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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Nobel de Economia prevê uma terceira depressão mundial em breve

ECONOMIA- Nobel de Economia prevê uma terceira depressão mundial

Recuperação da economia parece ter seus dias contados 

por Diego Cruz

A crise econômica internacional não terminou. Os últimos meses mostraram uma relativa recuperação, mas ela não é sustentável e novos sinais de queda já começam a aparecer. Não é mais um artigo catastrofista de esquerda prevendo mais um fim do capitalismo. É, antes, a percepção cada vez mais forte do mercado financeiro sobre o futuro da economia.

Isso se reforçou com os últimos indicadores mostrando uma desaceleração no mercado de trabalho nos Estados Unidos, assim como a queda no ritmo da recuperação econômica da Ásia e o aprofundamento da crise na Europa. A recente reunião do G20 e a polêmica colocada: a necessidade de estímulos fiscais versus plano de ajustes, mostram que a crise está longe do fim, chega a um impasse e mostra sinais de recaída para o futuro próximo.

Uma crise estrutural

A crise se expressou inicialmente em 2008 com o estouro do mercado imobiliário subprime, nos EUA, o mercado de financiamento de casas voltado ao público de baixa renda. A implosão desse setor trouxe à tona uma série de complexos mecanismos financeiros, como os tais derivativos, revelando que o período de “exuberância irracional” dos mercados nos últimos anos foi sustentado por um esquema semelhante à fraude da pirâmide.

A falência do centenário banco Lemanh Brothers, no final do mesmo ano levou o pânico desenfreado aos mercados e governos em todo o mundo. Os governos, com a Casa Branca à frente, apressaram-se em aprovar pacotes bilionários de ajuda aos bancos e empresas. Durante todo o ano de 2009, foram trilhões despejados de forma indiscriminada nos mercados financeiros como forma de conter a recessão. A tese da crise restrita à esfera financeira entrava em descrédito na medida em que uma profunda recessão se desenhava no planeta. 

Os pacotes articulados pelos governos conseguiram conter a recessão e impedir uma depressão mundial. Mas mostraram-se financeiramente inviáveis, colocando países, principalmente os da Europa, à beira da falência. De tal forma que a fase agora é a da contenção dos gastos. O clamor pelos pacotes de ajuda foi substituído pela necessidade do ajuste fiscal e os cortes de gastos, passando a conta da fatura para os trabalhadores. 

Apesar dos impasses entre EUA e Canadá e Europa na mais recente reunião do G20, a orientação para os países é a busca pelo “equilíbrio fiscal”. Ou seja, a política do Imperialismo agora é, sem deixar de lado os pacotes de estímulos, estender o ajuste fiscal que está provocando uma verdadeira rebelião social na Europa para o restante do mundo. Significa explicitar ainda mais a transferência de recursos públicos para os mercados.

Tempo de cortar

O grande problema é que os pacotes estatais de estímulo não foram suficientes para impulsionar o investimento privado. Se se cessam, a recuperação também para. Segundo o Instituto Internacional de Finanças, uma organização que reúne grandes bancos de todo o mundo, as políticas de ajuste fiscal devem reduzir o crescimento econômico dos países desenvolvidos de 2,5% para 1,8% em 2011.

Ao todo, os pacotes serão responsáveis pela redução de 1,25% no crescimento mundial no próximo ano. Isso se refletirá nos chamados “países emergentes”. Segundo o IIF, o Brasil crescerá 7,5% em 2010 e no ano seguinte não deve passar dos 4,4%. Por isso, a instituição dá como terminada a fase de rápida expansão dos emergentes que ocorreu nos últimos meses.

Futuro incerto

Nos Estados Unidos entre maio e junho foram criados 13 mil empregos quando eram esperados pelo menos 50 mil. Em contrapartida, 125 mil postos foram extintos. Já o mercado imobiliário se retrai à medida que o governo extingue sua política de estímulo. Os últimos 12 meses de acelerado crescimento refletiu no país a reposição dos estoques, vazios durante o período mais agudo da crise. O ritmo agora tende a diminuir, e o fim dos estímulos vai aprofundar essa desaceleração num momento em que a economia não consegue andar com as próprias pernas, colocando a perspectiva de uma nova recessão.

