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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Dilema das ideologias num mundo de incertezas, por J. Carlos de Assis

Apesar de não concordar com muito do exposto, fico com questionamento do economista  J. Carlos de Assis sobre sobre a "incerteza" na Pós-Modernidade no campo da política e na redefinição dos conceitos de Esquerda e Direita após a década de 1980.  E claro a referência a John Kenneth Galabraith. Vale lembrar, como fez Assis, o PT não é de esquerda.

Dilema das ideologias num mundo de incertezas

Movimento Brasil Agora | por J. Carlos de Assis

No insuperável “A Era da Incerteza”, o genial economista norte-americano John Kenneth Galbraith observou que, antes dos anos 70, todos, seja os da direita, seja os da esquerda, sabiam exatamente quais eram seus lados e para onde queriam ir. Essa “era de certezas” sucumbiu a partir dos anos 70 num turbilhão de crises e indefinições políticas, disseminando tremendas dúvidas ideológicas nas diferentes correntes de pensamento. Grande Galbraith! Soubera ele o que adviria no século XXI e ficaria escandalizado com o grau ainda maior de extremas incertezas que dominam o mundo contemporâneo, sobretudo no Ocidente.

Por exemplo, o que é hoje alguém de direita? Dizia-se de direita quem era um conservador, parado no tempo. Entretanto, os direitistas de hoje se apresentam como reformistas. Querem reformar a Previdência, as leis trabalhistas, o sistema de saúde. É fato que seu objetivo é retirar direitos sociais nessas áreas, mas isso nada tem a ver com conservadorismo de um ponto de vista semântico. Para a direita contemporânea o aparato criado com a economia do bem-estar social, em suas diferentes versões e diferentes escalas, deve ser destruído. Na terminologia deles, deve ser reformado.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

10 anos de governos do PT em treze ensaios

Frisa-Eisenstein-r2-copy

O marxismo21, blog que divulga a produção marxista no Brasil, publica em sua página inicial o Dossiê  “10 anos de governos do PT”. Treze ensaios – que têm três autores desta lista - discutem a natureza de classes e a relação dos governos petistas com a política neoliberal. Outras matérias (artigos, livros, tese e vídeos) sobre o assunto são divulgadas. Com este Dossiê, marxismo21 inova ao dedicar a página inicial do blog ao debate de uma problemática de ordem conjuntural.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Governador da BA reprime PMs grevistas, mas deu R$1,2 bi a banqueiros

PMs grevistas e familiares são reprimidos por tropas federais
O Estado da Bahia, que vive desde dia 31 com a greve da sua PM, em luta entre outras coisas, pelo cumprimento da ampliação legal do piso salarial, destinou, em 2011, R$ 1,2 bilhão ao serviço da dívida do Estado com a União (remunerada pelo IGP-DI mais 6% ao ano).

Embora o piso da PM baiana, de cerca de R$ 2,3 mil, não é um dos piores das polícias militares (por exemplo, a polícia fluminense ganha a metade disso) o valor pago pelo governador da Bahia Jaques Wagner (PT) com a dívida seria suficiente para mais do que dobrar os salários de 31 mil servidores da categoria.

Jaques Wagner alega não poder atender as reivindicações dos grevista por motivos orçamentários e pelo cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal. Pelo jeito o governador escolheu seu lado: é truculento com os servidores grevistas, não com os banqueiros.

Leia a nota oficial da CSP Conlutas e a moção de solidariedade:

Greve dos policiais de Salvador (BA) enfrenta truculência do governador Jaques Wagner (PT)
Portal da CSP Conlutas - 06/02/2012

A greve dos policiais militares de Salvador (BA) enfrenta a truculência do governador da Bahia Jaques Wagner (PT). Nesta segunda-feira (6) o Exército, a Força Nacional, a Polícia Federal e as Companhias Independentes de Policiamento Especializado da Polícia Militar, acionados pelo governador, fizeram um cerco na Assembleia Legislativa, ocupada por grevistas desde o início da greve.

Esse batalhão foi convocado para desocupar o local e para cumprir a ordem de prisão contra os grevistas. Os soldados formaram um cordão de isolamento na  assembleia lançaram balas de borracha contra  familiares, crianças e mulheres que encontram-se em frente ao local em solidariedade à greve.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

'A Privataria Tucana': Um sucesso de vendas cercado por um muro de silêncio

A Privataria Tucana: Um sucesso de vendas cercado por um muro de silêncio
Por Maria Inês Nassif
http://www.aldeiagaulesa.net/


O livro "A Privataria Tucana", de Amaury Ribeiro Jr., foi lançado há quatro dias e já é um fenômeno de vendas cercado por um muro de silêncio. Produto de doze anos de trabalho - e, sem dúvida, a mais completa investigação jornalística feita sobre o submundo da política neste século -, o livro consegue mapear o esquema de corrupção e lavagem de dinheiro montado em torno do político tucano José Serra - ex-deputado, ex-senador, ex-ministro, ex-governador, ex-prefeito e candidato duas vezes derrotado à Presidência da República. 


De quebra, coloca o PT em duas saias justas. A primeira delas é a constatação de que o partido, no primeiro ano de governo Lula, "afinou" diante do potencial de estrago da CPMI do Banestado, que pegou a lavanderia de vários esquemas que, se atingiam os tucanos, poderiam também resvalar para figuras petistas. O segundo mal-estar com o PT é o ultimo capítulo do livro, quando o autor conta a "arapongagem" interna da campanha do PT, que teria sido montada para derrubar o grupo ligado ao mineiro Fernando Pimentel da campanha da candidata Dilma Rousseff. Amaury aponta (como ele já disse antes) para o presidente do partido, Rui Falcão. Falcão já moveu um processo contra o jornalista por conta disso. O jornalista mantém a acusação.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Lançamento do livro "PT: da oposição à sustenção da ordem"

Hoje é o lançamento do livro PT: da oposição à sustenção da ordem, do historiador Cyro Garcia.

Um retrospecto da formação e transformação do Partido dos Trabalhadores ao longo do regime democrático iniciado na década de 1980.

O lançamento será às 19h no Salão Nobre do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Largo de São Francisco, Centro da Cidade do Rio de Janeiro.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Para relator não haverá mínimo de R$600

 Relator diz que não há condições do mínimo chegar a R$600

O senador Gim Argello, relator do Orçamento 2011 no Congresso Nacional descartou a possibilidade de apoiar os R$ 600 propostos pelo candidato derrotado à Presidência José Serra (PSDB), posição respaldada pelas declarações da presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), de que aceita conceder um reajuste maior para o mínimo do que o previsto na proposta de Orçamento, para vigorar a partir de janeiro de 2011.

Argello salienta que:  "Não tem expectativa de ultrapassar nem de alcançar R$ 600". Segundo Gim, cada R$ 1 de reajuste teria impacto de R$ 286,4 milhões no Orçamento. Porém, a conta do relator , como frequentemente também o faz os comentaristas econômicos da mídia burguesa (raras excessões), não considera os efeitos positivos, sobre aumento de consumo e recolhimento de impostos, além de maior arrecadação para a Previdência Social.

Mínimo vai subir no mínimo para R$ 540
Monitor Mercantil, 03/11/2010

O relator do Orçamento para 2011, senador Gim Argello (PTB-DF), anunciou que, no mínimo, vai arredondar de R$ 538,15 para R$ 540,00 a proposta para o salário mínimo a vigorar para o próximo ano.
Argello também abriu negociações com as centrais sindicais, admitindo propor m aumento maior. A posição é respaldada pelas declarações da presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), de que aceita conceder um reajuste maior para o mínimo do que o previsto na proposta de Orçamento.
"Vamos abrir negociação com as centrais pensando em dois anos. Eu parto do valor de R$ 540, que já dá gasto extra de mais de R$ 400 milhões nas despesas", informou o relator.
Argello, porém, descartou a possibilidade de apoiar os R$ 600 propostos pelo candidato derrotado à Presidência José Serra (PSDB), para vigorar a partir de janeiro de 2011: "Não tem expectativa de ultrapassar nem de alcançar R$ 600", salientou.
Segundo Gim, cada R$ 1 de reajuste teria impacto de R$ 286,4 milhões no Orçamento. A conta, porém, não considera os efeitos positivos, sobre aumento de consumo e recolhimento de impostos, além de maior arrecadação para a Previdência Social.
Já Dilma declarou ser possível que, ao fim de 2011 e início de 2012, o mínimo ultrapasse os R$ 600. Ela disse basear sua previsão na expectativa de forte crescimento da economia em 2010. Além da inflação do ano anterior, o mínimo é corrigido pela variação do Produto Interno Bruto (PIB) dos dois anos anteriores.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Privatização não tirou atraso de teles

Devido ao 2o turno das eleições, as privatizações voltaram ao centro do debate econômico, justamente como tentativa de diferenciações entre os dois candidatos a presidente, uma contrária as privatizações e o outro como defender daquelas que supostamente "teriam dado certo" . Contudo, ao contrário do que é dito pelo PSDB e grande mídia, e que o PT tem vergonha em discordar com veemência, as privatizações não tiraram o Brasil do atraso nas telecomunicações.

Apontado pelo PSDB, como exemplo de privatização que deu certo, o serviço de telefonia celular no Brasil teve evolução semelhante à que ocorreu no resto do mundo no mesmo período, comprovando que o crescimento do setor se deveu à adesão da população à nova tecnologia, e não ao modelo escolhido no Governo Fernando Henrique Cardoso, que trouxe por sua vez, a venda escandalosa de patrimônio público e as tarifas entre as mais caras do mundo.


Privatização não tirou atraso de teles
Monitor Mercantil online, 21/10/2010

País ficou em 97º lugar entre 233 países na relação de celular por 100 habitantes

Apontado pelo PSDB como exemplo de privatização que deu certo, o serviço de telefonia celular no Brasil teve evolução semelhante à que ocorreu no resto do mundo, comprovando que o crescimento do setor se deveu à adesão da população à nova tecnologia, e não ao modelo escolhido no Governo Fernando Henrique Cardoso.

