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sábado, 24 de janeiro de 2026

Desenvolvimento Territorial e Valor: uma leitura marxista das desigualdades regionais e do caso fluminense

Como a transferência espacial de valor e a lógica combinada do território moldam o subdesenvolvimento regional e os limites da agricultura no Rio de Janeiro

por Almir Cezar Filho

Resumo

O artigo propõe uma leitura marxista do desenvolvimento territorial a partir da teoria do valor e da dependência.  Defende que as desigualdades regionais no Brasil — e particularmente no estado do Rio de Janeiro — são expressões espaciais da acumulação capitalista desigual, na qual o excedente flui das regiões produtivas para os centros de comando financeiro e político.  A análise combina os aportes de Marx, Preobrazhensky, Kalecki e Celso Furtado, articulando-os em torno da noção de acumulação coerente territorial, segundo a qual o desenvolvimento exige compatibilidade entre ritmos setoriais, escalas espaciais e estruturas sociais. Com base em dados recentes sobre desindustrialização e desagriculturalização fluminense, o texto demonstra como o território foi esvaziado de valor, ao mesmo tempo em que manteve nichos extrativos e uma agricultura familiar fragmentada.  Defende-se que a reindustrialização verde e cooperativa, ancorada na agricultura familiar, no cooperativismo e na agroecologia, constitui caminho possível e necessário para reconstruir a base produtiva e a soberania regional.  Propõe-se, por fim, um modelo preobrazhenskiano de planejamento territorial, em que o excedente do petróleo e das rendas urbanas financia a industrialização difusa, a agroindustrialização artesanal e o turismo de base comunitária — formando uma nova geografia da acumulação social.


Palavras-chave: Desenvolvimento territorial; desigualdade regional; lei do valor; acumulação coerente; reindustrialização; agricultura familiar; cooperativismo; agroecologia; Preobrazhensky; Kalecki; Celso Furtado; Rio de Janeiro; soberania produtiva.

I. Introdução – O espaço como forma e contradição do desenvolvimento

O desenvolvimento territorial é, antes de tudo, uma questão de valor e poder.  Não se trata apenas de distribuir investimentos ou equilibrar indicadores regionais, mas de compreender como o capitalismo produz, concentra e desloca valor no espaço.  O território, longe de ser cenário neutro, é parte ativa da acumulação: ele organiza os fluxos de capital, define as hierarquias produtivas e expressa, em sua geografia, a estrutura de classes e de dependência.  Assim como o tempo estrutura o ciclo econômico, o espaço estrutura a desigualdade — é o seu corpo visível, o mapa das contradições da acumulação.

A economia regional brasileira é marcada por uma geografia de desigualdades historicamente produzidas.  A centralização industrial e financeira no Sudeste, o esvaziamento das periferias e a primarização das economias interioranas não são efeitos naturais, mas resultado de políticas e estruturas de valorização seletiva do capital.

O território é, portanto, o palco onde a lei do valor se espacializa, redistribuindo o excedente de modo desigual: o que é produzido em um ponto é apropriado em outro.  Como observou Preobrazhensky, a acumulação não é apenas setorial, mas também espacial — uma transferência territorial de excedente, que enriquece alguns espaços enquanto empobrece outros.

Na formação econômica do Brasil, essa lógica assumiu a forma de um centro dinâmico e periferias dependentes, estruturadas pela extração de matérias-primas e pela subordinação tecnológica.
A industrialização, em vez de romper essa hierarquia, a reconfigurou internamente: o Sudeste tornou-se o centro industrial e financeiro, e o restante do território, sua zona de abastecimento. Mesmo dentro dos estados, como no caso fluminense, essa divisão interna do trabalho reproduz a assimetria nacional — metrópoles concentradoras de serviços e capital convivendo com interiores agrários fragilizados, dependentes e desarticulados.

As tentativas de políticas regionais e de desconcentração produtiva, embora bem-intencionadas, não alteraram as relações de valor entre os territórios. Investimentos públicos e incentivos fiscais dispersaram a renda, mas não construíram capacidade produtiva endógena.  Em muitos casos, os programas de desenvolvimento regional criaram enclaves industriais e corredores logísticos voltados à exportação, sem internalizar as cadeias de valor.