Já na Europa, cujo índice de desemprego na zona do Euro chega a 10%, os planos de ajustes vão aprofundar ainda mais a crise social que já explode em países como Grécia e Espanha. A Alemanha, maior economia e motor da União Europeia, detalhou seu plano de cortes nesse dia 5 de junho. O governo de Angela Merkel vai cortar o equivalente a R$ 171 bilhões em quatro anos, em uma série de medidas que inclui a demissão de 15 mil servidores públicos.
Tal cenário fez com que o prêmio Nobel de Economia e colunista do New Iork Times, Paul Krugman previsse uma nova fase recessiva e, mais que isso, uma nova depressão equivalente a 1929. Na verdade, o economista compara a atual crise à “longa depressão” de 1873, um período marcado por fortes instabilidades e recaídas. Para o colunista, essa terceira depressão do capitalismo vai ser o resultado da política econômica recessiva imposta pelos governos, que custará algo como “10 milhões de empregos”. 

Krugman vem causando controvérsias com suas previsões consideradas catastrofistas. Os defensores dos planos de ajustes argumentam que o equilíbrio das contas públicas vai automaticamente gerar “confiança” nos mercados e ajudar a impulsionar novamente a economia. A realidade, porém, é que uma nova recessão, ou melhor, uma nova fase da crise está cada vez mais clara no horizonte. 

E o Brasil?

Como ficou mais do que claro no final de 2008, o Brasil não é uma ilha. Se o país conseguiu evitar uma longa recessão através de pesados subsídios fiscais a bancos e empresas, ajudou para isso a rápida recuperação da demanda da China por minérios e demais commodities a volta do crédito. 

O que está ficando mais certo, porém, é que o país não contará com as mesmas condições externas que tornaram possível o crescimento econômico dos últimos anos, apesar da política neoliberal. A demanda por commodities diminuirá, assim como o crédito e os investimentos diretos que, nos últimos meses, cobriram o déficit em conta corrente (prejuízo do que saiu e entrou no país). 

Uma nova crise se desenha para o futuro e o país não terá as condições que o possibilitaram a retomar o crescimento. E também não terá Lula, ou seja, ficará mais difícil conter o movimento de massas na hora de impor planos de ajuste fiscal e reformas. 

Diego Cruz, jornalista e especialista em Economia do Trabalho pela Unicamp, colabora com diversos veículos, como o jornal Opinião Socialista

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O sistema circulatório da crise mundial - texto para reflexão

de Rodrigo Souza


Apresento uma análise a respeito da aguda crise econômico-financeira pela qual nossos Sistema Mundial Moderno atravessa neste momento - não passou, e que atingiu o Brasil de vez no último trimestre de 2008. Estive a observar as diferentes reações analíticas dos intelectuais estereoscopicamente, podendo ver alguns estereótipos.

De fato, é lamentável como retóricas frágeis e sem autocrítica lógica são o que predominam e proliferam. Com grossas verborragias preenchendo as lacunas e dando volume.

E ainda, existem nitidamente dois perfis caricatos antagônicos, à esquerda e à direita.