Segundo dados da União Internacional de Telecomunicações (UIT), o Brasil figura num distante 97º lugar no ranking de 233 países com mais linhas móveis por 100 habitantes. À frente no ranking da agência de comunicações da ONU, vêm nações como Argentina, Guatemala e Albânia. Em 1999, ainda sem os efeitos da privatização, o Brasil era o 80º.

A evolução do número de celulares no país após a privatização das telecomunicações, em 1998, exibe desenvolvimento inferior ao de países que estavam no mesmo estágio. África do Sul, Argentina, Uruguai e até El Salvador tiveram desempenho melhor. Apenas no México a evolução foi inferior à brasileira.

Em 2009, havia 89,79 linhas de celular por 100 brasileiros. No mundo, a média dos países não-desenvolvidos é de 57,9 por 100 pessoas; nas nações desenvolvidas, é de 115,3.

Se em número de linhas o país não se destaca, o mesmo não se pode dizer em termo de tarifas. Ainda segundo a UIT, o Brasil tem a tarifa de celular mais cara do mundo entre 159 países, considerando a PPC (paridade do poder de compra). Um pacote com 25 chamadas e 30 torpedos custa, em média, US$ 42 por mês no Brasil. No México, são US$ 14,60; e em Hong Kong, apenas US$ 1 mensal.

Um dos motivos alegados pelas empresas de telecomunicações para os altos preços é a cobrança de elevados impostos. Mas outro ranking, da consultoria Dirsi somente com países da América, joga por terra essa tese. O Brasil aparece no topo da lista de tarifas elevadas e, mesmo que fossem excluídos todos os impostos sobre a tarifa brasileira, ela ainda seria mais alta do que a do segundo colocado (Honduras) com taxação.

O custo da cesta de serviços na modalidade pré-pago atinge US$ 45,01 por mês no Brasil. Vêm a seguir, Honduras (US$ 25,69) e Uruguai (US$ 21,70). Nesse estudo, as menores tarifas são cobradas em Costa Rica (US$ 3,50) e Jamaica (US$ 2,21). No regime pós-pago, Honduras e Venezuela quase igualam a tarifa brasileira.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A direita "Tea Party" e a pauta das eleições 2010

A direita "Tea Party" nas eleições 2010 e a tentativa de virada na pauta eleitoral

Apesar de ser um artigo pautado pelo lulismo e o apoio a candidatura de Dilma, e ser contrário a de Serra, o artigo apresenta uma análise lúcida sobre o processo político da eleição 2010 e o embate entre essas duas candidaturas, especialmente agora no 2o turno.

O ponto central no artigo é que, apesar de classificar talvez muito precipitadamente Serra, o autor trata de analisar o novo tipo de direita que emerge no mundo ocidental, a Tea Party, vertente surgida recentemente nos EUA, uma alternativa a direita conservadora clássica e a direita neoliberal, que dominaram o século XX e o inicio do século XXI. A direita Tea Party nas palavras do autor:


 Seu perfil não se confunde nem com o da direita clássica (que defendia com sinceridade as ideias conservadoras), nem com o do neoliberalismo (que postulava como valor máximo a supremacia dos mercados).

Corresponde a uma fase de impasse do capitalismo ocidental. Depois de verem seu projeto de sociedade questionado, e de o terem reciclado parcialmente nas décadas anteriores, as velhas elites parecem, em todo o mundo, incapazes de dar um novo passo propositivo adiante. Sua associação orgânica com o conservadorismo foi abandonada, na sequência a 1968; sua crença na "mão invisível", que substituiu a antiga aliança a partir do fim dos anos 1970, acabou destroçada pela crise pós-2008; as periferias batem à porta – tanto as globais, quanto as metropolitanas. Resta resistir a elas: e como não é possível fazê-lo por meio de um projeto articulado, convocam-se os medos e ressentimentos: o irracional.

O autor por fim, tenta apresentar também a conclusão que no último debate da Band a candidata Dilma tenta virar a pauta eleitoral dos temas que dominaram o fim do primeiro turno e o início do segundo, pautados pelos conglomerados de mídia e pelas ações orquestradas pelos seguidores do Tea Party brasileiro pró-Serra, como direito ao aborto, união civil homoafetiva, casos de corrupção, liberdade de imprensa, bolsa-família, etc, por temas como privatizações, planejamento estatal, etc, que acredita ser mais favorável a candidata governista e que retira do centro do debate os temas mais ligados ao Tea Party.