Assim, o território se tornou apenas o canal de passagem do excedente, e não seu locus de acumulação.  O resultado é uma economia espacialmente desequilibrada: ilhas de modernização cercadas por mares de estagnação.

O caso do estado do Rio de Janeiro ilustra esse paradoxo com nitidez.  Antigo polo industrial e energético, o estado viu sua base produtiva se esvaziar ao longo das últimas décadas, convertendo-se em economia de serviços e royalties. O interior, especialmente as regiões Norte e Noroeste fluminense, vive a contradição de possuir riqueza agrícola e energética sem reter valor — exporta produção e importa desenvolvimento.  Nessa perspectiva, o problema territorial não é apenas distributivo, mas estrutural: o Rio de Janeiro tornou-se um território de passagem do valor, não de sua reprodução.

Partindo dessa leitura marxista do espaço, este artigo busca repensar o desenvolvimento territorial como processo de acumulação coerente em escala regional, no qual a produção, o investimento e a reprodução social se enraízam no território e se retroalimentam.

Defende-se que o combate às desigualdades regionais não pode se limitar a políticas compensatórias, mas deve se orientar por um planejamento territorial integrado, baseado na valorização produtiva local, na agroecologia e na rearticulação entre campo e cidade.  Trata-se, em última instância, de repor a categoria de valor territorial no centro da análise econômica — compreender o território como forma da luta de classes e da redistribuição do excedente, e o desenvolvimento como construção coletiva de autonomia espacial e social.

domingo, 4 de junho de 2023

#podcast ECONOMIA É FÁCIL | INDÚSTRIA EM CRISE: Lula corta imposto do carro. Subsidiar multinacionais ajuda?

Este episódio foi publicado nos principais agregadores de podcast Spotify, Deezer, Google Podcast, Anchor FM, etc.

Nesta segunda-feira 15/05, 18h, o programa Economia É Fácil com mais uma edição ao vivo - o seu espaço de economia, na sua linguagem e o que realmente importa na vida dos trabalhadores. 📻 Produção da Web Rádio Censura Livre. 🎙️ Apresentação do economista Almir Cezar Filho.

🎤 Convidado: WELLER GONÇALVES, do Sindicato dos Metalúrgicos de S. José dos Campos/SP.

Ouça em: https://spotifyanchor-web.app.link/e/yOZlDjdzmAb

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Brasil de 2021 com Bolsonaro e pandemia é de inflação e desemprego? Estagflação dos anos 80 voltou?

O economista Almir Cezar Filho, titular do programa "Economia é Fácil", responde a um ouvinte da Web Rádio Censura Livre, se o Brasil de 2021 de pandemia será marcado porte forte inflação e desemprego, o que o ouvinte chamou de volta da estagflação dos anos 80.


quarta-feira, 15 de julho de 2020

Queda generalizada na indústria, no comércio e nos serviços

NESTA terça-feira (14/07), o economista Almir Cezar Filho comenta ao vivo o destaque do noticiário econômico com o quadro ECONOMIA É FÁCIL, durante o programa Boletim Censura Livre, com transmissão pela Web Rádio Censura Livre. Os cálculos feitos pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), apontaram que relação a um ano atrás, os três grandes setores da economia – indústria, comércio e serviços – permanecem no vermelho. Crise só poupa agropecuária, com projeção de alta recorde no ano.


📲 Envie já uma pergunta ou um comentário:
* WhatsApp: (21) 9.9833-6490

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Venezuela e o teorema de Preobrazhenski

Comparando Venezuela atual ao Brasil: inflação e crise econômica. Aplicando a teoria econômica de Preobrazhenski e a Teoria Marxista da Dependência para análise da situação econômica nos dois países

por Almir Cezar Filho

O Teorema de Preobrazhenski é o conceito elaborado por economistas e historiadores econômicos a partir das teorias e obras do economista soviético Evgeni Preobrazhenski.

