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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Avanço de IED pode embutir aplicações em juros

Para Messenberg, do Ipea, quadro de avanço de IED (investimento estrangeiro direto) para US$ 75 bi em 1 ano pode embutir aplicações em juros pode refletir a entrada de capital especulativo 'travestido' de IED.

 "Investejuros" cresceu 177%. 
Avanço de IED para US$ 75 bi em 1 ano pode embutir aplicações em juros 
Monitor Mercantil, 21/10/2011

O ingresso de investimento estrangeiro direto (IED) nos 12 meses encerrados em agosto chegou a US$ 75,4 bilhões. Isso representa crescimento de 176,6% em relação ao mesmo período de 2010.

sábado, 20 de novembro de 2010

Estratégia do BC leva a prejuízos ao país

"Custo BC"
Monitor Mercantil, 19/11/2010

A manutenção das reservas internacionais custou R$ 68 bilhões ao país, entre 2004 e 2010, segundo relatório do Banco Central sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal (LFR). Esse rombo é fruto da diferença entre os juros recebidos pelas aplicação das reservas internacionais do Brasil no exterior e as taxas pagas pelo país para a turma do papelório que investe seus dólares aqui. Para tentar dourar a pílula, o BC alega que a não manutenção de reservas no elevado patamar que o país ostenta custaria supostamente R$ 600 bilhões. A explicação confirma a tese de que, para desastres econômicos do passado, a melhor tática são projeções baseadas em cenários ao gosto do freguês.

Quinta coluna

A guerra cambial não exime o governo brasileiro de agir em duas frentes internas: reduzir os juros reais mais altos do mundo, responsáveis pela atração do capital especulativo, e adotar medidas para impedir a alavancagem dos bancos nos mercados futuros de câmbio, nos quais especulam para "puxar" a cotação do real. Nos dois casos, a ação para um enquadramento do Banco Central, para que, em lugar de ser um representante da banca junto ao Estado brasileiro, passe a agir como um braço do Estado contra a especulação.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

G20 termina em fracasso em Seul

Reunião dos chefes de Estado das 19 maiores economias do mundo e a UE termina sem qualquer medida contra a guerra cambial


EUA e China sustam ação contra guerra cambial até 2011
Monitor Mercantil, 12/11/2010

Seul (Coréia do Sul) - Por pressão de Estados Unidos e China, a cúpula do G20 concluída sexta-feira em Seul não afastou a ameaça de uma guerra cambial. E adiou para o fim de 2011 alguma resolução prática sobre alguma correção no valor do dólar e o iuan, principais beneficiárias da guerra cambial.

"A guerra cambial não acabou, mas passou a ser discutida", destacou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, após o fim da cúpula.

Os negociadores do G20 se debateram durante quatro dias para reduzir suas diferenças e alcançar um entendimento mínimo a ser anunciado pelos líderes neste sábado.

"O acordo de Seul é melhor do que desacordo", ressalvou o presidente da França, Nicholas Sarkozy, que assume a presidência do grupo em 2011.

Para o Brasil, os principais avanços foram a legitimação do controle de capitais para reduzir o fluxo de recursos externos que levam à valorização do real; a ampliação da representação dos países emergentes no Fundo Monetário Internacional e o reconhecimento de que os países desenvolvidos terão de ser "vigilantes" em relação aos efeitos negativos de suas políticas monetárias sobre o restante do mundo.

Já os ministros de Finanças dos maiores países da União Européia (UE) divulgaram declaração isolada salientando que o mecanismo de resolução das crises européias, que pretende dividir com os credores privados o custo de novos resgates financeiro, só entrará em vigor em 2013.

G20 dá aval para país controlar capital
Monitor Mercantil, 12/11/2010

Brasil pressionou por introdução de cláusula, mas, até agora, só elevou IOF

O comunicado assinado pelos líderes do G20 admite o uso de controle de capitais por países emergentes que enfrentem a valorização indesejada de suas moedas em razão do aumento do fluxo de recursos externos, exatamente o caso do Brasil.

O dispositivo foi incluído por pressão da delegação brasileira, com a intenção de legitimar medidas defensivas que começaram a ser adotadas pelo governo mês passado e que podem ser ampliadas, caso a pressão pela alta do real continue.

"Isso é absolutamente inédito", celebrou o ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, após a conclusão da cúpula.

A expressão controle de capitais, porém, não consta do texto, no qual foi substituída pelo eufemismo "medidas macroprudenciais".

Mas, na prática, o efeito é o mesmo: permitir que países levantem barreiras contra a entrada indesejada de capital externo, especialmente o de caráter especulativo.

A medida defensiva tem o objetivo de amenizar a apreciação da moeda local e impedir que surjam "bolhas", em razão da alta artificial do preço de ações ou commodities.

Até pouco tempo, o uso de controle de capitais era um anátema para o pensamento único que controla a economia internacional. Enquanto vários analistas progressistas ouvidos pelo MM nos últimos anos recomendavam esse caminho, os neoliberais insistiam em defender o fim das barreiras para o fluxo de recursos.

A situação começou a mudar, porém, após a crise asiática de 1997. Com a crise de 2008, que foi seguida, este ano, pelo aumento da liquidez internacional, com a consequente valorização das moedas dos países emergentes, cresce a pressão pelo controle de capitais.

Enquanto o Brasil lançou mão de medidas cosméticas, com o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre aplicações de estrangeiros em renda fixa, outros países já controlam a entrada de dólares especulativos

G20 termina em fracasso em Seul
DA REDAÇÃO, Opinião Socialista online, 12/11/2010

• Como era esperado, terminou em fracasso a reunião do G-20 realizada nesses dias 11 e 12 de novembro em Seul. Após dois dias de discussões, os chefes de Estados das 19 maiores economias do mundo e a União Europeia divulgaram um documento que não aponta qualquer perspectiva de resolução para a guerra cambial travada entre os países.

Entre as ações anunciadas pelo vago comunicado final está a criação um sistema para detectar desequilíbrios financeiros e cambiais. Tal medição ficaria a cargo do FMI, e os critérios que os países deverão seguir seriam definidos em 2011. A falta de acordo entre os chefes de Estado, porém, joga essas medidas na coleção “boas intenções” logo esquecidas, ao lado de tantas outras anunciadas na sucessão de reuniões e cúpulas entre 2008 2d 2009, como a regulação do sistema financeiro.

Por outro lado, a ideia de que os EUA se submeteriam a uma autoridade externa, mesmo que seja o FMI, não deixa de ser ingênua. Para se ter uma ideia, o próprio EUA haviam se comprometido, em reunião realizada pelos ministros das finanças do G20 duas semanas antes do encontro de cúpula, a não alimentar a guerra entre as moedas. Poucos dias depois, anunciava o megapacote de 600 bilhões de dólares, desvalorizando ainda mais o dólar.

Impasses
Atrás das palavras vazias estava o impasse que marcou toda a reunião. O problema que monopolizou a reunião permanece: a guerra cambial como uma forma disfarçada de protecionismo. Na prática, o G-20 não só não tomou qualquer medida contra as manipulações do câmbio, como em parte legitimou o vale-tudo nas moedas.

A declaração final apenas “sugere” que os países se abstenham de mexer no câmbio, ao mesmo tempo em que permite “medidas macroprudenciais cuidadosas” aos países que se sentirem afetados. Ou seja, fica tudo como está. Coisa que não é nada desvantajosa aos EUA, que permanece tendo controle absoluto na emissão da moeda de reserva internacional e continua fazendo o que bem entende.

Novo momento da crise
A atual guerra cambial expressa um novo momento da crise econômica internacional. A crise explodiu no final de 2007, levando pânico aos governos e mercados. Para enfrentá-la, lançou-se mão de pacotes de ajuda aos bancos que consumiram trilhões de dólares. Se por um lado essa ajuda evitou um crash como o de 1929, por outro ele colocou vários países, incluindo as principais potências, à beira da bancarrota.

Nesse novo momento da crise, os países tentam debelar a crise através de ataques aos trabalhadores, como ocorre em praticamente toda a Europa, e de protecionismo comercial com o câmbio. Cada país tenta elevar suas exportações depreciando sua moeda e tornando os produtos mais baratos no mercado externo.

Foi justamente o protecionismo que transformou o crack de 1929 na longa recessão que se estendeu por toda a década de 1930. A crise econômica nos EUA e na Europa e o impasse expresso na última reunião do G-20 mostram que o fantasma de 29 continua bem vivo.

domingo, 14 de novembro de 2010

Câmbio, grave problema nacional

entrevista do economista Bruno Galvão que fala sobre o problema cambial

Monitor Mercantil, 12/11/2010
12/11/2010 - 21:11

Bruno Galvão /Economista

Real forte reduz exportação da indústria nacional em até 97%


O economista Bruno Galvão, doutorando pela UFRJ, considera a questão do câmbio, atualmente, mais grave do que o conservadorismo fiscal. Galvão denuncia a "incrível a perda de participação do Brasil no mercado americano de manufaturas".

