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sexta-feira, 21 de junho de 2013

"Nós. Quem somos 'nós'. Quem são 'os outros' ?

por Rodrigo Souza

Este é um título de um ensaio de Immanuel Wallerstein. E é um bom mote para convidar os amigos e amigas a refletir sobre o momento histórico expresso nas manifestações pelo Brasil.

Perpassando nossa leitura das manifestações, passamos por caminhos do cômico, do estimulante e do preocupante. Às vezes misturado.

Vem em primeiro a indagação quanto ao que se pode conseguir no curto prazo. Mas a atenção verdadeira deve ser com os efeitos no médio e longo.

No curto, teremos: - alguns recuos nos aumentos de passagem. Mais importante, pressões contra as mancomunações das empresas com os políticos, em prol de mecanismos mais transparentes de regulação e operação do transporte coletivo. Quiça se isto estimular melhor qualidade para aumentar o uso coletivo.
- Maiores dificuldades para o congresso aprovar a PEC 37 e a “Cura Gay”, ou mesmo derrubá-las. Não se sabe o efeito sobre o Estatuto do Salazarismo ( com o truque de chamá-lo “do Nascituro”).
- Pressão efetiva para que fique mais difícil postergar ou driblar maiores investimentos percentuais na saúde e educação.
- Não há nada claro sobre algum efeito quanto a corrupção. Coisas como “não gosto dos corruptos” não quer dizer nada. Não vemos pressões efetivas para tratar dos mecanismos de financiamento de campanha, presença de lobbistas ou o sistema de emendas parlamentares orçamentárias. No máximo, maior constrangimento de alguns dos maestros da corrupção, afora algo que tantos esquecem: os corruptores.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Livro reflete sobre o capitalismo e saúda movimento 'Occupy'


Reflexão sobre o capitalismo em forma de texto saúda movimento
Leonardo Vieira | O Fluminense |  29/05/2012

Em 'Occupy', seis brasileiros estão entre os 11 pensadores de importante obra que reune textos curtos e discursos de teóricos de esquerda. Livro incentiva 'chama' do protesto

A História realmente terminou após a queda do Muro de Berlim, como sacramentou o teórico liberal americano Francis Fukuyama? Ou ainda vivemos períodos de transformações sociais e revoltas que derrubam governos e colocam novas ideias na ordem do dia?

Para os autores do livro 'Occupy', lançado este ano pela editora Boitempo, os acontecimentos políticos de 2011 provam que o capitalismo vitorioso da Guerra Fria não garantiu um sistema estável e igualitário a todos. Daí que teriam surgido os protestos que dominaram as principais ruas do mundo.

Reunindo textos curtos e discursos de 11 teóricos de esquerda, Occupy busca refletir sobre o que teria gerado as instabilidades que começaram com a Primavera Árabe, e logo se espalharam pela Europa, Rússia e Estados Unidos. Entre os nomes do índice, figuram acadêmicos de peso como Immanuel Wallerstein, Slavoj Žižek, Emir Sader e Edson Telles.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O segundo fôlego do movimento mundial de justiça social, I. Warllestein


Temos de pensar numa luta mundial como uma corrida de fundo, na qual os corredores têm de usar a sua energia com sabedoria.


12 Dezembro, 2011 - 01:26 | Por Immanuel Wallerstein

Temos de pensar numa luta mundial como uma corrida de fundo, na qual os corredores têm de usar a sua energia com sabedoria.

Durante os protestos da praça Tahrir em novembro de 2011, Mohamed Ali, 20 anos, respondeu da seguinte forma a um jornalista que lhe perguntava por que estava ali: “Queremos justiça social. Nada mais. É o mínimo que merecemos.”



A primeira vaga de movimentos assumiu formas múltiplas em todo o mundo – a chamada Primavera Árabe, os movimentos Ocupar que começaram nos Estados Unidos e se espalharam a um grande número de países, Oxi na Grécia e os Indignados em Espanha, os protestos estudantis no Chile e muitos outros.

Foram um sucesso fantástico. O grau de êxito pode ser medido por um extraordinário artigo escrito por Lawrence Summers no´Financial Times em 21 de novembro, sob o título “A desigualdade já não pode ser evitada pelas ideias habituais”. Não é um tema em que Summers se tenha antes destacado.

domingo, 28 de agosto de 2011

Vinte anos para mudar o mundo

Artigo do sociólogo Immanuel Wallerstein, um dos grandes expoentes da Ciências Sociais contemporânea e um dos pais da teoria do Sistema-Mundo. O autor associa a crise econômica mundial atual, cujo centro é a economia dos EUA, ao declínio deste enquanto centro hegemônico do sistema capitalista mundial.

Vinte anos para mudar o mundo
 por Immanuel Wallerstein
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/VINTE+ANOS+PARA+MUDAR+O+MUNDO_1595.shtml

Há uma década, quando eu e alguns outros falamos do declínio dos Estados Unidos no sistema-mundo, fomos recebidos no máximo com sorrisos de pena por nossa ingenuidade. Os EUA não eram o superpoder, envolvidos em cada canto remoto do planeta, capazes de obter o que queriam em quase todas as ocasiões? Essa era uma visão difundida em todo o cenário político.

Hoje, a visão de que os EUA declinaram, e declinaram seriamente, é uma banalidade. Todos dizem isso, com exceção de alguns políticos norte-americanos que temem ser culpados pela decadência, se a debaterem. O fato é que hoje quase todos acreditam na realidade desse declínio.

O que, entretanto, é muito menos discutido é quais foram, e quais serão as consequências mundiais desse fato. O declínio tem raízes econômicas, é claro. Mas a perda do quase-monopólio de poder geopolítico, que os EUA já exerceram, tem consequências políticas importantes em todo o mundo.

Vamos começar com uma história contada na seção de negócios do The New York Times em 7 de agosto. Um administrador de fortunas em Atlanta “apertou o botão de pânico” em nome de dois clientes ricos que o encarregaram de vender todas as ações e investir o dinheiro em algum fundo mútuo de alguma maneira isolado da crise. O administrador contou que, em 22 anos de trabalho, nunca tinha ouvido um pedido desses. “Isso não tem precedentes”. Os jornais chamaram a decisão de o equivalente de Wall Street ao “botão nuclear”. Foi algo inteiramente contra o conselho tradicional santificado, de “evitar o pânico” diante das turbulências do mercado.

A Standard & Poor`s reduziu o rating de crédito de dos EUA de AAA para AA+, outro fato “inédito”. Mas isso é uma ação relativamente leve. A agência equivalente na China, Dagong, já reduziu a credibilidade dos EUA para A+ em novembro, e agora para A-. O economista peruano Oscar Ugarteche declarou que os EUA tornaram-se uma “república de bananas”. Ele diz que o país “escolheu a política da avestruz, como modo de não perder as esperanças [de melhora]”. Em Lima, nessa última semana, o encontro dos ministros de Finanças dos países sul-americanos discutiu medidas urgentes para isolar a região dos efeitos do declínio econômico dos EUA.

O problema que todos enfrentam é que é muito difícil isolar-se dos efeitos do declínio dos EUA. Apesar da severidade de seu declínio político e econômico, os EUA continuam um gigante no cenário mundial, e qualquer coisa que acontecer lá ainda provoca grandes ondas no resto do mundo.

É claro que o maior impacto do declínio é, e vai continuar sendo sentido, nos próprios EUA. Políticos e jornalistas estão falando abertamente da “disfuncionalidade” da situação política no país. Mas o que mais essa situação pode ser, além de disfuncional? O fato mais elementar é que os cidadãos dos EEUA estão chocados pelo simples fato do declínio. Não é apenas que os estejam sofrendo materialmente com esse declínio, temam sofrer ainda mais, com o tempo. Eles acreditaram que os EUA eram a “nação escolhida”, designada por Deus ou pela história para ser um modelo para o mundo. E ainda ouvem o presidente Obama assegurar que seu país será sempre um “triplo A”.

O problema para Obama e para todos os políticos é que muito poucas pessoas ainda acreditam nisso. O choque para o orgulho e a auto-imagem nacional é formidável e além de tudo repentino. O país está lidando muito mal com ele. A população busca bodes espiatórios e esbraveja, de modo selvagem e pouco inteligente, contra os suspeitos de sempre. A última esperança parece ser a de descobrir que alguém é culpado e ver, como remédio, mudanças no comando.

Em geral, as autoridades federais são vistas como as mais fáceis de culpar – o presidente, o Congresso, os dois grandes partidos. Há uma tendência forte em direção a cortes no envolvimento militar fora dos EUA. Culpar o “povo de Washington” por tudo produz volatilidade política e disputas locais ainda mais violentas. Os EUA tornaram-se, eu diria, uma das entidades menos estáveis no sistema-mundo.

Isso torna EUA um país não apenas de disputas políticas são disfuncionais, mas, além disso, pouco hábil para exercer poder real na cena internacional. Há uma grande queda na confiança nos EUA e seu presidente, entre grandes aliados no exterior e entre a própria base política interna do presidente. Os jornais estão cheios de análises sobre os erros políticos de Barack Obama. Quem pode argumentar contra isso? Eu poderia listar facilmente dezenas de decisões de Obama que, segundo meu ponto de vista, foram erradas, covardes e algumas vezes inteiramente imorais. Mas eu me pergunto se teria feito muita diferença, caso ele tivesse ele agido como sua base desejaria. O declínio dos EUA não é uma consequência de decisões medíocres de seu presidente, mas de realidades estruturais no sistema-mundo. Obama pode ser o indivíduo mais poderoso no mundo, mas nenhum preesidente dos EUA é ou poderia ser hoje tão poderoso como os de antes.

Estamos entrando numa era de turbulências agudas, constantes e rápidas – nas taxas de câmbio, nas taxas de emprego, nas alianças geopolíticas, nas definições ideológicas da situação. A extensão e rapidez destas flutuações torna impossível fazer previsões de curto prazo. E sem alguma estabilidade razoável nas previsões de curto prazo (três anos, digamos), a economia-mundo estanca. Todos os países terão de ser mais protecionistas e voltados para dentro. Os padrões de vida vão cair. Não é um quadro agradável. E embora haja aspectos positivos para muitos, no declínio norte-americano, nada garante que, com os sacolejos do barco mundial, outros países possam tirar da nova situação o proveito que esperam.