O novo cenário do 2º turno


Do Vi o Mundo
O novo cenário do segundo turno
Como Serra-2010 reproduz, no Brasil, a irracionalidade e a mobilização de ressentimentos que caracteriza o Tea Party, nos EUA. Por que a guinada de Dilma no debate da Band era indispensável para a busca da vitória. Quais as perspectivas para as eleições, agora
Por Antonio Martins, no blog Outras Palavras
I. O momento da guinada
Surpreendente, a candidata que lidera as intenções de voto abriu sua participação escancarando a "campanha de calúnias e mentiras" lançada contra si mesma. Tomou a iniciativa de introduzir o tema do aborto – principal peça usada pelos adversários para fustigá-la. Ousou referir-se à esposa de seu oponente, apontando-a como parte dos ataques (e não foi contestada...). Depois, partiu para o território mais desejado: as privatizações, ausentes da campanha até agora, foram tema de três perguntas em sequência, e certamente polarizarão as discussões, daqui para a frente.
Pouco traquejada em debates televisivos, Dilma Roussef teve momentos de nervosismo e lapsos, na noite do último domingo (10/10), primeiro confronto com José Serra após o primeiro turno. Mas ao final, havia alcançado dois objetivos. O mais visível foi retomar a iniciativa e voltar a pautar a disputa presidencial, depois de quase um mês apenas "segurando o resultado" e da frustração por não liquidar a disputa em 3 de outubro. Menos evidente, porém ainda mais importante, foi ter exposto a face pouco convencional – e por isso surpreendente e perigosa – da "nova" direita que a candidatura de José Serra articula. A frase que sintetiza esta descoberta ficará marcada. "Vocês estão introduzindo ódio na vida brasileira".
A reação de Dilma respondeu a uma emergência. Estacionado por meses no patamar de 25% dos votos, incapaz de despertar entusiasmo ou simpatia durante toda a campanha, José Serra mostrou que não estava morto a partir de meados de setembro. Os ataques subterrâneos que lançou contra a candidata petista foram incapazes de lhe transferir votos. Mas provocaram o segundo turno, porque um grande contingente de eleitores atingidos refugiou-se em Marina (leia também nossa análise análise sobre 3/10).
Embora tenha conquistado menos de 1/3 das preferências dos eleitores, o candidato do PSDB viu-se, de um momento para outro, em condições reais de se tornar presidente. Tal possibilidade foi demonstrada pela primeira pesquisa de intenção de votos para o segundo turno, do Datafolha. Em 7 e 8 de outubro, menos de uma semana após a primeira disputa, Serra avançara pouco: tinha 41% das intenções de voto, contra 40% na sondagem anterior. Mas Dilma caíra de 52% para 48%. A diferença estreitara-se cincos pontos – reduzindo-se a apenas sete. Para entender como tal reviravolta foi possível, é preciso examinar a fundo, a à luz dos novos fatos, as características da campanha de Serra.
II. Uma estratégia de despolitização radical
Subestimada durante meses, por fugir inteiramente à lógica das disputas políticas clássicas (e do que se esperaria de alguém com o passado do candidato), a trajetória do candidato tucano começa agora a fazer sentido. Inspira-se no Tea Party, a ultra-direita norte-americana que reemergiu com enorme força, em resposta à eleição de Barack Obama – e que tem como ícone Sarah Palin... Seu perfil não se confunde nem com o da direita clássica (que defendia com sinceridade as ideias conservadoras), nem com o do neoliberalismo (que postulava como valor máximo a supremacia dos mercados).
Corresponde a uma fase de impasse do capitalismo ocidental. Depois de verem seu projeto de sociedade questionado, e de o terem reciclado parcialmente nas décadas anteriores, as velhas elites parecem, em todo o mundo, incapazes de dar um novo passo propositivo adiante. Sua associação orgânica com o conservadorismo foi abandonada, na sequência a 1968; sua crença na "mão invisível", que substituiu a antiga aliança a partir do fim dos anos 1970, acabou destroçada pela crise pós-2008; as periferias batem à porta – tanto as globais, quanto as metropolitanas. Resta resistir a elas: e como não é possível fazê-lo por meio de um projeto articulado, convocam-se os medos e ressentimentos: o irracional.
É uma aposta momentaneamente forte, porque as ideias de ampliação da democracia e transformação social rearticularam-se há muito pouco (na virada do século) e não puderam ainda fincar raízes no imaginário popular, nem formular conceitos sólidos. Lula, Obama ou Evo Morales; o Fórum Social Mundial, a sociedade civil global, o desejo de rever as relações entre o ser humano e a natureza; a cultura das periferias, a aparição em cena dos indígenas e negros, as novas classes médias; a blogosfera, o compartilhamento de cultura e conhecimento, a colaboração como valor decisivo para produzir – tudo isso são todos fenômenos contemporâneos. Não têm o peso da experiência, dos erros, dos recursos materiais e financeiros, da influência geopolítica que caracterizava a tradição de esquerda anterior – especialmente a social-democracia e o socialismo real.
Sem uma alternativa para contrapor a estas inovações que aspiram a construir futuro, a direita-Tea Party tenta despejar sobre elas os preconceitos do passado. Sua estratégia é evitar o debate político e, sobretudo, o choque entre projetos. Suas propostas são risíveis: nos EUA, insiste-se em manter duas guerras, ampliar os cortes de impostos decretados por Bush e, ainda assim, reduzir o déficit público. Seu método é substituir o debate racional pela mobilização de rancores e recalques, pelas denúncias caluniosas e não-assumidas, pelo ataque implacável a certas ideias e personalidades, pela desinformação deliberada e generalizada.
Seu poder não pode ser desprezado – especialmente em sociedades nas quais o acesso médio dos cidadãos à informação ainda é reduzido. Nos EUA, pesquisa recente mostrou que apenas um terço dos cidadãos sabe que Barack Obama é cristão; 20% pensam que ele é muçulmano; e o percentual dos que estão mal-infomados cresceu acentuadamente desde a posse do presidente. Além disso, boa parte da sociedade crê sinceramente que a crise financeira é responsabilidade direta de Obama, não das políticas de seus antecessores...
A candidatura Serra repete de modo impressionante, em seus aspectos centrais, este padrão. O postulante jamais apresentou programa — nem à Justiça Eleitoral1, nem, principalmente, aos eleitores. O sentido geral das propostas de Dilma e Marina é compreensível e razoavelmente conhecido: pode-se aderir a elas, deplorá-las, apoiá-las em parte, estabelecer diálogos. O presidenciável do PSDB apresenta, enquanto isso, uma coleção de promessas incoerentes ao longo do tempo e incompatíveis entre si.
Ele já foi contra e a favor da renda cidadã e do programa habitacional do governo. Ele diz que o Estado brasileiro tem uma dívida crescente (o que é falso...) e ainda assim propõe cortar impostos dos ricos e, ao mesmo tempo, ampliar os benefícios pagos à maioria (contrariando toda a sua prática anterior). Ele tenta sepultar debates incômodos com rompantes repentinos, cheios de bazófia e incompatíveis com seu arco de alianças (em 12/10, dois dias depois de Dilma introduzir na campanha as privatizações, prometeu reestatizar empresas...). A velha mídia jamais questiona estas incongruências. Mergulhada ela própria em crise, talvez deposite suas últimas esperanças numa contra-utopia orwelliana, num descolamento radical entre o discurso político e a realidade, em que a mediação jornalística assumiria por completo caráter de ficção – e seria recompensada por isso...
III. Desconstruir a adversária
Como lhe falta um programa coerente, a direita-Tea Party apela para a desconstrução das candidaturas que vê como inimigas. Nos EUA, contra todas as evidências e racionalidade, Barack Obama é apontado como um marxista e traidor da pátria – de nada lhe servindo, aliás, manter um orçamento militar superior ao de George W. Bush... No Brasil, o alvo é Dilma. A "nova" direita não ousa atacar nem a figura de Lula, nem o lulismo. Além de temer a popularidade do presidente, não tem projeto a contrapor. Por isso, sua preocupação central não é, sequer, destacar as possíveis qualidades de Serra – mas transformá-lo, por meio da eliminação política de sua adversária, numa espécie de candidato único.
A fase intensa da campanha para desconstruir Dilma começou no final de agosto e desdobrou-se em duas fases. Na primeira, o protagonismo foi do Jornal Nacional e de quatro publicações impressas que esqueceram suas rivalidades históricas para formar uma espécie de Santa Aliança: O Globo, Veja, Folha e Estado de S.Paulo.
Nesta fase, o método consistiu em bombardear a opinião pública com dois "escândalos": o vazamento do sigilo bancário de Verônica Serra, do qual Dilma Roussef foi – sabe-se agora com certeza – injustamente acusada; e a agência de lobby mantida pelo filho de Erenice Guerra, que não obteve nenhum favorecimento real, embora usasse o parentesco com a mãe poderosa para impressionar clientes. O primeiro caso era uma ficção; o segundo, uma irrelevância. Mas ambos monopolizaram, por 30 dias, as manchetes dos três jornais de maior circulação do país; da revista semanal mais conhecida; e do noticiário de maior audiência na TV. Para atestar o caráter eleitoreiro das "denúncias", basta lembrar que foram imediatamente esquecidas, ao cumprirem seu papel na campanha. Não visavam investigar a fundo um assunto importante – apenas iniciar atacar uma candidatura, para favorecer outra.
Dilma resistiu ao ataque. Mas nas três semanas que antecederam as urnas, a ofensiva midiática foi complementada por outra: a mobilização das bases conservadoras. Nos EUA, ela é uma caracteística da Tea Party: aproveitando-se da frustração inicial das expectativas geradas por Obama, a direita formou centenas de comitês em todo o país e promoveu ao menos duas grandes marchas em Washington. No Brasil, onde não há nada que se compare a esta força, recorreu-se à difusão de denúncias apócrifas por meio da internet – um espaço onde o PT e seus aliados desperdiçaram muitas oportunidades e ignoraram a blogosfera potencialmente aliada.
A campanha de Serra articulou o lançamento incessante de boatos anônimos. Mobilizou a classe média conservadora e ressentida, numa rede informal muito capilarizada. Imitando uma vez mais o exemplo norte-americano, apoiou-se (sob as vistas grossas da CNBB) no poder crescente que o fundamentalismo está conquistando no catolicismo institucional e em algumas seitas evangélicas.
Uma visita ao site sejaditaverdade, ou a leitura de cartaz, afixado diante de muitas igrejas, no dia da eleição (na foto, em Porto Alegre), dão uma pequena ideia do que se destilou. Segundo a montanha de spams políticos, a candidata teria participado de diversos assassinatos. Sua postulação visaria, fundamentalmente, aprovar a disseminação do aborto, o casamento gay e o ataque do Estado às Igrejas. Enfrentaria processo de uma ex-amante. Lançaria blasfêmias contra Cristo ("nem ele impede minha vitória"). Posaria com armas. Estaria impedida de entrar nos Estados Unidos, por atos terroristas. Teria mobilizado fabricantes de chips chineses para fraudar as urnas eletrônicas brasileiras. Sua candidatura estaria a ponto de ser impugnada pelo "ficha limpa". Seu vice, Michel Temer, frequentaria seitas satanistas em Curitiba. Etc. Etc. Etc...
O jornalista Leonardo Sakamoto explicou, em seu blog como estas alegações inteiramente inconsistentes acabam adquirindo força, em conjunto. Disparadas às dezenas de milhões, cada uma delas acaba atingindo um público que se sensibiliza pelo tema em questão e acredita no argumento. Os integrantes deste grupo passam a reproduzir a "denúncia", acrescentando a ela, agora, o peso de sua reputação e influência pessoal.
A montagem desta rede de boatos foi a função a que se dedicou o norte-americano de origem indiana Ravi Singh, sócio da transnacional de marketing político ElectionMall – que prestou consultoria por meses à campanha de Serra2. Em 2007, diante do sucesso de Obama na internet, o site progressista norte-americano Mother Jones entrevistou Michael Cornfield, vice-presidente da empresa. Indagado sobre a possibilidade de a direita servir-se da internet no futuro, ele a considerou inevitável. E frisou: "Há mais de uma maneira de usar a web. Muito mais que uma maneira"...
No exato momento em que a campanha de Serra mobilizava todas as suas energias, a de Lula e Dilma descansava. O movimento fazia sentido, se visto pela lógica das disputas eleitorais travadas até então. Num comício em Curitiba, a uma semana do primeiro turno, o presidente recomendou a seus apoiadores "segurar o jogo". "Estamos ganhando de 2 x 0 e faltam dez minutos para terminar a partida. O adversário está nos chutando na canela e no peito e o juiz não apita falta. Querem explusar alguém do nosso lado. Vamos fazer como o Parreira, quando técnico do Corínthians, e prender a bola. Enquanto ela estiver nos nossos pés, o outro time não faz gol".
Comemorara cedo demais a resistência de Dilma aos ataques midiáticos. Não se dera conta de que, em articulação com a boataria apócrifa, eles haviam constituído um ataque em pinça poderoso. Milhões de eleitores, que conheciam a candidata superficialmente, eram atingidos agora tanto pelo Jornal Nacional quanto por mensagens recebidas de pessoas próximas e confiáveis.
Um excelente texto publicado por Weden no site do Luís Nassif sintetizou o cenário. Além de provocar a segundo turno, a artilharia cerrada disparada durante semanas pela mídia e pela central de boatos apócrifos estava começando a desconstruir politicamente a candidata. Expressão destacada do lulismo, responsável pelo planejamento e articulação política de seu segundo governo, ela estava sendo sendo reduzida a uma escolha errada do presidente.
"Reconheço que nunca houve um governo tão bom para nós", mas "esta mulher é um perigo para o país" foi o depoimento emblemático colhido por Weden junto a um taxista – que estava disposto a votar em Dilma até as vésperas do primeiro turno, mas migrou para Marina e tendia, naquele momento (7/10) a Serra. Embora ainda limitado (daí Dilma manter-se na dianteira), o movimento alastrava-se rapidamente. Weden abordou com realismo seu sentido potencial: "A candidata petista está perdendo o 'efeito continuidade' que conseguiu representar até semanas atrás. Se Dilma ficar na metade dos votos governistas, perde a eleição".
IV. Por onde corre a repolitização
Como pode uma candidata repolitizar uma campanha, quando setores crescentes do eleitorado questionam sua própria legitimidade? A pergunta embaraçou até mesmo grandes especialistas. Entrevistado por Luís Nassif, Ricardo Guedes, diretor do Instituto Sensus, sugeriu que a chave era o tema do aborto. Dilma deveria fazer um pronunciamento "amplo e forte" contra a interrupção da gravidez. Era, evidentemente, um equívoco. Se fosse responder a cada uma das invenções lançadas contra si, a candidata não faria mais nada, até 31 de outubro. Além disso, cada resposta acabaria dando mais destaque ao próprio boato. A vítima de uma sequência de calúnias enfrenta um drama semelhante ao de quem cai num poço de areia movediça: quanto mais se debate, mais afunda. A única saída é buscar um ponto de apoio externo.
Dilma viu no debate da Band, em 10 de outubro, o momento para escapar do poço. Procurou o ponto de apoio mais potente – e, ao mesmo tempo, mais difícil e arriscado. Em sua primeira pergunta a Serra, questionou diretamente a desqualificação da campanha. Já na réplica, ainda mais incisiva, apontou a manipulação de suas opiniões relativas tema ao aborto. Voltou ao ele numa pergunta posterior, quando, para ampliar a veracidade do que alegava, mencionou o envolvimento de Mônica Serra no esforço de difamação.
Estava visivelmente tensa: naqueles instantes, qualquer escorregão em sua fala seria catastrófico. Mas completou bem o movimento, que lhe trouxe duas vantagens. Abriu caminho para que sua campanha continue denunciando a armação adversária – ou seja, produzindo antídotos contra a desconstrução de sua imagem. E mostrou grande coragem, desmentindo na prática a impressão – preconceituosa e machista – de que é mero produto de marketing de Lula. Estes dois pontos lhe deram o apoio necessário para abrir, em seguida, o questionamento político e programátrico a Serra. A escolha dos temas era óbvia: privatizações e programas de redistribuição de renda, símbolos máximos da diferença entre o projeto do lulismo e o das elites.
Dará certo? O objetivo principal dos candidatos, num debate como o da Band não é conquistar o eleitorado, mas redefinir os temas que polarizarão a campanha em seguida. Mesmo com apenas 2% de audiência, o evento cria fatos incontornáveis. Os primeiros efeitos foram logo sentidos. A campanha de Serra e os jornalistas que a bajulam tentaram desqualificar a nova postura da candidata – um sinal evidente que ela leva a disputa para um terreno que temem. Mais: o programa de TV do PSDB-DEM foi obrigado a referir-se à privatização. Não poderá manter por muito tempo a abordagem totalmente falsificadora que, como se viu, adotou – desde que a campanha de Dilma aprofunde o tratamento dado ao tema...
Uma coisa é certa: a três semanas da eleição, o giro executado pela candidata em 10 de outubro é um movimento sem retorno. A "Diminha paz e amor", a continuadora quase natural do legado de Lula, deu lugar a um novo personagem político. Dele precisa fazer parte, também, a polemizadora; a mulher que demonstra vasto conhecimento técnico sobre os programas que coordenou no governo; a que, por estar profundamente envolvida no movimento de democratização expresso pelo lulismo, sente-se à vontade para provocar o choque pedagógico entre prejetos para o Brasil. Desta iniciativa dependem agora tanto a repolitização da campanha quando a consolidação ou recomposição da imagem de Dilma, entre a parcela do eleitorado que esteve ou está em dúvida sobre seu voto.
As reviravoltas de campanha levam algum tempo para produzir todos os seus efeitos. É possível que eles não sejam captadas pelas próximas pesquisas – ou seja, que a diferença entre os dois candidatos volte a diminuir ou mesmo desapareça. Será preciso muita calma nessa hora. O grande risco a evitar é o desespero, que levaria a reverter o giro de Dilma.
O programa de TV será, nesta reta derradeira, o palco central para este confronto de projetos. A trilha aberta em 10 de outubro só pode ser preenchida com muita informação. É preciso expor, por exemplo, – e sempre por meio de fatos – a resistência (política e simbólica) da base de Serra aos programas de redistribuição de renda; as tentativas de sabotar os projetos de lei que tratam do Pré-Sal (um ano depois de apresentados, só um foi transformado em lei pelo Congresso). Se feita com sabedoria e talento, a exposição dos absurdos assacados contra Dilma pela campanha apócrifa lançará o feitiço contra o feiticeiro.
Viveremos fortes emoções, nas próximas semanas. Mas o processo de transformações inciado há oito anos tem potência suficiente para voltar a se impor, entre a maioria do eleitorado. Se isso ocorrer, Dilma acrescentará a sua história pessoal a inteligência de ter sabido, a tempo, comandar o movimento necessário para derrotar a direita-Tea Party – este quase-fascismo pós-moderno que ronda o Brasil em 2010.
1 — Em 3 de julho, data fixada pelo TSE para que os candidatos apresentassem seus programas de governo, a coligação PSDB-DEM-PPS protocolou na Justiça Eleitoral apenas a transcrição dos discursos de Serra feitos na convenção conjunta das três agremiações. A mídia comercial acobertou tal ausência – enquanto destacava, por dias, o fato de a campanha Dilma ter alterado alguns dos itens do programa formalmente apresentado.
2 — Sempre tendente à mistificação e ao provincianismo, a velha mídia tratou Singh como um "guru". Certamente, impressionou-se por sua origem indiana, ou pelo fato de usar o turbante típico da etnia sikh... 