Valendo-se de dados do insuspeito U.S. Census Bureau (o IBGE dos Estados Unidos), ele destaca que as exportações de produtos cerâmicos, por exemplo, apresentou uma queda de 97% em apenas 5 anos.

"Com exceção de produtos químicos, que têm uma lógica segundo a qual a taxa de câmbio não influi muito sobre o nível de exportações no curto e até no médio prazo, a queda das exportações de manufaturados do Brasil para os Estados Unidos foi de 61%. O valor passou de US$ 15,7 bilhões, em 2005, para US$ 6,1 bilhões, em 2010, o que é extremamente preocupante", compara o economista, esclarecendo que os dados utilizados por ele referem-se ao período de janeiro a setembro.

Uma outra comparação evidencia que, nesse mesmo período, as exportações de manufaturados, com exceção de químicos, vindos do Vietnã quase duplicaram, atingindo US$ 9,8 bilhões nos nove primeiros meses do ano.

"Há pouquíssimo tempo, o Vietnã era um dos países mais pobres do mundo. Esse pequeno país está seguindo os passos chineses, que combinam uma política industrial agressiva com a manutenção de câmbio desvalorizado. Enquanto, nos últimos cinco anos, a moeda brasileira teve uma valorização nominal superior a 100% e uma valorização real de cerca de 175%, a moeda vietinamita segue desvalorizando", critica o economista, em entrevista exclusiva ao MONITOR MERCANTIL.

Defasagem

Pelos dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), a queda da participação brasileira no mercado mundial de bens industriais também é significativa.

Contudo, Galvão observa que essa trajetória ainda é menos acentuada do que a observada em relação nos dados oficiais do governo dos EUA. De acordo com o economista, há três motivos para tal diferença.

"Primeiro, porque a OMC só divulgará os dados de 2010 em outubro do próximo ano, enquanto o governo dos EUA informa os dados mensalmente, com defasagem aproximada de apenas dois meses. Depois, o mercado dos EUA é o mais competitivo do mundo, constituindo-se no maior mercado para bens industriais. Por essa razão, todos os grandes players competem agressivamente lá. Significa que, provavelmente, o que ocorre nos EUA irá acontecer em outros países", analisa Galvão.

O terceiro motivo apontado pelo economista para a defasagem entre o desempenho do Brasil em relação aos EUA, em comparação aos demais países, são os acordos comerciais com a América Latina, particularmente no Mercosul, que protegem as exportações brasileiras:

"Não sabemos quanto tempo isso pode durar, com um câmbio tão valorizado", alerta.

Ladeira abaixo

Galvão destaca também a queda vertiginosa no setor automobilístico. Enquanto, a participação do país no mercado de automóveis dos EUA é um terço hoje do que era em 2005, graças aos acordos comerciais com nossos vizinhos, o Brasil conseguiu estabilizar o market-share (fatia de mercado) internacional.

No entanto, talvez isso não seja possível em outros setores, como no de confecções. Nesse segmento, as exportações para os EUA são hoje um décimo do que ha cinco anos, as de produtos de cerâmica são apenas um vigésimo, em relação ao mesmo período.

Em produtos industriais de consumo final, a participação do Brasil no mercado norte-americano caiu de quase 1% para 0,33%. Tudo isso em cinco anos apenas.

A mesma queda foi registrada nas exportações de máquinas e material de transporte, destaca o pesquisador

"Este ano, as exportações brasileiras de manufaturas para os EUA foram bem menores do que as realizadas pelo Vietnã. É uma situação que qualquer especialista consideraria impossível há quatro anos", reitera.



Câmbio ameaça desestruturar a cadeia produtiva

Por que a questão cambial é mais grave que a obsessão de determinados setores por intermináveis ajustes fiscais, mesmo o Brasil tendo o menor déficit nominal do G20?

Por que o câmbio pode desestruturar a cadeia produtiva da indústria brasileira como um todo. Os países desenvolvidos já têm patentes, fornecedores que facilitam a inovação e diminuem custos, conhecimento acumulado, inclusive da parte dos trabalhadores. Para competir com eles, o Brasil precisa ter preço competitivo. Sem isso fica difícil para qualquer país que deseja crescer e se projetar no comércio internacional.

O que fazer para resolver o problema do câmbio?

O caminho mais fácil é reduzir os juros, adotar controle de capitais e acumular reservas (a custo mais baixo, se os juros caírem). Mas o principal é baixar juros, porque o próprio crescimento vai gerar déficit comercial e acabará valorizando o dólar. Isso só é possível porque hoje somos credores em dólar.

A recuperação do dólar não irá pressionar a inflação?

Sim, mas se o dólar for para R$ 2,40, por exemplo, teremos um ganho fiscal muito grande, de cerca de R$ 200 bilhões. Se essa folga for usada para melhorar, por exemplo, a infra-estrutura de transportes e reduzir tarifas, ou para subsidiar a cesta básica haverá uma compensação positiva do impacto inflacionário. Podemos também investir em logística e ajudar a reduzir o "custo Brasil". O fato é que estamos diante de uma oportunidade de ouro, sobretudo por causa das reservas de US$ 300 bilhões.

RL

terça-feira, 9 de novembro de 2010

4 cartas na manga para segurar moeda

 Não se fala na queda da Selic e em controle de capitais, mas, pelo menos, fala na retomada da cobrança do imposto de renda.

Brasil tem 4 "cartas na manga" para segurar moeda
Monitor Mercantil, 04/11/2010


A valorização de mais de 1% do real nesta quinta-feira, refletindo o afrouxamento monetário nos Estados Unidos, chamou a atenção da equipe econômica e, nos bastidores, integrantes do governo voltaram a dizer que novas medidas podem ser adotadas para conter a valorização do real.
O governo ainda possui pelo menos quatro medidas guardadas na gaveta para tentar reverter a valorização do real. As ações possíveis vão desde um incremento na compra de dólares que entram no país, até iniciativas de caráter mais punitivo, como a retomada da cobrança do Imposto de Renda sobre os ganhos dos investidores estrangeiros que aplicam em títulos públicos e uma taxação maior do IOF nos investimentos externos em ações, hoje em 2%, um dos maiores temores do mercado financeiro.
O governo prefere guardar a possibilidade de uso deste "arsenal" para depois dos resultados do encontro da próxima semana dos líderes das 20 maiores economias do mundo (G20), que estarão reunidos em Seul, na Coréia do Sul.
A mudança do governo brasileiro também tem relevância dentro deste cenário. Medidas de combate à sobrevalorização do real, tomadas entre novembro e dezembro, terão impacto direto sobre a administração da presidente eleita Dilma Rousseff.

sábado, 30 de outubro de 2010

Dólar em queda não é guerra cambial, é arrocho fiscal

Queda global do dólar não é guerra cambial mas consequência de arrocho fiscal

Crise cambial global não é consequência de uma "guerra cambial", mas do arrocho fiscal implantado pelos governos que impede as economias de saírem da recessão mundial iniciada em 2008. O ponto crítico não está no câmbio, mas nas medidas restritivas adotadas por países, como Alemanha, para enfrentar o déficit público gerado pelo salvamento de bancos, enquanto Estados Unidos e China se esforçam para estimular suas economias, jogando suas taxas de juros a níveis próximos de zero. Não há saída a não ser, na base da cooperação, aumentar a demanda, diminuindo o desemprego e elevando as chances de importação de cada país. O câmbio é apenas uma conseqüência, já que, com o mercado doméstico em recessão, todos querem exportar mais e importar menos, levando a sucessivas desvalorizações e valorizações das moedas nacionais frente ao dólar.