É hora para análises muito mais sóbrias e de longo prazo, julgamentos morais muito mais claros sobre o que estas análises revelam, e ação política muito mais efetiva no esforço de criar, nos próximos 20 ou 30 anos, um sistema-mundo melhor do que aquele em que estamos hoje enrascados.

quarta-feira, 23 de março de 2011

'A Líbia e a esquerda', por Immanuel Wallerstein

A Líbia e a esquerda*


Por Immanuel Wallerstein

Exite tanta hipocrisia e tanta análise confusa sobre o que está acontecendo na Líbia que é difícil saber por onde começar. O aspecto mais negligenciado da situação é a grande divisão da esquerda mundial. Muitos Estados governados pela esquerda na América Latina, principalmente a Venezuela, apoiam decididamente o Coronel Gaddafi. Mas movimentos e personalidades da esquerda no Oriente Médio, Ásia, África, Europa e América do Norte, definitivamente não concordam.
A análise de Hugo Chávez parece focada principalmente – ou apenas – no fato de que os Estados Unidos e a Europa Ocidental têm ameaçado e condenado o regime de Gaddafi. Gaddafi, Chávez, e alguns outros insistem em que o mundo ocidental quer invadir a Líbia e “roubar” seu petróleo. Toda esta análise esquece completamente os fatos, e repercute mal no julgamento de Chávez e em sua reputação junto ao resto da esquerda mundial.
Primeiro, desde a última década e até há algumas semanas, Gaddafi tinha ótima imagem na mídia ocidental. Ele tentava provar, a cada dia, que não apoiava o “terrorismo” e que queria estar completamente integrado ao mainstream geopolítico e econômico. A Líbia e o mundo ocidental estavam firmando um acordo lucrativo após o outro. É difícil para mim ver Gaddafi como um herói do movimento anti-imperialista mundial, pelo menos na última década.
O segundo ponto esquecido pela análise de Hugo Chávez é que não haverá um envolvimento militar significativo do Ocidente na Líbia. As declarações oficiais são blablablá para impressionar a opinião pública doméstica. Não haverá uma resolução do Conselho de Segurança1, pois a Rússia e a China não irão concordar. Não haverá uma decisão do NATO, porque a Alemanha e alguns outros países não aceitarão. Até mesmo a posição anti-Gaddafi de Sarkozy encontra resistência na França.
E, além disso tudo, a oposição nos Estados Unidos à ação militar vem tanto do público quanto, mais importante, dos militares. O secretário da Defesa, Robert Gates, e o presidente do Estado-Maior Conjunto, almirante Mullen, são publicamente contrários à instituição de uma zona anti-aérea. De fato, Gates foi além. Em 25 de fevereiro, ele dirigiu-se a cadetes à Academia Militar de West Point, dizendo-lhes: “na minha opinião, seria preciso examinar a sanidade de qualquer futuro secretário de Defesa que aconselhe o presidente a enviar de novo uma grande parte do exército americano para a Ásia, o Oriente Médio ou a África.”
Para ressaltar essa visão dos militares, o general aposentado Wesley Clark, antigo comandante das forças da NATO, escreveu um artigo para o Washington Post em 11 de março, com a manchete, “Líbia não cumpre os requisitos para ação militar dos EUA.”. Então, apesar do apelo dos falcões para um envolvimento norte-americano, o presidente Obama irá resistir.
O problema, portanto, não gira em torno uma eventual intervenção militar do Ocidente. São, sim, os esforços de Gaddafi para suprimir toda a oposição, na forma mais brutal de repressão usada contra a segunda revolta árabe. A Líbia está agitada com o êxito das insurreições na Tunísia e Egito. E se houver qualquer conspiração, é entre Gaddafi e o Ocidente – para diminuir, ou quase anular, o vendaval popular. À medida em que Gaddafi obtém sucesso, ele sugere a todos os outros déspotas ameaçados da região que a repressão violenta é um caminho melhor que as concessões.
É isso que a esquerda do resto do mundo vê, ao contrário de alguns governos da América Latina. Como aponta Samir Amin em sua análise da revolta egípcia, existiam quatro grupos distintos entre os manifestantes – os jovens, a esquerda radical, os democratas da classe média e os muçulmanos. A esquerda radical é composta por partidos de esquerda reprimidos e movimentos sindicais revitalizados. Não há dúvida de que a esquerda radical líbia é muito menor; e que o exército nacional é muito mais fraco (devido à política cautelosa de Gaddafi). Lá, o resultado do processo é, portanto, muito incerto.
Os líderes da Liga Árabe podem condenar Gaddafi publicamente. Mas muitos, e até mesmo a maior parte, deve aplaudi-lo em privado – e copiá-lo. Esta constatação pode ser útil para esclarecer a esquerda mundial.
Helena Sheeham, uma ativista irlandesa marxista, muito conhecida na África por seu trabalho solidário com muitos movimentos radicais, foi convidada pelo regime de Gaddafi para palestrar na universidade líbia. Ela chegou assim que o tumulto eclodiu. As conferências na universidade foram canceladas. Ela foi simplesmente deixada por seus anfitriões, e teve que descobrir sozinha como sair do país. Escreveu um diário no qual, em seu último dia no país, 8 de março, ela registra: “qualquer ambivalência sobre aquele regime se acabou. É brutal, corrupto, enganoso, ilusório”.
Também podemos observar a declaração da maior federação sindical da África do Sul e voz da esquerda, a Cosatu. Após louvar as realizações sociais do regime líbio, a Cosatu afirma: ”não aceitamos de modo algum, porém, que essas realizações sirvam como pretexto para a selvageria contra aqueles que protestam contra a ditadura opressiva do coronel Gaddafi e reafirmamos nosso apoio à democracia e aos direitos humanos na Líbia e em todo o continente.”
Vamos manter o foco. Hoje, a luta fundamental, no mundo inteiro é a segunda revolta árabe. Já será difícil o bastante obter um resultado radical nessa luta. Gaddafi é um grande obstáculo para a esquerda árabe, e também do resto do mundo. Talvez devêssemos nos lembrar da máxima de Simone de Beauvoir: “querer libertar-se significa querer também a liberdade dos outros”.
 –
* Tradução: Daniela Frabasile 
O texto de Wallerstein foi publicado em 15 de março, quando a posição dos Estados Unidos, então contrária a uma intervenção na Líbia, prevalecia, como é de praxe, no Conselho de Segurança da ONU. Naquele momento, contudo, já estava em curso uma mudança, liderada pela secretária de Estado Hillary Clinton e parcialmente descrita em reportagem do New York Times.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

III COLÓQUIO DE ECONOMIA POLÍTICA DO SISTEMA-MUNDO

III COLÓQUIO DE ECONOMIA POLÍTICA DO SISTEMA-MUNDO

A Perspectiva do Sistema Mundo e América Latina 35 anos
depois da publicação de “O Moderno Sistema-Mundo I”


26 e 27 de agosto de 2009 - Auditório Dois Candangos - Universidade de Brasília

PROGRAMAÇÃO

1º Dia

8h às 8h30 – SOLENIDADE DE ABERTURA

8h30 às 10h – MESA REDONDA: O impacto de “O moderno Sistema-Mundo I” na América Latina
Carlos Antonio Aguirre Rojas (UNAM-México) – La America Latina en el Sistema-Mundo del Siglo XXI
Marcos Gandasegui (CELA-Panamá) – La crisis y las alternativas en America Latina
Teotônio dos Santos (UFF) – O pensamento crítico latino-americano e a perspectiva do Sistema-Mundo moderno

10h às 10h15 – INTERVALO

10h15 às 12h30– APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS
Almir C. C. Baptista Fº e Niemayer Almeida Fº – Dinâmica, determinações e Sistema-Mundo
Beatriz Judice Magalhães – Progresso, capitalismo e pobreza em Jack Godoy e Immanuel Wallerstein
Carlos Eduardo Martins – Immanuel Wallerstein: um pensamento para o século XXI
Fernando Correa Prado – El debate entre la teoría marxista de la dependencia y el análisis de sistemas-mundo

15h às 16h30 – MESA REDONDA: O Brasil e o moderno Sistema-Mundo
Antônio Brussi (IPOL-UnB) – O estado atual da perspectiva do Sistema-Mundo no Brasil: desafios e perspectivas
Gustavo Lins Ribeiro (DAN-UnB) – Sistema mundial não hegemônico e a globalização popular
Pedro Antônio Vieira (CSE-UFSC) – Os estudos econômicos e a perspectiva do moderno Sistema-Mundo: a experiência do sul do Brasil

16h45 às 17h – INTERVALO

17h às18h45 – APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS
Daniel Ribeiro de Oliveira e Gustavo Abrahão Flores – Uma análise da integração regional sul-americana à luz da Economia Política dos Sistemas-Mundo
G.V. Dias, J.G.R. Tostes e M.S. Sthel – Troca desigual e questão ambiental
Jair do Amaral Fº e Maria Cristina Pereira de Melo – Globalização ou emergência de um novo sistema capitalista mundial
Rafael Moro Muller – Privatizações sob a análise dos Sistemas-Mundo


2º Dia

8h30 às 10h – MESA REDONDA: Desigualdade na América Latina
Roberto Patricio Korzeniewicz (Universidad de.San Martin/Argentina e University of Mariland/USA) – Repensando la desigualdad desde una perspective del Sistema-Mundo
Timothy.Moran (SUNY-Stony Brook /USA) – Social Mobility from a World-Historical Perspective

10h às 10h15 – INTERVALO

10h15 às 12h30 – APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS
Arlete Maria da Silva Alves – Foro Social Mundial: ‘Rules and Constraints’ e o desenvolvimento das Nações
Gabriel Rached – As mudanças na política de desenvolvimento do Banco Mundial
João Augusto Pessoa Lepkison – O protagonismo do Estado Chinês na superação da crise sistêmica
Paulo Cesar Gonçalves – A grande emigração européia no final dos oitocentos: uma análise sob a ótica do Sistema-Mundo Moderno de Wallerstein
Wellington Fontes Menezes – A bússola desnorteada: considerações sobre a atualidade da crise do capitalismo na perspectiva do Sistema-Mundo

16h – HOMENAGEM A IMMANUEL WALLERSTEIN

ENCERRAMENTO

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Entrevista de Immanuel Wallerstein ao Programa Milênio

Após os vídeos de Giovanni Arrighi postamos aqui uma entrevista de outro grande autor da Teoria dos Sistemas Mundo e fundador dessa abordagem, Immanuel Wallerstein.