domingo, 17 de outubro de 2010

Lei sobre aborto é semelhante a da África

Polêmica central no 2o turno, evocado pela oposição de direita (Serra, PSDB)contra a candidata governista (Dilma, PT), supostamente favorável a mudança,lei sobre aborto do Brasil é semelhante à de países da África, seguindo padrão dominante nos países subdesenvolvidos, como informa relatório da ONU.

O aborto foi utilizado como meio para tirar votos da candidata governista, à medida que a descriminalização do aborto é uma bandeira tradicional do movimento feminista e de saúde pública, justamente por isso incluído no programa histórico do PT, e por declarações antigas da candidata justamente destacando que deveria passar por revisão, processo que em todo mundo ocorreu, principalmente nas últimas décadas.

Enquanto, em 2009, segundo o documento da ONU, 80% das nações consideradas desenvolvidos permitiam o aborto por motivos econômicos ou sociais e 69% sob solicitação da mulher, em países em desenvolvimento, as porcentagens eram de, respectivamente, 19% e 16%. Em suma, ambos os candidatos defendem o atraso ou são pautados por ele, e abandonaram a defesa da mulher e o projeto de desenvolvimento civilizatório para a sociedade brasileira.

Lei sobre aborto no Brasil é semelhante à de países da África

Rosanne D'Agostino - UOL Eleições
  • O aborto tornou-se foco do 2º turno das eleições, como tema central do discurso dos candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT)
    O aborto tornou-se foco do 2º turno das eleições, como tema central do discurso dos candidatos José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT)
A tendência mundial em relação ao aborto em determinadas circunstâncias é a de liberalizar a medida, segundo estudo das Nações Unidas. O Brasil, no entanto, se assemelha a países da África ao classificar o ato como crime contra a vida.
De acordo com o relatório "World Population Policies 2009", ao menos 47 de 192 países da ONU optaram por liberalizar as condições para a prática de aborto desde 1996.

sábado, 16 de outubro de 2010

O vale-tudo da burguesia nas eleições 2010

O VALE TUDO DA BURGUESIA NAS ELEIÇÕES DE 2010

Rafael Rossi
A campanha do PSTU sofreu com o boicote sistemático da mídia e tivemos nosso último programa roubado pelo PSDB numa manobra burocrática através da Justiça Eleitoral que concedeu aos tucanos um direito de resposta contra nós por dizermos a verdade. Assisti aos vídeos das candidaturas dos partidos burgueses contra Heloísa Helena em Alagoas e achei realmente chocante. Foi um linchamento político promovido pela burguesia aliada do governo Lula.  A burguesia se organizou para combater com todas as armas as candidaturas de esquerda e este foi um fato gravíssimo.
 As candidaturas do PSTU, PCB e PCO eram chamadas de candidaturas de partidos nanicos e eram desrespeitadas em programas de entrevista e humorísticos, como o fez arrogantemente um jornalista do RJTV com o Cyro Garcia e o CQC com todos os candidatos de esquerda. 
Fica esta lição para os camaradas do PSOL: Heloísa Helena fez de tudo para que o PSOL saísse com o PV, mas sua amiga Marina não lhe prestou a solidariedade no momento em que era fuzilada pelos oligarcas de Alagoas, aliados do PT. Assim foi também em 2006, quando nos negaram a vice na chapa da Frente de Esquerda e César Benjamin saiu criticando a Frente e o próprio PSOL. Plínio, que teve uma postura que deve ser lembrada como bastante positiva na eleição de 2006, desta vez, no mínimo, poderia ter feito mais. Tentou, a todo custo, se distanciar dos demais partidos de esquerda, para não ser associado aos "nanicos", o que foi um fato grave. 
Grave ainda foi a sua ausência no debate dos presidenciáveis da esquerda promovido pelo Brasil de Fato e que contou com a participação de Zé Maria, do PSTU, Ivan Pinheiro, do PCB, e Rui Costa Pimenta, do PCO. Participou dos debates da grande mídia, elogiando em alguns momentos a democracia dos debates e outras denunciando a falta de democracia, falatando-lhe uma postura firme e coerente. 
Antes das eleições, uma parcela importante das correntes do PSOL, que estão na INTERSINDICAL, romperam com o CONCLAT diante de votações democráticas, nas quais eles foram derrotados por estarem em minoria, deixando de compor conosco a CSP-CONLUTAS, alternativa às CUT, CTB e Força Sindical, pelegas, burocratizadas e governistas, inimigas dos trabalhadores. Algumas lições devem ser tiradas de todo este processo. 
De minha parte, acho que devemos ser solidários a todos os camaradas da esquerda que foram brutalmente atacados e sistematicamente boicotados pela grande burguesia, sua mídia, sua justiça e seus partidos. Temos que nos unir contra esses gorilas! 
Parabéns ao camarada Cyro Garcia que resitiu bravamente a todo o boicote da mídia, a ponto de ser desconvidado do debate da Record, ao qual havia sido convidado por ter no início das pesquisas chegado ao terceiro lugar com 3% das intenções de voto. Parabéns a Zé Maria, Ivan Valente, Rui Costa Pimenta, ao PSTU, ao PCB, ao PCO e aos camaradas do Brasil de Fato que construíram o único debate VERDADEIRAMENTE DEMOCRÁTICO dessas eleições. 
Solidariedade a Heloísa Helena, apesar das divergências e por muitas vezes ter posições que consideramos desrespeitar o acúmulo do movimento sobre determinados temas, mas que, como nome da oposição de esquerda, que representou a Frente de Esquerda em 2006, e concorria agora ao senado pelo PSOL foi atacada ferozmente pelas oligarquias aliadas do PT e da maneira mais baixa. Apoio também deve ser dado a Ivan Valente no sentido que assuma sua cadeira na Câmara contra o corrupto do Maluf, que deve continuar com sua candidatura cassada. 
Em muitos casos, o PSOL se rendeu ao vale tudo eleitoral como no caso do apoio a Paulo Paim, do PT, no Rio Grande do Sul. Que fique registrado que é diferente apoiar alguém que está no nosso campo de apoiar um candidato da Frente Popular, da coligação entre partidos de esquerda e partidos burgueses de direita para encher os bolsos dos banqueiros. Camaradas do PSOL apoiaram nossos candidatos contra as alternativas supostamente progressistas de Paim no Sul e Lindberg no Rio de Janeiro, onde tivemos o apoio dos companheiros do Reage Socialista ao nosso candidato ao senado Heitor. E agradecemos sinceramente este apoio dos nossos companheiros de luta. 
Por tudo isso, os companheiros do PSOL devem rever algumas de suas posições e retomar o esforço da unidade em torno daquilo que foi votado por milhares de trabalhadores no CONCLAT e construir a CSP-CONLUTAS e o processo de reunificação. Estão de parabéns os companheiros aqui no Rio que elegeram Chico Alencar e Marcelo Freixo e dobraram sua bancada na ALERJ e elegeram mais um deputado federal no estado. 
Mas merece ainda mais respeito o voto dos trabalhadores em suas próprias instâncias, nos sindicatos e movimentos, e os delegados por eles eleitos na base. O respeito à democracia operária é um princípio sagrado para a esquerda socialista. As eleições no contexto da democracia liberal são muito importantes, mas táticas, pois sabemos que, em essência, elas não mudam nada. Só a nossa luta e organização mudam alguma coisa. 
Depois da eleição mais antidemocrática do período pós-ditadura militar é importante fazermos algumas reflexões. Estamos diante da maior crise econômica desde a crise de 29 e o futuro governo, seja Dilma ou seja Serra iniciará o seu governo com uma nova reforma da previdência. Nesse momento, devemos todos juntos, sem vacilação, puxar o voto nulo e fazer a denúncia de todo este processo repleto de maracutaias e campanhas milionárias a serviço do próprio capital. No segundo turno é VOTO NULO!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O hipócrita tom do recado das denúncias da mídia ao PT e Lula