***

Corte de gastos trava saída da crise

Monitor Mercantil online, 21/10/2010

A guerra cambial abala a confiança nas lideranças do G20 e limita a chance de um acordo de coordenação global para enfrentar o derretimento do dólar. Em meio às tensões, as autoridades financeiras do grupo se reúnem a partir desta quinta-feira, em Gyeongju, na Coréia do Sul, com a credibilidade em risco e sem perspectiva de consenso.
O clima de cooperação que marcou o esforço do G20 na superação da crise global, quando o mundo marchava para uma depressão mais grave que a de 1929, desapareceu.
Para o economista José Carlos de Assis, presidente do Instituto Desemprego Zero, o ponto crítico não está no câmbio, mas nas medidas restritivas adotadas por países, como Alemanha, para enfrentar o déficit gerado pelo salvamento de bancos, enquanto Estados Unidos e China se esforçam para estimular suas economias.
"Não há saída a não ser, na base da cooperação, aumentar a demanda, diminuindo o desemprego e elevando as chances de importação de cada país. O câmbio é apenas uma conseqüência, já que, com o mercado doméstico em recessão, todos querem exportar mais e importar menos."
Muitos culpam a política ultra-acomodatícia do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), reflexo da recuperação econômica cambaleante, pela onda de fluxo de recursos que corre aos emergentes, ameaçados pelo surgimento de bolhas.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Modelo mantém o Brasil no subdesenvolvimento e nas crises cambiais

Até economistas pró-burgueses apontam que o atual problema brasileiro às voltas com a  apreciação cambial do real (o dólar em baixa prejudicando as exportações  e favorecendo as importações) pode trazer de volta a "velha senhora" (a crise cambial), um dos velhos males crônicas da nossa macroeconomia nacional. Esse mal é provocado pelo modelo de desenvolvimento favorável a re-primarização (economia voltada para exportação de commodities). Portanto, um mal (a crise cambial) e um padrão de produção (exportação de commodities) que sempre marcaram a configuração da economia brasileira enquanto periférica e dependente.

Em palestra, o alto cardeal brasileiro dos economistas pró-burgueses, o ex-ministro do Planejamento da Ditadura Militar, o economista João Paulo dos Reis Velos, lembra dois aspectos, primeiro se o Brasil continuar assim, agroexportador, seguiremos subdesenvolvidos, perdendo o "bonde da história", e segundo, não há dicotomia entre exportar bens de alto valor agregado ou commodities, pois com um projeto de desenvolvimento autonomo pode-se aproveitar a disponibilidade de recursos naturais e constituir um forte parque tecnológico que gere bens de alto valor agregado.

Reis Veloso alerta que manutenção do modelo leva país a crise cambial

Monitor Mercantil online, 20/10/2010

Em palestra na comemoração do 46º aniversário do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o ex-ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Veloso alertou para a volta da vulnerabilidade externa, expressa no crescente déficit em transações correntes. Com juros altos e câmbio sobrevalorizado, ele não crê na inversão desse quadro.
"Estamos ameaçados da volta da "velha senhora" (a crise cambial), com as importações crescendo 46% nos primeiros nove meses do ano", advertiu.
Para o ex-ministro, a questão do Brasil não é a guerra cambial, mas a taxa de juros, que ajuda a depreciar o dólar.
"Precisamos evitar falsas dicotomias, como a opção entre commodities e a produção de maior valor agregado. O Brasil precisa fazer os dois. E os setores intensivos em recursos naturais podem ser alavanca para o desenvolvimento tecnológico", disse, defendendo a formação de grupos executivos para gerenciar o trabalho de instituições em torno de projetos estratégicos de desenvolvimento, "a exemplo do que aconteceu no Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek".
Ressaltando que "desenvolver é diferente de crescer", o ex-ministro comparou a crise de 1929, da Grande Depressão, com o cenário atual, que ele classifica como Grande Recessão.
Veloso defendeu que, tal como nos anos 30, o Brasil aproveite a crise para se desenvolver de maneira autônoma.
"Por que não somos desenvolvidos? Porque fizemos opções erradas e perdemos a corrida, que é de longa distância. Em 1820, a relação renda per capta do Brasil com os Estados Unidos era de 1 para 1,7. Nós optamos pelo modelo agroexportador escravagista. Os EUA, já em 1914, eram a maior economia do mundo. Naquele ano, a relação renda per capta passou para 6,5", resumiu.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Selic alta traz de volta a 'velha senhora', a crise cambial

Juros altos, dólar em baixa: Brasil às vesperas de uma possível crise cambial

Limiar&Transformação, 21/10/2010

Copom mantém a Selic em 10,75% a.a., a maior taxa básica do mundo, sem necessidade

A manutenção pelo Copom do Banco Central da Selic (taxa básica de juros) em 10,75% a.a.(ao ano) traz a ameaça da volta da vulnerabilidade externa, expressa no crescente déficit em transações correntes. Com juros altos e câmbio sobrevalorizado, as chances de inversão desse quadro diminui muito.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu, nesta quarta-feira, manter pela segunda vez seguida a taxa básica de juros (Selic) em 10,75% ao ano. O índice vigora desde 21 de julho, data da penúltima reunião do colegiado. Em curto comunicado, o BC afirmou apenas que tomou a decisão "avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação".

Isso significa que, para o brasileiro os juros bancários, seja para financiamento, empréstimo ou cheque especial, devem se manter no mesmo patamar, de 6,74% ao mês, o menor valor em 15 anos. Contudo, é a maior taxa real de juros do mundo. E que a atividade econômica ficou estável em agosto em relação ao mês anterior. Isso significa que a geração de riquezas continuou no mesmo ritmo entre um mês e outro, como mostrou nesta quarta-feira (20) um indicador do Banco Central. Desde janeiro, a economia acumula crescimento de 9,11% em relação ao mesmo período do ano passado.

Atualmente, a inflação está em 4,70%, dentro da meta do governo, que é de 4,5% para 2010, com tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo – ou seja, pode chegar a 6,5% ou atingir 2,5%. Portanto, sem necessidade, e gerando em consequência estagnação (no mês passado, foram gerados 246.875 postos formais, número menor que agosto (299 mil) e também inferior ao registrado no mesmo mês de 2009 (252 mil), segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged)), maior endividamento das famílias (em setembro, cresceu pelo 5º mês seguido o número de quem não pagou dívidas) e, pior, a ameaça de crise cambial.

juros altos ameaçam trazer a ‘velha senhora’ de volta

O resultado é que o Copom joga contra o real ao manter a taxa de juros básica no alto. A Selic deveria ter caido de modo a desestimular investimentos externos em aplicações financeiras e reduzir a valorização do real em relação ao dólar.

Novamente, o Copom peca pelo "conservadorismo" (traduzindo, sob a justificativa de precaução,defende os interesses dos banqueiros e rentistas em detrimento dos demais setores da sociedade), ao não retomar o processo de queda nos juros em um ambiente mundial de taxas de juros reduzidas. A manutenção dos juros básicos da economia em nível elevado pode levar a graves problemas para o futuro próximo, propiciando aumento das importações e redução da geração de empregos no país.

Assim, a economia brasileira fica sujeita a ameaça da volta da "velha senhora", como é conhecida a crise cambial pelos economistas, com as importações crescendo 46% nos primeiros nove meses do ano, propiciado pelo valor baixo do dólar.

Por sua vez, a questão do dólar baixo no Brasil não é a guerra cambial, como alega o ministro da Fazenda Guido Mantega, mas a taxa de juros, que ajuda a depreciar o dólar.

Para conter a queda do dólar no país, gerada pela forte entrada da moeda no país, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou aumento da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), na última segunda-feira (18). O governo, que havia elevado de 2% para 4% o imposto há duas semanas, voltou a adotar nova alíquota, desta vez de 6%, como forma de reduzir a pressão sobre a taxa de câmbio. O governo também aumentou de 0,38% para 6% a alíquota do IOF cobrado sobre a margem de garantia dos investimentos estrangeiros no mercado futuro. O BC também tem atuado com as compras de dólares no mercado à vista. Neste mês, até o dia 15, essas compras elevaram as reservas internacionais em US$ 4,242 bilhões. Contudo com isso, apesar fizeram "cosquinha" nas cotações, o dólar segue em baixa.

Os desequilíbrios entre as moedas de diversos países, batizados de “guerra cambial” pelo ministro Guido Mantega, foram inclusive o tema central da última reunião do FMI na capital americana. Muitos países são acusados de desvalorizar a moeda para tornar as exportações mais baratas e competitivas no mercado internacional, prejudicando as economias com moedas mais valorizadas. Um dos principais alvos das críticas é a China, acusada principalmente pelos EUA de manter sua moeda, o yuan, artificialmente desvalorizada. O Brasil, porém, tem concentrado as críticas nos EUA, acusado pelo governo brasileiro de provocar desequilíbrios ao aumentar a emissão de dólares, o que torna a moeda norte-americana mais barata. O desequilíbrio mais importante é a expansão monetária norte-americana, usada para combater o baixo crescimento e o desemprego ainda elevado nos EUA. Que leva por sua vez, que muitos países rebaixem o valor de suas moedas.

O Banco Central (BC) deveria retomar imediatamente o ciclo de cortes da Selic, de forma a atingir o objetivo mais preocupante do governo e da economia brasileira neste momento: a valorização do real ante o dólar, e não que a taxa de inflação convirja para a meta. E a Fazenda deveria aplicar controle de capitais.

