao mercado financeiro chinês. Trata-se de um mercado financeiro muito importante, até agora ferreamente controlado pelo governo chinês, por meio de vários bancos estatais, que, anualmente, se vê aumentado pelos grandes saldos que obtém o país no comércio internacional.

Esta análise seria coerente com o atual caráter do sistema capitalista imperialista mundial e da burguesia imperialista, cada vez mais voltada ao setor financeiro e à especulação. Ingressar no mercado financeiro chinês, do qual até agora está fora, pelo menos diretamente, permitiria à burguesia imperialista estadunidense aceder a um rico “banquete” de capitais que reforcem o seu próprio circuito.

Até agora, o governo chinês vem resistindo a estas pressões, aproveitando as importantes reservas de divisas internacionais que acumulou nestes anos e que lhe permitiram manter um crescimento da sua economia graças aos pacotes governamentais e ao crédito estatal.

No entanto, é quase impossível que esta situação se mantenha ad infinitum. Dois fatores a jogam na contramão. Por um lado, a crise econômica internacional já diminuiu as suas exportações e a própria política monetária do governo de Obama pode acentuar esta tendência, de maneira que as suas reservas tenderão a diminuir. Por outro lado, a própria dinâmica interna do mercado financeiro chinês, com numerosas “bolhas especulativas” passíveis de estourar e um nível a cada vez mais alto de inadimplência e morosidade.

Em outras palavras, o mais provável é que, cedo ou tarde, o governo chinês termine cedendo às pressões do imperialismo e só trate, em realidade, de discutir os tempos e ritmos dessa mudança.

Possíveis perspectivas
Nas suas diferentes manifestações, a crise econômica internacional aberta em 2007 continua. Sem resolver, ou resolvendo muito parcialmente, os problemas das fases anteriores, cada fase agrega novos problemas para o sistema capitalista imperialista.

[• Fonte: www.litci.org/pt - Opinião Socialista, 10/1/2011]

sábado, 15 de janeiro de 2011

Ajuste fiscal a serviço do setor financeiro

Todo ajuste fiscal é posto a serviço dos interesses do setor financeiro, mesmo quando acontece na Europa.

UE põe ajuste fiscal a serviço dos interesses do setor financeiro
Monitor Mercantil,12/01/2011

"Nada representa mais os mega interesses corporativos e financeiros do que a União Européia (UE). Quando Bruxelas orienta pelo ajuste fiscal, não é qualquer ajuste fiscal, mas aquele que protege determinados interesses e determina, em geral, cortes nos gastos sociais."

A avaliação é do economista Adhemar Mineiro, da Rede Brasileira Pela Integração dos Povos (Rebrip), ao comentar a pressão da UE sobre os países periféricos na tentativa de preservar o euro:

"Nem os Estados Unidos nem o Japão têm sido tão conservadores. Todos vêm adotando medidas regulatórias, que, mesmo sendo tímidas, repartem o ajuste com o mundo financeiro, mas na Europa não."

Mineiro identifica contradição fundamental no bloco: "A UE é uma união política e comercial e caminha para uma união financeira, embora países importantes, como Inglaterra, Suécia e a Hungria, ainda mantenham suas moedas. Mas não é uma união fiscal. O Orçamento não é discutido em nível regional."

O governo húngaro impôs taxas extras ao setor financeiro, limitou os poderes da Corte Constitucional sobre assuntos fiscais, para que as empresas afetadas não possam apelar das decisões, e nacionalizou os fundos de pensão privados para gerar receitas orçamentárias suplementares. "O aperto fiscal à custa dos gastos sociais e aposentadorias, que mantém Portugal em recessão, é exigido pela Comissão Européia. Mas iniciativas como a da Hungria, que procura equacionar as contas públicas cobrando mais impostos de bancos, é rechaçado."