Existem aqueles que não disfarçam a comemoração: Marx volta às prateleiras, estaria voltando “à moda”, o capitalismo está ruindo, etc. É como se há muito estivessem torcendo para uma débâcle assim para novamente
poderem adentrar o debate público com algo relevante a falar. Contudo, não encontramos um aporte consistente sobre o quê de fato se pode dizer pelo instrumental marxista sobre o que estamos vivendo. Nem mesmo se pode estabelecer um nexo entre os constructos marxistas e o caráter da crise financeira, a não ser algumas imprecações e jogos conotativos e de constrangimentos semânticos. Não enxergamos nada que remeta ao volume sobre “Circulação” de O Capital, a não ser uma procedente menção ao que muitos marxistas se referiam no despontar da década de 70 como “capital fictício”, e que era ingenuamente satirizado pelos economistas neoclássicos. E o pior: não conseguem apontam minimamente qualquer indício de “superação do capitalismo” para um modo de produção superior, se é que o que está em jogo é a fidelidade à ortodoxia de Marx...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Seminário na UFF discute crise econômica e os seus desdobramentos

A partir desta segunda-feira, 16 de novembro, até quarta-feira, 18, a Faculdade de Economia da UFF realiza o 7º Seminário Acadêmico, que terá como tema central “A Crise do ‘Subprime’ e Seus Desdobramentos”. Os temas das mesas serão “A Crise e a Regulação Financeira”, “Mercado de Trabalho na Conjuntura Atual” e “Perspectivas e Cenários para a Economia Brasileira”.

Todos os debates ocorrerão às 16h, no auditório da Faculdade de Economia, Rua Tiradentes, 17, Ingá, Niterói.

O evento é organizado pelo Programa de Educação Tutorial do curso de Ciências Econômicas (PET – Economia). As inscrições devem ser feitas pelo e-mail seminarioacademico2009@gmail.com.

Todos os participantes, discentes e docentes, receberão certificados.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A crise revelará o uso de fraude pelas empresas

Durantes anos houve prejuízos e queda na taxa de lucro das grandes corporações empresariais nos países centrais do capitalismo. Contudo, isso foi sendo maquiado sofisticadas por fraudes contabéis tramadas pelos executivos das empresas (veja a matéria a baixo do Monitor Mercantil).

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A crise mundial ameaça revelar bilhões em fraudes financeiras cometidas durante os anos de boom na economia internacional.
02/02/2009 - 20:02

Um relatório preparado pela consultoria KPMG constatou que, já em 2008, as fraudes identificadas somaram US$ 1,5 bilhão, enquanto os casos se proliferam nos tribunais. Cerca de um terço desse total se refere a fraudes cometidas por empresas e seus executivos. O restante foi gerado por organizações criminosas, de acordo com a consultoria. Segundo a consultoria, as fraudes atingem seu maior nível na economia européia em 13 anos.


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Só que agora tudo está vindo à tona, até porque fica difícil tapar os rombos à medida que o fluxo de receitas diminuiu drasticamente e o crédito idem. Não dá para cobrir o negativo com os recursos que entrar no fluxo de caixa.

Mas o interessante está não na fraude mas na razão do uso da fraude. A necessidade de fraudes pelo grande capital revela em si uma das facetas autocolapsantes do próprio mercado capitalista, a tendência a queda da taxa de lucros.

A crise é o momento da "revelação", onde a verdade vem a tona, se manifesta. O capital, porém, tenta adiar esse "momento da verdade".

Procurando aumento da produtividade ou da intensidade do trabalho ou novos negócios onde há isso. Os anos 90 vimos os negócios de alta tecnologia, internet e biotecnologia, mas que também explodiram com a bolha da Nasdaq e dos negócios ".com" de 2000/2001.

Há também a forma, de recorrendo ao mercado financeiro, para um enriquecimento artificial ou acelerar o circuito de capital. Que por sua vez, viu problemas graves nos anos 90, com as sucessivas crises - mexicana de 95, asiática de 97, russa de 98, brasileira de 99 e argentina de 2000. A própria idéia de subprime e hipotecas nos EUA foi um artifício para dar alternativa a isso.

Restou as empresas a fraude, pura e simples.

