Como a transferência espacial de valor e a lógica combinada do território moldam o subdesenvolvimento regional e os limites da agricultura no Rio de Janeiro
Resumo
O artigo propõe uma leitura marxista do desenvolvimento territorial a partir da teoria do valor e da dependência. Defende que as desigualdades regionais no Brasil — e particularmente no estado do Rio de Janeiro — são expressões espaciais da acumulação capitalista desigual, na qual o excedente flui das regiões produtivas para os centros de comando financeiro e político. A análise combina os aportes de Marx, Preobrazhensky, Kalecki e Celso Furtado, articulando-os em torno da noção de acumulação coerente territorial, segundo a qual o desenvolvimento exige compatibilidade entre ritmos setoriais, escalas espaciais e estruturas sociais. Com base em dados recentes sobre desindustrialização e desagriculturalização fluminense, o texto demonstra como o território foi esvaziado de valor, ao mesmo tempo em que manteve nichos extrativos e uma agricultura familiar fragmentada. Defende-se que a reindustrialização verde e cooperativa, ancorada na agricultura familiar, no cooperativismo e na agroecologia, constitui caminho possível e necessário para reconstruir a base produtiva e a soberania regional. Propõe-se, por fim, um modelo preobrazhenskiano de planejamento territorial, em que o excedente do petróleo e das rendas urbanas financia a industrialização difusa, a agroindustrialização artesanal e o turismo de base comunitária — formando uma nova geografia da acumulação social.
Palavras-chave: Desenvolvimento territorial; desigualdade regional; lei do valor; acumulação coerente; reindustrialização; agricultura familiar; cooperativismo; agroecologia; Preobrazhensky; Kalecki; Celso Furtado; Rio de Janeiro; soberania produtiva.
I. Introdução – O espaço como forma e contradição do desenvolvimento
O desenvolvimento territorial é, antes de tudo, uma questão de valor e poder. Não se trata apenas de distribuir investimentos ou equilibrar indicadores regionais, mas de compreender como o capitalismo produz, concentra e desloca valor no espaço. O território, longe de ser cenário neutro, é parte ativa da acumulação: ele organiza os fluxos de capital, define as hierarquias produtivas e expressa, em sua geografia, a estrutura de classes e de dependência. Assim como o tempo estrutura o ciclo econômico, o espaço estrutura a desigualdade — é o seu corpo visível, o mapa das contradições da acumulação.
A economia regional brasileira é marcada por uma geografia de desigualdades historicamente produzidas. A centralização industrial e financeira no Sudeste, o esvaziamento das periferias e a primarização das economias interioranas não são efeitos naturais, mas resultado de políticas e estruturas de valorização seletiva do capital.
O território é, portanto, o palco onde a lei do valor se espacializa, redistribuindo o excedente de modo desigual: o que é produzido em um ponto é apropriado em outro. Como observou Preobrazhensky, a acumulação não é apenas setorial, mas também espacial — uma transferência territorial de excedente, que enriquece alguns espaços enquanto empobrece outros.
Na formação econômica do Brasil, essa lógica assumiu a forma de um centro dinâmico e periferias dependentes, estruturadas pela extração de matérias-primas e pela subordinação tecnológica.
A industrialização, em vez de romper essa hierarquia, a reconfigurou internamente: o Sudeste tornou-se o centro industrial e financeiro, e o restante do território, sua zona de abastecimento. Mesmo dentro dos estados, como no caso fluminense, essa divisão interna do trabalho reproduz a assimetria nacional — metrópoles concentradoras de serviços e capital convivendo com interiores agrários fragilizados, dependentes e desarticulados.
As tentativas de políticas regionais e de desconcentração produtiva, embora bem-intencionadas, não alteraram as relações de valor entre os territórios. Investimentos públicos e incentivos fiscais dispersaram a renda, mas não construíram capacidade produtiva endógena. Em muitos casos, os programas de desenvolvimento regional criaram enclaves industriais e corredores logísticos voltados à exportação, sem internalizar as cadeias de valor.
Assim, o território se tornou apenas o canal de passagem do excedente, e não seu locus de acumulação. O resultado é uma economia espacialmente desequilibrada: ilhas de modernização cercadas por mares de estagnação.
O caso do estado do Rio de Janeiro ilustra esse paradoxo com nitidez. Antigo polo industrial e energético, o estado viu sua base produtiva se esvaziar ao longo das últimas décadas, convertendo-se em economia de serviços e royalties. O interior, especialmente as regiões Norte e Noroeste fluminense, vive a contradição de possuir riqueza agrícola e energética sem reter valor — exporta produção e importa desenvolvimento. Nessa perspectiva, o problema territorial não é apenas distributivo, mas estrutural: o Rio de Janeiro tornou-se um território de passagem do valor, não de sua reprodução.
Partindo dessa leitura marxista do espaço, este artigo busca repensar o desenvolvimento territorial como processo de acumulação coerente em escala regional, no qual a produção, o investimento e a reprodução social se enraízam no território e se retroalimentam.
Defende-se que o combate às desigualdades regionais não pode se limitar a políticas compensatórias, mas deve se orientar por um planejamento territorial integrado, baseado na valorização produtiva local, na agroecologia e na rearticulação entre campo e cidade. Trata-se, em última instância, de repor a categoria de valor territorial no centro da análise econômica — compreender o território como forma da luta de classes e da redistribuição do excedente, e o desenvolvimento como construção coletiva de autonomia espacial e social.