ALERTA: MANUTENÇÃO DO MODELO LEVARÁ O PAÍS A CRISE CAMBIAL

O que é a Selic?

A Selic é chamada de taxa básica porque é usada como referência pelos bancos para estabelecer os juros cobrados nos empréstimos entre bancos e nas aplicações em títulos públicos federais. A taxa funciona ainda como um piso para a formação dos demais juros cobrados no mercado para financiamentos e empréstimos - que são influenciados também por outros fatores, como o risco de que quem pegou o dinheiro emprestado não pague a dívida e a margem de lucro dos bancos.

É a partir da Selic que as instituições financeiras definem também quanto vão pagar de juros nas aplicações dos seus clientes. Ou seja, a taxa básica é o que os bancos pagam para pegar dinheiro no mercado e repassá-lo para empresas ou consumidores em forma de empréstimos ou financiamentos, a um custo muito mais alto. Por isso os juros que os bancos cobram dos clientes é superior à Selic.

Contudo, a Selic também é a taxa minima paga pelo governo nas aplicações que os bancos fazem em títulos públicos federais. Então quanto maior a Selic maior a remuneração aos bancos nos títulos públicos, isto é, maior o pagamento pela dívida pública, e portanto, a transferência dos recursos públicos para os bolsos dos rentistas e banqueiros.

Para Cardim, Brasil saiu da estagnação, mas há muitos problemas para resolver

Entrevista com o economista Fernando Cardim de Carvalho ao jornal Valor Econômico. Cardim é maiores pensadores brasileiros em macroeconomia pós-keynesiano, e um dos formuladores do vem se chamando de "neodesenvolvimentismo". Como muitos dessa "nova vertente", acabou por abraçar o lulismo, e disputá-lo, à medida que consideram um movimento instrumetalizável à construção de um novo projeto de desenvolvimento nacional. O importante nessa entrevista é o fato que Cardim aponta segundo sua visão quais seriam os graves problemas econômicos brasileiros da atualidade, numa perspectiva que pode não ser dos trabalhadores, mas que foge ao convencional que vem sendo tratado pelo jornalismo econômico da grande mídia, dominada pela ortodoxia neoliberal.

Para Cardim, Brasil saiu da estagnação, mas há muitos problemas para resolver

Do Valor,13/10/2010

Valor: Administrar o câmbio é o maior desafio do próximo governo?

Cardim: Eu acho que sim. Não há saídas fáceis, não há o almoço grátis nesse tema. O que tem sido praticado não parece estar levando a resultados positivos, aumentando nossa vulnerabilidade a problemas de balanço de pagamentos, e tendo efeitos negativos sobre a estrutura econômica brasileira. É preciso pensar em alternativas, no contexto de uma nova reflexão sobre a política econômica brasileira em geral, dado o quadro de recuperação rápida da economia depois da crise de 2008 e 2009.

Valor: Como o Brasil deve reagir à guerra cambial hoje em curso?

Fernando Cardim de Carvalho: $ Nós atravessamos um período muito perigoso. Até recentemente, uma das diferenças entre a Grande Depressão e a atual crise financeira tinha sido o reduzido apelo a políticas conhecidas como "beggar thy neighbor", isto é, exportar os seus problemas para os seus parceiros. Esse padrão está sendo rompido, especialmente pela Alemanha e a China, por canais diferentes. A Alemanha, por simplesmente pegar carona no esforço de recuperação e expansão dos outros países, crescendo por exportações ao invés de dinamizar sua própria demanda doméstica e permitir que outros expandam suas exportações para aquele país. A China, pela manutenção de uma política cambial obviamente protecionista. O Brasil deve reagir principalmente através dos fóruns internacionais, buscando a necessidade de cooperação em benefício mútuo. Se isso não funcionar, estabelecer defesas próprias na extensão em que a manipulação cambial dos países que mantêm suas moedas excessivamente desvalorizadas esteja prejudicando a nossa economia. Seria ruim para todos que o mundo escorregasse para uma guerra comercial como a dos anos 30, mas isso não deve servir apenas a um ou outro país, e sim à comunidade internacional.
Valor: O governo elevou o IOF de 2% para 4% para aplicações em renda fixa. Como o sr. avalia a medida?
Cardim: Continua sendo mais simbólica que eficaz. O próprio Valor calculou o impacto disso sobre o retorno de aplicações na dívida pública brasileira mostrando que esse aumento reduz o retorno de 11% e alguma coisa para 11% e alguma coisa ligeiramente menor. Não vale a pena receber toda a reação por aplicar controles de capitais em troca de algo que é pequeno demais para ter qualquer efeito.

Valor: É o caso de elevar a alíquota do IOF? E o sr. acha razoável tributar também o investimento em fundos de ações ou private equity?

Cardim: Sim, uma alíquota maior o suficiente para remover o estímulo à entrada excessiva de capitais. A valorização do real não resulta apenas do capital que vem atrás de juros, alguma barreira também deveria conter o investimento em ações e private equity. A alternativa ao IOF são as exigências de permanência mínima no país, como o Chile usou por bastante tempo, e o próprio Brasil também.

Valor: Há outras medidas de curto prazo para conter a valorização?

Cardim: O ideal seria obter alguma coordenação internacional, seja através do FMI, seja através do G-20. É importante lembrar que taxa de câmbio envolve sempre mais de uma moeda e a coordenação com os emissores das outras moedas em benefício comum seria o meio mais produtivo. Infelizmente, a expectativa que esse diálogo produza algum resultado é fraca. Nessas condições, o país deve considerar o emprego de medidas mais eficientes de autoproteção. Há muitos anos defendo a imposição de medidas de controles de entrada de capitais externos e saída de capitais nacionais, e continuo achando que essa é a melhor saída que nos resta, se o diálogo não levar a lugar algum. O Fundo Soberano é uma possibilidade, mas há muitos aspectos ainda obscuros nos seus modos de operação, não sei se seria o caso de atribuir um papel muito importante a algo que é, em grande medida, uma novidade e pode ou não funcionar.

Valor: Como funcionariam as medidas que o sr. propõe de controle da entrada de capitais externos?

Cardim: Eu tenho a impressão que o melhor sistema, como eu disse, seria o chileno, o estabelecimento de um tempo de permanência mínima no país, voltado a desencorajar a aplicação em dívida de prazo mais curto ou em papéis pela valorização de curto prazo. A tecnologia para aplicação desses controles é conhecida e eles contam até mesmo com o aval, se não o entusiasmo, do FMI.

Valor: Ainda que não esteja claro como funcionará o Fundo Soberano, o sr. acha que o governo deve acelerar as compras de dólares?

Cardim: Acelerar compras cria um problema para o governo, porque o financiamento do próprio governo é mais caro que o retorno que se pode obter com reservas. Nós já temos um nível bastante elevado de reservas, não se pode ou não se deve acumular indefinidamente. O melhor é criar barreiras à entrada, em vez de comprar indefinidamente.

Valor: Em que medida a valorização do câmbio tem prejudicado a economia brasileira?

Cardim: As evidências em termos de exportações e de produção de manufaturados são bastante visíveis e o próprio Valor tem publicado relatos importantes do risco de desindustrialização. Nas exportações, estamos voltando a exportar produtos primários, o que é um violento retrocesso em relação ao que conseguimos na segunda metade do século XX. O passivo externo brasileiro está crescendo rapidamente, com compromissos tanto com relação a emprestadores quanto a investidores estrangeiros. Esse filme passou dezenas de vezes por aqui, sempre com final infeliz. O tamanho do rombo em transações correntes ainda é relativamente pequeno, mas a velocidade com que ele se amplia é preocupante.

Valor: Economistas ortodoxos costumam pregar um forte aperto fiscal para que, com isso, seja possível baixar mais os juros e reduzir o diferencial entre as taxas internas e externas. É um bom caminho para evitar o tombo do dólar?

Cardim: Esse raciocínio se apoia em várias proposições que são mais matérias de fé que de evidência. A recuperação da disciplina fiscal, um tanto atropelada ultimamente, é boa em si mesma, para permitir que se possa usar mais intensamente instrumentos anticíclicos, se isso vier a ser necessário no futuro. A melhora da eficiência do Estado é tambem boa em si mesma, já que não basta ser grande, é preciso ser ágil e eficiente, e o Estado ainda está longe disso em várias áreas. Mas a relação com juros e o balanço de pagamentos não me parece a mais importante.

Valor: O que é mais importante para explicar a valorização do real? A desvalorização do dólar em relação a outras moedas ou fatores domésticos, como o alto nível do juro?