Tentar mostrar o PT como corrupto e que acharca os empresário é a última da grande imprensa do Brasil em sua luta inter-burguesa pelo controle do Estado. Nessa tentativa não medem escrupulos, são derrubados os hipócritas auto-limites éticos das mídia, são violados o rigor jornalístico, em seu afã desesperado para impor seus candidatos (PSDB e DEM/PFL) como "partido do capitalismo brasileiro" a frente do Estado no próximo período, ao invés do PT.

Uma campanha sistemática, que obrigou pela primeira vez, o próprio PT e Lula a fazer uma crítica veemente à grande imprensa, mas que em verdade não crítica os fundamentos desse comprometimento com o seu adversário, os compromissos econômicos - até porque seu partido em essência não luta contra a raiz do problema (e em parte até o reproduz). A grande imprensa é um negócio capitalista, e portanto, recebe recursos ou possui negócios e interesses vinculados com um ou outro setor econômico que está participando das eleições.

Vale lembrar que, durante os anos FHC do PSDB e DEM, os grandes grupos de mídia (FolhaSP, OEstadoSP, OGlobo, Abril, etc) muito se beneficiaram das privatizações adquirindo ou participando da compra de empresas de telefônia, banda larga, provedor de internet, telefonia móvel e TVs por assinatura. E também, os governos estaduais sob a cabeça dos dois partidos são extremamente beneficiados com vultosas verbas oficiais publicitárias e contratos duvidosos de assinatura de revistas e jornais e apostilas escolares. Está é a raiz principal da adesão a candidatura do PSDB-DEM ou rejeição da candidata do PT e do governo federal atual.


Apesar da grande mídia ser um setor empresarial beneficiado com o bom andamento dos negócios do setor industrial e comercial da economia capitalista, através do aumento dos anunciantes e consumidores de jornais, revistas e assinaturas e consequentemente, deveria ficar ao lado desse, mas não é assim. O tom do recado permanente da grande mídia, burguesa por natureza, sempre foi de repulsa ao PT e a Lula, embora com momento de tolerância. Tolerância em razão do papel de cooptação de ambos sobre movimento social a fim de não enfrentar o grande capital nacional. Uma tolerância sempre no "fio da navalha", pois Lula/PT poderiam perder o controle ou ser empurrados a se enfrentar com o capital. Contudo, como agora, não há riscos aos grandes negócios, muito pelo contrário, tornam-se desnecessários e incomodos. Ainda mais esse PT, defensor do grande Estado, intervencionista, comprador. Sendo portanto, necessário restituir o "natural estado das coisas", sem PT e estado interventor, mesmo que esse tenha dando muito lucro as empresas e bancos. Daí o apoio ao candidato do status quo anterior à 2002, ainda mais quando esse a frente do governo de SP sempre deu uma ajudinha a essas empresas...

Por sua vez, por um lado, apesar do governo, o Lula e o PT que agora tanto reclamarem da postura da grande imprensa, até porque os ataques são duros e prejudiciais a sua candidata, em verdade, nunca se enfrentaram com essas empresas. Nunca apoiaram ou fortaleceram veículos menores e a imprensa alternativa,  regional e a operária-sindical. E, pior, nunca deixaram de dar recursos públicos subsidiados aos grande grupos em situação pré-falimentar ou fizeram nova concorrência pública pelo sinal de TV. Nunca atacou a oligopolização do setor ou tentou estabelecer um controle social como manda a Constituição de 1988 e é padrão em todos os países desenvolvidos. Nunca critiram a imprensa por esta atacar os movimentos sociais e tentar criminalizá-los. Nunca criticaram a campanha da mídia de defesa dos valores capitalistas, neoliberais e pró-mercadistas. Nunca durante a campanha questionaram a falta de democracia dos grande veículos de imprensa que simplesmente esconderam os outros candidatos, especialmente os de esquerda (PSTU, PCB e PCO), a não ser os dois, três ou quatro que lhe interessaram. Mas quando esta mídia prejudica sua candidata, fazendo uma saravaida diária de denúncias, a postura é outra.

Por outro lado, o PT e Lula ousaram reclamar da imprensa. Uma ousadia. Essa mesma imprensa capitalista e oligopolista ,que se esconde atrás das liberdades democráticas, do direito à liberdade de imprensa, para fazer o que bem entende, para atacar e caluniar livremente os movimentos sociais e quaisquer que firam seus interesses, e defender seus interesses econômicos e propagandear sua visão sobre a política. E para grande imprensa um ataque a si é como se fosse um ataque a liberdade de imprensa. Portanto, Lula, o PT e sua candidata são "totalitários" e são contra a liberdade e acharcam empresários.

O PT/Lula/Dilma bem que merecem esses ataques. Contudo, o eleitor brasileiro, especialmente os trabalhadores e pobres não merecem ler esse tipo de matéria.

Não merecemos ler, Miriam Leitão. Essa propagandista dos banqueiros e privatistas, atacar com pseudo-denúncias o PT, especialmente e justamente aonde e por onde o PSDB mais se utilizou, da ajuda seletiva do BNDES às grandes empresas. Essa mesma comentarista econômica - que parece que não estudou em uma faculdade de economia do mundo real, que sempre proclama coisas a partir de teorias que qualquer economista desconhece, tudo para defender os interesses aos quais está ela e o veículo de imprensa em que trabalha está alinhado - durante anos FHC/PSDB/DEM nunca criticou a corrupção desses, o uso político do BNDES ou comentou as milhares de acusações de tráfico de influência dentro dele, a farra das privatizações subsidiadas, a "Pasta Rosa", etc.

Não merecemos ler isso. E essa culpa é do PT e do Lula. Pelo visto, somente os trabalhadores podem, e  precisam, derrotar a grande imprensa burguesa, nas urnas e nas lutas. A internet e a mídia operária-sindical são alguns meios de comunicação que ajudaram nisso. Para não precisarmos ter que ler mais tamanha hipocrisia, principalmente de alguém que em um mundo realmente democrático, não teria tamanho espaço para todo dia defender o que interessa a seu patrão e não o que interessa a seu leitor.


***

O tom do recado
O Globo - MÍRIAM LEITÃO -

A pergunta feita a um empresário, numa conversa com várias pessoas, foi: “É verdade que emissários do PT telefonam para empresas avisando que sabem quem não está fazendo doações para a campanha?” O empresário respondeu: “Para mim, telefonaram e foram pessoalmente dizer que notaram que eu não tinha feito doação na última eleição nem tinha feito ainda nesta.”

Eu ouvi essa conversa estarrecedora.

Esse tipo de encaminhamento do pedido de doação, se estiver generalizado, é uma forma de ameaça.

A frase: “Notamos que você não fez doação na última eleição e ainda não fez nesta” pode ser entendida pelo que está embutido: estamos de olho em você.

O Estado, hoje, é quem concede a maioria do crédito; o BNDES aumentou de forma extravagante suas concessões de empréstimo subsidiado e a arbitrariedade de suas escolhas dos “campeões”, que o faz negar créditos a alguns e conceder em excesso a outros que, na visão do banco, estão mais aptos a vencer a competição global. A mistura é explosiva: de um lado, um Estado com poder de vida e morte sobre as empresas; de outro, emissários do partido do governo com uma ameaça embutida na formulação do pedido.

Hoje, um dos grandes riscos que a sociedade brasileira corre é exatamente esse poder excessivo do Estado, controlado como donataria pelo partido do governo. O Estado é o grande comprador, o grande financiador, o grande sócio em qualquer empreendimento. Como ficar contra ele? Por outro lado: ficando a favor dele, que grandes vantagens se pode ter! Os empresários só falam mal do governo se seus nomes não aparecerem; todos eles estão sendo beneficiados por alguma grande obra, algum grande contrato, alguma licença; ou sonham ser beneficiados no futuro.

Um dos maiores empresários do país foi chamado para uma conversa cheia de ameaças indiretas por ele ter feito declarações contra uma das polêmicas obras que promete ser sorvedouro de dinheiro público.

O governo cooptou movimentos sociais, sindicalistas, parte do movimento cultural, através da distribuição de benesses, patrocínios, contratos e financiamentos.

Mas a cooptação dos empresários é mais direta.