A Venezuela

A Venezuela, país latino-americano localizada no norte da América do Sul, é conhecida por sua indústria de petróleo, além da biodiversidade e recursos naturais abundantes. Antiga colônia espanhola, o país tornou-se independente em 1813. Atualmente, está entre as nações mais urbanizadas da América Latina. A população é de cerca de 30 milhões de pessoas e o PIB (produto interno bruto) em 2013 chegou a US$ 408,8 bilhões. A maioria dos cidadãos vive nas cidades do norte, especialmente na capital Caracas, maior município venezuelano.

Há mais de uma década, a economia venezuelana sofre com a inflação mais alta da região (chegou a 56,2% em 2013). Ainda em 2003, o governo de Hugo Chávez (presidente de 1998 a 2013) adotou medidas como congelamento de preços da cesta básica e controle cambial, a fim de frear a saída de recursos do país e aumentar os preços. No entanto, tais medidas tiveram alguns efeitos colaterais como o desabastecimento - em supermercados e no comércio -, além do surgimento do mercado negro (tanto de mercadorias, como de câmbio), o que agravou a situação.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A Agricultura do Rio de Janeiro é muito maior e importante do que se imagina

A fraqueza da agroindústria familiar e de políticas públicas que a apoiem levam ao seu esvaziamento.

por Almir Cezar Filho

Se é verdade que o RJ passa pela sua maior crise econômica em sua história, a Agricultura pode ser uma boa tábua de salvação. A Agricultura do Rio de Janeiro, ao contrário que induz o senso comum, é muito maior e importante do que se imagina; a fraqueza da agroindústria familiar e das políticas públicas que a apoiam é que levam ao seu esvaziamento.

A crise atual da economia fluminense é em parte pela dependência regional à indústria e especial a indústria de extração mineral e a indústria de construção pesada que a apoia. Quando o ciclo de preços dessas commodities entrou em crise em 2015, levou junto toda a economia e ao colapso dos cofres públicos. Por outro lado, enquanto em 2017 a Agricultura puxou a retomada da economia brasileira, o RJ ficou para trás.

A fragilidade da indústria fluminense é a fragilidade da indústria de transformação, em especial de produtos alimentícios e/ou ligado a agricultura. Ao contrário que diz o senso comum, enquanto os números da Agricultura são proporcionalmente pouco significativos, os do Agronegócio são muito maiores e importantes. Porém mesmo assim são relativamente atrofiados ao tamanho de próprio público consumidor regional. Portanto, apoiar os empreendimentos familiares rurais pode ser uma tática eficiente, efetiva e eficaz para esse processo. Mas, para tal é preciso uma série de ajustes nas políticas públicas agrárias, que em geral não estão formatadas ao atendimento desse segmento do público da agricultura familiar.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Reforma Agrária e estagflação: 'Teorema de Preobrazhenski' no Brasil hoje

ATUALIZADO
por Almir Cezar*

Presidenta do Brasil Dilma Roussef dirigindo uma moderna
colheitadeira. Inflação dos alimentos no "celeiro do mundo"
Um dos problemas brasileiros atuais que vem dando "dor de cabeça" é A recorrência da inflação alta, e a pressão desta nos ciclos de crescimento econômico.  O Brasil estaria na endêmica situação de recorrentes problemas no câmbio e no balanço de pagamentos e/ou inflação alta, que se intensificam quando mais cresce a economia, gerando um fortíssimo dilema. Porém, nesse momento, o país se depara com os dois atuando simultaneamente.

Esse fenômeno de estagflação (inflação e estagnação) não é tipicamente exclusivo do Brasil. É muito curioso que no momento que a economia mundial passa por deflação, o inverso ocorra não apenas no Brasil, mas nos demais BRICSs e nos países emergentes em geral, em um maior ou menor, apesar dos mesmos estarem com forte pressão de desemprego e desaceleração econômica. Por sua vez, ainda mais curioso que o Brasil, seja um celeiro do mundo e passe por um forte inflação dos alimentos.