Cardim: A valorização é principalmente com o dólar, mas isso não nos prejudica apenas nas relações com os EUA, mas também com todos os países que ancoram a moeda no dólar, inclusive a China, apesar da flexibilização muito suave que aquele país promoveu até agora. Portanto, nosso problema maior é mesmo a atração excessiva de capitais financeiros.

Valor: Quais os outros desafios econômicos do país em 2011?

Cardim: São muitos. O Brasil conseguiu sair da estagnação que caracterizou o comportamento de sua economia até muito recentemente, mas ainda há muitos problemas a resolver, na infraestrutura produtiva, na educação para aumentar a produtividade do trabalho no país, na saúde, no uso de novos instrumentos para redistribuição de renda e riqueza, como a estrutura tributária. O Brasil se levantou e ensaiou os seus primeiros passos depois de muito tempo. Mas ainda cambaleia, e é importante definir para onde vai. (SL)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Crise cambial: BC e Fazenda em campos opostos

Apesar da crise cambial, BC e Fazenda seguem em campos opostos

Enquanto Ministério da Fazenda tenta controlar a alta do dólar, o Banco Central age no sentido contrário, poderá contribuir ainda mais para sua alta, por meio da elevação da taxa Selic, nesta quarta-feira.

Na contramão da maioria dos analistas, que espera manutenção da taxa básica de juros (Selic), na reunião do Copom que termina nesta quarta-feira, o professor de economia da Escola de Economia e de Administração da FGV-SP Samy Dana prevê que os juros subirão 0,25 ponto percentual, ou até 0,5 ponto. O motivo seria a alta na projeção de inflação (de 5,15% para 5,20%) feita pelo mercado financeiro - o mesmo que se beneficiaria de um aumento na Selic.

Se realmente ocorrer, a elevação mostraria, mais uma vez, o governo Lula dividido: enquanto o Ministério da Fazenda luta para reduzir a valorização do real, o Banco Central trabalha no sentido oposto, aumentando o diferencial entre os juros internos e externos e tornando sem efeito o aumento de impostos determinado pelo ministro Guido Mantega.

fonte: Monitor Mercantil

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Renda concentrada levará a nova crise

Renda concentrada contrata nova crise
COMO EM 1929, PAÍSES OPTAM POR EXPORTAR MAIS EM VEZ DE ESTIMULAR CONSUMO
Monitor Mercantil online, 07/10/2010 

Tal como aconteceu na Grande Depressão, em 1929, a recusa das elites em distribuírem a renda doméstica, preferindo apelar ao mercado externo, pode estar lançando as bases para o recrudescimento da crise internacional. A advertência é do economista Adriano Benayon, da Universidade de Brasília (UnB), que alerta para um forte movimento de concentração da riqueza, como ocorreu antes da crise de 1929.
"Durante aquela crise, isso se acentuou. Alguns culpam o protecionismo, mas, se a renda fosse distribuída, o mercado interno se encarregaria da recuperação, sem que houvesse necessidade desesperada de exportar", lembrou.
Benayon discorda do presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, que afirmou, nos EUA, que os mercados de moedas estão distorcidos e, para regulá-los, todos os países deveriam adotar o regime de câmbio flutuante, como o Brasil do real sobrevalorizado.
"Meirelles deveria era fazer como o Japão, que apesar de uma dívida pública de 225,5% do PIB baixou ainda mais os juros. Diante disso, a situação do Brasil se torna ainda mais gritante. Aparentemente, a política monetária tem por finalidade valorizar o câmbio", criticou.
Pela lógica, o professor da UnB não considera nenhuma moeda confiável no momento. "Tanto que, cada vez mais, aumenta a demanda por ouro. Isso porque a crise, que era privada, se tornou pública, por causa do socorro a bancos, seguradoras, montadoras. E as moedas refletem esse desequilíbrio."
Benayon aponta outra semelhança entre a crise de 1929 e a de hoje: "Durante a depressão dos anos 30 houve muita oscilação na bolsa e sucessivas recaídas. Comparações mostram como houve concentração muito grande de renda nos períodos que antecederam àquela crise e esta. Não há como dinamizar a economia sem consumo."

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

4% de IOF sobre gringos não serve para controlar queda do dólar

Elevação do 4% de IOF sobre aplicações externas não serve para controlar queda do dólar frente ao real. É preciso aplicar controle de capital, diminuir o arrocho fiscal e deixar de ser campeão em juros.

Quatro por cento é pouco mesmo
No primeiro dia após alta do IOF para só 4%, dólar tem maior queda em 2 anos

Monitor Mercantil online, 05/10/2010

Fatores externos como o corte, para zero, do juro no Japão e a expectativa de mais estímulos nos Estados Unidos (ao contrário do Brasil, campeão de juros e arrocho fiscal) ajudaram a derrubar o dólar. Com isso, confirmou-se, ao menos nesta terça-feira, a advertência feita por analistas ouvidos pelo MM na véspera, de ter sido inócua a elevação da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 2% para apenas 4%.
A moeda norte-americana caiu 1%, para R$ 1,675, no menor patamar desde 2 de setembro de 2008, antes da quebra do banco Lehman Brothers.
Além disso, declarações como a do vice-presidente da Moody"s, Mauro Leos, para quem o Brasil não enfrenta risco soberano "em função da solidez das contas externas", devem atrair ainda mais dólares para o Brasil.
Tanto o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, quanto o economista Leonardo de Carvalho, do Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea), avaliam que seria positivo o país flexibilizar o arrocho fiscal via aumento do investimento público.
"Seria bom gastar mais, investindo em infra-estrutura. O aumento do IOF se tornou apenas aumento de arrecadação. A inflação das commodities é importada e, contra ela, aumentar juros é tão inócuo quanto essa elevação do IOF", disse Castro.
Já Carvalho avaliou que, "se é para aumentar o gasto", que seja no investimento. "O governo ainda investe pouco", resumiu.
Economistas argentinos também consideram muito difícil o governo brasileiro conseguir interromper a trajetória de valorização do real só com a elevação da alíquota do IOF. "A equipe econômica do Brasil não pode ignorar que esse imposto é irrelevante para brecar a entrada de capitais e a conseqüente apreciação do real", opinou José Luis Espert, da consultoria local Espert & Associados.
Para o ex-presidente do Banco Hipotecário Miguel Kiguel, elevar o IOF "funciona no curto prazo porque os mercados sempre encontram meios para contorná-la".

Só dobrar IOF não detém real valorizado
Governo eleva para 4% o imposto sobre aplicações de "gringos" em títulos públicos
Monitor Mercantil, 04/10/2010

O governo anunciou o aumento da taxação dos investimentos estrangeiros em renda fixa no Brasil, que passarão a pagar 4% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a medida tem como objetivo coibir especuladores, que se aproveitam da diferença de juros e da valorização do real.
Para o economista José Luiz Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB), é inócua a elevação do IOF em apenas dois pontos percentuais.
"Como agravante, poderá dar argumento aos que são contrários ao controle sobre capitais especulativos. O risco da medida paliativa é desmoralizar o instrumento", pondera Oreiro.
Lembrando que a crise não acabou, ele cobra medidas mais duras para conter os que estão fugindo do dólar em queda e da recessão na Europa. "O Brasil está entrando de bobo na guerra das moedas - na definição do próprio ministro Mantega. A economia norte-americana continua patinando, inclusive com probabilidade de cair novamente em recessão".
Isso, segundo Oreiro, obriga o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) a manter frouxa por longo período a política monetária, "o que por si só já explica a queda do dólar".
E lembra que o Brasil cresce com juros de curto prazo alto, o que torna o pais extremamente atrativo para uma série de investimentos especulativos, atrás do diferencial de juros e na bolsa.
"A China tem resistido a isso. Alguns países desenvolvidos, como a Suíça, vêm adotando política de compra de reservas internacionais, expandindo a base monetária. Com isso, seguram a moeda local em patamar competitivo. Por isso a desvalorização do dólar não aumenta a competitividade dos EUA", explicou, descartando qualquer possibilidade de coordenação de políticas cambiais entre os países, via G20.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O Brasil caminha para uma crise cambial

O Brasil caminha para uma crise cambial, para desvalorizar o real frente o dólar. As contas externas estão severamente prejudicadas pela alta do real frente ao dólar. A crise cambial no horizante será provocada simultaneamente:


- pela política monetária pró-especuladores internacionais do Banco Central com base à taxa de juros reais mais alta do mundo, que faz com que venha uma maré de dólares entrando no mercado nacional;

- pelas exportações fracas devido a crise econômica mundial, que diminuí a força dos compradores externos dos produtos brasileiros, gerando portanto, uma diminuição da reservas internacionais;

- pelas autoridades monetárias brasileiras que não fizeram nada até o momento, pois na justificativa de ajudar no controle da inflação, veem com bons olhos o dólar fraco, que também permite o populismo cambial, isto é, o aumento artificial do poder de compra do trabalhador, fazendo que este fique feliz com o político de plantão.