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

FMI: EUA podem ser contagiados por crise dos Piigs

FMI: EUA podem ser contagiados por crise dos Piigs
Monitor Mercantil, 17/12/2010

Para Fundo, as vulnerabilidades da Irlanda são as mesmas da Zona do Euro

O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou que a crise na Irlanda pode ter impacto significativo em outros países da Zona do Euro, sobretudo Espanha, Grécia e Portugal - quatro dos cinco integrantes dos Piigs, na sigla em inglês, que inclui a Itália.

Para o FMI, a crise pode afetar também Estados Unidos e Reino Unido. "O risco de contágio da Irlanda é significativo, por causa da percepção do mercado de que as vulnerabilidades da Irlanda são semelhantes às de outras economias periféricas da Zona do Euro", advertiu o FMI.

Em relatório sobre o pedido do governo irlandês de empréstimo por três anos de 22,5 bilhões de euros, aprovado quinta-feira pela instituição, o FMI alerta que a Irlanda não vai atingir a meta de baixar seu déficit no Orçamento a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2015, a menos que faça mais cortes de gastos ou encontre novas formas de aumentar a arrecadação de impostos.

Os economistas do FMI prevêem que a economia da Irlanda vai sofrer uma recessão este ano e começar a crescer modestamente no próximo ano.

Eles projetam avanço de 1% para 2011; 1,9% em 2012; 2,4% em 2013 e 3% em 2014. Como as previsões são inferiores às do governo, o FMI prevê que o déficit da Irlanda fique em 4,8% em 2015.

Este é o ano fixado pela União Européia (UE) para o governo baixar o déficit a 3% do PIB. A Irlanda terá eleição geral no início de 2011 e as pesquisas indicam derrota do impopular governo. O vice-diretor do departamento europeu do FMI, Ajai Chopra, porém, insiste em que um novo governo não abandonaria as principais metas do programa imposto pelo fundo. Ou seja, para FMI, eleições são mera formalidade.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A inevitável moratória de Portugal

Portugal mais perto da moratória
Monitor Mercantil online, 30/11/2010

Segundo BC do país, aplicações em papéis da dívida cresceram 87% em 2010

O banco central de Portugal divulgou relatório reconhecendo as dificuldades do país para saldar sua dívida soberana, o que mantém o país na "dependência permanente e de larga escala" em relação ao Banco Central Europeu (BCE). Já o site do Financial Times noticiou que os banqueiros privados da Zona do Euro admitem estar com dificuldade para captar dinheiro no mercado.

Segundo o BC de Portugal, as investidores, incluindo os bancos, aplicaram este ano 17,91 bilhões de euros nas dívidas públicas do país até setembro, 87% acima dos 9,58 bilhões de euros do mesmo período de 2009.

Desde o começo do ano, essa exposição já cresceu 77%. Os três maiores bancos de capital aberto de Portugal - Comercial Português, BPI e Espírito Santo - têm 233 bilhões de euros em ativos.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Trabalhadores irlandeses exigem calote da dívida

A Irlanda, agora um PIIGS, porém vendida ao longo da década de 2000 como modelo de desenvolvimento, vive momentos de agonia econômica. O governo que no último ano endividou o Estado para injetar recursos públicos no socorro aos bancos, em conluio com os banqueiros, que agora cobram os juros dessa dívida, recorreu a um mega-empréstimo junto a União Européia, que deve arrochar e sobre-endividar o país de maneira que nunca se viu. Contudo, os trabalhadores irlandeses não aceitam tal situação, vão às ruas em protesto e exigem o calote da dívida, fato que até a grande mídia é obrigada a noticiar.

Governo irlandês autoriza ministro a finalizar negociações em Bruxelas
EFE, EM DUBLIN - 28/11/2010

O governo irlandês autorizou seu ministro de Finanças, Brian Lenihan, a finalizar neste domingo com os colegas comunitários as negociações sobre o plano de resgate da União Europeia (UE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) ao país.

Segundo uma porta-voz oficial, os últimos detalhes do plano de resgate, avaliado em 85 bilhões de euros, serão "finalizados" nas próximas horas em Bruxelas durante um encontro dos 27 ministros de Economia e Finanças.