Ao longo da História econômica são inúmeros casos registrados, particularmente sobre países considerados subdesenvolvidos, especialmente em momentos de surto de desenvolvimento. Vários estudiosos do ramo da Economia que analisa o fenômeno do desenvolvimento econômico chamam essa situação de "Teorema de Preobrazhenski". Uma homenagem ao economista marxista russo Eugene Preobrazhenski,(1886-1937), autor que primeiro descreveu esse dilema. A solução é a esse mal endêmico seria três: reforma agrária, industrialização acelerada e planejamento econômico.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Remessa de lucros chega a US$ 171 bilhões

Em 8 anos, multis aceleram envio de dólares para matrizes aproveitando real forte

A remessa de lucros e dividendos das empresas estrangeiras instaladas no país nos últimos oito anos chegou a US$ 171,3 bilhões. A informação é do estudo Remessas de lucros e dividendos: setores e a dinâmica econômica brasileira, do Dieese.

“Essa quantia representa expressivo peso nas contas externas do país, na medida em que, ao elevar o déficit da balança de transações correntes, faz aumentar a dependência do país de capitais estrangeiros, produtivos ou especulativos, necessários para fechar as contas externas”, destaca o Dieese..

O estudo observa que, depois de registrar superávit entre 2003-2007, nas transações correntes (comércio de serviços), com o estouro da crise global, o país voltou a amargar déficits. Uma das principais pressões sobre as contas externas, destaca o Dieese, veio das remessas de lucros das multinacionais para as matrizes.

Apenas em 2008, as remessas de lucros e dividendos responderam por 95% do déficit nas transações correntes do Brasil com o exterior.

A partir daí, houve desaceleração em relação à fatia das remessas no déficit das transações correntes, mas ela permanece em níveis consideráveis: 77%, em 2009; 51%; em 2010; 55%, em 2011; 40%, em 2012; e 30% em 2013.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Indústria encolhe 40% no PIB com real forte

Indústria encolhe 40% no PIB com real forte
Monitor Mercantil | 14/02/2014

CÂMBIO VALORIZADO DESESTRUTUROU PRODUÇÃO NACIONAL

O regime de câmbio apreciado mudou, para pior, o perfil da estrutura produtiva brasileira. A afirmação é da economista Eliane Araujo, professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), em entrevista exclusiva ao MM.

“No Brasil a apreciação cambial esteve associada a uma perda de 40% de participação da indústria na economia, entre 1980 e 2012. A apreciação do câmbio implica também o aumento do componente importado da produção industrial, tornando mais vantajoso para o país importar insumos em vez de produzi-los domesticamente.”

Defendendo mudanças estruturais para reindustrializar o país, a economista destaca que qualquer projeto tem de passar pela política cambial, “variável-chave”, segundo ela. Mas a fragilidade externa da economia brasileira enfraquece o Estado como planejador e indutor do desenvolvimento industrial, que pressupõe tecnologia e inovação.

“Para se ter noção da fragilidade financeira e vulnerabilidade externa do país, basta observar a evolução do passivo externo bruto, que saltou de US$ 371 bilhões, em 2001, para US$ 1,604 trilhão, no fim de 2013. No encerramento de 2012 esse débito estava em US$ 1,556 trilhão”, contabiliza a economista, acrescentando que o câmbio valorizado foi prejudicial aos setores e ramos tecnologicamente mais sofisticados, favorecendo os ramos mais tradicionais e os ligados às atividades primárias.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

EUA exportam crise à periferia. Desindustrialização deixou emergentes mais vulneráveis à retirada da ajuda do Fed

 31/01/2014 | Monitor Mercantil

Desindustrialização deixou emergentes mais vulneráveis à retirada da ajuda do Fed

Para o economista Carlos Lessa, ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-presidente do BNDES, a depreciação cambial em países emergentes provocada pela fuga de capitais não deve surpreender aos que acompanham a história. “No sentido mais amplo, é um comportamento imperialista, pois a potência dominante sempre tenta jogar a conta de suas crises para a periferia. Mas a questão é saber se a periferia vai suportar e o que poderá fazer para se defender”, analisa.