Algumas empresas não têm capacidade alguma de bancar os empréstimos que recebem, ou outras são viabilizadas por aderirem aos grandes projetos em que todo o risco é público.

Nas sombras de um Estado gigante, tudo viceja, como os intermediários de negócios, mesmo que eles não tenham delegação para entregar o que prometem. Com um Estado todo poderoso, qualquer espertalhão pode dizer que é a ligação direta com quem decide e pedir uma comissão para isso.

Mesmo que não houvesse casos de corrupção, comprovadamente ligados ao governo, ainda assim, seria o ambiente certo para a propagação dos casos nebulosos de pedidos de propina.

A redução do tamanho do Estado faz esse favor ao país: diminui os guichês nos quais se oferecem favores com dinheiro público e se pedem em troca comissões para enriquecimento pessoal ou para o partido que está no poder. A privatização tirou do Estado um sem número de cargos de distribuição política em empresas siderúrgicas, concessionárias de serviços de energia e de telefonia.

As empresas que o país decidiu manter estatais deveriam ser isoladas das pressões políticas e concederem mais acesso às suas contas e aos critérios de decisão.

Essa seria uma forma de reduzir o risco que o contribuinte e o consumidor dos serviços correm hoje com problemas como os dos Correios.

Já houve tantos casos nebulosos nos Correios no governo Lula — dos indicados do ex-aliado Roberto Jefferson até os indicados da ex-primeira-amiga Erenice Guerra — que não resta dúvida a esta altura: a melhor forma de produzir um colapso postal no país é continuar entregando os cargos de direção da estatal na mão dos políticos e seus afilhados e evitar a administração profissional da empresa. É um espanto que se consiga em tão pouco tempo provocar tanto extravio numa empresa centenária e que sempre teve reputação de eficiência.

Há quem considere que a melhor forma de evitar constrangimentos como o vivido pelo empresário que cito no começo dessa coluna é o financiamento público exclusivo de campanha. Como ser ingênuo a ponto de achar que, se o Estado der ainda mais dinheiro para os partidos, os que estão hoje viciados em caixa dois fecharão o balcão de pedidos impróprios aos empresários? O que ajuda a resolver o problema é, como tenho escrito aqui, a trindade: punição, fiscalização, transparência.

Nada é panaceia contra a corrupção, mas há formas de reduzi-la e outras de aumentála. O gigantismo do Estado é o caminho mais curto para aumentar a corrupção.

Quando ele se torna o parceiro inevitável em qualquer negócio, tudo pode acontecer.

Quando seu poder é usado para amedrontar as empresas, qualquer doação para campanhas políticas pode ser extorquida. E o que houve nos últimos anos no Brasil foi o crescimento descomunal do Estado, primeiro, à sombra do Plano de Aceleração do Crescimento e, depois, sob o pretexto de que era preciso evitar a crise econômica mundial. Conter esse gigantismo é fundamental hoje, não apenas por razões econômicas, mas para melhorar a qualidade da democracia brasileira.

O partido do capitalismo brasileiro

O partido do capitalismo brasileiro

Carlos Tautz*

Dilma e Serra não brigam apenas pela Presidência da República. PT e PSDB também têm olhos para muito além dos resultados de 3 de outubro. As duas legendas ambicionam ser o interlocutor privilegiado de agentes econômicos de grande porte junto ao Estado brasileiro nos próximos anos e, para isso, buscaram alianças para se estenderem ao máximo no poder. No fundo, desejam mesmo ser o partido do capitalismo brasileiro.

É por esta razão que na campanha alguns temas saem como coelhos da cartola de um mágico. Sem muita importância para a luta imediata por votos, em verdade são usados para golpear estrategicamente o adversário. E um desses assuntos mágicos da campanha atual tem sido o BNDES, o grande financiador de longo prazo no Brasil, 100% estatal, que recebe recursos do Tesouro e
do Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT).

O Banco foi escolhido por Lula para cimentar a aliança de poder que o PT firmou com um seleto grupo de grandes agentes econômicos dos setores industrial, agrícola e extrativista. Ao financiar essas empresas em sua expansão internacional, o BNDES se transformou no principal instrumento de projeção do poder econômico do Brasil na América do Sul e na África. Não por coincidência, são também essas as regiões prioritárias da política externa brasileira.

Desde que o PT chegou ao poder, em janeiro de 2003, o BNDES quadruplicou seu orçamento para US$ 90 bilhões em 2009. Recebeu aportes de R$ 180 bilhões do Tesouro e sustentou internamente a disponibilidade de crédito durante a crise financeira de 2008. Vendo essa relação entre governo e grandes multinacionais brasileiras se consolidar, o PSDB atacou, embora tarde e inaptamente, estimando corretamente que a parceria de poder dos petistas durará enquanto estiver em alta o mercado internacional de commodities. Ou seja, provavelmente por muitos anos.

Os tucanos atacaram a histórica falta de transparência do Banco – o que é um fato, por si, escandaloso. Mas, pasmos, calaram-se diante do apoio imediato que as maiores associações industriais brasileiras deram ao BNDES. Capitaneadas pela Associação Brasileira de Indústrias de Base, quase 20 delas publicaram em julho manifesto defendendo a política de crédito do Banco e mandaram seu recado: com esses empréstimos, estamos com Lula e não abrimos.

Aliás, tucanos estão muito pouco a cavalheiro para criticarem petistas. Embora nos anos FHC sua parceria mais orgânica tenha sido com o capital financeiro, também utilizaram o BNDES para azeitar suas alianças e o fizeram operador da ideologia do Estado mínimo e da desnacionalização da economia. Porém, quando perdeu em 2002 as eleições presidenciais, o PSDB abriu o flanco e um PT pragmático (lembram-se da Carta aos Brasileiros?) aproveitou-se da conjuntura internacional e passou a estimular a criação dos “campeões nacionais”.

Assim, empresas de todos os portes passaram a receber do Banco vultosos aportes e participações acionárias para ganharem musculatura e figurarem entre os maiores exportadores de commodities agrícolas, minerais e energéticas em nível internacional. Hoje, elas são as maiores tomadoras de
empréstimos do BNDES.

Claro que o PT agrada também à banca e não somente ao capital produtivo. Henrique Meirelles é prova viva. Deixou um mandato de deputado federal pelo PSDB de Goiás, após presidir o Bank Boston, para ser elevado por Lula, desde o primeiro dia deste na Presidência, à chefia do BC independente de fato. Meirelles e as altas taxas de juros afiançam Lula junto à banca internacional. Mas, no fundamental, o PT está aliado à indústria de base e aos exportadores de mercadorias e aposta o quanto pode que essa parceria vai durar.

Neste cenário, ficou muito difícil para o PSDB a disputa pela primazia da intermediação entre o Estado e grandes capitais. E, ainda por cima, a se confirmar a tendência de Dilma ganhar no primeiro turno e os rumores de que Aécio deixará o PSDB para fundar seu próprio partido, o quadro ficará ainda pior para os tucanos. Porque, aí, estará aberta uma janela histórica para o PT se tornar o partido do capitalismo brasileiro no século 21.

(*) Carlos Tautz é jornalista

***

Comentário Enviado ao Limiar&Transformação pelo Prof. Theotonio dos Santos:


Apreciações corretas no fundamental. Resta por discutir qual a posição dos setores populares neste processo e porque o capital internacional não pode liderar diretamente este processo e tem que apelar a uma liderança popular com a qual, como diz a nota, está fechado e não abre, para dirigi-lo. Somente a teoria marxista sobre o papel do capitalismo de Estado no sistema capitalista nos permite compreender o processo e preparar uma participação consciente dos trabalhadores neste processo tão complexo.


theotonio

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Debate entre candidatos a presidente no campo da esquerda

Em um esforço para apresentar alternativa ao quadro eleitoral marcado pela falsa polarização criada pela grande mídia entre os candidatos Dilma Rousset e José Serra, no qual todos os demais com poucas excessões (um pouco Marina Silva e menos ainda Plínia de Arruda Sampaio) são esquecidos deliberadamente, especialmente aqueles do campo da esquerda, o Jornal Brasil de Fato realizará no dia 21 de setembro, em São Paulo, um debate entre os candidatos à Presidência da República representados em seu conselho editorial. Foram convidados Dilma Rousseff (PT), Ivan Pinheiro (PCB), Marina Silva (PV), Plínio Arruda Sampaio (PSOL), Rui Costa Pimenta (PCO) e Zé Maria (PSTU).

Estão confirmadas as presenças de Ivan Pinheiro (PCB), Rui Costa Pimenta (PCO) e Zé Maria (PSTU). O debate acontecerá às 21h na Ação Educativa. A atividade não será aberta ao público, mas terá transmissão ao vivo pela página do Brasil de Fato (www.brasildefato.com.br).

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Dialética Radical: o Brasil hoje

Dialética radical

Os últimos números reafirmam nossa profunda dependência do exterior. Está meio demodé tocar no assunto, nestes tempos dialéticos, quando a moda é ser ao mesmo tempo você e o seu contrário

Está passando quase despercebido o crescimento do deficit em transações correntes do balanço de pagamentos. Em resumo, o saldo da balança comercial não vem sendo suficiente para compensar as maciças remessas de lucros e dividendos. A relativa tranquilidade nasce de dois vetores: as reservas cambiais e a captação de investimentos vindos do exterior.

Ou seja, a economia brasileira resiste também porque continua escancarada aos fluxos globais do capital, e assim o país vai se financiando. Não deixa de ser irônico que aconteça sob um governo do PT, mas essa observação já anda meio batida, reconheço (comparar o que o PT dizia antes de chegar ao governo e o que fez depois).

Sempre é útil, entretanto, registrar que enquanto Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e entourage batem dia sim outro também na tecla do “fim da dependência”, nunca antes na história deste país estivemos tão dependentes do dinheiro vindo de fora. Mas como ele existe e está disponível para um governo tão “market friendly” quanto o nosso, a coisa passa disfarçada. O governo fala grosso. E a oposição se faz de surda. Que não é besta.