Para o cientista político radicados nos EUA o mundo contemporâneo está diante de uma doença terminal. Chegamos a um momento de esgotamento do processo de acumulação do capital e entramos em uma era caótica e de incerteza, porque o sistema atual será forçosamente substituído por um outro que não sabemos qual é e, portanto, não sabemos se será melhor ou pior. Mas será, certamente, pós-americano.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Um mês sem Giovanni Arrighi, o escritor de "O longo século XX"

por Almir Cezar Filho

Hoje dia 20 fará exatos um mês de falecimento do economista político italiano radicado nos EUA Giovanni Arrighi. Curiosamente, apesar de certa popularidade por aqui pelo Brasil, obtida especialmente após a publicação de O Longo Século XX, houve um total silêncio na grande mídia sobre sua morte.

Nascido em 1937 na Itália, falecido em Baltimore, EUA em 20 de junho de 2009, Giovanni Arrighi se formou como economista neoclássico em Milão, Itália. Foi doutor em Economia e catedrático de Sociologia na Universidade estadual de Nova York (campus de Binghamton) e professor de Sociologia e gerente do Instituto para Estudos Globais em Cultura, Poder e História da Universidade Johns Hopkins, ambas instituições localizadas nos Estados Unidos da América. Atuou principalmente no campo da sociologia comparativa e história, na análise do sistema mundial e em sociologia econômica.

É um dos 5 principais autores sobre a Teoria do Sistema Mundial, juntamente com o seu fundador Immanuel Wallerstein, Samir Amim, Theotonio dos Santos e o falecido em 2005 André Gunder Frank. Seus livros mais recentes são "O Longo Século XX", "Caos e Governabilidade no Moderno Sistema Mundial" (em co-autoria com a esposa e companheira intelectual Beverly Silver) e "Adam Smith em Pequim". Em conjunto, formam sua trilogia sobre o capitalismo em perspectiva histórico-mundial.

Sua morte, pelo câncer, que lutava por vários meses, ceifou justamente em um momento de intensa produção intelectual.

Postamos aqui dois vídeos onde Arrighi expõe suas ideias. No primeiro é um auto-depoimento de Arrighi entitulado "Lendo Karl Polanyi em Pequim" preparado para o Encontro internacional sobre Karl Polanyi ocorrido em 2008 em Montreal, Canadá e cujo título é um trocadilho com o título de seu famoso livro "Adam Smith em Pequim".



O segundo é uma entrevista concedida em 2005 em Madri para a Universidade Nômade.



Fontes: "http://pt.wikipedia.org/wiki/Giovanni_Arrighi"

sexta-feira, 20 de março de 2009

Internacionalismo e campismo: dilemas da aposta estratégica

Recebi esse excelente artigo do próprio Valério Arcary e posto aqui hoje.

Internacionalismo e campismo: dilemas da aposta estratégica

por Valério Arcary
professor do IFECT-SP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo) e doutor em história pela USP

Resumo

A pesquisa sobre o tema do internacionalismo tropeça em um paradoxo. Os marxistas previram que a burguesia seria uma classe, irredutivelmente, nacional. Anteciparam outro prognóstico ainda mais ousado: os proletariados nacionais se elevariam, politicamente, à perspectiva internacionalista. Mas, a história foi mais complicada. A burguesia, quando se sentiu ameaçada no século XX pelo perigo de transformações anticapitalistas, demonstrou capacidade de superar suas divergências nacionais. Já o proletariado encontrou dificuldades, até hoje, intransponíveis, para reconstruir um movimento internacionalista. O destino de sua luta, diante da crise econômica mais séria depois de 1929, parece depender da redescoberta do internacionalismo.

Quanto mais zelosamente os governos e a burguesia de todos os países procuram desunir os operários e lançá-los uns contra os outros(...), tanto mais imperioso é o dever do proletariado consciente de defender a sua coesão de classe, o seu internacionalismo, as suas convicções socialistas (...)Num momento da maior importância histórica mundial, a maioria dos dirigentes da Internacional Socialista tenta substituir o socialismo pelo nacionalismo.[1] (Vladimir Ilitch Ulianov, alias, Lenin)


A crise econômica de 2008 colocou na ordem do dia a discussão sobre o futuro da atual ordem mundial. A necessidade intransferível de uma coordenação internacional, algo que seria o mais próximo de um governo mundial, parece urgente. Mas, essa coordenação choca com as assimetrias que dividem o mundo em países centrais e periféricos. Nenhum Estado na história do capitalismo renunciou às vantagens de sua posição dominante no sistema mundial sem resistências.

Amsterdã entrou em guerra com Londres por três vezes no século XVII, até que a Holanda aceitou um papel complementar na relação com a Inglaterra. A Inglaterra entrou em guerra seis vezes com a França pela liderança no sistema europeu de Estados, entre o final do século XVII e a derrota final napoleônica em 1815. Alemanha e Inglaterra mergulharam o mundo, em 1939, em uma guerra total. Depois de 1945, o Japão aceitou o papel complementar na relação com os EUA e, depois da crise dos anos setenta, a França aceitou um papel complementar na relação com a Alemanha. Não será diferente com os EUA: coordenação internacional da crise é um eufemismo para a supremacia de Washington.

A crise contemporânea revela que as instituições erguidas a partir de Bretton Woods em 1944 não correspondem mais às necessidades do capitalismo. FMI, Banco Mundial, OMC, OIT, Banco de compensações internacionais de Basiléia e ONU, todas as organizações de regulação econômica, social e política estarão sendo reavaliadas. As turbulências no mercado mundial ameaçam se transformar em terremotos sociais – como na Grécia em dezembro de 2008, ou na ilha de Guadalupe, depois de trinta dias de greve geral - e exigem que os Estados renegociem o formato do sistema de Estados. Sendo improvável, senão impossível, apesar das pressões que já se manifestaram nos EUA, na Europa e no Japão, uma retração protecionista semelhante aos anos trinta, a questão da regulação mundial passou a ser uma das questões decisivas.

Marx e Engels defenderam no interior da I Internacional que as burguesias nacionais européias seriam classes prisioneiras do nacionalismo, em função da estreiteza de seus interesses econômicos. Previram, em 1871, depois que a guerra defensiva da Alemanha contra o Império francês se transformou em guerra ofensiva, culminando com a derrota da Comuna de Paris pelas tropas do governo francês, protegido pelo exército alemão em Versailles, e a anexação da Alsácia e Lorena, que as lutas fracionais entre as duas burguesias mais poderosas do continente semeavam as condições históricas para uma nova guerra, porém, incomparavelmente, mais destrutiva. A I Guerra Mundial lhes deu razão. O nacionalismo dos Impérios europeus nasceu das rivalidades burguesas, que só eram relevadas diante do perigo da subversão operária.

A segunda geração marxista, na época da II Internacional, defendeu que o “internacionalismo” do capital seria o imperialismo. O imperialismo de uma nação só seria possível com a destruição do direito de existência independente de outras. O nacionalismo das burguesias centrais corresponderia à anexação das burguesias periféricas aos interesses das metrópoles contra os interesses de suas próprias nações à independência. O imperialismo seria a forma mais exaltada e mais perigosa de nacionalismo: o nacionalismo das nações opressoras. Concluíram que o imperialismo seria a fase do apogeu e, ao mesmo tempo, do declínio do capitalismo.

Este prognóstico passou a prova da história? Afinal, o capitalismo uniu econômica e politicamente o mundo, em sucessivas etapas, ao longo de um processo que consumiu séculos. Mas, não é um bom critério histórico confundir o que foi produto do capitalismo com o que foi a obra dos capitalistas. O capitalismo é um sistema que se afirmou em escala internacional. Já os capitalistas são uma classe que permaneceu dividida por antagonismos nacionais. Construíram monopólios e bancos que, embora atuando em escala global, continuaram sendo negócios nacionais. O capitalismo histórico criou o mercado mundial e estruturou um sistema internacional de Estados, mas preservou, intactas, as fronteiras políticas dos países centrais, aqueles que deram forma ao moderno imperialismo.

Os marxistas anteciparam outro prognóstico ainda mais ousado: os proletariados nacionais se elevariam, politicamente, à perspectiva internacionalista, em função de seu impulso revolucionário: “a emancipação da classe operária não é um objetivo nacional, mas social, que abarca todos os países em que existe a sociedade moderna” (Marx, 1988, p.8). Proletários de todo o mundo, uni-vos! Esta foi a palavra de ordem central que o marxismo apresentou como síntese de um programa socialista. Seria uma questão de tempo para que os limites nacionais do capital se manifestassem, incontornavelmente, e para que a grandeza internacionalista do projeto socialista se afirmasse, inelutavelmente. Teria este projeto bases materiais, ou era uma utopia?

A supremacia dos EUA no sistema internacional de Estados

A história foi, todavia, mais complicada do que tinham antecipado os fundadores do moderno movimento socialista. Ao longo do século XX, revolução e contra-revolução mediram forças, mas o capitalismo conseguiu preservar-se. Em quatro ondas de assalto internacionais ao domínio da burguesia – depois de 1917, depois da crise de 1929, depois de 1944, e depois de 1968 - a revolução mundial desafiou o capitalismo e foi derrotada (Hobsbawm, 1996). O Capital se internacionalizou até os limites máximos do mercado mundial. A capacidade demonstrada pela burguesia, depois de duas guerras mundiais devastadoras, de superar as suas divergências nacionais, surpreendeu os marxistas, mas foi muito estudada. Já, a dificuldade do proletariado de se unir à escala mundial contra o capitalismo, depois do triunfo do estalinismo na ex-URSS, decepcionou-os, mas é menos compreendida.