Lessa ressalva que aumentou o grau de vulnerabilidade nos países que abriram mão de suas indústrias, sobretudo no período em que os produtos primários viveram um período de valorização, no início do século. E ressalva que a China hoje não é mais um país periférico e que, em determinadas situações, forma com os Estados Unidos uma espécie de G2.

O economista lembra que, durante a II Guerra, a Inglaterra acumulou dívidas, que, posteriormente, exportou para a periferia, usando a desvalorização de sua moeda, a libra.

“Sempre achei que, em algum momento, os Estados Unidos iriam transferir sua dívida da crise para a periferia. Impressionante como alguns países emergentes aceitaram desmantelar suas indústrias apostando no curto período de valorização dos produtos básicos, no início deste século. E o Brasil foi um dos que mais se incorporaram a esse processo”, criticou.

Quanto à Argentina, Lessa lembra que, desde a década de 30 do século passado, o país passou a ter renda per capita inferior à do Brasil devido ao acelerado processo de industrialização iniciado no governo de Getúlio Vargas:

“Quem depende de produtos primários fica à mercê dos preços formados fora do país”, adverte o economista, indicando como marco dessa nova fase do capitalismo hegemônico a queda do padrão ouro, que desvinculou, em 1971, o dólar das reservas daquele metal dos EUA.

sábado, 20 de outubro de 2012

Niterói, da "requalificação" aos dilemas da re-industrialização

por Almir Cezar*

A literatura econômica contemporânea muito se fala em desindustrializações locais e regionais, citando vários casos, em sua maioria na Europa Ocidental e América do Norte. Em todas as análises fala-se na necessidade de "re-qualificação da cidade" e na busca por um novo perfil, induzido por políticas públicas e planejamento urbano, mais voltado a uma vocação em base à serviços. Porém, a região de Niterói apesar de passar por uma verdadeira reviravolta em menos de 5 décadas (1960-2000), de uma cidade industrial à de serviços, prova não ser totalmente correta essas análises e receituários. A "requalificação" em Niterói esta agora sob o dilema, decorrente do impacto da ascensão das atividades econômicas locais ligados à exploração off shore de petróleo e recém reativação da indústria naval, e também do impacto da recém anunciada implantação do COMPERJ (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro) nos vizinhos São Gonçalo e Itaboraí, que impõe um pseudo-desafio de "preparar-se" a esses megaempreendimentos.

Primeiramente, esta região de São Gonçalo, Itaboraí e Maricá gira em torno de Niterói, e com ela segue em sua dinâmica. E com ela vivenciou um declínio econômico. A economia niteroiense era na década de 1950 uma das mais importantes do país. Além de capital estadual, era um importante polo nacional da indústria naval, de pescado e têxtil. Sinais desse passado podem ser vistos nas grandes construções de perfil fabril e em centenas de bairros com feição operária, concentrados na zona norte de Niterói, e se estendendo para vários bairros de São Gonçalo. Contudo, no início da década de 1960 inicia-se um processo de esvaziamento econômico. O movimento portuário de Niterói, por exemplo, diminuiu em 50% no período de 1964-1967, em grande parte em decorrência da decadência da economia cafeeira do Norte Fluminense. O setor têxtil, tradicional na economia fluminense, também foi perdendo a competitividade desde então.

Também contribuiu à decadência econômica a transferência da capital do Estado do Rio de Janeiro, de Niterói para a Cidade do Rio de Janeiro, com a fusão com o Estado da Guanabara em 1975, com a consequente mudança das repartições públicas e estatais estaduais e de escritórios regionais de empresas privadas. E ainda, a construção da Ponte Rio-Niterói, inaugurada um ano antes, em 1974, contribuiu para agravar a situação, à medida que, fez a região da Grande Niterói e o interior do estado passar a gravitar mais forte e diretamente entorno à Cidade do Rio de Janeiro. Que, por sua vez, também passava por um esvaziamento econômico no mesmo período. A consequência foi um claro processo de degradação urbana dos bairros industriais e do entorno do porto de Niterói com a deterioração e subutilização de muitos imóveis, que contribuiu para rebaixar a atratividade desses locais e negócios.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Economia da UFF comemora 70 anos com jornada científica