Lula adora repetir, e cada vez mais, o quanto não dependemos agora do Fundo Monetário Internacional, e isso tem um efeito simbólico conhecido. Deve ter também algum efeito eleitoral. Mas o presidente não conta a história toda. Deixa de dizer que passamos a depender de um dinheiro muito mais caro, o dinheiro que vem para cá atrás das nossas obesas taxas de juros e, num grau menor, das gordurosas margens.

Haverá negócio mais bacana no planeta do que ser dono de um banco ou de uma companhia telefônica no Brasil?

O faz de conta está mesmo com tudo. Pena é que alguns menos treinados na mistificação escorreguem de vez em quando. O chanceler Celso Amorim protagonizou uma página espantosa na trajetória da diplomacia pátria, ao dizer, no início deste mês, na Câmara dos Deputados, que o Brasil pôde votar no Conselho de Segurança da ONU contra as sanções ao Irã porque não deve ao FMI.

Ou seja, segundo Amorim, quem votou a favor das sanções fê-lo por ser devedor.

Restou porém fora da lógica do ministro um detalhe: o maior credor do mundo, a China, votou favoravelmente.

É o caso de especular. Será que Barack Obama ameaçou Pequim com um calote dos títulos do Tesouro americano caso os chineses não acompanhassem o voto americano contra o Irã? A julgar pelo raciocínio de Amorim, quem sabe?

Ironias à parte, os últimos números reafirmam mesmo nossa profunda dependência do exterior. Está meio démodé tocar no assunto, nestes tempos de dialética radical, quando a moda é ser ao mesmo tempo você e o seu contrário. Mas é fato.

E por que permanecemos atrelados ao nosso roteiro tradicional? Porque continuamos incapazes de gerar a poupança necessária para sustentar nosso consumo e, ao mesmo tempo, nossas necessidades de investimento.

Somos um Estados Unidos em escala reduzida. No que eles têm de pior. No vício de viver do dinheiro e do trabalho alheios. Na cultura do esbanjamento. A diferença é que eles ainda podem, por enquanto, imprimir a moeda mundial. Nós não.

Lula e Dilma fizeram o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Do ângulo simbólico foi ótimo. Havia tempo que a agenda do crescimento não era colocada em primeiro lugar.

Infelizmente, porém, na rubrica dos recursos orçamentários para investimento ou na taxa de poupança não se registrou neste governo evolução significativa em relação ao anterior. O que deixou de ser drenado em juros virou custeio. Bom de um lado, pelos repasses aos mais pobres, mas péssimo para quem acredita na essencialidade da poupança nacional e do investimento público para crescer de maneira sustentada.

Nos últimos dias os analistas respiram aliviados, pois parece que o Banco Central tem sido eficaz ao impedir a aceleração do crescimento. Lula festeja, pois parece que nosso “PIB potencial” (o que não arrebenta a inflação) anda um pouquinho maior em relação ao do governo anterior.

Como se sabe, vivemos uma era de profundas transformações.

Coluna ("Nas entrelinhas") publicada nesta quarta (28) no Correio Braziliense.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Juro nominal continuará escondido na nova LDO

Juro nominal continuará escondido na nova LDO

Monitor Mercantil, 09/07/2010

O economista Rodrigo Ávila, ligado à Auditoria Cidadã da Dívida, alerta para o fato de que o relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2011, senador Tião Viana (PT-AC), voltou atrás da promessa de obrigar a divulgação, pelo Tesouro, da despesa de juros nominais, e não apenas reais, como vinha sendo feito.
"Em seu primeiro parecer, Viana chegou a seguir recomendação da CPI da Dívida e inseriu dispositivo que obriga a divulgação correta das despesas com juros reais e nominais da dívida pública. Atualmente o Tesouro apenas divulga os chamados juros reais (descontada a inflação), jogando, equivocadamente, o restante da despesa para a rubrica "amortizações". Isto dá a entender que os gastos com juros são bem menores".
Pelos cálculos do especialista, a previsão é de que sejam separados para o pagamento de juros R$ 125 bilhões, a título de superávit primário. "É importante ressaltar que o cumprimento dessa meta obriga que outras centenas de bilhões de reais do orçamento federal, provenientes de receitas não-tributárias sejam também obrigatoriamente destinadas ao pagamento da dívida. Isto porque, caso fossem destinadas às áreas sociais, também impediriam o cumprimento da meta de superávit", reclama, lembrando que, em 2009, essa política fez com que fossem destinados R$ 380 bilhões para juros e amortizações da dívida pública federal, mesmo desconsiderando-se a chamada "rolagem" ou "refinanciamento", ou seja, o pagamento de amortizações por meio da emissão de novos títulos. "Esse valor representou 35,57% do Orçamento Geral da União, enquanto somente foram destinados 4,64% para a Saúde, e 2,88% para a Educação."

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

José Welmovick fala em 1991 sobre a Queda do Muro de Berlim

O então dirigente político, o sociológo José Welmovick, da antiga Convergência Socialista, corrente marxista na época pertencente ao PT, mas que em 1992 será um dos grupos fundadores do PSTU,  fala em evento ainda em 1991, sobre a Queda do Muro de Berlim e o processo de revolução política em curso nos países do Leste Europeu no fim da década de 1980 e início da década de 1990.



Alguns destaques na entrevista:

O sociológo classifica os processos políticos vividos no Leste Europeu de "revoluções políticas", de cunho democrático, cujas massas trabalhadoras dos países se rebeleram aos anos de repressão, ditadura e exploração imposta pelas direções burocráticas stalinistas, mas que devido a imaturidade das direções políticas pró-democráticas, o movimento foi sendo canalizado ou cooptados para projetos restauradores do capitalismo. O que destaca: restauração capitalista do Leste.

sábado, 15 de agosto de 2009

Entrevista de Stédile

Principal liderança do MST, o gaúcho João Pedro Stédile concedeu entrevista ao UOL Notícias, na qual falou sobre a questão agrária no Brasil, as eleições presidenciais de 2010, o governo Lula, a crise no Senado, além de fazer um balanço dos 25 anos do movimento. Suas respostas ilustram ao menos de maneira resumida a ideologia do MST, suas concepções sobre a reforma agrária e seu projeto político para o Brasil.

Na entrevista ao UOL Stédile afirma que há quatro projetos em disputas no Brasil, um deles é o do MST, que além de possível a construção de uma sociedade mais justa por meio das instituições democráticas atuais, defende um projeto diferente ao socialismo do PSTU e de correntes do PSOL: "... há outros setores da esquerda brasileira, mais radicais, correntes do PSOL e do PSTU, que defendem o "socialismo já"...nós, dos movimentos sociais, defendemos um quarto projeto, que chamamos de projeto popular, que é, nos marcos da nossa sociedade, fortalecermos de fato o Estado para que ele adote uma política econômica que leve ao desenvolvimento do país em benefício do povo. (...) seria uma ilusão achar que a solução seria uma reforma agrária socialista"

Vejam alguns trechos da entrevista:

UOL Notícias - É possível pensar em um projeto de esquerda para o Brasil, ou vislumbrar uma sociedade mais justa e igualitária, por meio das instituições democráticas que temos hoje?

Stédile - Claro. Há um debate na sociedade que se aglutina em quatro campos: alguns setores das elites, das classes dominantes, defendem a subordinação total do Brasil ao capital internacional. Aí estão os 5% mais ricos, as empresas transnacionais, os bancos, que são os que defendem políticas neoliberais e que, nos partidos, tem sua expressão, sobretudo, entre os tucanos e entre o DEM; temos um setor nacionalista, que está presente em todos os partidos, que defende um projeto "neo-keynesiano" para o Brasil, com algumas políticas de distribuição de renda, redução da taxa de juros e fortalecimento do mercado interno; há outros setores da esquerda brasileira, mais radicais, como correntes do PSOL e do PSTU, que defendem o "socialismo já". Eles acreditam que o capitalismo já chegou a sua maioridade aqui no Brasil e que não há outra saída sem o socialismo. Só que a palavra socialismo é muito forte. Significa socialização da propriedade dos meios de produção. Não é apenas você ser socialista no sentido humanista, ser socialista por querer uma sociedade mais justa; nós, dos movimentos sociais, defendemos um quarto projeto, que chamamos de projeto popular, que é, nos marcos da nossa sociedade, fortalecermos de fato o Estado para que ele adote uma política econômica que leve ao desenvolvimento do país em benefício do povo. Quais são os problemas fundamentais do povo no Brasil? Desemprego alto, falta de moradia, necessidade de reforma agrária e ausência de educação. Então, [nós defendemos] um programa para a sociedade que coloque o dinheiro público como prioridade para resolver os problemas do povo. Mas não basta colocar no papel "esse é o nosso projeto". É preciso construir, acumular forças populares que atuem para a implementação desse projeto.

UOL Notícias - Esse projeto popular é um caminho para uma sociedade socialista?

Stédile - Ele é fundamental. Ele seria uma espécie de transição para nós construirmos uma sociedade mais igualitária. Primeiro vamos resolver os problemas fundamentais da população. Que é comida, trabalho, moradia e educação. Depois, podemos avançar para a socialização de outros meios de produção da nossa sociedade.

UOL Notícias - Qual é o modelo de reforma agrária defendido hoje pelo MST?

Stédile - Na história das reformas agrárias, há dois tipos clássicos. Primeiro, a reforma agrária capitalista, que todos os países do hemisfério norte fizeram entre a metade do século 19 e ao longo do século 20 até a Segunda Guerra Mundial. E eles fizeram as reformas agrárias clássicas capitalistas distribuindo a propriedade da terra para fortalecer o mercado interno e desenvolver a indústria nacional. Depois houve uma outra reforma agrária clássica, que aconteceu no bojo de revoluções socialistas, ou de revoluções populares, como no Vietnã, China, Rússia, Nicarágua e Cuba. Qual é a realidade hoje no Brasil? Nós tentamos desde o início do movimento defender uma reforma agrária clássica capitalista, mas não há forças acumuladas burguesas que queiram essa reforma. Por isso que o governo não faz reforma agrária. Quem fez as reformas agrárias capitalistas? Foram as burguesias industriais, que queriam desenvolver o mercado interno e a indústria. Também seria uma ilusão achar que a solução seria uma reforma agrária socialista, porque essa reforma só acontece depois de uma revolução. Ela é casada com um processo revolucionário, que não é o que temos hoje no Brasil. O que nós propomos é uma reforma agrária que chamamos de popular, que se diferencia das duas. Nessa reforma não basta distribuir terra, como na reforma capitalista. É necessário também desenvolver agroindústrias na forma cooperativa, criar pequenas agroindústrias nos assentamentos. Assim, o agricultor sai mais rápido da pobreza, porque daí ele não vai só produzir matéria prima, mas também se apropriar do valor agregado dos produtos e gerar emprego no meio rural.