Durante anos se viu empresas apresentando balancetes vistosos e puljantes. Anos de distribuição vultosa de dividendos aos acionistas, royalties as matrizes das empresas e bonus aos executivos. Enquanto, por outro lado, foi preciso ampliar a produtividade dos trabalhadores continuamente, sem compensações como redução da jornada, recorrendo para isso a transferência de plantas fabris para "zonas de baixo salário" e redução de direitos trabalhistas. Mas mesmo esse processo de ampliação da intensidade do trabalho não conseguiu compensar a queda da taxa de lucro e a sede por maior rentabilidade.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Depressão, uma visão de longa duração - artigo de Immanuel Walerstein

Um breve artigo do pensador IMMANUEL WALERSTEIN, um dos maiores expoentes da teoria do sistema mundo, aporte desenvolvida também por André Gunder Frank, Giovanni Arrighi, Theotonio dos Santos e Samir Amim.

(http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15320)

Estamos nos movendo em direção a um mundo protecionista. Estamos nos movendo para um papel muito maior do governo na produção. Mesmo os EUA e a Grã Bretanha estão nacionalizando parcialmente os bancos e as grandes empresas moribundas. Nos dirigimos a uma distribuição conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à centro-esquerda ou formas autoritárias de extrema direita.

Immanuel Wallerstein - La Jornada

Immanuel Wallerstein, sociólogo norte-americano, um dos teóricos da Teoria do Sistema Mundial (de onde vem a expressão Sistema-Mundo) e pesquisador sênior da Universidade Yale. É autor de Sistema Mundial Moderno, de 1974.