O capital financeiro domina o mundo. E o capital financeiro dos EUA domina o capitalismo mundial. Essa dominação foi incontrariável, e não parece previsível que venha a ser desafiada durante a fase aberta pela atual crise. Haverá conflitos comerciais, mas não haverá guerra comercial entre as potências. A terrível lição dos anos trinta não ocorreu em vão. Uma solução militar para a crise não é plausível. Caberá aos EUA assumir a liderança da coordenação internacional.

O capital financeiro foi o produto histórico da fusão do capital bancário com o capital industrial, sob a liderança do primeiro, na elaboração de Hilferding de 1912, retomada por Lenin no seu Imperialismo, fase superior do capitalismo: “se fosse necessário dar uma definição o mais breve possível do imperialismo, deveria dizer-se que o imperialismo é a fase monopolista do capitalismo (...) o capital financeiro é o capital bancário de alguns grandes bancos monopolistas fundido com o capital dos grupos monopolistas industriais” (Lenin, 1966, p.762).

Depois da Segunda Guerra Mundial, a liderança norte-americana sobre o capitalismo internacional se afirmou de forma incontroversa. Sua supremacia foi ainda maior que a inglesa no século XIX. Essa hegemonia traduziu-se no lugar do capital financeiro yankee no capitalismo erguido após as negociações de Bretton Woods em 1944. A primazia dos capitais norte-americanos sustentou-se, também, nos trinta anos de crescimento do pós-guerra, enquanto Europa e Japão ainda se reconstruíam, na superioridade da sua capacidade industrial, na estabilidade política-social interna do governo dos EUA e, por último, mas não menos importante, no papel insubstituível do seu aparato militar, inclusive, nas armas nucleares.

Na seqüência da restauração capitalista na China e na ex-URSS, contrariando a hipótese de autores como Arrigui, no seu O longo século XX, ou Wallerstein (2002), o papel da liderança norte-americana não só não diminuiu, como aumentou. A transferência de indústrias para o Oriente nos anos 90 não parece ter sido expressão somente da decadência, mas, sobretudo, da fortaleza do capital norte-americano, que se aproveitou da oportunidade histórica da restauração capitalista para tentar incorporar a China como semicolônia na sua área de dominação direta. O papel do capital financeiro dos EUA adquiriu dimensões espantosas durante a globalização dos últimos quinze anos. Os capitais fictícios – aqueles que acumulam hoje, na perspectiva da valorização futura – agigantaram-se até dimensões colossais, algo próximo de dez vezes o PIB mundial, ou mais de US$500 trilhões, segundo o Banco de Compensações Internacionais de Basiléia, alimentando as bolhas dos preços dos ativos que começaram a explodir no segundo semestre de 2007, e mergulharam em colapso em setembro de 2008, após a falência do Lehmann Brothers.

Uma ordem mundial menos estável depois da dissolução da URSS

Em resumo, a configuração do sistema mundial de Estados mudou em 1945, com a hegemonia inconteste dos EUA sobre os outros imperialismos. Uma ordem mundial incomparavelmente mais estável se construiu, em comparação com a primeira metade do século, pela inapelável derrota alemã e japonesa, e pelo papel auxiliar vital de Moscou ao garantir a coexistência pacífica, ou seja, ao se comprometer em não incentivar revoluções que desafiassem a ordem capitalista. Em perspectiva histórica, temos hoje a dimensão de que os conflitos entre os EUA e a URSS eram condicionados pelo interesse mútuo de preservação da ordem, e foram até teatralizados pelos dois Estados, como destacou Wallerstein (2002).

Karl Kautsky tinha previsto no início do século XX a possibilidade do ultra-imperialismo. E antecipava que a época do ultra-imperialismo seria uma época de paz, porque seria a superação dos imperialismos nacionais. O ultra-imperialismo seria a expressão política de uma transformação econômico-social: assim como com o imperialismo, na virada do século XIX para o XX, teria ficado para trás a época da livre concorrência, a fusão dos monopólios nacionais em grandes corporações multinacionais deixava para trás a época das guerras burguesas pelo controle do mercado mundial. Seria a época de uma burguesia, enfim, internacionalista. O ultra-imperialismo seria a época do Império mundial. Mas, duas guerras catastróficas em menos de trinta anos desmoralizaram a idéia do ultra-imperialismo. Toni Negri e Michael Hardt, com seu Império(2002), retiraram a hipótese de Kautsky do esquecimento. Cem anos depois não parece que seu livro terá melhor destino.

Depois da dissolução da URSS, nove entre cada dez interpretações exaltavam a vitória histórica do capitalismo e da democracia e a inauguração de uma época de paz. Revoluções seriam rebeliões arcaicas para sempre enterradas. O socialismo teria sido derrotado pelo próprio proletariado que, supostamente, deveria representar. A superioridade da propriedade privada e do mercado teria sido confirmada pela história. Uma maior estabilidade no sistema internacional de Estados garantiria uma época de prosperidade sustentável.

É verdade que a supremacia dos EUA no sistema mundial de Estados não diminuiu depois de 1989/91, ficou maior. Mas, a estabilidade de sua dominação não aumentou, na verdade, diminuiu. O que foi interpretado, apressadamente, como o fim da época aberta pela revolução de Outubro, revelou-se uma virada histórica transcendental, mas não como foi previsto. A possibilidade de reformas durante as décadas de ajuste neoliberal ficou menor. As desregulamentações ultra-liberais abriram caminho para uma financeirização do capitalismo que fermentou as bolhas que explodiram em 2000 e agora em 2007.

Sem o papel de contenção que era cumprido pelo Estado soviético, a instabilidade política e social aumentou nos dois elos mais frágeis da dominação imperialista: o Oriente Médio e a América Latina. Moscou perdeu a capacidade de cumprir a função de controle que exerceu durante décadas no Golfo Pérsico: a OLP perdeu influência para o Hamas, o Hisbolah assumiu a liderança da resistência a Israel no Líbano e o Irã se consolidou como Estado independente. Na América Latina, os velhos Partidos Comunistas desmoronaram, e abriu-se um novo ciclo político com as insurreições populares que deslocaram mais de dez presidentes eleitos, em menos de dez anos, como conseqüência das crises econômicas de 1989/1992 e 1999/2003, sem que a extensão das políticas sociais focadas e compensatórias assegure condições de estabilidade social quando se abaterem sobre o continente as seqüelas da nova crise.

O lugar da política da casta dirigente na URSS na etapa 1945/89 não deveria ser subestimado, como ficou claro na revolução portuguesa em 1974/75. Apesar de Moscou, todavia, inúmeras situações revolucionárias se precipitaram no pós-guerra – como na Bolívia em 1952, Guatemala em 1953, na Indonésia em 1965, ou no Chile em 1973 – e foram derrotadas. Entretanto, revoluções triunfaram, também, como em Cuba em 1959, Argélia em 1961/63, ou ainda na Nicaragua e Irã em 1979. Em meados dos anos setenta aconteceu o impensável: uma derrota militar de Washington no Vietnam.

Foi a desconfiança das massas trabalhadoras nas suas próprias forças o maior obstáculo a ser vencido em todas as revoluções contemporâneas: essa permaneceu sendo a força de inércia reacionária mais poderosa na história. Mas essa insegurança social não pode ser compreendida, plenamente, sem analisar o papel dos seus partidos dirigentes. Estes partidos, socialdemocracia e estalinismo, estavam comprometidos com a defesa da coexistência pacífica, portanto, com o status quo no sistema internacional de Estados. Depois de 1989/91, a ruína dos PC’s foi a ruína, também, de um dos pilares da estabilidade no Ocidente. Foi o atraso de reformas que incendiou, invariavelmente, a possibilidade de revoluções. Depois de 1989/91, com o desemprego crônico e o salário médio estagnado ou em queda, as ilusões nas possibilidades de uma mobilidade social ascendente diminuíram.

Do internacionalismo marxista ao nacionalismo campista

O curso regressivo do proletariado do internacionalismo ao nacionalismo, entre os anos 20 e os anos trinta do século XX, correspondeu a um processo histórico de acumulação de derrotas da revolução mundial. Na etapa aberta pela vitória da revolução de Outubro, a dinâmica tinha sido inversa. Depois da vitória da revolução russa em 1917, e da crise de 1929, o futuro do capital pareceu, seriamente, ameaçado. A revolução contemporânea foi, objetivamente, uma revolução mundial. A forma de expansão em ondas de contágio dentro de cada continente não foi excepcional: Europa central depois de 1918, Europa do Mediterrâneo depois de 1929, os Bálcãs depois de 1944, o Mediterrâneo depois de 1968, a América Latina depois de 1959, etc...

Mesmo as formas cada vez mais aterrorizadoras do regime tirânico estalinista na URSS, nos anos trinta, não anulavam as façanhas econômicas e sociais que o planejamento econômico e a propriedade estatizada estavam permitindo realizar. A III Internacional cresceu durante seus primeiros quinze anos, rapidamente, como pólo de atração do movimento socialista mundial. Entretanto, desde meados dos anos vinte, e ainda mais acentuadamente depois dos anos trinta, quando dos julgamentos de Moscou, sua orientação política evoluiu, vertiginosamente, do internacionalismo para o campismo.

Os campistas apoiavam seus argumentos com uma demonstração simples de sua estratégia. O mundo estava dividido em dois campos, o capitalista e o socialista. Seria uma questão de tempo para que a superioridade do socialismo fosse arrasadora. Revoluções sociais tinham sido enterradas pela história, porque o arsenal nuclear do imperialismo ameaçava a própria existência da civilização. Logo, toda a tática consistia em ganhar tempo para que a transição ao socialismo por via pacífica, respeitando as formas democráticas das Repúblicas burguesas, fosse conquistada. A coexistência pacífica favorecia, presumia-se, a passagem ao socialismo. A luta de classes deveria estar subordinada aos interesses diplomáticos da URSS nas relações com os EUA: a situação mundial se resumia a uma luta entre Estados.

