Valor Econômico - José Luís Fiori - 09/09/2009
Entre 1495 e 1975, as grandes potências estiveram em guerra durante 75% do tempo, começando uma nova a cada sete ou oito anos. Mesmo nos anos mais pacíficos desse período, entre 1816 e 1913, essas potências fizeram cerca de 100 guerras coloniais. E, ao contrário das expectativas, a cada novo século houve mais guerras do que no século anterior. (J. Levy, "War in the modern Great Power System", Ky Lexington, 1983) Por isso, pode-se dizer que as guerras foram a principal atividade dos Estados nacionais europeus, durante seus cinco séculos de existência e, agora de novo, o Século XXI já começou sob o signo das armas.
Mas, apesar disto, segue sendo um tabu falar e analisar objetivamente o papel das guerras na formação, na evolução e no futuro do sistema interestatal capitalista que foi "inventado" pelos europeus nos Séculos XVI e XVII e só se transformou num fenômeno universal no Século XX. Talvez porque seja muito doloroso aceitar que as guerras não são um fenômeno excepcional, nem decorrem de uma "necessidade econômica". Ou porque seja difícil entender que elas seguirão existindo, mesmo que não ocorram enfrentamentos atômicos entre as grandes potências, porque não precisam ser travadas para cumprir seu "papel" dentro do sistema interestatal. Basta que sejam planejadas de forma complementar e competitiva.
À primeira vista, tudo isso parece meio absurdo e paradoxal. Mas tudo fica mais claro quando se olha para o começo desta história e se entende que o sistema mundial em que vivemos foi uma conquista progressiva dos primeiros Estados nacionais europeus. E desde os seus primeiros passos, esse sistema nunca mais deixou de se expandir, "liderado" pelo crescimento competitivo e imperial de suas grandes potências, que lutam para manter ou avançar sua posição relativa dentro do sistema. Por isso, tem razão o cientista político norte-americano John Mearsheimer, quando diz que "as grandes potências têm um comportamento agressivo não porque elas queiram, mas porque elas têm que buscar acumular mais poder se quiserem maximizar suas probabilidades de sobrevivência, porque o sistema internacional cria incentivos poderosos para que os Estados estejam sempre procurando oportunidades de ganhar mais poder às custas dos rivais...". (Mearsheimer, "The tragedy of the great powers", 2001: 21).
Nesse processo competitivo, a guerra, ou a ameaça da guerra, foi o principal instrumento estratégico utilizado pelos Estados nacionais para acumular poder e definir a hierarquia mundial. E as potências vencedoras - que se transformaram em "líderes" do sistema - foram as que conseguiram conquistar e manter o controle monopólico das "tecnologias sensíveis", de uso militar. Mas essa competição por tecnologia e pelo controle monopólico dos recursos bélicos deu origem à uma dinâmica automática e progressiva de preparação contínua para as guerras, numa disputa que aponta todo o tempo na direção de um império único e universal.
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009
terça-feira, 21 de julho de 2009
Giovanni Arrighi, por José Luís Fiori
Valor Econômico - 15 de junho de 2009
Morreu nos Estados Unidos, na cidade de Baltimore, no dia 19 de junho de 2009, o economista italiano Giovanni Arrighi, que foi professor, nos últimos anos de sua vida, da Universidade Johns Hopkins. Arrighi nasceu em Milão, em 1937, estudou na Universidade de Bocconi e, na década de 1960, participou da geração de cientistas sociais europeus e americanos que trabalharam na África e se dedicaram ao estudo do desenvolvimento econômico em países da periferia capitalista. De volta à Itália, na década de 70, e depois nos Estados Unidos, a partir dos anos 80, Giovanni Arrighi dedicou quase três décadas de sua vida intelectual ao estudo da "crise da hegemonia americana" dos anos 70, e das transformações econômicas e políticas mundiais das décadas seguintes, que passaram pela expansão vertiginosa da China e de grande parte da Ásia, e chegaram até à crise financeira de 2008.