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Crise cambial para desvalorizar o real


OREIRO CRITICA OPÇÃO DO BC PARA AMEAÇA DE ESTOURO DAS CONTAS EXTERNAS
Em Curitiba, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse a empresários ligados à Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) que, independentemente de quem vença as eleições presidenciais deste ano, a "tendência" seria a manutenção da política econômica atual.
Meirelles disse também que o crescente déficit das transações correntes tenderia a ajustar, naturalmente, a taxa de câmbio, uma das mais sobrevalorizadas do mundo em relação ao dólar.
No entanto, o economista José Luiz Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB), salienta que o câmbio é um preço determinado pela conta de capital (financeira). Ou seja, pela atração de dólares, para fechar as contas externas do país.
"Dizer que o próprio déficit vai ajustar o câmbio é balela. Se nada for feito, poderemos ter uma crise no balanço de pagamento em dois ou três anos. E a história mostra que, quando isso ocorre, há uma desvalorização abrupta do câmbio, geralmente superior a 30%", lembrou.
Prova disso, segundo o economista, é que apesar dos números preocupantes em transações correntes, há pressão pela valorização do real.
"Estão entrando muitos dólares via capital especulativo, investimento estrangeiro direto (IED) e financiamentos de curto e médio prazos. Esse quadro só mudará quando o mercado financeiro entender que a situação ficou insustentável. Aí será tarde", disse, observando que a previsão de Meirelles nunca ocorreu "e não será agora que vai se confirmar".
Já Meirelles confirmou o compromisso do BC com o regime de metas de inflação, que, via juros altos, tem contribuído para a valorização cambial. "O BC tem compromisso com a meta de inflação e, certamente, está preparado para tomar todas as medidas necessárias para que a inflação esteja na meta em 2011 e nos anos seguintes."

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20/09/2010 - 21:09
Dólar fraco deixa em alerta BCs em todo o mundo

O enfraquecimento do dólar, provocado pelas incertezas com a recuperação da economia dos EUA, vem levantando preocupações de governos de diversas partes do mundo com a excessiva valorização de suas moedas. Nesse contexto, paralelamente à massiva intervenção no câmbio feita pelo Japão na semana passada, outros países se movimentam para conter a apreciação de suas divisas.
Nesta segunda-feira, a porta-voz do Banco da Tailândia, Suchada Kirakul, afirmou que a instituição deve anunciar dentro de uma semana medidas para incentivar a saída de capital.
No mesmo dia em que o governo japonês anunciou a intervenção, na última quarta-feira, a Colômbia informou a retomada da compra de dólares no mercado de câmbio para conter a valorização do peso. O banco central vai comprar pelo menos US$ 20 milhões diariamente em moeda norte-americana durante os próximos quatro meses.
O Banco Central do Peru também já atuou no mercado de câmbio durante este ano. Na última quinta-feira, a instituição comprou US$ 10 milhões, a uma média de 2,788 sóis por dólar. A isso soma-se a Suíça, que atuou várias vezes durante este ano para conter a valorização do franco.

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20/09/2010 - 21:09
FSB é liberado para segurar real


O Fundo Soberano do Brasil (FSB) foi autorizado a adquirir moeda estrangeira sem limites. Em nota emitida nesta segunda-feira, o Ministério da Fazenda informou que o Conselho Deliberativo do Fundo deu aval para a operação.
De acordo com a Fazenda, não haverá um valor máximo para as operações em moeda estrangeira. Dessa forma, o Fundo Soberano poderá comprar a quantia que achar necessária. O comunicado ressaltou ainda que as aplicações financeiras do FSB não terão impacto sobre o Orçamento porque os recursos não são do Tesouro Nacional.
A reunião do conselho do FSB ocorreu na sexta-feira, mas as decisões só foram divulgadas nesta segunda-feira.
Na semana passada, o ministro Guido Mantega havia anunciado que o Fundo Soberano seria usado para comprar dólares com o objetivo de conter a valorização do real. Ao adquirir dólares, o FSB aumenta a demanda pela moeda norte-americana. Isso pode ajudar a elevar a cotação da moeda que, nas últimas semanas, chegou a valer R$ 1,70, a menor cotação do ano.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

China se afogara nos doláres ou afogará o planeta

China se afogará nos dólares ou afogará o planeta

Mao Tsé-tung disse que "a força sai do cano do fuzil", mas...


Hong Kong - Seguramente, Mao Tsé-tung disse que "a força sai do cano do fuzil", mas agora Hu Jintao melhorou a máxima revolucionária de seu predecessor. Na época do comércio mundial e das transações monetárias internacionais, a força brota de um poço de petróleo ou de uma montanha de reservas cambiais em dólares.

A revelação oficial no último fim-de-semana do segredo estatal da China de que as astronômicas reservas cambiais do país, totalizando US$ 2,45 trilhões, estão investidas em percentual de 65% em dólares norte-americanos, deu a volta do mundo. A composição do restante das reservas cambiais chinesas é de 26% em euros, 5% em libras esterlinas e 3% em ienes, e foi revelada pelo China Securities Journal.

Este acúmulo de reservas cambiais em dólares pelo governo de Beijing em volume recorde constitui risco sistêmico não só para o dólar, mas para economia mundial. E, principalmente, revela o grau de dependência dos EUA.

Obviamente, a dependência dos EUA ao dinheiro chinês está envolvida em riscos incalculáveis. O endividamento norte-americano junto à China como uma colossal injeção tônica à economia norte-americana tornou-se um nó cego.

Na realidade, a China financia o gigantesco déficit fiscal norte-americano e por isso sua relação como "parceiro comercial" dos EUA é extremamente importante. Mas, também, em grau menor, a China funciona também para o resto do Ocidente desempenhando papel decisório.



Bomba-relógio



É possível que o governo de Beijing tenha assumido posições equivocadas. O acúmulo excessivo de reservas cambiais em dólares não constitui fenômeno salutar. A não ser que o governo de Beijing pretenda suicidar-se monetária e economicamente.

Entretanto, cálculos equivocados já ocorreram outras vezes nas relações econômicas mundiais com resultados fatais. "A China está sentada sobre uma bomba-relógio", advertem vários analistas, e, se não mudar a estratégia, o Ocidente decretará medidas protecionistas, deixando a China em meio a uma grave crise econômica e política.

Roger Boutle, o combativo economista, sustenta em seu livro The Trouble with Markets que "o equilíbrio da economia mundial devera começar pela China".

Aliás, sequer o Japão foi salvo pelas suas gigantescas reservas cambiais em dólares e mergulhou na década de 1990 na maior e mais profunda crise jamais conhecida por alguma economia desenvolvida após a época de pesadelo da grande depressão nos EUA. O "milagre industrial" do Japão desabou como castelo de cartas e apenas agora - após 15 longo e dolorosos anos - emerge das ruínas.



Vida longa ao dólar



Lembrem-se, em junho de 1996, quando o então primeiro-ministro do Japão, Riutaro Hasimoto, em palestra que proferiu na Universidade de Columbia, em Nova York, e perante um - por excelência - conservador auditório de investidores, atreveu-se a chantagear o governo do então presidente norte-americano, Bill Clinton, afirmando que estava examinando a eventualidade de vender os bônus norte-americanos que seu país dispunha, a fim de enfrentar a crise monetária do Japão no início de 1995. Naturalmente, fracassou.

Na arquitetura da economia mundial o dólar é e será, por longo período ainda, a básica moeda de reservas cambiais. Continua ocupando a posição principal nos organismos internacionais com o maior percentual das reservas cambiais do Fundo Monetário Internacional e do Banco de Regulamentações Internacionais.

Anotem: a liberação do regime cambial da China significa, em essência, que continuará acumulando dólares, mas em ritmos mais lentos. Assim, o dólar não terá o monopólio nas reservas cambiais do Banco do Povo (Banco Central da China).

10/09/2010
Monitor Mercantil - Lee Wong, Sucursal do Sudeste Asiático.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A volta da dependência, nas contas externas

Até intelectuais da burguesia nacional dos segmentos da indústria e comércio já começam a se preocupar com a volta da manifestação de um dos sintomas do fenômeno estrutural da dependência econômica, a dependência nas contas externas, à medida que, seus lucros tornam-se comprimidos devido à dupla macroeconômica que extraí excedente interno para os capitais internacionais, taxa de juros básicas cronicamente alta e câmbio permanentemente sobrevalorizado.  