O campismo socialista parecia ter desmoronado no início da década de 90 com a restauração capitalista no Leste e a desintegração da URSS. O campismo foi, na segunda metade do século XX, ao lado do gradualismo democrático-reformista, a mais influente teoria na esquerda mundial. Influenciou gerações, afirmando que o mundo estava dividido em dois campos: o capitalista e o socialista, irreconciliáveis, sendo este último, presumidamente, a retaguarda estratégica das lutas de classes contra o imperialismo, apesar das oscilações da coexistência pacífica. Uma análise lúcida das distintas interpretações campistas – pró Moscou, ou pró Pequim - foi feita por Perry Anderson no seu clássico Considerações sobre o marxismo occidental.(1996)

Algumas poucas vozes marxistas alertaram para as perigosas conseqüências dos critérios campistas. A tradição associada à elaboração de Leon Trotsky se destacou na reivindicação da centralidade do internacionalismo socialista: o antagonismo entre capital e trabalho permanecia a contradição ordenadora para um projeto socialista. Os internacionalistas reconheciam a existência de inúmeras outras contradições. Admitiram que seria justo se posicionar em defesa dos Estados pós-capitalistas contra os capitalistas, em defesa das nações oprimidas contra as opressoras, em defesa de regimes democráticos quando ameaçados pelo perigo de quarteladas ditatoriais, em defesa dos direitos da mulher contra a prepotência do machismo, em defesa do meio-ambiente, etc...

Mas, sustentaram que os antagonismos de classe continuavam sendo a contradição fundamental do capitalismo. Um projeto anticapitalista dependeria, estrategicamente, da reconstrução de um movimento operário internacional. Esta tradição político-programática não hesitou em defender a URSS e, de resto, qualquer Estado periférico diante do imperialismo. Não compartilhava, contudo, o critério da defesa incondicional de Moscou, Pequim, Tirana ou Havana, porque associava o futuro do socialismo à defesa, também, dos interesses da classe trabalhadora na URSS, na China, na Albânia ou em Cuba, contra os privilégios das castas burocráticas no poder nesses países. Nem todos os defensismos da URSS e dos Estados que surgiram das revoluções sociais do século XX eram, portanto, campistas. Existiu uma alternativa à estalinofilia, e à estalinofobia. Uma insuperável divisão, no entanto, se estabeleceu durante décadas entre as lutas no Ocidente e no Oriente, acabando de enterrar o internacionalismo como um movimento político organizado, tal como tinha existido ainda, por exemplo, diante da revolução espanhola.

O “nacionalismo” da URSS nunca foi o mesmo que internacionalismo

Este desafio teórico-programático do movimento socialista desdobrou-se, no século XX, no que podemos resumir como um dilema entre posições internacionalistas e posições nacionalistas. Os nacionalistas observam o mundo a partir de seus países, e os internacionalistas observam seus países a partir do mundo. Os nacionalistas avaliam cada processo revolucionário como o desenlace de uma luta que começa e termina dentro de suas fronteiras. Os internacionalistas consideram cada processo revolucionário como uma refração da revolução mundial. Os marxistas reconheceram, contudo, que o nacionalismo das nações dominantes era reacionário e o das nações dominadas era progressivo.

Mesmo as lutas das nações oprimidas, aquelas que a divisão do mundo ao longo dos últimos quinhentos anos condenou à periferia, como colônias ou semi-colônias, só poderiam erguer Estados independentes de forma efêmera. A ruptura com o sistema mundial de Estados colocaria o desafio anticapitalista, mais cedo ou mais tarde, como inadiável. Estados independentes na periferia, como foi em seu tempo o Egito de Nasser, ou permanece hoje o Irã do partido-igreja islâmico xiita ou Cuba, foram excepcionais, porque a ordem mundial é imperialista e tem um centro. Governos nacionalistas foram e são transitórios.

A primeira perspectiva, o nacionalismo, ainda quando radical, conduziu a resultados, invariavelmente, desanimadores: a esquerda chilena no início dos anos setenta estava cavando, involuntariamente, sua própria sepultura, ao desprezar as lutas no Peru e na Bolívia; os sandinistas da Nicarágua enterraram sua revolução nos acordos de Contadora, dando as costas para El Salvador; a revolução iraniana foi sufocada pelos anos de guerra com o Iraque

Eis o dilema do método: uma análise que equaciona os conflitos entre as classes nos países, ou continentes decisivos, diminuindo o lugar e a política dos Estados na situação mundial, será incapaz de explicar as relações de forças entre as classes, porque o posicionamento dos Estados é uma determinação – na verdade, um elemento central - dos contextos políticos. Pecará por unilateralidade, diminuindo a força da contra-revolução.

Um exemplo: seria ingênuo imaginar uma dinâmica anticapitalista da revolução nicaragüense, como se fosse possível uma nova Cuba, após 1979, ignorando que a política de Washington, com Reagan, tinha como eixo impedir a qualquer preço – como depois ficou claro pela participação de militares israelenses na formação do exército dos “contras”- derrotas como a sofrida em Teerã e na América Central. E a política do Estado cubano não era o apoio à revolução salvadorenha, para que se repetisse em San Salvador o desenlace que ocorreu em Manágua, mas o apoio a negociações que, finalmente, culminaram no acordo de Contadora.

O caminho inverso seria ainda mais desastroso. Quando se subestimam os conflitos entre as classes em cada sociedade, a análise redundará, fatalmente, em avaliações impressionistas, porque as lutas de classes subvertem, em maior ou menor medida, o posicionamento dos Estados. Pecará por superficialidade, exagerando a força da contra-revolução.

Mais um exemplo: seria completamente unilateral imaginar que a ALCA era um projeto econômico-político imbatível, somente porque a maioria dos Estados latino-americanos eram favoráveis ao acordo impulsionado pela administração Bush no início da década, ignorando que as crises sociais agravadas nos anos noventa pelos ajustes neoliberais tinham alterado a relação de forças sociais no continente, de tal maneira, que De La Rua foi defenestrado em 2001, o golpe na Venezuela foi derrotado em 2002, FHC e os tucanos foram eleitoralmente vencidos no Brasil, e Gonzalo de Losada viu-se obrigado a fugir de helicóptero de La Paz em 2003.

As três ondas da revolução latino-americana

A etapa aberta no sistema internacional de Estados após a dissolução da URSS acentuou duas contradições chaves: por um lado, o imperialismo norte-americano manteve a liderança política e militar e lançou-se, primeiro nos Bálcãs, e depois na Ásia Central e no Oriente Médio, em guerras de recolonização, apesar da fragilização de sua economia, em função do crescimento dos déficits gêmeos que preservam o dólar como moeda mundial, porém, à custa da sua desvalorização, como destacou César Benjamim (2003).

Por outro lado, a acelerada internacionalização do capital financeiro veio impondo a necessidade de uma ofensiva contra as conquistas sociais dos trabalhadores nos países periféricos que atinge, também, embora em outra proporção, os proletariados dos países centrais. O início do novo século coincidiu com uma terceira vaga revolucionária na América Latina, e fez ressurgir com a máxima intensidade o tema do internacionalismo.

Não foi a primeira vez que o continente foi incendiado por uma onda revolucionária internacional. A primeira vaga começou na Bolívia em 1952, aprofundou-se com a vitória em Havana em 1959 e foi derrotada no Rio de Janeiro em 1964. A segunda começou com o triunfo em Manágua em 1979, passou pelas quedas das ditaduras nos países chaves do Cone sul – Argentina e Brasil - entre 1982 e 1985, mas a relação de forças foi se invertendo com a derrota da situação revolucionária na Bolívia em 1985 e, na virada da década, com as eleições de Menem e Collor e, depois FHC, no Brasil. Em janeiro de 2000 em Quito começou a terceira vaga revolucionária latino-americana, que permanece em aberto, porque a hora dos combates decisivos ainda não chegou.

O continente latino-americano escreveu sua primeira página na história da revolução socialista com o triunfo da revolução cubana em 1959. O medo de que a revolução se alastrasse de Cuba para todo o continente explicou a política burguesa nos vinte anos que vão de 1960 a 1980. Mas, quando Cuba triunfou, a primeira vaga da revolução anti-burocrática no Leste europeu já tinha sido derrotada na Hungria e na Polônia. E enquanto a quarta vaga da revolução mundial pós-68 se alastrava na Europa para a Itália e Lisboa, e seus ecos instigavam a juventude mexicana a ocupar a Praça do Zócalo na terceira maior cidade do mundo, ao mesmo tempo em que 100.000 saiam às ruas do Rio de Janeiro para gritar ‘abaixo a ditadura’, a situação na América Latina evoluía, desfavoravelmente, para a causa da revolução.

A vaga latino-americana já tinha sido derrotada, anos antes, no golpe do 31 de Março no Rio de Janeiro e a esquerda inspirada no exemplo cubano de inspiração guevarista foi dizimada. No início dos anos oitenta, as ditaduras latino-americanas foram caindo, umas após as outras, mas as classes dominantes lograram estabilizar os regimes democrático-liberais com a promessa da alternância eleitoral. A geração mais velha da esquerda latino-americana tinha medido forças com a contra-revolução e tinha sido esmagada. Um fio de continuidade histórica tinha sido interrompido sem que, porém, as ilusões reformistas na possibilidade de um capitalismo desenvolvimentista e distribuidor de renda – o programa hegemônico da esquerda do pós-guerra, mesmo daquela que pegou em armas - tivessem sido superadas. A onda de revoluções que sacodiu a América Latina entre 2001/2005 reabriu, necessariamente, discussões estratégicas sobre o futuro da luta socialista. Partidos associados aos ajustes neoliberais da década de noventa foram, uns após os outros, sendo derrotados, levando ao poder Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia, Daniel Ortega na Nicarágua, Rafael Correa no Equador, além da reeleição de Hugo Chávez na Venezuela. Fernando Lugo foi eleito no Paraguai. O processo de luta de classes que permitiu derrubar mais de dez presidentes eleitos na América Latina, mas foi absorvido até o momento nos limites dos regimes democrático-eleitorais, poderia avançar até que limites? Governos nacionalistas com políticas sociais compensatórias poderão estabilizar os seus países, mesmo depois que se inverteu a tendência do ciclo econômico, e a crise mundial precipita o continente em uma nova recessão generalizada, senão em depressão? Poderiam voltar a ocorrer revoluções anti-capitalistas protagonizadas por sujeitos sociais não proletários? Em que medida, a pressão da luta de massas poderia empurrar as forças políticas dirigentes – Evo e o MAS na Bolívia, Chávez e o PSUV, por exemplo - além do rubicão da propriedade privada? Os governos nacionalistas alimentam, como seria previsível, novas ilusões campistas.