Tradução: Katarina Peixoto


A depressão já começou. Alguns jornalistas, um tanto constrangidos, seguem perguntando aos economistas se talvez não estejamos só entrando numa mera recessão. Não creia neles nem por um minuto. Já estamos no começo de uma depressão mundial de grande envergadura com desemprego maciço em quase todas as partes. Pode assumir a forma de uma deflação nominal clássica, com todas as suas conseqüências para as pessoas comuns. É um pouco menos provável que assuma a forma de uma inflação galopante, que é somente uma outra forma de deflacionar valores, inclusive pior para as pessoas comuns. É claro que todo mundo se pergunta o que disparou essa depressão. Serão os derivativos, que Warren Buffett chama de "armas financeiras de destruição em massa"? Ou são, por acaso, as hipotecas subprime? Ou os especuladores do petróleo? Julgar culpas não tem importância real. Isso é concentrar-se na poeira, como dizia Fernand Braudel, dos eventos de curta duração. Se quisermos entender o que está ocorrendo necessitamos lançar um olhar amplo para outras temporalidades, que são muito mais reveladoras. Um é o dos vai-e-vens cíclicos de média duração. O outro é aquele das tendências estruturais de longa duração. A economia-mundo capitalista teve, durante vários séculos, pelo menos duas formas de vai-e-vens cíclicos. Uns são os chamados ciclos de Kondratieff, que historicamente teriam uma duração de 50-60 anos. E outros são os ciclos hegemônicos, que são muito mais longos.Em termos de ciclos hegemônicos, os EUA foram um adversário dessa hegemonia nos idos de 1873; conseguiu sua hegemonia depois de 1945 e vem declinando desde os anos 70. As loucuras de George W. Bush transformaram esse declínio lento em precipitado. E agora já estamos longe de qualquer retomada da hegemonia estadunidense. Entramos, como acontece normalmente, num mundo multipolar. Os EUA permanecem como potência forte, talvez a mais forte, mas continuará declinando em relação a outras potências, nas próximas décadas. Não há muito o que alguém possa fazer para mudar isso. Os ciclos de Kondratieff têm uma temporalidade diferente. O mundo saiu da última fase B do ciclo Kondratieff em 1945, e então o retorno mais forte à fase A vem ocorrendo, na história do sistema-mundo moderno. Chegou ao seu clímax por volta de 1967-1973, e começou o seu descenso. Esta fase B foi muito mais longa que as fases B anteriores e seguimos nela. As características de uma fase B de Kondratieff são bem conhecidas e coincidem com o que a economia-mundo vem experimentado desde os anos 70. As taxas de lucro nas atividades produtivas baixam, especialmente naqueles tipos de produção que tenham sido mais rentáveis. Em conseqüência, os capitalistas que desejem níveis de lucro realmente altos se inclinam para o setor financeiro, e se envolvem no que basicamente é especulação. Para que as atividades produtivas não se tornem tão pouco rentáveis, têm de mudar-se das zonas centrais para outras partes do sistema-mundo, negociando custos menores de transação com mão-de-obra mais barata. É por isso que começam a desaparecer os empregos em Detroit, Essen e Nagoya, e a se expandirem nas fábricas da China, da Índia e do Brasil.Quanto às bolhas especulativas, algumas pessoas sempre fazem muito dinheiro com elas. Só que cedo ou tarde as bolhas especulativas sempre arrebentam. Se se pergunta por que essa fase B do ciclo Kondratieff durou tanto, é porque os poderes existentes - o Departamento do Tesouro e o Federal Reserve (Banco Central) norte-americanos, o FMI e seus colaboradores na Europa ocidental e Japão - intervieram regularmente no mercado e de maneira importante para ajudar a economia-mundo - em 1987, quando a bolsa despencou; em 1989, no colapso do crédito e das poupanças nos EUA; em 1997, com a queda das bolsas na Ásia oriental; em 1998, pelas mãos dos chamados Long Term Capital Management, um fundo Hedge de capitais de longo prazo; em 2001-2002, com Enron. Com base no que aprenderam com as lições das fases B anteriores de Kondratieff, os poderes existentes pensaram que podiam vencer o sistema. Mas há limites intrínsecos para fazer isto. E agora chegamos neles, como Henry Paulson e Ben Bernanke o estão aprendendo para sua vergonha e talvez assombro. Desta vez não será tão fácil, provavelmente será impossível, evitar o pior. No passado, uma vez que a depressão dava rédea solta a seus estragos, a economia-mundo se levantava com base nas inovações que podiam ser quase monopolizadas por um tempo. Assim, quando se diz que o mercado financeiro voltará a levantar-se, é isso o que se pensa que ocorrerá, agora como no passado, depois de as populações do mundo sentirem todo o estrago causado. E talvez em alguns poucos anos assim seja. Há, contudo, algo novo que pode interferir nesse belo padrão cíclico que tem sustentado o sistema capitalista por uns 500 anos. As tendências estruturais podem interferir nas tendências cíclicas. Os traços estruturais básicos do capitalismo como sistema-mundo operam mediante certas regras que podem ser traçadas num gráfico como um equilíbrio em movimento ascendente. O problema, como acontece com todos os equilíbrios estruturais de todos os sistemas, é que com o tempo as curvas se movem para muito além do equilíbrio e se torna impossível regressar ao ponto anterior. O que se fez para que o sistema tenha se tornado tão distante do equilíbrio? Grosso modo, o que ocorre é que, ao longo de 500 anos, os três custos básicos da produção capitalista - pessoal, insumos e impostos - têm subido constantemente no percentual dos preços possíveis de venda, de tal modo que hoje se tornou impossível obter grandes lucros da produção quase monopolizada que sempre foi a base da acumulação capitalista significativa. Não é porque o capitalismo esteja falhando no que faz melhor. É precisamente porque o está fazendo tão bem que finalmente minou a base para acumulações futuras. Quando chegamos a esse ponto o sistema se bifurca (na linguagem dos estudos de alta complexidade). As conseqüências imediatas são uma turbulência altamente caótica, que nosso sistema-mundo está experimentando neste momento e que seguirá experimentando por uns 20-50 anos. Como todos apostam na direção que pensam ser a mais imediatamente adequada para sua perspectiva, emergirá uma ordem de caos numa das veredas dos muitos caminhos alternativos diferentes. Podemos assegurar com confiança que o presente sistema não sobreviverá. O que não podemos predizer é qual nova ordem será escolhida para substituí-lo, porque esta será o resultado de uma infinidade de pressões individuais. Mas cedo ou tarde um novo sistema se instalará. Não será um sistema capitalista, mas pode ser algo muito pior (ainda mais polarizado e hierárquico) ou algo muito melhor (relativamente democrático e relativamente igualitário) que o atual sistema. Decidir um novo sistema é a luta política mundial mais importante de nossos tempos. E, quanto às perspectivas imediatas de curta duração, ad interim, é claro o que ocorre em todas as partes. Estamos nos movendo em direção a um mundo protecionista (esqueça-se da chamada globalização). Estamos nos movendo para um papel muito maior do governo na produção. Mesmo os EUA e a Grã Bretanha estão nacionalizando parcialmente os bancos e as grandes empresas moribundas. Nos dirigimos a uma distribuição populista conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à centro-esquerda ou formas autoritárias de extrema direita. E nos movemos em direção a conflitos sociais agudos no interior de alguns estados, à medida que todo o mundo passa a competir por uma fatia menor do bolo. No curto prazo, não é, de modo algum, um panorama agradável.