Para ler a íntegra acesse: http://noticias.uol.com.br/politica/2009/08/15/ult5773u2074.jhtm

quarta-feira, 25 de março de 2009

CPI da Dívida

Recebi da lista dos amigos do Movimento da Auditoria Cidadã da Dívida

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Amigos da Auditoria Cidadã da Dívida,

Cinco partidos (PCdoB, PDT, PPS, PR e PRB) indicaram os seus deputados representantes na CPI da Dívida, que havia sido criada dia 8 de dezembro de 2008, conforme notícia constante na página da Auditoria Cidadã da Dívida. Isto representa um passo importante para a instalação da CPI.

Restam indicar seus representantes os seguintes partidos: PMDB, PT, PP, PTB, PSC, PTC, PtdoB, PSDB, DEM, PSB e PV. Assim que estes sejam indicados, a CPI já pode começar a funcionar.

Portanto, estamos encaminhando abaixo a lista com os endereços, telefones e e-mails dos líderes destes partidos, aos quais cabe fazer a indicação. Encaminhamos também uma proposta de carta, para que as entidades possam fazer as alterações que julgarem necessárias e enviarem a estes parlamentares.

Atenciosamente,

Coordenação da Auditoria Cidadã da Dívida

www.divida-auditoriacidada.org.br

quarta-feira, 18 de março de 2009

No que Protogenes e a Satiagraha acabou mexendo: a rede de controle do Estado brasileiro

Li um post do Luís Nassif e gostei muito. Nassif no artigo fala porque o combate a corrupção e o crime organizado realizado em operações da PF como a Satiagraha gerou tanto incomodo. O delegado Protogenes e sua operação Satiagraha acabou mexendo na rede de do controle do aparelho Estado criado pelo grupo de FHC/PSDB e sucedido pelo Lula/PT.

O Sistema Brasileiro de Inteligência e o jogo político

blog do Luís Nassif, 17/03/2009 - 15:00

http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/03/17/o-sistema-brasileiro-de-inteligencia-e-o-jogo-politico/#more-29462

Quando FHC saiu do governo, escrevi um artigo “Uma obra de arte política”, descrevendo a habilidade da estratégia de governabilidade de FHC - e o desperdício de não ter sido utilizada para um plano de desenvolvimento amplo.

A estratégia consistia em cooptar chefes regionais com migalhas do poder, mantendo incólumes os pilares centrais do governo.

Essa era apenas a perna conhecida do modelo criado por FHC.

O ponto central era o controle estrito sobre o Ministério da Fazenda e toda a estrutura debaixo dele - Banco Central, CVM (Comissão de Valores Mobiliários), Secretaria da Receita Federal (SRF).

Não se tratava apenas de manter o controle técnico sobre a economia. Era nesses ambientes que se fortalecia a perna oculta do sistema de poder montado: a criação de um modelo sistêmico de aliança com o crime organizado (de colarinho branco), que se expandia na indústria de offshores, de bancos de investimentos, de gestores de recursos.
A maneira como Gustavo Franco autorizou as operações do Banco Araucária, as operações com leilões da dívida pública (sempre com dúvidas sobre sua transparência), o caso emblemático do Banco Santos - desde 1994, um banco quebrado que, mesmo assim, enviava centenas de milhões de dólares para o exterior, com autorização do Banco Central - e, especialmente, o caso Opportunity, demonstravam uma ampla cumplicidade entre autoridades e transgressores. A estrutura de fiscalização do Estado ficou totalmente amarrada pelas ordens que emanavam do centro do comando financeiro do governo.

O controle do Estado

Em entrevista que concedeu ao Terra Magazine, FHC definiu a Satiagraha como uma luta pelo controle do Estado. Nada mais claro.

Quando o PT assumiu o poder, seguiu ao pé da letra a receita de FHC - tanto nos acordos fisiológicos inevitáveis, quanto na tentativa de cooptação desses grupos barras-pesadas.

Esse trabalho se dá através dos dois estrategistas políticos de Lula, José Dirceu e Antonio Palocci. Palocci atuava especialmente através do Conselhinho (o Conselho que julga os recursos dos agentes financeiros) e da CVM - nas gestões Marcelo Trindade e Cantidiano. Livra-se o Banco Pactual de autuações severas por crimes fiscais, livra-se Dantas por crimes de lavagem de dinheiro e de desobediência às regras cambiais brasileiras, permite-se que o Banco Santos se torne o maior repassador de recursos do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) em uma leniência sistemática.

O Opportunity passa a financiar Delúbio Soares, através da Telemig Celular e Amazonia Celular. Palocci torna-se próximo de André Esteves, do Banco Pactual. E o BC mantinha olhos fechados para os crimes de lavagem de dinheiro.

O Sistema Brasileiro de Inteligência
Esse esquema começa a esboroar não apenas com o chamado escândalo do “mensalão”, mas pela iniciativa histórica do Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, de montar o Sistema Brasileiro de Inteligência.

Essa iniciativa se dá de forma paralela com o que ocorre em outros países, quando os Estados nacionais se organizam para enfrentar a internacionalização do crime organizado.

Nesse momento, começa a ruir o modelo de governabilidade baseado na aliança com o crime organizado. No combate ao crime organizado, o funcionário do BC não responde mais à sua diretoria mas a uma estrutura superior e interdepartamental. O mesmo ocorreu com outros funcionários da área econômica. O controle acaba.

Sentindo que o processo era inevitável, e escaldado pelo “mensalão”, Lula dá ampla liberdade para o aparato do Estado se organizar.

Pela primeira vez, o Estado começa a cumprir suas funções e os funcionários públicos a se libertar das amarras impostas por esse pacto espúrio. Aumenta a colaboração com as forças internacionais anti-crime, surgem as grandes operações combinadas de combate ao crime organizado. Fiscais da Receita passam a conversar com a Polícia Federal, a Coaf troca informações com o Ministério Público, a ABIN é acionada. E dessa integração começa a nascer a esperança de uma mudança estrutural não apenas no combate ao crime organizado, como na redemocratização do Estado e no aprimoramento do jogo político.

Era inevitável o choque com a estrutura de poder montada. O ovo da serpente já estava incubado, eram muito profundas as ligações entre o crime organizado, estruturas de mídia, instâncias do Judiciário, Congresso Nacional, Executivo. O país havia se criminalizado.

Pior, criminalizou-se com status. Chefes de quadrilha são tratados como brilhantes executivos, aproximaram-se de grupos de mídia, ajudaram na capitalização de alguns deles.

Um dos fatores que leva à inibição do crime é a condenação social do criminoso, a não aceitação de sua presença nos círculos sociais. Por aqui, Daniel Dantas continuou a ser aceito por praticamente todas as lideranças políticas. O ato comprovado de tentar subornar um delegado não mereceu a condenação explícita de ninguém. Pelo contrário, é elogiado pelo mentor máximo da oposição, FHC, e defendido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal.

É essa lógica vergonhosa, para nós brasileiros, que explica toda a ofensiva para desmontar o Sistema Brasileiro de Inteligência.

Mudanças irreversíveis

A questão é que o mundo mudou. O crime organizado de colarinho branco tornou-se ameaça mundial, combatido por todos os países civilizados. A Internet rompeu com a barreira da informação. Pode custar mais ou menos, mas será impossível ao país não se curvar à grande onda anti-crime que se seguirá à queda da economia global.

Algumas vezes critiquei a superficialidade de FHC, sua incapacidade de perceber os ventos, os grandes fatores de transformação que permitissem lançar o país rumo ao desenvolvimento. Bobagem minha! Seu foco era outro.

É por isso quem para ele, Protógenes é amalucado e Dantas é brilhante.

A história ainda cobrará caro de FHC por ter institucionalizado o crime organizado no centro do jogo político brasileiro.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A macroeconomia do Brasil atual segundo Theotonio dos Santos

por Almir Cezar 

Prof. Theotonio dos Santos, em 2008
(Foto: Wikicommons)
Venho realizando minhas pesquisas para a dissertação de mestrado sobre a obra teórica de Theotonio dos Santos. O título provisório da dissertação (passou pela banca de qualificação e agora está em fase de confecção para defesa) é “Dinâmica, Determinações e Sistema Mundial nos termos Theotonio dos Santos: os aportes à teoria do desenvolvimento com sua transição da teoria da dependência ao sistema-mundo”. Queria aqui apresentar um resumo do pensamento contemporâneo deste importante economista sobre a crise econômica e as transformações recentes no sistema mundial. Começo aqui seu entendimento da macroeconomia* brasileira e o papel da burguesia nacional no atual arranjo e padrão do sistema capitalista mundial .

No Brasil tem uma classe dominante, que acha que o país é inferior e incapaz de debater à altura as grandes questões do sistema mundial. Essa classe dominante virou uma “burguesia compradora” – intermediadora entre atividades produtivas doméstica e o mercado internacional, especialmente atuando no sistema financeiro interno para esse papel. Sua finalidade é intermediar a dependência de nosso país. Logo é incapaz de um projeto nacional de reafirmação.

As políticas macroeconômicas brasileiras, em muitos aspectos refletem isso, nos últimos anos a preocupação permanente e central é impedir a expansão da demanda agregada e o consumo popular. Vive-se a política de "stop and go" - a cada leve expansão do PIB, vem ações de restrição da expansão, alta dos juros, que freiam a demanda agregada.