Não é, contudo, provável que quaisquer destes governos venham a romper os limites do capital e, de resto, da institucionalidade burguesa, como ficou mais ou menos claro no plebiscito negociado por Evo Morales na Bolívia com os governadores das províncias da chamada meia-lua, ao final de 2008. O capitalismo andino de Morales não deverá ter um futuro muito superior às experiências dos governos militares no Peru, no início dos anos setenta. Chávez não parece querer ser um novo Fidel. As diferenças entre o castrismo dos anos sessenta e o chavismo, remetem à relação de forças no sistema internacional de Estados. Cuba não pode ocupar, face à Venezuela, o papel que a URSS ocupou em relação a Cuba. Ao contrário, é tal a fragilidade de Cuba, que os planos de restauração capitalista “a la chinesa” em Havana, fizeram Cuba depender, crescentemente, da Venezuela.

A época dos substitucionismos ficou para trás

No Programa de Transição de 1938, Leon Trotsky tinha previsto que, excepcionalmente, em condições extraordinárias de crise, aprisionados entre a pressão do imperialismo e a pressão da mobilização de massas, direções nacionalistas poderiam ir além dos limites do capitalismo. O que tinha sido previsto como improvável, acabou sendo quase um padrão entre 1945 e 1973. Uma parcela das direções nacionalistas radicalizadas, acossadas pelo imperialismo e apoiadas na mobilização das massas populares, mas ameaçadas, também, pelo perigo de um desbordamento pela sua esquerda, expropriaram o capital. O substitucionismo social do proletariado por massas camponesas e populares, e o substitucionismo político dos marxistas por direções nacionalistas traduziram a grandeza e, também, os limites das revoluções do pós-guerra.

Ao mesmo tempo, em uma parte das ex-colônias ou semicolônias que mergulharam em situações revolucionárias, mas aonde não se deu a ruptura anti-capitalista - como Argélia nos anos sessenta, ou na Nicarágua e Irã, no final dos setenta - surgiram Estados independentes. Alguns lograram manter esta independência, sobretudo, em países com recursos estratégicos como o petróleo. Entretanto, revoluções sociais anti-capitalistas não aconteceram mais desde a derrota americana no Vietnam. Portugal, Nicarágua, Irã, Haiti, Filipinas, Indonésia e África do Sul, entre outros países, conheceram revoluções políticas que derrubaram regimes ditatoriais pró-imperialistas, mas não transbordaram em revoluções sociais. Os processos revolucionários estagnaram e foram contidos nos limites dos novos regimes.

As direções nacionalistas, não só recuaram, primeiro, de qualquer veleidade anti-capitalista – vide o PC da África do Sul, o mais influente partido comunista depois da restauração do capitalismo na URSS - como recuaram depois, em sua maioria – vide a OLP de Arafat - do projeto de se afirmar até como Estados independentes.


A crise ameaça a ordem mundial construída depois da dissolução da URSS

A crise econômica aberta em meados de 2007, agravada em 2008 com sinais depressivos, e que tem nos EUA o seu epicentro mais grave, colocará à prova a dominação capitalista do mundo. A saída para a crise exigirá uma destruição nunca vista de capitais, com desvalorização de ativos, falências, fusões e concentração que já está acontecendo.

Mas, esta crise é diferente de todas as outras pós-1945. Ela não poderá ser superada sem uma ofensiva capitalista reacionária em escala mundial proporcional à gravidade do colapso econômico e financeiro. Serão necessárias cinco iniciativas, todas muito difíceis de serem implementadas, porque despertarão gigantescas resistências político-sociais: um aumento dos níveis de exploração absoluta da classe trabalhadora norte-americana e mundial com aumento das jornadas e redução salarial – e um desemprego em massa que políticas compensatórias dificilmente poderiam neutralizar - que poderá potencializar uma resistência unificada dos proletariados dos países centrais e periféricos; uma deflação dos preços das matérias-primas e, portanto, uma degradação das condições desfavoráveis de troca no comércio mundial entre os países centrais e a periferia, que poderá potencializar uma instabilidade no sistema internacional de Estados e, até favorecer que cheguem ao poder governos nacionalistas como os da Venezuela e Irã; uma redução de custos pela aceleração das inovações tecnológicas, e o desenvolvimento de novos ramos produtivos que acelerem a passagem de uma produção industrial ainda dependente dos combustíveis fósseis, processos que só poderão ser obtidos com o aumento de investimentos que a crise desestimula, e teriam que ser feitos por Estados com déficits gigantescos, apavorados com o crescimento vertiginoso das dívidas públicas; uma ainda mais intensa internacionalização até à última fronteira, tencionando com as pressões protecionistas; e, finalmente, mas não menos importante, uma maior financeirização, que exigirá reformas no sistema monetário internacional, para proteger o dólar como moeda de reserva, ameaçado por uma desvalorização que teria conseqüências imprevisíveis.

Mas, ao contrário do que alguns apressadamente concluíram, as burguesias nacionais não se transformaram em uma classe mundial. A burguesia permaneceu uma classe nacional. O imperialismo norte-americano continuou sendo o imperialismo de uma classe nacional, ainda que com responsabilidades maiores sobre a estabilidade do mercado mundial e do sistema internacional de Estados.

Foi a força dessa supremacia dos EUA de um lado, e o perigo da revolução mundial por outro, que condicionou os limites muito reduzidos para os conflitos entre as potências rivais entre 1945 e 1989/91. Foi a hegemonia reforçada dos EUA durante os anos que ficaram conhecidos como globalização, entre 1991/2008 - anos de uma intensa expansão da financeirização internacional que engrandeceram o lugar do capital yankee, em uma proporção maior do que o crescimento da economia mundial - que manteve a ordem imperialista, apesar das guerras na Yugoslávia, no Iraque e no Afeganistão ainda, relativamente, estável, se fizermos a comparação com a etapa pré-1945.

A explicação para este maior “internacionalismo do capital” é mais político-histórica do que econômica. Os “instintos” contra-revolucionários da burguesia se manifestaram em potência máxima. O capital, quando se sentiu ameaçado, no século XX, pelo perigo da revolução mundial, demonstrou capacidade de superar suas divergências nacionais. As burguesias européias e a japonesa, parceiras, porém, também, rivais imperialistas dos EUA, uniram-se a Washington na defesa do sistema que garantiu a sua sobrevivência social e política. Os investimentos norte-americanos na Alemanha e no Japão, entre outros, tinham sido decisivos para garantir a recuperação nas décadas imediatas do pós-guerra. Tornaram-se mais sócias dos EUA, economicamente - até aceitaram papéis complementares como o Japão - porque as competições políticas ficaram obsoletas, após 1945, diante da disparidade de forças que os distanciava dos EUA, e do desafio estratégico colocado pelas revoluções anticapitalistas.

A crise do campismo socialista

A pesquisa sobre o tema do internacionalismo contemporâneo tropeça em um paradoxo. As lutas do proletariado e dos seus aliados sociais em cada país nunca foram tão dependentes da solidariedade internacional como nos últimos quinze anos, mas a capacidade da classe trabalhadora constituir um campo de resistência de classe – contra o desemprego e a precarização, por exemplo - e ser um pólo de atração à escala mundial permaneceu reduzida.

Surgiram iniciativas progressivas, à escala internacional, como as mobilizações de Seattle, nos EUA e de Genova, na Itália, contra a OMC e o FMI, que lograram despertar entusiasmo em uma nova geração da juventude estudantil. Foram realizadas campanhas na América Latina contra a ALCA. Na seqüência do Fórum Social de Porto Alegre – uma frente única anti-neoliberal que se apoiava nas ilusões do que poderia vir a ser a experiência de um governo Lula no Brasil – foi possível realizar as maiores manifestações de massas contra o governo Bush. Fortaleceu-se um internacionalismo pacifista contra a ameaça de mais guerras coloniais – como no Afeganistão (2001), Iraque (2003), no Líbano (2007) e Faixa de Gaza (2008); um internacionalismo ambiental contra o perigo da devastação ecológica; um internacionalismo humanitário contra genocídios (Bósnia, Kosovo, Ruanda, Darfur); um internacionalismo feminista contra a opressão machista e pela legalização do aborto. Mas, o internacionalismo proletário, ou seja, anticapitalista, o internacionalismo do movimento social mais longevo da história contemporânea não se reconstruiu ainda.

O proletariado, em especial nos países centrais, encontrou no último pós-guerra dificuldades, até hoje intransponíveis, para reconstruir um movimento internacionalista. O internacionalismo exigiu, historicamente, uma organização de classe independente e forte o bastante para resistir às pressões sociais hostis dentro das fronteiras nacionais. A influência dos projetos de colaboração de classes, que se expressou na influência duradoura da socialdemocracia, como na Alemanha e na Inglaterra, ou dos partidos alinhados com Moscou, como na Itália e na França , teve como conseqüência, a renúncia ao internacionalismo. A aliança com frações das burguesias nacionais cobrava o preço da divisão proletária internacional.