sábado, 29 de novembro de 2008

O capitalismo tentou romper seus limites históricos e criou um novo 1929, ou pior

O texto abaixo é do famoso economista marxista François Chesnais.

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"Não quero parecer um pastor com a sua Bíblia marxista, mas quero ler uma passagem de O Capital: o verdadeiro limite da produção capitalista é o próprio capital; é o fato de que, nela, são o capital e a sua própria valorização que constituem o ponto de partida e a meta, o motivo e o fim da produção. O meio empregado - desenvolvimento incondicional das forças sociais produtivas - choca constantemente com o fim perseguido, que é um fim limitado: a valorização do capital existente". Leia a íntegra da palestra do economista francês François Chesnais feita em setembro, em Buenos Aires.

O capitalismo tentou romper seus limites históricos e criou um novo 1929, ou pior
François Chesnais* - Esquerda.Net

Nesta apresentação feita em 18 de Setembro em Buenos Aires, o economista marxista francês François Chesnais expõe a forma como o capitalismo, na sua longa fase de expansão, tentou superar os seus limites imanentes. E como todas essas tentativas contribuíram para criar agora uma crise muito maior. Comparável à de 1929, mas que ocorre num contexto totalmente novo.


A tese que vou apresentar defende que no ano passado produziu-se uma verdadeira ruptura, que deixa para trás uma longa fase de expansão da economia capitalista mundial; e que essa ruptura marca o início de um processo de crise com características que são comparáveis à crise de 1929, ainda que venha a desenvolver-se num contexto muito diferente.

domingo, 19 de outubro de 2008

Perguntas e respostas sobre a Crise

por Almir Cezar Filho*

Aí vai uma série de perguntas e respostas sobre a crise econômica iniciada em 2008 com a implosão dos títulos subprimes nos EUA e falência de bancos hipotecários.

O que tem a ver com os Subprimes?
O ponto de partida é uma verdadeira estafa que os bancos ocidentais ganharam uma enorme quantidade de dinheiro às custas dos estadunidenses, declarando que se não eram capazes de pagar, ficariam sem suas casas.

É somente uma crise bancária?
Não. Trata-se de uma verdadeira crise econômica que começou no setor bancário, mas suas causas são muito mais profundas. Na realidade, toda a economia dos Estados Unidos vive a crédito há 30 anos. As empresas se endividam acima de suas possibilidades, o Estado se endivida também acima de suas possibilidades (para fazer a guerra) e os cidadãos são levados também a endividar-se; é a única maneira de manter, artificialmente, um crescimento econômico.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Por que a crise é menos grave no Brasil e nos BRICs do que na Europa ou EUA?

Por Almir Cezar Filho

Um aspecto interessante da crise atual é a diferença de impacto desta entre, de um lado, os EUA, União Européia e Japão e, do outro, países dos BRICs e ditos “emergentes”. Houve mudanças no Capitalismo mundial que levou a uma modificação na divisão internacional do trabalho que se torna visível apenas agora com a crise.