A volta da dependência :: Carlos Thadeu de Freitas Gomes

O Globo,quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Déficits nas transações correntes demonstram níveis de investimento superiores ao da poupança doméstica.

Também pode ser visto como a ocorrência de uma demanda agregada maior que o produto do país.

O ano de 2003 marcou a mudança no resultado das transações correntes brasileiras, tendo um superávit de US$ 4,2 bilhões. Estes se sucederam até 2008, quando ocorreu um déficit de US$ 28,2 bilhões.

Até o ano de 2008 o Brasil era um exportador de poupanças. O acumulado em 12 meses até junho de 2010 constatou um déficit de US$ 40,9 bilhões, 2,1% do PIB.

O desenvolvimento da economia brasileira pode ser sustentável, mesmo com o déficit, pois o país tem condições de continuar atraindo capital estrangeiro, visto que o Brasil conseguiu ultrapassar a crise relativamente intacto, enquanto outros países, já maduros, não foram tão bem-sucedidos. A incerteza nas economias desenvolvidas, a demanda por reformas fiscais nesses países e a expectativa de aumento nas taxas de juros internacionais podem afetar negativamente o fluxo de capital estrangeiro.

Portanto, apesar da alta atratividade brasileira, não há garantias de que os investimentos poderão compensar os déficits caso estes se tornem constantes.

O ritmo de crescimento das importações é superior ao das exportações e deve permanecer assim.

Comparando o primeiro semestre de 2010 com o mesmo período de 2009, verifica-se que as importações aumentaram 44,7%, enquanto as exportações cresceram 26,5%. O aquecimento da economia dá maior poder de compra à população, gerando mais consumidores e maior necessidade de importação.

Uma das formas de se impedir que o déficit aumente é incentivando a poupança doméstica, para que esta possa ser uma fonte de financiamento interno.

Como o déficit é a relação entre o produto e a demanda agregada, ao se reduzir esta última pode-se controlar as transações correntes. Para tanto, é necessário reduzir os gastos do governo.

O real tornou-se uma das commodities monetárias mais desejadas, dada a sua trajetória esperada de valorização. Entusiasmado pelo interesse dos investidores pelo real, o Tesouro alongou a dívida interna, mesmo sem a existência de mercados secundários líquidos.

Logo, quando da ocorrência dos primeiros sintomas da desvalorização dos ativos denominados em real, sem portas de saída imediatas, a ansiedade dos investidores é potencializada pelos sucessivos aumentos da cotação do dólar e das taxas de juros futuras.

Os investimentos dos não residentes em títulos públicos já alcançam 8,95% do total da dívida pública mobiliária. Apesar de os títulos serem nominalmente de longo prazo, sua liquidez os transforma em ativos de curto prazo. Qualquer sinal de aumento das taxas de juros que recaem sobre os títulos da dívida pública americana pode estimular a saída de capitais investidos nesses ativos. Como consequência, as taxas de juros que recaem sobre os títulos emitidos pelo Tesouro do Brasil voltariam a subir, e a saída de recursos acarretaria volatilidade cambial.

Em 2005, dadas as expectativas de aumento da taxa de juros americana, os investidores não residentes nos títulos brasileiros, os quais representavam um pequeno percentual, liquidaram suas posições, obrigando o Tesouro a recomprá-las via leilões.

Os investidores que aplicam em ações sofrem perdas de capital ao tentarem sair de suas posições, já que os preços desses ativos refletem essas mudanças. Os investidores não residentes em renda fixa, contudo, não sofrem perdas de capitais em reais ao saírem de suas posições, já que, dada a pouca liquidez do mercado de títulos públicos, o Tesouro garante, via leilões, a recompra desses papéis, ainda que com prejuízo. Logo, todo cuidado é pouco na volta dos capitais voláteis para financiamento dos déficits nas transações correntes do balanço de pagamentos.

CARLOS THADEU DE FREITAS GOMES é economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e foi diretor do Banco Central.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Juros altos garantem saldo positivo de dólares, mas desacelera a economia





O interesse do BC e dos analistas de mercado que influenciam à respeito da variação da taxa básica de juros não é só controlar os preços. Em verdade, o interesse dos agentes financeiros é porque os juros são rendimentos do credor da dívida pública. E os dados da CNI apontam que houve recuo, de 0,3%, no total de horas trabalhadas e de 0,2 ponto percentual do uso da capacidade instalada. Esse patamar (82,5%) é 0,7 ponto abaixo do nível pré-crise, portanto não há risco de superaquecimento da economia (nunca houve esse risco na verdade!).

Por sua vez, é preciso manter o fluxo das contas externas sempre positivo, para ter reservas para financiar a remessa de dólares tanto da remessa de lucro das transnacionais como pagamento de dívida das captações externas. Como o Brasil chegou ao alerta vermelho nas contas externas com o maior déficit desde 1947, o BC opta pela a maior taxa de juros real do mundo. 

Óbvio que é uma taxa que agrada aos banqueiros e detentores da dívida pública, privada e externa. Porém, enquanto os pobres se endividam, o Estado gasta mais com dívida e os ricos pegam emprestado com juros subsidiado no BNDES.


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Juros altos garantem saldo positivo de dólares

Monitor Mercantil online, 04/08/2010 



Brasília - O fluxo cambial fechou julho positivo em US$ 712 milhões, de acordo com dados do Banco Central. No período, porém, o fluxo comercial foi negativo em US$ 777 milhões, resultado de exportações de US$ 13,984 bilhões e importações de US$ 14,762 bilhões. 
O fluxo financeiro, graças aos maiores juros reais do mundo, compensou a saída de dólares no comércio exterior, com saldo positivo de US$ 1,490 bilhão. 
As entradas pelo financeiro somaram US$ 28,655 bilhões e as saídas, US$ 27,166 bilhões. O resultado da semana passada foi decisivo para o saldo do mês, já que até dia 23 o fluxo cambial era negativo em US$ 2,304 bilhões. 
Semana passada, o fluxo de dólares no país foi positivo em US$ 3,016 bilhões, sendo que o fluxo comercial teve saldo positivo de US$ 775 milhões, resultado de exportações de US$ 3,996 bilhões e importações de US$ 3,221 bilhões. O fluxo financeiro teve ingresso líquido de US$ 2,241 bilhões, com entradas de US$ 7,656 bilhões e saídas de US$ 5,415 bilhões. 

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Puxado pelo endividamento privado, dívida externa ultrapassa US$ 300 bi

Dívida externa do país ultrapassa US$ 300 bilhões

Monitor Mercantil online, 29/07/2010

Endividamento privado, omitido pelo BC, indica que Brasil não é mais credor

Se forem incluídos os empréstimos intercompanhias, a dívida externa brasileira já chega a US$ 305 bilhões, o que, segundo o economista Rodrigo Ávila, ligado à Auditoria Cidadã da Dívida, significa que o Brasil não é mais credor líquido externo, como diz o governo.

A quantia, segundo Ávila, também marca a superação inédita do patamar dos US$ 300 bilhões.

"Os números do BC omitem os chamados "empréstimos intercompanhias", a dívida externa contraída por filiais de multinacionais junto a suas matrizes no exterior. Essa dívida atingiu nada menos que US$ 80 bilhões, fazendo com que a dívida externa brasileira superasse, pela primeira vez na história, a marca dos US$ 300 bilhões", critica Ávila, lembrando que este valor ultrapassa o nível das reservas internacionais, atualmente em US$ 253 bilhões.

No primeiro semestre de 2010, o endividamento brasileiro com o exterior, que vinha tendo relativa estabilidade nos últimos três anos, já subiu 13,6%. Segundo o Banco Central (BC), a dívida externa subiu para US$ 225,17 bilhões em junho, devido ao crescimento da dívida externa privada. É o maior valor desde o ano 2000, quando a dívida do país com os credores internacionais foi de US$ 236,16 bilhões.

A alta na dívida externa privada reflete a elevada taxa de rolagem dos empréstimos de médio e longo prazos, que no primeiro semestre ficou em 222%. Somente neste ano, os créditos mais longos cresceram US$ 15,8 bilhões e os empréstimos de curto prazo, US$ 11,2 bilhões. No total, o estoque de dívida de médio e longo prazos em junho ficou em US$ 183 bilhões e da de curto prazo, em US$ 42,17 bilhões.

"As altas taxas de juros brasileiras e a conseqüente tendência à valorização do real estimulam que as empresas tomem empréstimos no exterior", resume Ávila.

domingo, 1 de agosto de 2010

Rombo externo forçará ajuste cambial em breve

À espera do ajuste cambial

Luis Nassif, qua, 28/07/2010 - Coluna Econômica

O mercado entrou em contagem regressiva para um ajuste na taxa de câmbio. De fato, o aumento no déficit nas contas externas. Em junho o déficit foi de US$ 5,18 bilhões, o segundo pior da série – medida desde 1947. No primeiro semestre, o déficit tangencia os US$ 24 bilhões. Por outro lado, houve um refluxo do IED (Investimento Externo Direto).