A fonte explicou que o Executivo tomou esta decisão no sábado à noite, após manter em Dublin uma reunião de seu Conselho de Ministros à qual assistiu o governador do Banco Central da Irlanda, Patrick Honohan.

Aparentemente, as partes tentam fechar os últimos detalhes do plano de resgate, concretamente a questão sobre as taxas de juros que serão aplicadas aos empréstimos, que poderiam oscilar entre 5% e 6%.

Nas últimas horas, voltou-se a falar de um possível aumento do controvertido imposto sobre as empresas, como condição para que Irlanda possa buscar apoio nos fundos da UE e o FMI.

Fixada em 12,5%, o Governo irlandês considera esta chave para atrair ao país investimentos estrangeiros, enquanto os membros comunitários a veem como vantagem "desleal".

Irlanda deve pagar juros mais altos que a Grécia em pacote de ajuda
DA FRANCE PRESSE, EM DUBLIN - 27/11/2010

A Irlanda deve pagar juros de 6,7% pela ajuda financeira de 85 bilhões de euros concedida pela União Europeia (UE) e pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), muito mais que os 5,2% acordados com a Grécia há alguns meses, indicou nesta sexta-feira o canal de televisão público RTE.

Michael Noonan, porta-voz responsável pelo setor de finanças do Fine Gael, o principal partido de oposição, estimou que a taxa é "muito mais elevada e impossível de ser aceita do ponto de vista de uma previsão de crescimento razoável".

"Mesmo que o governo esteja vivendo seus últimos dias, não deve abandonar o interesse nacional e aceitar cláusulas intratáveis nas negociações", afirmou.

O jornal "The Irish Times" indicou, no entanto, que os juros seriam inferiores a 6,7%, citando uma fonte que participa das negociações em curso.

De acordo com esta fonte, a taxa de juros do empréstimo ainda é objeto de discussão e não deve ser tão alta, mesmo se superar os 5,2% aplicados à Grécia.

Irlandeses organizam protesto contra pedido de auxílio
REUTERS, EM DUBLIN - 27/11/2010

A Irlanda está prestes a se tornar o segundo país da zona do euro a receber um pacote de auxílio, mas poucos esperam que o resgate ponha fim à crise que vem atingindo a moeda do bloco europeu desde o ano passado.

Dezenas de milhares de irlandeses são esperados nas ruas de Dublin neste sábado em um protesto organizado por sindicatos contra a decisão do governo de buscar ajuda da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) para ajudar o país a lidar com seus bancos quase falidos e com o crescente deficit orçamentário.

Autoridades europeias esperam que o programa de ajuda de 85 bilhões de euros irá impor um limite à crise da dívida que começou na Grécia e que agora ameaça envolver países como Portugal e Espanha, a quarta maior economia da zona do euro.

Mas pressões de mercado já deram sinais de que não irão diminuir. O euro sofreu sua maior baixa contra o dólar em dois meses na sexta-feira, e investidores querem comprar títulos de dívida irlandeses, portugueses e espanhois em vez de títulos alemães, por conta da alta recorde registrada.

As condições do pacote de auxílio da Irlanda com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional devem ser reveladas no domingo.

Pesquisa aponta maioria a favor de calote da dívida na Irlanda
FRANCE PRESSE, EM DUBLIN

A maioria dos irlandeses quer que o governo pare de pagar suas enormes dívidas, segundo uma pesquisa publicada neste domingo pelo jornal "Sunday Independent", num momento em que União Europeia e o FMI (Fundo Monetário Internacional) negociam os últimos ajustes de um plano de ajuda internacional para o país.

Das 500 pessoas entrevistadas, 57% acreditam que a Irlanda não deveria pagar a dívida, contra 43% que pensam o contrário, aponta a pesquisa do Instituto Quantum Research. A reivindicação de não pagar a dívida foi uma das bandeiras do protesto que reuniu entre 50 mil e 150 mil irlandeses em Dublin no sábado.