A crise se manifestou inicialmente como estouro do “bolha” nos EUA do mercado imobiliário e financeiro de subprime e hipotecário. Contaminou os bancos de investimentos e bancos comerciais, chegando no Canadá e no outro lado do Atlântico (em maior medida) e no outro lado do Pacífico (menor medida). Já na China, Índia, Brasil e Rússia, ela se manifesta muito mais nas bolsas de valores e com ainda poucos sinais no restante do mercado financeiro bancário e no setor real da economia. Os poucos sinais no setor real estão ligados a temor de desaquecimento do consumo, especialmente no caso de exportação e de consumo interno ligado a crédito facilitado, e restrições ao financiamento internacional e crédito para investimentos.

As bolsas dos BRICs e dos “emergentes” caem por algumas razões, todos ligados ao pânico dos especuladores internacionais. No início da crise, ainda no ano passado, com o estouro da “bolha”, as bolsas desses países se tornaram um refúgio para os fundos e bancos de investimentos, só que agora o pânico é grande, e as empresas desses países por conta da generalização da crise devem ter queda em seus lucros. E também, até agosto desse ano esperava-se apenas que os EUA iriam entrar em pequena recessão e não que o mundo, especialmente os países centrais, iriam mergulhar juntos, assim o Brasil, Rússia, etc, poderiam ser um transitório refúgio ou meio de recuperar as perdas.

O porquê da queda acentuadas nos BRICs nas bolsas

As ações estavam em alta nos BRICs já a alguns anos e com viés de crescimento. As taxas de lucro estavam em trajetória de expansão, tornaram-se atrativas. As empresas nacionais dos BRICs aproveitam para terem ganhos em cima disso, realizando IPOs (abertura inicial de ações) e expansões das subscrições acionárias, não apenas para financiar investimentos, mas para ter ganhos na sobrevalorização de ações. Como diz o ditado no mercado financeiro: “a bolsa sobe no boato e caí no fato”. O fato é que os lucros não cresceriam tanto e a tendência agora é o contrário é de redução no pagamento dos dividendos.

A diferença entre China e Brasil e qual a alternativa para o Brasil

Isso explica porque no Brasil a queda na bolsa é pior dos que no resto dos BRICs. O Brasil entre esses países é o que possui o mercado financeiro e de bolsa mais sofisticado. A Bolsa de SP movimenta em bolsa inclusive valores superiores que as bolsas dos outros BRICs, mesmo Xangai (excetuando Hong Kong, particularmente muito vinculado mais ao movimento do Japão e dos tigres asiáticos do que da própria China). O vínculo também entre bancos, fundos de investimentos e empresas é muito maior.
Mas a China será a que deve mais sofrer com a desaceleração da economia dos EUA. O temor do mundo é exatamente isso. Por um lado, a China é a grande exportadora do mundo, tendo seu principal mercado consumidor justamente os EUA, que também é a economia cujas empresas são os maiores investidores na China. A expansão do PIB chinês é fortemente puxado pelas exportações de manufaturados, numa proporção muito menor do que dos outros BRICs. Por outro, o pânico no mundo também é explicado, pelo fato (ou que avaliação), que embora a economia chinesa seja uma (nova) locomotiva do mundo - e pode até explicar porque a crise não se disseminou pelo mundo de maneira mais rápida - não teria condições de compensar a recessão dos EUA.

É nessa característica que diferencia o Brasil da China. A economia brasileira cresceu nos últimos anos puxado muito mais pelo mercado interno – crédito facilitado ao consumidor, crescimento da renda do trabalhador, projeto de investimentos privados e programa de investimentos públicos – do que pelo mercado externo. Significa que em segundo momento o Brasil pode estar em melhor condição que a China, desde que a equipe econômica do Governo Lula, identificada com uma visão macroeconômica neoliberal e financista não erre a mão, puxando o freio do PIB, numa avaliação equivocada de que para diminuir a crise seria preciso desacelerar a economia ou manter altas as taxas de juros para reter dólar aqui.