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Morreu nos Estados Unidos, na cidade de Baltimore, no dia 19 de junho de 2009, o economista italiano Giovanni Arrighi, que foi professor, nos últimos anos de sua vida, da Universidade Johns Hopkins. Arrighi nasceu em Milão, em 1937, estudou na Universidade de Bocconi e, na década de 1960, participou da geração de cientistas sociais europeus e americanos que trabalharam na África e se dedicaram ao estudo do desenvolvimento econômico em países da periferia capitalista. De volta à Itália, na década de 70, e depois nos Estados Unidos, a partir dos anos 80, Giovanni Arrighi dedicou quase três décadas de sua vida intelectual ao estudo da "crise da hegemonia americana" dos anos 70, e das transformações econômicas e políticas mundiais das décadas seguintes, que passaram pela expansão vertiginosa da China e de grande parte da Ásia, e chegaram até à crise financeira de 2008.
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quarta-feira, 20 de maio de 2009
América Latina, um continente agnóstico? - por Adrián Sotelo - mais uma resposta a Fiori
Recebemos mais um artigo de polêmica em resposta ao artigo (artigo na Carta Maior) do cientista social brasileiro José Luís Fiori, Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ. Dessa vez, o artigo de resposta foi escrita pelo professor Prof. Adrián Sotelo Valencia, do Centro de Estudos Latino-Americanos da UNAM.
A polêmica - só para lembrar e que aqui já foi publicado, o texto de Fiori e a primeira resposta escrita por Nildo Ouriques - é se existe uma teoria social latino-americana e se ela explica a realidade da região mesmo após as recentes transformações capitalistas. A posição de Fiori é que não existe um pensamento latino-americano - todas as correntes que aqui existiram/existem são/eram versões das correntes do pensamento existente na Europa Ocidental e América do Norte e não conseguiram oferecer um alternativa a esquerda da região.
Adrián Sotelo Valencia segue a mesma linha de Nildo Ouriques e a aperfeiçoa, destacando o fato percebido por ambos que José Luís Fiori, segue a lógica do chamado pensamento "paulista", que ignora deliberadamente a Teoria Marxista da dependência e seus autores, e a armadilha de vários deles, que se renderam na esparrela neoliberal ou estão aprisionados na ilusão do projeto de desenvolvimento nacional por dentro do capitalismo.
O artigo de Valencia é excelente, mas infelizmente está em espanhol
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América Latina, ¿un continente agnóstico?
por Adrián Sotelo, para Rebelión
En un artículo reciente: "América Latina, um continente sem teoría" José Luís Fiori postula que "ya no existe una teoría que sea capaz de leer e interpretar la historia del continente, y fundamentar una estrategia coherente de construcción del futuro…" Para ello hace un somero repaso de la teoría liberal, después identifica tres corrientes del pensamiento latinoamericano inmersas en la llamada teoría de la dependencia para, por último, sustentar esa tesis central a partir de la conversión al neoliberalismo de los principales pensadores e intelectuales de una de esas corrientes encabezada por el sociólogo Fernando Herique Cardoso y su escuela de la dependencia. [ clique aqui para ler mais ]
A polêmica - só para lembrar e que aqui já foi publicado, o texto de Fiori e a primeira resposta escrita por Nildo Ouriques - é se existe uma teoria social latino-americana e se ela explica a realidade da região mesmo após as recentes transformações capitalistas. A posição de Fiori é que não existe um pensamento latino-americano - todas as correntes que aqui existiram/existem são/eram versões das correntes do pensamento existente na Europa Ocidental e América do Norte e não conseguiram oferecer um alternativa a esquerda da região.
Adrián Sotelo Valencia segue a mesma linha de Nildo Ouriques e a aperfeiçoa, destacando o fato percebido por ambos que José Luís Fiori, segue a lógica do chamado pensamento "paulista", que ignora deliberadamente a Teoria Marxista da dependência e seus autores, e a armadilha de vários deles, que se renderam na esparrela neoliberal ou estão aprisionados na ilusão do projeto de desenvolvimento nacional por dentro do capitalismo.