Além disso, a pesquisa revela que dois terços da população é contra a adoção das novas medidas de austeridade anunciadas pelo governo, que incluem a redução do salário mínimo

sábado, 20 de novembro de 2010

Socorro a Irlanda: dos trabalhadores direito aos banqueiros

Mais um flagrante ataque dos governos dos PIGs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) aos seus trabalhadores. Se não bastasse quebrar as contas públicas com socorros aos bancos e os banqueiros na sequência exigirem arrocho fiscal para o Estado "honrar" seus compromissos (junto aos banqueiros detentores de dívida pública), esses exigem que empréstimos da UE e do FMI vão diretamente à tesouraria dos bancos. Lógico que quem paga os empréstimos da UE à Irlanda são os trabalhadores irlandeses e do restante da UE através do arrocho fiscal e do endividamento público, pela via do aumento dos impostos e queda na qualidade dos serviços públicos.

Da sociedade direto para a banca
Monitor Mercantil, 16/11/2010

Juncker: UE admite empréstimo direto a bancos

IRLANDA ABRE MÃO DE GERENCIAR EMPRÉSTIMO DA UE E DO FMI PARA SALVAR BANCOS QUE LEVARAM À QUEBRA DO PAÍS

A União Européia (UE) deve participar do empréstimo para evitar a quebra dos bancos da Irlanda, em vez de destinar o dinheiro ao governo do país. A informação é do líder dos ministros de Finanças da Zona do Euro, o Eurogrupo, Jean-Claude Juncker.

Em entrevista ao chegar ao encontro dos ministros dos 16 países que usam o euro, Juncker, também primeiro-ministro de Luxemburgo, foi indagado se era possível o grupo destinar o empréstimo diretamente aos bancos irlandeses: "Os acordos são realizados de tal forma que isso poderia ser feito", admitiu.

Com receio do forte desgaste interno, o primeiro-ministro da Irlanda, Brian Cowen, insiste em que, embora negocie com seus pares europeus "para normalizar as condições do mercado", a Irlanda nega ter pedido qualquer empréstimo.

Mas as autoridades da Zona do Euro alegam que os receios dos investidores sobre a situação do setor bancário irlandês são tão grandes que os mercados de bônus da região só voltarão a ter estabilidade quando ficar claro que a Irlanda tem acesso a financiamentos suficientes para bancar o novo aumento do rombo dos bancos locais.

Se for encontrada uma forma de fazer o empréstimo diretamente aos bancos, em vez de passar pelo governo, um acordo pode ser possível. Também em entrevista antes da reunião do Eurogrupo, o comissário para Assuntos Econômicos e Monetários da UE, Olli Rehn, disse estar preocupado com as divisões dentro da Zona do Euro sobre como lidar com a crise da dívida soberana.

Rehn afirmou ainda que trabalha com o Banco Central Europeu (BCE) e com o FMI para encontrar uma forma de lidar com os bancos da Irlanda. "Precisamos retomar o sentimento de unidade e determinação e trabalhar para restaurar a estabilidade financeira na área do euro. O problema mais urgente é na Irlanda. Junto com o BCE, o FMI e as autoridades irlandesas, estamos trabalhando para resolver os graves problemas do setor bancário do país", disse.

domingo, 14 de novembro de 2010

Crise nos PIIGS se agrava, governos exigem medidas extremas

Crise na Europa prossegue, obrigando aos países chamados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha)a tomarem medidas extremas contra seus trabalhadores, em nome da suposta necessidade de austeridade fiscal, devido ao alto nível de endividamento público e déficit público crônico. Após a Grécia, parece que a 'bola da vez' é a Irlanda, que precisará de empréstimo externo para fechar as contas públicas para ter recursos para pagar os banqueiros. Esta situação parece ser seguida de perto por Portugal, que já ameaça abandonar o euro, a moeda única da UE.

Vale lembrar que, essa situação fiscal dos países europeus foi provocado não por excesso de gasto estatal para serviços públicos mas para socorrer bancos e o sistema financeiro durante a parte mais grave da crise econômica mundial ainda em curso iniciada em 2008. Agora os banqueiros fortalecidos exigem 'enquadrar' os governos nacionais. Enquanto a crise fiscal se agrava, os governos exigem medidas extremas contra os trabalhadores. Como sempre acontece no capitalismo, quem paga a conta da farra dos banqueiros e políticos é o povo trabalhador.