Nos dias 3 e 4 de outubro, estarão reunidos, na Faculdade de Economia da UFF, especialistas de instituições de ensino como a Unicamp, UnB, UFRJ e também da Petrobrás e BNDES, durante a Jornada Científica Comemorativa Desindustrialização e Crescimento Econômico no Brasil: Mitos e Realidades, que faz parte da programação de aniversário de 70 anos da faculdade e 25 anos da pós-graduação. --> Leia mais. 

sábado, 15 de setembro de 2012

Governo Dilma anuncia mais um pacote de bondades aos empresários com novas desonerações em folha de pagamento


14/09/2012 - www.cspconlutas.org.br

Nesta quinta-feira (13), o Governo Federal anunciou outro pacote de incentivos fiscais às empresas. Mais 25 setores estão contemplados com a chamada desoneração da folha de pagamento. Somado às isenções anteriores, já são 40 setores beneficiados. Agora, essas empresas não contribuirão mais com o INSS, na base de 20% da folha de pagamento e passarão a recolher de 1 a 2% do faturamento bruto conforme o setor.

Mais uma vez, quem pagará por essa conta serão os trabalhadores, pois a diferença de arrecadação será paga pelos cofres públicos. Estima-se que até 2016 o governo gastará mais de R$ 60 bilhões, segundo dados do próprio Ministério da Fazenda.

sábado, 1 de setembro de 2012

Montadoras lucram mais no Brasil do que em qualquer outro lugar e ainda pedem desoneração

Levantamento mostra que montadoras lucram mais no Brasil do que em qualquer outro lugar 

Empresas reivindicam a prorrogação da isenção do IPI, que vence dia 31 de agosto


DA REDAÇÃO, jornal opinião socialista


Multinacionais lucram mais no Brasil

• Levantamento realizado pelo jornal O Globo e pela consultoria IHS Automotive mostra que os carros vendidos no Brasil custam muito mais que em outros países. A diferença nos preços pode chegar a 106%, como no caso do Honda Fit, que é vendido no Brasil por R$ 57.480, enquanto que na França o modelo equivalente sai por R$ 27.898.

A comparação foi realizada entre Brasil, EUA, Argentina, França e Japão e mostra que, ao contrário do que se pensa, os custos (mão de obra, matérias-primas, logística) assim como os impostos, não explicam os altos preços dos veículos no mercado brasileiro, mas sim a alta margem de lucro das empresas automobilísticas.

Margem de lucro estratosférica
Os custos de um carro produzido no Brasil equivalem a 58% de seu preço na venda, enquanto que nos EUA eles vão de 88% a 91%. Nos outros países os custos chegam a 79% do preço do veículo. Já os impostos no Brasil são proporcionalmente mais altos, formando 32% do preço, enquanto nos EUA vão de 6% a 9% e nos outros países ficam em 16%. Mas é a margem de lucro que explica os altos preços. Aqui, ela chega a 10%, contra 3% nos EUA e 5% nos outros países.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Brasil: tendências a re-industrialização e desnacionalização - mudanças aos trabalhadores

artigo revisado - publicado originalmente em 29 de junho de 2009 - passados 3 anos cada vez mais atual

Brasil: tendências a re-industrialização e desnacionalização - mudanças aos trabalhadores
por Almir Cezar Filho 

Há uma transformação em curso na economia brasileira, com uma respectiva recomposição na classe operária, com previsíveis e interessantes impactos na luta de classe futuros. Teremos transformações importantes na dinâmica econômica e na dinâmica social do país, por um lado, mais suscetível as crises mundiais, porém, embora mais dependente, uma economia com papel mais importante na economia mundial e, por outro, aponta que no Brasil em breve a classe operária voltará a ser protagonista das grandes mobilizações dos trabalhadores. Teremos um novo movimento operário surgindo, mais fortalecido do ponto de vista objetivo, inclusive para enfrentar os ataques da burguesia em caso de crises.