O artigo de Valencia é excelente, mas infelizmente está em espanhol
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América Latina, ¿un continente agnóstico?
por Adrián Sotelo, para Rebelión
En un artículo reciente: "América Latina, um continente sem teoría" José Luís Fiori postula que "ya no existe una teoría que sea capaz de leer e interpretar la historia del continente, y fundamentar una estrategia coherente de construcción del futuro…" Para ello hace un somero repaso de la teoría liberal, después identifica tres corrientes del pensamiento latinoamericano inmersas en la llamada teoría de la dependencia para, por último, sustentar esa tesis central a partir de la conversión al neoliberalismo de los principales pensadores e intelectuales de una de esas corrientes encabezada por el sociólogo Fernando Herique Cardoso y su escuela de la dependencia. [ clique aqui para ler mais ]
sábado, 16 de maio de 2009
A esquerda brasileira e a crise: Fiori vs. Ouriques
por Almir Cezar Filho
A alguns dia publicamos aqui no Blog o artigo de Nildo Ouriques que polemiza com José Luís Fiori sobre os rumos da esquerda brasileira e latino-americana ao longo da História recente e agora no pós-crise econômica mundial.
Hoje publicamos link com artigo original do Fiori e o link com o artigo de polêmica feita pelo Ouriques. No meu entender, o artigo de Ouriques, desconstrói plenamente os argumentos e teses de Fiori, resgatando inclusive o legado histórico da Teoria da Dependência e as polêmicas que essa vertente da ciências sociais suscitou na intelectualidade brasileira.
***
A esquerda e a crise
por José Luís Fiori, www.cartamaior.com.br
Neste período haverá resistência e haverá conflitos sociais agudos, e se a crise se prolongar, deverão se multiplicar as rebeliões sociais e as guerras civis nas zonas de fratura do sistema mundial. Mas do nosso ponto de vista, não haverá uma mudança de modo de produção em escala mundial, nem tampouco ocorrerá uma superação hegeliana do sistema inter-estatal capitalista. A análise é de José Luís Fiori, em artigo escrito para a revista Margem Esquerda, nº 13, que será lançada em breve.
[ Clique aqui para ler ]
***
América Latina, um continente sem teoria?
por Nildo Ouriques, www.cartamaior.com.br
O professor Nildo Ouriques, da UFSC, contesta artigo de José Luís Fiori, publicado nesta página: "No Brasil, o debate acerca da dependência sempre foi mal compreendido. Contudo, este desconhecimento não é resultado do acaso, pois tem sido construído como um instrumento de dominação política e de legitimação do capitalismo dependente no país".
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A alguns dia publicamos aqui no Blog o artigo de Nildo Ouriques que polemiza com José Luís Fiori sobre os rumos da esquerda brasileira e latino-americana ao longo da História recente e agora no pós-crise econômica mundial.
Hoje publicamos link com artigo original do Fiori e o link com o artigo de polêmica feita pelo Ouriques. No meu entender, o artigo de Ouriques, desconstrói plenamente os argumentos e teses de Fiori, resgatando inclusive o legado histórico da Teoria da Dependência e as polêmicas que essa vertente da ciências sociais suscitou na intelectualidade brasileira.
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A esquerda e a crise
por José Luís Fiori, www.cartamaior.com.br
Neste período haverá resistência e haverá conflitos sociais agudos, e se a crise se prolongar, deverão se multiplicar as rebeliões sociais e as guerras civis nas zonas de fratura do sistema mundial. Mas do nosso ponto de vista, não haverá uma mudança de modo de produção em escala mundial, nem tampouco ocorrerá uma superação hegeliana do sistema inter-estatal capitalista. A análise é de José Luís Fiori, em artigo escrito para a revista Margem Esquerda, nº 13, que será lançada em breve.
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América Latina, um continente sem teoria?
por Nildo Ouriques, www.cartamaior.com.br
O professor Nildo Ouriques, da UFSC, contesta artigo de José Luís Fiori, publicado nesta página: "No Brasil, o debate acerca da dependência sempre foi mal compreendido. Contudo, este desconhecimento não é resultado do acaso, pois tem sido construído como um instrumento de dominação política e de legitimação do capitalismo dependente no país".