Irlanda mais perto da moratória
Monitor Mercantil, 12/11/2010

LONDRES - A Irlanda vai precisar de 23,5 bilhões de euros (US$ 32,1 bilhões) em 2011, para conseguir fechar suas contas externas. O valor supera em 1 bilhão os 20,5 bilhões de euros previstos para este ano. A informação é da Agência de Gerenciamento do Tesouro Nacional (NTMA, na sigla em inglês).

As necessidades de financiamento vão totalizar 20,7 bilhões de euros em 2012; 18,9 bilhões de euros em 2013; e 18,6 bilhões de euros em 2014. Com isso, o país fica mais perto da moratória.

A Irlanda suspendeu os leilões de bônus do governo até o fim do ano, em meio aos receios dos investidores sobre a capacidade do governo de aplicar uma política de desmonte do estado para continuar pagando a dívida do país.

Além disso, os especuladores aproveitarem para puar para cima os yields (retorno ao investidor) dos bônus irlandeses e a diferença entre o yield dos bônus irlandeses e o dos bunds alemães. Com isso, encarecem ainda mais a rolagem da dívida, dificultando a capacidade de o país a continuar a honrá-la.

Os investidores apostam que a Irlanda terá de recorrer a um empréstimo externo para pagá-los, apesar de o governo afirmar que sua política de colossais apertos fiscais para os próximos quatro anos liberaria dinheiro destino à produção e à população para pagar dívidas com os mesmos especuladores que levaram à quebra do sistema financeiro do país.


Portugal pode deixar o euro, diz ministro
Jornal do Brasil,13/11/2010

Por não conseguir realizar uma coalizão governista para enfrentar a crise financeira que assola Portugal, o governo local pode abandonar o uso do euro.

O ministro das Relações Exteriores de Portugal, Luís Amado disse em entrevista ao semanário Expresso que "O país precisa de uma grande coalizão que nos permita superar a situação atual'.

Recentemente o país ibérico vem perdendo a confiança dos investidores, que estão preocupados a situação orçamentária dos prêmios de risco de Portugal, já que estes chegaram aos patamares mais elevados desde que o país adotou o euro como moeda.

"Essa é uma situação (sair do euro) que poderíamos ser inevitavelmente obrigados pelo mercado a considerar", afirmou o chanceler.

Portugal sofre com problemas políticos já que a posição social-democrata tem objetivo de apoiar o plano de austeridade no orçamento do ano que vem no parlamento português, mas o atual governo (socialista) não tem maioria da casa para suportar os interesses políticos.

sábado, 23 de outubro de 2010

Crise e Dívida na Europa: "Manifesto dos economistas aterrorizados"

 "Manifesto dos economistas aterrorizados", Associação Francesa de Economia Política (AEFP)

Crise e Dívida na Europa: 10 falsas evidências, 22 medidas em debate para sair do impasse


Manifesto da Associação Francesa de Economia Política


O Manifesto dos Economistas Aterrorizados, assinado inicialmente por Philippe Askenazy (CNRS, Ecole d'économie de Paris), Thomas Coutrot (Conselho Científico da Attac), André Orléan (CNRS, EHESS, Presidente da AFEP), Henri Sterdyniak (OFCE), publicado aqui (em francês) e aqui (em português). Deste último sítio, retiro a apresentação abaixo:

"Recentemente lançado pela Associação Francesa de Economia Política, [é] um documento que sintetiza de forma clara e fundamentada as verdadeiras razões da crise em que nos encontramos, as falsas verdades alimentadas em redor dela e o profundo desacerto das políticas económicas que estão a ser seguidas, contrapondo-lhes as estratégias necessárias, ausentes do discurso dominante."
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Associação Francesa de Economia Política (AEFP) 
Manifesto dos economistas aterrorizados
Crise e Dívida na Europa:
10 falsas evidências, 22 medidas em debate para sair do impasse
Philippe Askenazy (CNRS, Ecole d'économie de Paris), Thomas Coutrot (Conselho Científico da Attac), André Orléan (CNRS, EHESS, Presidente da AFEP), Henri Sterdyniak (OFCE)
Introdução
A retoma económica mundial, que foi possível graças a uma injecção colossal de fundos públicos no circuito económico (desde os Estados Unidos à China) é frágil, mas real. Apenas um continente continua em retracção, a Europa. Reencontrar o caminho do crescimento económico deixou de ser a sua prioridade política. A Europa decidiu enveredar por outra via, a da luta contra os défices públicos.
"Na União Europeia, estes défices são de facto elevados – 7% em média em 2010 – mas muito inferiores aos 11% dos Estados Unidos. Enquanto alguns estados norte-americanos com um peso económico mais relevante do que a Grécia (como a Califórnia, por exemplo), se encontram numa situação de quase falência, os mercados financeiros decidiram especular com as dívidas soberanas de países europeus, particularmente do Sul. A Europa, de facto, encontra-se aprisionada na sua própria armadilha institucional: os Estados são obrigados a endividar-se nas instituições financeiras privadas que obtêm injecções de liquidez, a baixo custo, do Banco Central Europeu (BCE). Por conseguinte, os mercados têm em seu poder a chave do financiamento dos Estados. Neste contexto, a ausência de solidariedade europeia incentiva a especulação, ao mesmo tempo que as agências de notação apostam na acentuação da desconfiança.
Foi necessário que a agência Moody baixasse a notação da Grécia, a 15 de Junho, para que os dirigentes europeus redescobrissem o termo "irracionalidade", a que tanto recorreram no início da crise do subprime. Da mesma forma que agora se descobre que a Espanha está muito mais ameaçada pela fragilidade do seu modelo de crescimento e do seu sistema bancário do que pela sua dívida pública."
Para "tranquilizar os mercados" foi improvisado um Fundo de Estabilização do euro e lançados, por toda a Europa, planos drásticos – e em regra cegos – de redução das despesas públicas. As primeiras vítimas são os funcionários públicos, como sucede em França, onde a subida dos descontos para as suas pensões corresponderá a uma redução escondida dos seus salários, encontrando-se o seu número a diminuir um pouco por toda a parte, pondo em causa os serviços públicos. Da Holanda a Portugal, passando pela França com a actual reforma das pensões, as prestações sociais estão em vias de ser severamente amputadas. Nos próximos anos, o desemprego e a precariedade do emprego vão seguramente aumentar. Estas medidas são irresponsáveis de um ponto de vista político e social, mas também num plano estritamente económico.
Esta política, que apenas muito provisoriamente acalmou a especulação, teve já consequências extremamente negativas em muitos países europeus, afectando de modo particular a juventude, o mundo do trabalho e as pessoas em situação de maior fragilidade. A longo prazo, esta política reactivará as tensões na Europa e ameaçará por isso a própria construção europeia, que é muito mais do que um projecto económico. Supõe-se que a economia esteja ao serviço da construção de um continente democrático, pacífico e unido. Mas em vez disso, uma espécie de ditadura dos mercados é hoje imposta por toda a parte, particularmente em Portugal, Espanha e Grécia, três países que eram ditaduras no início da década de setenta, ou seja, há apenas quarenta anos.
Quer se interprete como um desejo de "tranquilizar os mercados", por parte de governantes assustados, quer se interprete como um pretexto para impor opções ditadas pela ideologia, a submissão a esta ditadura não é aceitável, uma vez que já demonstrou a sua ineficácia económica e o seu potencial destrutivo no plano político e social. Um verdadeiro debate democrático sobre as escolhas de política económica deve pois ser aberto, em França e na Europa. A maior parte dos economistas que intervém no debate público, fazem-no para justificar ou racionalizar a submissão das políticas às exigências dos mercados financeiros. É certo que, um pouco por toda a parte, os poderes públicos tiveram que improvisar planos keynesianos de relançamento da economia e, por vezes, chegaram inclusive a nacionalizar temporariamente os bancos. Mas eles querem fechar, o mais rapidamente possível, este parêntese. A lógica neoliberal é sempre a única que se reconhece como legítima, apesar dos seus evidentes fracassos. Fundada na hipótese da eficiência dos mercados financeiros, preconiza a redução da despesa pública, a privatização dos serviços públicos, a flexibilização do mercado de trabalho, a liberalização do comércio, dos serviços financeiros e dos mercados de capital, por forma a aumentar a concorrência em todos os domínios e em toda a parte…
Enquanto economistas, aterroriza-nos constatar que estas políticas continuam a estar na ordem do dia e que os seus fundamentos teóricos não sejam postos em causa. Mas os factos trataram de questionar os argumentos utilizados desde há trinta anos para orientar as opções das políticas económicas europeias. A crise pôs a nu o carácter dogmático e infundado da maioria das supostas evidências, repetidas até à saciedade por aqueles que decidem e pelos seus conselheiros. Quer se trate da eficiência e da racionalidade dos mercados financeiros, da necessidade de cortar nas despesas para reduzir a dívida pública, quer se trate de reforçar o "pacto de estabilidade", é imperioso questionar estas falsas evidências e mostrar a pluralidade de opções possíveis em matéria de política económica. Outras escolhas são possíveis e desejáveis, com a condição de libertar, desde já, o garrote imposto pela indústria financeira às políticas públicas.
Procedemos de seguida a uma apresentação crítica de dez postulados que continuam a inspirar, dia após dia, as decisões dos poderes públicos em toda a Europa, apesar dos lancinantes desmentidos que a crise financeira e as suas consequências nos revelam. Trata-se de falsas evidências, que inspiram medidas injustas e ineficazes, perante as quais expomos vinte e duas contrapropostas para debate. Cada uma delas não reúne necessariamente a concordância unânime dos signatários deste manifesto, mas deverão ser levadas a sério, caso se pretenda resgatar a Europa do impasse em que neste momento se encontra.