A precarização das condições de trabalho – flexibilização das jornadas de trabalho com redução salarial para que as corporações não transferissem as fábricas - foram negociadas pelas direções sindicais com o argumento de que as novas condições impostas pela globalização financeira tornavam inevitáveis concessões para evitar um desemprego ainda maior. A ilusão de que seria possível, dentro de fronteiras nacionais, forjar um projeto político-social capaz de garantir reformas reguladoras do capitalismo, evitando a vertigem de uma ruptura revolucionária, isto é, a medição de forças frontal com suas próprias burguesias, levou os proletariados dos principais países imperialistas a regredir ao nacionalismo.

Essa involução foi potencializada pelas décadas de crescimento econômico, quando reformas foram negociadas gerando o chamado Welfare State. Quando as crises econômicas voltaram com maior intensidade, e a precarização das relações trabalhistas e a queda dos salários médios fizeram retroceder as condições de vida, em algumas camadas do proletariado mais ameaçadas pelo desemprego, e em alguns países em que a emigração de trabalhadores estrangeiros foi satanizada – Áustria e Itália, entre outros – aconteceu uma regressão ao nacionalismo mais estreito.

Os fundamentos graníticos do internacionalismo

O internacionalismo marxista tinha como premissa “granítica” a compreensão de que o capitalismo domina o mercado mundial, mas as relações sociais capitalistas se estruturam no interior de um sistema mundial de Estados que, na época imperialista, seria dilacerado pelos antagonismos entre as potências. O capitalismo seria desafiado pelo proletariado e seus aliados sociais em cada país dentro de fronteiras nacionais, mas sua permanência seria decidida na escala internacional. A perspectiva internacionalista dos socialistas estava alicerçada, portanto, na idéia de que a burguesia seria uma classe com interesses, irremediavelmente, nacionais. A forma degenerada dos nacionalismos exaltados das potências européias ao final do XIX e, sobretudo, depois da I Guerra Mundial, com o nazi-fascismo, confirmou esta análise.

O movimento socialista se constituiu, a partir da experiência da I Internacional nos anos sessenta do século XIX, com a premissa de que a burguesia era uma classe, social e politicamente, mais heterogênea que o proletariado. Os limites históricos do capital – a impossibilidade de manter a valorização ilimitada - se manifestariam na hora das crises econômicas, e nas rivalidades entre os imperialismos. A partir da vitória da revolução russa, os marxistas reagrupados na III Internacional previram que a concorrência entre os grandes monopólios e a competição entre os Estados seriam a força de impulso de guerras mundiais. Este prognóstico foi confirmado até meados do século XX, mas, depois, não.

A classe trabalhadora seria capaz de ir além dos interesses nacionais mais imediatos, e afirmar o seu movimento como internacional. O internacionalismo marxista sempre foi uma questão de método, na análise, de política, na linha de intervenção, de programa, na perspectiva histórica, e de organização no compromisso com o projeto da construção da Internacional. Os trabalhadores deveriam constituir um movimento internacionalista nas metrópoles que seria solidário com a revolução mundial, e apoiaria, portanto, os movimentos nacionalistas da periferia. Porque a hora da revolução social nas metrópoles, seria a hora da libertação nacional das nações oprimidas.

Um capital mais internacional, um movimento operário mais nacional

Quis a ironia da história que este vaticínio fosse confirmado, porém, ao contrário. Nem o governo do Labour party, mesmo depois da greve geral na Inglaterra nos anos vinte, nem a Frente Popular na França de Leon Blum, nos anos trinta, mesmo depois da greve geral que conquistou o direito de férias remuneradas, por exemplo, aceleraram a libertação das colônias dos Impérios britânico e francês. Aconteceu o inverso deste prognóstico fundador: predominou na dinâmica da revolução mundial o oposto. Sem a derrota dos planos de De Gaulle na Argélia, seria impossível compreender a crise de 1968 em Paris, sem a derrota de Salazar nas colônias africanas seria impossível compreender a revolução dos cravos em Lisboa em 1974.

Resumindo: as duas antecipações históricas que fundamentavam a perspectiva internacionalista dos marxistas confirmaram-se, porém, apenas parcialmente. Foram, portanto, subvertidas pela história. O projeto socialista revelou-se muito mais difícil que o previsto pelos fundadores. A capacidade dos imperialismos se articularem diante do perigo da revolução mundial, consolidando uma frente contra-revolucionária que os levou até a aceitar, em circunstâncias excepcionais, a coexistência pacífica com Moscou, surpreendeu. Por outro lado, as dificuldades do proletariado de oferecer, à escala internacional, uma resistência às reestruturações produtivas e ataques aos direitos sociais a partir dos anos 80 do século passado, por exemplo, decepcionou.

Os imperialismos europeus, norte-americano e japonês desenvolveram relações, fundamentalmente, complementares, nos últimos sessenta anos, e não parece razoável prever que a liderança norte-americana no Sistema Mundial de Estados venha a ser desafiada na crise econômica aberta em meados de 2007, e que deu um salto de qualidade no segundo semestre de 2008. Londres manteve uma aliança, para o essencial, quase sem fricções com Washington, e essa perspectiva deverá se manter. Paris e Berlim à frente da União Européia têm as suas diferenciações, como na decisão da invasão do Iraque em 2003, todavia, negociam aceitando o lugar da supremacia norte-americana.

A desestabilização da dominação capitalista mundial, desde o final da II Guerra Mundial, dependeu mais da luta nacionalista revolucionária de massas populares e camponesas não proletárias dos países periféricos, do que da ação internacionalista dos proletariados dos países centrais. É verdade que a onda revolucionária aberta em 1968 começou em Paris, alastrou para a Itália, passou pela queda da ditadura dos coronéis na Grécia, e depois ameaçou a dominação burguesa na área do Mediterrâneo, com a revolução portuguesa de 1974/75, e o ascenso espanhol entre 1976/78. Mas, foi contida. A liderança da socialdemocracia e do estalinismo sobre os batalhões pesados da classe operária – França, Itália, Alemanha, Inglaterra - explica, em grande medida, as derrotas políticas e sociais, um país atrás do outro, ao longo dos anos oitenta e noventa do século XX. O processo de superação da hegemonia dos partidos eleitorais-reformistas sobre os trabalhadores, iniciado em 1968, foi interrompido e retrocedeu.

A revolução mundial deslocou-se outra vez nas décadas seguintes, como entre 1945-1968, para os países periféricos, onde, à exceção do Brasil (1978/1989), Argentina (1982/1989, menos em 2001) e Bolívia (1985 e, mais recentemente, 2003/2005), o proletariado cumpriu um papel auxiliar nas lutas revolucionárias mais significativas: Nicarágua e Irã (1979) ou Venezuela (1989 e, muitos anos depois, 2002).

A explicação do paradoxo não é simples. Toda situação internacional foi sempre o resultado de um processo de lutas entre as classes, mas também, de luta entre Estados. E a competição entre Estados assumiu formas diferentes nos últimos cento e cinqüenta anos. Esgotada a época de expansão e apogeu do capitalismo, sob liderança inglesa, abriu-se uma época histórica de longa decadência do capitalismo e, ao mesmo tempo, uma etapa política, na primeira metade do século XX, de lutas furiosas entre os impérios pela disputa da liderança no sistema internacional, que culminou em duas guerras mundiais que quase liquidaram a civilização, encerrando-se com a consolidação da supremacia econômica e política norte-americana em 1945.

Três ondas da revolução mundial ameaçaram a dominação capitalista na primeira metade do século XX - ao final das duas guerras mundiais, e como conseqüência da crise de 29 - mas, apesar da vitória da revolução russa, foram derrotadas. Os bolcheviques tinham previsto que ou a revolução russa seria a ante-sala da revolução européia, ou a restauração capitalista seria uma questão de tempo. Confirmou-se o vaticínio de Lênin, esquecida pela esquerda mundial: depois Agosto de 1914, na Conferência de Zimmervald, na Suíça, o líder de Outubro de 1917 tinha defendido a imediata fundação da III Internacional, polemizando com a esquerda alemã dirigida por Rosa Luxemburgo e com o próprio Trotsky. Argumentou que o desafio da Internacional concentrava todo o dilema estratégico.

Bibliografia:

ANDERSON, Perry. Considerações sobre o marxismo occidental. Lisboa, Afrontamento, 1976.

ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX. São Paulo, UNESP, e Rio de Janeiro, Contraponto. (s/d).

BENJAMIM, Cesar, Tendências da nova ordem mundial e o lugar do Brasil. www.contrapontoeditora.com.br/docs/00.julho_2003_Nova_ordem_mundial.pdf,
Acessado em 15/05 2007.

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos, o breve século XX – 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.

LENIN, Vladimir Ilitch Ulianov, El imperialismo, fase superior del capitalismo, in Obras Escogidas, volume 1. Moscou, Editorial Progresso, 1966.

MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. Estatutos provisórios da Associação Internacional de Trabalhadores, in La Internacional. Mexico, Fondo de Cultura Económica, 1988.

NEGRI, Toni, e HARDT, Michael. Imperio. Buenos Aires: Paidós, 2002.

WALLERSTEIN, Immanuel. Os Estados Unidos e o mundo: hoje, ontem e amanhã, in Após o liberalismo. Petrópolis, Editora Vozes, 2002.



[1] LENIN, Vladimir Ilitch, A Guerra e a Social-Democracia da Rússia, in http://www.marxists.org/portugues/lenin/1914/09/28.htm, acesso em 10-05-2007

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Crise dos EUA e teoria do sistema-mundo

por Almir Cezar

Posto aqui um artigo escrito por Theotonio dos Santos para a revista Teoria&Debate (da Fundação Perseu Abramo). É uma resenha do livro O Longo Século XX do Giovanni Arrighi. Theotonio e Arrighi são dois expoentes na chamada "teoria do sistema-mundo". Em O Longo Século XX Arrighi tenta construir a idéia que o século XX representa maior do que seria cronologicamente é, e sim, o período histórico do capitalismo de configuração enquanto sistema mundial.