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domingo, 10 de maio de 2009
"América Latina, um continente sem teoria?" - uma resposta a Fiori - por Nildo Ouriques
Artigo postado no Blog Theotonio dos Santos
América Latina, um continente sem teoria?
por Nildo Ouriques
Em recente artigo – Um continente sem teoria – José Luis Fiori nos oferece uma brevíssima e curiosa história das idéias na América Latina destinada a espetar o liberalismo que sempre se contentou em repetir nos trópicos as teorias “cosmopolitas” que com freqüência colonial aqui se reproduzem. Contudo, neste breve artigo, Fiori adere ao esporte nacional preferido pela intelectualidade paulista: a crítica à interpretação marxista da dependência e o elogio velado “a escola paulista de sociologia”, especialmente aquela vinculada ao nome de Fernando Henrique Cardoso.
[ Para ler mais acesse o Blog Theotonio dos Santos ou clique aqui ]
América Latina, um continente sem teoria?
por Nildo Ouriques
Em recente artigo – Um continente sem teoria – José Luis Fiori nos oferece uma brevíssima e curiosa história das idéias na América Latina destinada a espetar o liberalismo que sempre se contentou em repetir nos trópicos as teorias “cosmopolitas” que com freqüência colonial aqui se reproduzem. Contudo, neste breve artigo, Fiori adere ao esporte nacional preferido pela intelectualidade paulista: a crítica à interpretação marxista da dependência e o elogio velado “a escola paulista de sociologia”, especialmente aquela vinculada ao nome de Fernando Henrique Cardoso.
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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Crise dos EUA e teoria do sistema-mundo
por Almir Cezar
Posto aqui um artigo escrito por Theotonio dos Santos para a revista Teoria&Debate (da Fundação Perseu Abramo). É uma resenha do livro O Longo Século XX do Giovanni Arrighi. Theotonio e Arrighi são dois expoentes na chamada "teoria do sistema-mundo". Em O Longo Século XX Arrighi tenta construir a idéia que o século XX representa maior do que seria cronologicamente é, e sim, o período histórico do capitalismo de configuração enquanto sistema mundial.
Arrighi e Theotonio já anteviam a vários anos a crise na economia dos EUA e perde seu papel no sistema mundial - contrapondo um pouco ao que José Luís Fiori escreve (como está no artigo que postei ontem). Theotonio contudo, afirma que o enfraquecimento dos EUA não implica sua sucessão por algum país da Ásia, como concluirá Arrighi, mas como ele afirma que o processo de fragilização dos EUA vem de um processo a mais tempo do que apenas resultado da presente crise de 2008. Na verdade a crise é a manifestação mais radical desse processo de mais de uma década.
***
Resenhas: A teoria do sistema-mundo
em 31/01/1997 2845 leituras)
O Longo Século XX, de Giovanni Arrighi. Contraponto, Rio de Janeiro, 394 páginas 1996.por Theotônio dos Santos
A tradução para o português de premiado livro de Giovanni Arrighi sobre o longo século XX e a ampla repercussão que alcançou na imprensa brasileira sua presença no país representam o início da atualização do Brasil com uma corrente de pensamento que ocupa um lugar proeminente nas Ciências Sociais contemporâneas. Arrighi faz parte do grupo de cientistas sociais que, desde os anos 70, vem trabalhando sistematicamente numa reinterpretação da história da economia, da sociologia e da antropologia a partir da noção de sistema mundial. Esta categoria de análise arranca de Braudel - na sua recém-traduzida História da Civilização Material - e é trabalhada sistematicamente por lmmanuel Wallerstein no conjunto de livros que vem escrevendo sobre O Moderno Sistema Mundial. Gunder Frank, Samir Amin e outros autores, entre os quais me inscrevo, deram um grande desenvolvimento a este enfoque teórico quase desconhecido no Brasil.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Colapso do poder americano?
Essa é a tese do professor José Luís Fiori, que a crise atual, apesar de seu epicentro ser nos EUA e o fragilizar como nunca, não representa o fim ou colapso de seu poder.
A matéria abaixo me foi enviada pelo meu amigo o pesquisador Henrique Barros do CEPES através da lista epin.
Boa lida.