[ e assim segue]
Falsa evidência n.º 1: 
OS MERCADOS FINANCEIROS SÃO EFICIENTES
Falsa evidência n.º 2: 
OS MERCADOS FINANCEIROS FAVORECEM O CRESCIMENTO ECONÓMICO
Falsa evidência n.º 3: 
OS MERCADOS SÃO BONS JUIZES DO GRAU DE SOLVÊNCIA DOS ESTADOS
Falsa evidência n.º 4: 
A SUBIDA ESPECTACULAR DAS DÍVIDAS PÚBLICAS É O RESULTADO DE UM EXCESSO DE DESPESAS 
Falsa evidência n.º 5: 
É PRECISO REDUZIR AS DESPESAS PARA DIMINUIR A DÍVIDA PÚBLICA
Falsa evidência n.º 6: 
A DÍVIDA PÚBLICA TRANSFERE O CUSTO DOS NOSSOS EXCESSOS PARA OS NOSSOS NETOS
Falsa evidência n.º 7: 
É PRECISO ASSEGURAR A ESTABILIDADE DOS MERCADOS FINANCEIROS PARA PODER FINANCIAR A DÍVIDA PÚBLICA
Falsa evidência n.º 8: 
A UNIÃO EUROPEIA DEFENDE O MODELO SOCIAL EUROPEU
Falsa evidência n.º 9: 
O EURO É UM ESCUDO DE PROTECÇÃO CONTRA A CRISE
Falsa evidência n.º 10: 
A CRISE GREGA PERIMITIU FINALMENTE AVANÇAR PARA UM GOVERNO ECONÓMICO E UMA VERDADEIRA SOLIDARIEDADE EUROPEIA
Conclusão 
DEBATER A POLÍTICA ECONÓMICA, TRAÇAR CAMINHOS PARA REFUNDAR A UNIÃO EUROPEIA
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