A lógica desses movimentos é conhecido.

O primeiro movimento é provocado pelo Banco Central, ao aumentar a taxa Selic ou mantê-la muitos acima das taxas internacionais.

Taxa de juros, em política monetária, equivale ao antibiótico na medicina. Serve para cuidar de algumas infecções, mas tem efeitos negativos sobre o organismo. Daí o extremo cuidado dos médicos na sua utilização. Ministra-se o mínimo indispensável para curar a infecção, justamente para evitar as seqüelas.

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No caso dos juros, a única infecção que ele combate é a da inflação de demanda. Se a economia está muito aquecida, aumentam-se os juros, encarece-se o financiamento, a manutenção de estoques, desaquecendo a demanda.

As contraindicações são muitas, a principal das quais os efeitos deletérios sobre o câmbio. Com as taxas de juros internas mais elevadas que as internacionais, há um movimento dos grandes investidores de tomar crédito em outras moedas e aplicar em renda fixa no Brasil.

Ganham duas vezes. A primeira, com os juros mais elevadas. A segunda, devido ao fato de que excesso de entrada de dólares provoca uma apreciação do real, que permite ganhos adicionais.

É um cassino que não encontra paralelo em outros países.

Suponha que o investidor tome US$ 100 milhões a uma taxa de 1% ao ano. Chega ao Brasil e converte pelo dólar a R$ 1,90. Fica com R$ 190 milhões. Aí, aplica a 12% ao ano. Ao final de um ano terá R$ 212,8 milhões. Se o dólar caiu para R$ 1,70, ele conseguirá converter os reais em US$ 125,2 milhões. A 1% ao ano, sua dívida estará em US$ 101 milhões. Paga a dívida e fica com US$ 24 milhões, sem ter usado um dólar furado de recursos próprios.

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Acontece que, nesse período, o real apreciado vai provocando um rombo gradativamente maior no comércio exterior, na conta de serviços, no turismo. Enquanto sente que o real tem espaço para se valorizar, mais dólares entram pela conta financeira. E esse movimento de apreciação é acelerado por apostas feitas nos mercados futuros de câmbio.

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E como fica o investimento direto nisso? É um capital que não tem rapidez para entrar e sair da economia.

Imagine que uma empresa pense em trazer US$ 1 bilhão para investir aqui, com o dólar a R$ 1,70. Se amanhã houver uma desvalorização e o dólar saltar para, digamos, R$ 2,00, imediatamente no seu balanço ela registra uma perda de 15%.

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Por isso mesmo, quando sente que a apreciação do dólar está chegando ao limite prudencial, caem os IEDs. E fica muito mais difícil financiar o rombo nas contas externas.

As reservas em dólares do Banco Central evitam um choque mais abrupto. Mas não haverá como evitar a desvalorização cambial quando ocorrer o estouro da manada.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Contas externas brasileiras perto do limite

Um dos traços típicos da dependência volta a se manifestar na economia brasileira: a instabilidade das contas externas. À medida que a crise econômica mundial iniciada 2008 forçou as empresas transnacionais a aumentar e acelerar a remessa de lucros para compensar os prejuízos nas matrizes e importantes filiais européias e cortar investimentos diretos (IED) devido a queda nas exportações. O nível de IED havia mantido as contas equilibradas, mas parece ter situação agravada agora nos últimos dois meses, agravado pelo câmbio elevado, que reforça a piora nas contas externas, pelo aumento das importações.

Contas externas perto do limite

  do Estadão.com
 
Déficit nas contas externas é de US$ 24 bi

Rombo no primeiro semestre já é praticamente igual ao do ano todo de 2009; Banco Central espera compensá-lo com entrada de investimentos

Fernando Nakagawa, Fabio Graner 
BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

A crescente remessa de lucros feita por multinacionais e a compra de produtos e serviços internacionais aceleraram a saída de dólares do Brasil em junho por meio da conta corrente do País, que registra todas as operações de comércio exterior, serviços e rendas do Brasil com o exterior.

O saldo negativo do primeiro semestre, de US$ 23,76 bilhões, é comparável ao déficit de todo o ano de 2009, que somou US$ 24,302 bilhões, e equivale a 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB). No mês passado, pelos dados divulgados ontem pelo Banco Central, o saldo da entrada e saída de recursos nessa conta ficou negativo em US$ 5,18 bilhões, o pior junho da série iniciada em 1947.

Tentando não mostrar preocupação com a deterioração, o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, sustenta que o rombo será financiado com dólares que entram no País para investimento produtivo e no mercado financeiro. No semestre, de fato, a conta fechou. Em junho, porém, a soma do Investimento Estrangeiro Direto (IED) - voltado à produção - e das aplicações financeiras (ações e renda fixa) cobriu apenas 71% do déficit. Por isso, Altamir fez uma inflexão no discurso e admitiu o uso de uma terceira fonte para fechar a conta: o aumento da dívida externa.

A incerteza econômica nos países desenvolvidos foi decisiva na nova piora das contas externas. No mês passado, empresas estrangeiras instaladas no Brasil remeteram US$ 4,15 bilhões às sedes como lucros e dividendos, o maior valor para junho da história. O resultado do mês equivale a um terço das transferências do semestre, que somaram US$ 14,96 bilhões e foram concentrados em três setores: automotivo, químico e eletricidade e gás.

"As filiais mandam dólares para cobrir prejuízos das sedes ou até para se precaver de uma situação que ainda pode piorar", disse a professora de economia da Unicamp Daniela Prates.

Em outra frente, os dólares têm saído em ritmo cada vez mais rápido para pagar serviços relacionados ao nível de atividade econômica acelerado. A despesa total com a contratação de aluguel de equipamentos, informática e transportes cresceu 42% em junho ante igual mês de 2009 e saltou 71% no semestre. Em seis meses, o Brasil usou US$ 13,86 bilhões para pagar essas contas. Em tendência semelhante, a importação de mercadorias cresceu 45,1% no semestre.

Para o professor de economia da PUC-SP Antônio Corrêa de Lacerda, o câmbio valorizado é importante para explicar a piora da conta corrente, mais até do que o nível de atividade elevado. "Hoje, há um processo de substituição da produção nacional por importados."

A fragilidade das contas externas em junho foi acentuada porque a principal fonte de ingresso de dólares, o IED, secou. No mês passado entraram por essa conta US$ 708 milhões, metade do que entrou em junho de 2009.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

BC ao aumentar Selic além de mentir sobre superaquecimento eleva a dívida pública em 3 PACs

BC prefere capital de "motel" a crescimento

Munhoz: ‘BC mente ao dizer que Selic sobe para conter superaquecimento’

MUNHOZ: ÚLTIMOS AUMENTOS DA SELIC ELEVARAM DÍVIDA PÚBLICA EM 3 PACs


Os juros cada vez mais altos e o risco zero fizeram, de janeiro a maio, a participação dos estrangeiros na dívida pública federal subir três vezes mais que o estoque de títulos.

Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) a dívida cresceu 8,9%, enquanto a participação dos estrangeiros no estoque de papéis públicos subiu 24%, representando agora 8,1% do total da dívida.

Para o economista Dércio Garcia Munhoz, ex-presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon), ao elevar juros sem uma real ameaça inflacionária o Banco Central (BC) revela que pretende compensar o capital especulativo com a rentabilidade dos títulos públicos, já que a bolsa não conseguiu evitar que em junho e na primeira quinzena de julho o fluxo de dólares ficasse negativo.

"A maior parte desse capital que entra como portfólio vai para a bolsa. O BC mente ao dizer que a taxa básica (Selic) em alta é para evitar superaquecimento da economia. O que estamos vendo é apenas uma volta aos níveis anteriores a 2008, inclusive nos preços. O BC desconheceu tudo isso porque, com a bolsa balançando, perdeu atratividade do capital especulativo", disse, lembrando que essa política tem "um custo brutal" para o país.

"Somando os três últimos aumentos da Selic, aumentamos a dívida pública em R$ 40 bilhões, em termos anuais. Isto equivale a três vezes o que é efetivamente executado em investimento da União no PAC", compara o economista.

Segundo Munhoz, o Orçamento da União destina pouco mais de R$ 20 bilhões para o PAC, mas o efetivamente liberado gira em torno de 60% do previsto. "Já o pagamento de juros tem 100% de execução", resume o ex-presidente do Cofecon.

Monitor Mercantil online, 23/07/2010