Arrighi e Theotonio já anteviam a vários anos a crise na economia dos EUA e perde seu papel no sistema mundial - contrapondo um pouco ao que José Luís Fiori escreve (como está no artigo que postei ontem). Theotonio contudo, afirma que o enfraquecimento dos EUA não implica sua sucessão por algum país da Ásia, como concluirá Arrighi, mas como ele afirma que o processo de fragilização dos EUA vem de um processo a mais tempo do que apenas resultado da presente crise de 2008. Na verdade a crise é a manifestação mais radical desse processo de mais de uma década.

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Resenhas: A teoria do sistema-mundo
em 31/01/1997 2845 leituras)

O Longo Século XX, de Giovanni Arrighi. Contraponto, Rio de Janeiro, 394 páginas 1996.por Theotônio dos Santos

A tradução para o português de premiado livro de Giovanni Arrighi sobre o longo século XX e a ampla repercussão que alcançou na imprensa brasileira sua presença no país representam o início da atualização do Brasil com uma corrente de pensamento que ocupa um lugar proeminente nas Ciências Sociais contemporâneas. Arrighi faz parte do grupo de cientistas sociais que, desde os anos 70, vem trabalhando sistematicamente numa reinterpretação da história da economia, da sociologia e da antropologia a partir da noção de sistema mundial. Esta categoria de análise arranca de Braudel - na sua recém-traduzida História da Civilização Material - e é trabalhada sistematicamente por lmmanuel Wallerstein no conjunto de livros que vem escrevendo sobre O Moderno Sistema Mundial. Gunder Frank, Samir Amin e outros autores, entre os quais me inscrevo, deram um grande desenvolvimento a este enfoque teórico quase desconhecido no Brasil.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Depressão, uma visão de longa duração - artigo de Immanuel Walerstein

Um breve artigo do pensador IMMANUEL WALERSTEIN, um dos maiores expoentes da teoria do sistema mundo, aporte desenvolvida também por André Gunder Frank, Giovanni Arrighi, Theotonio dos Santos e Samir Amim.

(http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15320)

Estamos nos movendo em direção a um mundo protecionista. Estamos nos movendo para um papel muito maior do governo na produção. Mesmo os EUA e a Grã Bretanha estão nacionalizando parcialmente os bancos e as grandes empresas moribundas. Nos dirigimos a uma distribuição conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à centro-esquerda ou formas autoritárias de extrema direita.

Immanuel Wallerstein - La Jornada

Immanuel Wallerstein, sociólogo norte-americano, um dos teóricos da Teoria do Sistema Mundial (de onde vem a expressão Sistema-Mundo) e pesquisador sênior da Universidade Yale. É autor de Sistema Mundial Moderno, de 1974.


Tradução: Katarina Peixoto


A depressão já começou. Alguns jornalistas, um tanto constrangidos, seguem perguntando aos economistas se talvez não estejamos só entrando numa mera recessão. Não creia neles nem por um minuto. Já estamos no começo de uma depressão mundial de grande envergadura com desemprego maciço em quase todas as partes. Pode assumir a forma de uma deflação nominal clássica, com todas as suas conseqüências para as pessoas comuns. É um pouco menos provável que assuma a forma de uma inflação galopante, que é somente uma outra forma de deflacionar valores, inclusive pior para as pessoas comuns. É claro que todo mundo se pergunta o que disparou essa depressão. Serão os derivativos, que Warren Buffett chama de "armas financeiras de destruição em massa"? Ou são, por acaso, as hipotecas subprime? Ou os especuladores do petróleo? Julgar culpas não tem importância real. Isso é concentrar-se na poeira, como dizia Fernand Braudel, dos eventos de curta duração. Se quisermos entender o que está ocorrendo necessitamos lançar um olhar amplo para outras temporalidades, que são muito mais reveladoras. Um é o dos vai-e-vens cíclicos de média duração. O outro é aquele das tendências estruturais de longa duração. A economia-mundo capitalista teve, durante vários séculos, pelo menos duas formas de vai-e-vens cíclicos. Uns são os chamados ciclos de Kondratieff, que historicamente teriam uma duração de 50-60 anos. E outros são os ciclos hegemônicos, que são muito mais longos.Em termos de ciclos hegemônicos, os EUA foram um adversário dessa hegemonia nos idos de 1873; conseguiu sua hegemonia depois de 1945 e vem declinando desde os anos 70. As loucuras de George W. Bush transformaram esse declínio lento em precipitado. E agora já estamos longe de qualquer retomada da hegemonia estadunidense. Entramos, como acontece normalmente, num mundo multipolar. Os EUA permanecem como potência forte, talvez a mais forte, mas continuará declinando em relação a outras potências, nas próximas décadas. Não há muito o que alguém possa fazer para mudar isso. Os ciclos de Kondratieff têm uma temporalidade diferente. O mundo saiu da última fase B do ciclo Kondratieff em 1945, e então o retorno mais forte à fase A vem ocorrendo, na história do sistema-mundo moderno. Chegou ao seu clímax por volta de 1967-1973, e começou o seu descenso. Esta fase B foi muito mais longa que as fases B anteriores e seguimos nela. As características de uma fase B de Kondratieff são bem conhecidas e coincidem com o que a economia-mundo vem experimentado desde os anos 70. As taxas de lucro nas atividades produtivas baixam, especialmente naqueles tipos de produção que tenham sido mais rentáveis. Em conseqüência, os capitalistas que desejem níveis de lucro realmente altos se inclinam para o setor financeiro, e se envolvem no que basicamente é especulação. Para que as atividades produtivas não se tornem tão pouco rentáveis, têm de mudar-se das zonas centrais para outras partes do sistema-mundo, negociando custos menores de transação com mão-de-obra mais barata. É por isso que começam a desaparecer os empregos em Detroit, Essen e Nagoya, e a se expandirem nas fábricas da China, da Índia e do Brasil.Quanto às bolhas especulativas, algumas pessoas sempre fazem muito dinheiro com elas. Só que cedo ou tarde as bolhas especulativas sempre arrebentam. Se se pergunta por que essa fase B do ciclo Kondratieff durou tanto, é porque os poderes existentes - o Departamento do Tesouro e o Federal Reserve (Banco Central) norte-americanos, o FMI e seus colaboradores na Europa ocidental e Japão - intervieram regularmente no mercado e de maneira importante para ajudar a economia-mundo - em 1987, quando a bolsa despencou; em 1989, no colapso do crédito e das poupanças nos EUA; em 1997, com a queda das bolsas na Ásia oriental; em 1998, pelas mãos dos chamados Long Term Capital Management, um fundo Hedge de capitais de longo prazo; em 2001-2002, com Enron. Com base no que aprenderam com as lições das fases B anteriores de Kondratieff, os poderes existentes pensaram que podiam vencer o sistema. Mas há limites intrínsecos para fazer isto. E agora chegamos neles, como Henry Paulson e Ben Bernanke o estão aprendendo para sua vergonha e talvez assombro. Desta vez não será tão fácil, provavelmente será impossível, evitar o pior. No passado, uma vez que a depressão dava rédea solta a seus estragos, a economia-mundo se levantava com base nas inovações que podiam ser quase monopolizadas por um tempo. Assim, quando se diz que o mercado financeiro voltará a levantar-se, é isso o que se pensa que ocorrerá, agora como no passado, depois de as populações do mundo sentirem todo o estrago causado. E talvez em alguns poucos anos assim seja. Há, contudo, algo novo que pode interferir nesse belo padrão cíclico que tem sustentado o sistema capitalista por uns 500 anos. As tendências estruturais podem interferir nas tendências cíclicas. Os traços estruturais básicos do capitalismo como sistema-mundo operam mediante certas regras que podem ser traçadas num gráfico como um equilíbrio em movimento ascendente. O problema, como acontece com todos os equilíbrios estruturais de todos os sistemas, é que com o tempo as curvas se movem para muito além do equilíbrio e se torna impossível regressar ao ponto anterior. O que se fez para que o sistema tenha se tornado tão distante do equilíbrio? Grosso modo, o que ocorre é que, ao longo de 500 anos, os três custos básicos da produção capitalista - pessoal, insumos e impostos - têm subido constantemente no percentual dos preços possíveis de venda, de tal modo que hoje se tornou impossível obter grandes lucros da produção quase monopolizada que sempre foi a base da acumulação capitalista significativa. Não é porque o capitalismo esteja falhando no que faz melhor. É precisamente porque o está fazendo tão bem que finalmente minou a base para acumulações futuras. Quando chegamos a esse ponto o sistema se bifurca (na linguagem dos estudos de alta complexidade). As conseqüências imediatas são uma turbulência altamente caótica, que nosso sistema-mundo está experimentando neste momento e que seguirá experimentando por uns 20-50 anos. Como todos apostam na direção que pensam ser a mais imediatamente adequada para sua perspectiva, emergirá uma ordem de caos numa das veredas dos muitos caminhos alternativos diferentes. Podemos assegurar com confiança que o presente sistema não sobreviverá. O que não podemos predizer é qual nova ordem será escolhida para substituí-lo, porque esta será o resultado de uma infinidade de pressões individuais. Mas cedo ou tarde um novo sistema se instalará. Não será um sistema capitalista, mas pode ser algo muito pior (ainda mais polarizado e hierárquico) ou algo muito melhor (relativamente democrático e relativamente igualitário) que o atual sistema. Decidir um novo sistema é a luta política mundial mais importante de nossos tempos. E, quanto às perspectivas imediatas de curta duração, ad interim, é claro o que ocorre em todas as partes. Estamos nos movendo em direção a um mundo protecionista (esqueça-se da chamada globalização). Estamos nos movendo para um papel muito maior do governo na produção. Mesmo os EUA e a Grã Bretanha estão nacionalizando parcialmente os bancos e as grandes empresas moribundas. Nos dirigimos a uma distribuição populista conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à centro-esquerda ou formas autoritárias de extrema direita. E nos movemos em direção a conflitos sociais agudos no interior de alguns estados, à medida que todo o mundo passa a competir por uma fatia menor do bolo. No curto prazo, não é, de modo algum, um panorama agradável.