Vejam os dados da PIA 2009 divulgados pelo IBGE - obviamente os dados captam a realidade pré-crise, mas essa nova situação não pode ter revestido tal cenário - que apontam a ampliam do número de empresas atuando justamente nos segmentos econômicos industriais, e particularmente nos setores que constituem os pesos pesados da classe trabalhadora. Setores esses que haviam encolhidos nos anos 90.
Há um processo de re-industrialização da economia brasileira, mas essa re-industrialização se dá através de um maior peso do capital estrangeiro sobre o montante de capital, um processo que não só apesar da crise, mas talvez acelerado por ela, à medida que provavelmente passado o susto inicial, as transnacionais estão buscando refúgio no Brasil.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Indústria: 20% do vendido vem de fora. Atropelado pelo câmbio autopeças amarga déficit de US$ 4,6 bi. E MCT país ainda sofre cortes orçamentários.

Um em cada cinco produtos industriais consumidos no país ano passado foi importado. A informação é da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Não bastasse o déficit crescente, o setor de autopeças tornou-se quase totalmente estrangeiro. O nível de investimentos não acompanha produção de automóveis porque é mais barato importar. Mas o problema não vem de agora, a indústria, em especial de peças e maquinários se acomodou, e não se resume apenas ao câmbio. Contudo, agora o problema tornou contornos assustadores.

Por outro lado, o governo determinou severos cortes orçamentários sobre programas do Ministério da Ciência e Tecnologia, obrigando a selecionar projetos e "mendigar" junto as estatais. Porém, países líderes do setor de C&T, como EUA, Europa e Japão, mesmo em crise, têm apostado decididamente nos investimentos em ciência, tecnologia e inovação, estimulando a busca do conhecimento, o que explica o porque também são tradicionais líderes no setor industrial. Até o ministro do MCT reconhece que, essa é "uma marca de países que têm tido sucesso e querem continuar a exercer papel de liderança no mundo". Não abandonam jamais nenhum desses dois lados da moeda. É uma lição que a gente tem que tirar."

Indústria: 20% do vendido vem de fora
Monitor Mercantil, 19/03/2012 

Consumo de eletroeletrônicos importados foi um dos itens que mais cresceu

(Foto: Marcello Casal Jr.)
DESNACIONALIZAÇÃO DO SETOR DE INFORMÁTICA CHEGA A 51% E DE PETRÓLEO A 23%
Um em cada cinco produtos industriais consumidos no país ano passado foi importado. A informação é do estudo Coeficientes de Abertura Comercial, da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
De acordo com o documento, baseado no cruzamento de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a participação de bens importados no consumo doméstico de produtos industriais alcançou nível recorde em 2011.
O coeficiente de ingresso de produtos importados aumentou dois pontos percentuais, entre 2010 e 2011, alcançando 19,8%.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Queda do juros não basta. Falta de projeto nacional deixa país à mercê do mercado

Falta de projeto nacional deixa país à mercê do mercado
Ipea alerta que queda do juro é indispensável, mas insuficiente 
Monitor Mercantil, 15/03/2012

Baixar juros é fundamental, mas não suficiente. Falta ao país uma estratégia nacional de desenvolvimento para enfrentar o processo de desindustrialização e melhorar a posição do país na divisão internacional do trabalho, evitando que o mercado financeiro produza no Brasil o mesmo que o antigo império britânico: democracias limitadas, sem autonomia para promover o desenvolvimento. 

A análise é do economista Roberto Messenberg, coordenador do Grupo de Análises e Previsões do Instituto de Política Econômica Aplicada (Gap/Ipea), ao apresentar a nova edição do boletim Conjuntura em Foco. 

"A desindustrialização no Brasil é precoce, pois aqui a renda per capita não chegou ao nível dos países industrializados, nem a produtividade", pondera Messenberg, acrescentando que o processo de desindustrialização no país reflete a perda de participação dos manufaturados e do emprego industrial na economia.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Desindustrialização, onde?


Desindustrialização, onde?



Por Miguel do Rosário, em seu blog

Continuo monitorando os índices da indústria brasileira. A acusação de que o Brasil estaria se desindustrializando me preocupou muito, porque, se fosse verdade, então seria um problema sério, que me obrigaria inclusive a rever minha simpatia pelo governo do PT.