Na verdade, a melhor maneira de diminuir a crise no Brasil é o Brasil crescer. A previsão do crescimento do PIB para o ano que vem era de mais de 5%, mas a avaliação após agudização da crise em agosto/setembro foi para menos de 4%. Se houver uma generalização de redução do crescimento as empresas suspenderão seus investimentos e as famílias compras programadas - por medo de prejuízos, menor lucro e medo do desemprego ou inadimplência - empurrando como uma bola de neve o PIB para baixo. Aí, a bolsa cairá de vez. As empresas venderam menos e demitirão. Os dólares fugiram – com impacto nas taxas de juros (para retê-los) e nos preços (inflação via desvalorização do real, elevando os preços das commodities. O Brasil precisa crescer no ano que vem para fugir da crise.

A nova divisão internacional do trabalho e o subimperialismo dos BRICs


Estamos falando dos BRICs – a duas décadas atrás expressão nem existia. O que aconteceu foi uma mudança no capitalismo mundial. Uma mudança na divisão internacional do trabalho. Mas será agora na crise que veremos uma reconfiguração enorme no sistema.

Parafrasendo André Gunder Frank, as maiores mudanças qualitativas na divisão internacional do trabalho ocorrem num período de crise da acumulação e capital, e que essas mudanças são, então, quantitativamente aumentadas durante um período seguinte de expansão, que foi facilitado por elas. Esses movimentos ascendentes ocorreram, evidentemente, depois de crises anteriores (no caso, a crise mundial dos anos 70 e 80), veremos tão logo a crise seja seguida de uma expansão ou uma atenuação da crise.

Embora quantitativamente essas mudanças na DIT sejam mais visíveis durante os períodos de ascensão do grande ciclo, qualitativamente elas parecem concentrar-se no momento de crise e nos primeiros anos do movimento descente. É então que ocorre uma luta séria pelos mercados, luta essa que também se baseia numa mudança relativa nas forças produtivas entre potências econômicas, tal como aconteceu em fins do século XIX, com a ascensão ao lado da Inglaterra e França, de países como Alemanha, Japão, EUA e Itália. Essas novas transformações qualitativas na DIT são claramente percebidas com maior definição após os anos 70 com a Europa Ocidental e Japão, e agora com os BRICs.

Um aspecto de tais modificações é o desenvolvimento do subimperialismo, como Ruy Mauro Marini analisou, como referência ao Brasil. O caso brasileiro não é excessão, visto o BRICs e outros países como África do Sul e México. O subimperialismo do Brasil só pode ser do interesse da potência imperialista. É competidor e aliado. É instrumento, mas do tipo faca de dois gume, gume cortante, no qual enfrenta o imperialismo mas também esse atua nas neocolônias através do subimperialismo. O interessante também que as potências centrais (EUA, UE e Japão), embora competidoras entre si, elas também têm interesses comuns, convergentes, numa região, que o subimperialismo indiano, chinês, russo ou brasileiro, pode proteger, conciliando assim.

Esse novo papel estão vendo agora, e veremos ainda mais no próximo período. A primeira mostra é a manifestação desigual dos efeitos da presente crise nos países industrializados.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

O que é a crise financeira dos EUA (um resumo)

por Almir  Cezar

A economia dos EUA esteve aquecida nos últimos 6 anos, por um lado muita pelos gastos públicos no indústria bélica e redução dos impostos de renda, e por outro pelo aumento do crédito ao consumidor, sem o respectivo crescimento da renda das famílias.

O aumento do consumo das famílias não era acompanhado por crescimento na renda – todos os ganhos de produtividade do trabalho eram apropriado sob a forma de lucro e não de salário. Em verdade, contrariando o crescimento do PIB do período, não apenas a participação dos salários na renda nacional, como mesmo os salários reais caíram nesses anos.