Outro dia mesmo li no jornal uma notícia de que a produção industrial havia caído em agosto ou setembro. Essas matérias informam muito pouco, e sempre distorcidamente, porque nunca nos proporcionam uma visão mais abrangente. Até os fatores sazonais são omitidos do leitor. Há meses em que a produção industrial declina, todos os anos, outros em que sobe, por isso é importante sempre você ter em mente um prazo mais longo, para enxergar mais claramente.


Então eu voltei ao IBGE, onde já temos dados históricos consolidados, com atualização até agosto de 2011, para a produção industrial brasileira. Preparei uma tabela cujos dados completos podem ser vistos aqui.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Paraíso das montadoras: governo e pelegos matam concorrência com aumento do IPI, pior para consumidores e trabalhadores

Sob o beneplácito do governo e conivência dos pelegos, o Brasil sempre foi um paraíso para as montadoras instaladas no país, que vendem os carros mais caros do mundo e registram lucros tão espetaculares, contra os consumidores e trabalhadores, matam concorrência com aumento do IPI dos importados, sob a justificativa do "perigo das demissões e da desindustrialização".

OS TRÊS MINISTROS E AS CARROÇAS
Vincente Nunes - Correio Braziliense, 19.09.2011
http://www.dzai.com.br/blog/blogdovicente


Foi, no mínimo, constrangedor ver os ministros Guido Mantega (Fazenda), Fernando Pimentel (Desenvolvimento) e Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) anunciando o aumento de 30 pontos percentuais do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) cobrado dos carros importados. Sem argumentos consistentes, forçaram a população a engolir a justificativa de que o governo estava protegendo os empregos no país. Se não fosse fechada logo a porteira para os veículos de vêm de fora, o Brasil assistiria a uma onda de demissões nas montadoras que produzem em terras nacionais — todas elas, estrangeiras, ressalte-se.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Juros, inflação e dependência no Brasil atual

por Almir Cezar

Banco Central do Brasil (Bacen)
Apesar do desenvolvimento econômico do último período, o Brasil ainda está em um círculo macroeconômico vicioso, típico das economias dependentes, obrigado a fixar alta sua taxa de juros para compensar o déficit externo recorrentes e combater sua persistente inflação alta, a chamada "armadilha macroeconômica". Contudo, o efeito da taxa de juros alta pode ser oposta da propagandeada pelo BC (Banco Central), pois ajuda a puxar para cima os preços, e portanto a inflação, devido a uma combinação dos efeitos estruturais, cuja origem reside em peculiaridades herdadas do desenvolvimento da economia brasileira.

E ainda alimenta a uma grande mudança estrutural no padrão de desenvolvimento brasileiro, reforçando ainda mais a dependência do Brasil dentro do sistema mundial capitalista ao capital externo, com severos prejuízos aos trabalhadores, muito maiores do que o super-endividamento das famílias e o melindre ao consumo à prazo. Temos então não apenas uma relação inversa entre juros e inflação, mas uma nova "armadilha" que deve ser combatida pelos trabalhadores em suas raízes, no modelo de desenvolvimento.

Juros e inflação em um país em "armadilha macroeconômica"

A Economia convencional sempre divulgou como ruim uma alta inflação, como um desequilíbrio entre oferta e demanda agregada impactando sobre os preços. E recomenda usar a taxa de juros para combater a inflação, tanto pela sua ação sobre a demanda agregada (pressionando investimentos e consumo), como sobre a oferta agregada (a taxa de juros alta atraí dólares, apreciando o câmbio, levando a queda dos preços das importações, e diminuindo as exportações, aumentando a oferta interna). A queda das exportações, e consequentemente dos rendimentos dela, combinada com aumento dos juros, leva a um desaquecimento da economia. Esse desaquecimento pressiona a uma queda na taxa de inflação e logo na taxa de juros, em um movimento de re-equilíbrio na inflação e juros, garantindo que a evolução do crescimento econômico pudesse ser mais moderada e em equilíbrio entre oferta e demanda agregada.