Livro debate o "mito do colapso do poder americano"
"Os professores José Luís Fiori, Carlos Medeiros e Franklin Serrano, do Núcleo de Estudos Internacionais do Instituto de Economia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) lançam livro defendendo que a crise atual não significa o fim do poder dos EUA ou do capitalismo. Lançamento ocorre nesta quinta, na Livraria Argumento, no Rio de Janeiro.Redação - Carta MaiorA Editora Record e a Livraria Argumento lançam nesta quinta-feira (11), no Rio de Janeiro, o livro “O mito do colapso do poder americano”, de autoria conjunta de José Luís Fiori, Carlos Medeiros e Franklin Serrano professores do Núcleo de Estudos Internacionais do Instituto de Economia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em meio à grave crise econômica que assola todas as nações do planeta, os autores argumentam que a desordem, a crise e as guerras fazem parte de uma transformação de longo prazo, que vem aumentando naturalmente a pressão competitiva dentro do sistema mundial e provocando uma nova corrida imperialista entre as grandes potências. O lançamento ocorrerá às 19 horas, na Livraria Argumento Copacabana (Rua Barata Ribeiro, 502).
O livro surgiu durante uma conversa entre os três professores no final de 2007. Na ocasião, eles debateram sobre a abordagem de políticas internacionais, que acreditavam estar muito defasada , relata Franklin Serrano. Com a recente crise na economia norte-americana, iniciada com o colapso do setor imobiliário, a obra acaba por caracterizar uma fase imediatamente anterior à conjuntura atual. No livro, Carlos Medeiros trata das diferenças no processo de transição para o capitalismo da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e da China. José Luis Fiori, por sua vez, ao contrário do que alguns autores vêm defendendo, argumenta que a crise atual não significa o fim do poder dos Estados Unidos ou do capitalismo. Para Fiori, “apesar da violência desta crise financeira, não deverá haver um vácuo nem uma sucessão na liderança política e militar do sistema mundial”. Do ponto de vista econômico, defende ainda, o mais provável é que ocorra uma fusão financeira cada vez maior entre a China e os EUA.
Segue entrevista concedida por José Luís Fiori ao jornal O Globo (em 30/11/2008), tratando de um dos argumentos centrais do livro:
“Vai haver uma nova corrida imperialista"
Professor e diretor do Programa de Pós-graduação de Economia Política Internacional da UFRJ, José Luís Fiori contesta a tese de que a crise global, que nasceu no berço americano, signifique o fim ou colapso do poder global dos Estados Unidos ou a crise terminal do capitalismo.
No livro que chegou às bancas esta semana, "O mito do colapso do poder americano" (Record), escrito em parceria com Carlos Medeiros e Franklin Serrano, Fiori volta ao século XIII para mostrar o movimento de formação dos Estados nacionais. Ele prevê "nova corrida imperialista", com os EUA no papel central, junto com China e Rússia, indo para África e Ásia Central. E diz que acabou a "adolescência assistida da América do Sul".
No seu livro, o senhor prevê uma nova corrida imperialista. Como isso vai ocorrer, quem serão os atores dessa nova corrida?Fiori: É uma idéia de uma explosão, que eu exponho pela primeira vez nesse livro. Cheguei a essa conclusão, a partir de uma reflexão longa, com um diálogo crítico com toda a teoria dos ciclos hegemônicos. Concordo que os EUA estão enfrentando no campo econômico e de sua estratégia militar internacional uma grande crise. Minha divergência é teórica e tem a ver com a própria déia de que o foco de analise do sistema mundial seja a ascensão e declínio de países tomados individualmente. A minha pesquisa histórica e minha reflexão teórica foram cada vez me fazendo pensar mais na relação da Inglaterra e Estados Unidos, não como uma sucessão de ciclos hegemônicos, e sim, uma continuidade de uma mesma força expansiva anglo-saxônica, que arranca da Holanda, passa pela Inglaterra e chega ao Estados Unidos. Mesmo que aceitasse que houvesse fim do ciclo hegemônico, ela não tem nada a ver com o fim de um modo de produção e da uma formação social.
Globo: Fala-se até em fim do capitalismo... Fiori: Mesmo que acreditasse nesse colapso, o fim da supremacia americana não é o fim do capitalismo. Não vai ser o fim do capital financeiro. Não há nenhum sinal disso. A origem desse sistema mundial que nasce da Europa e é ganhador impõe sua supremacia ao mundo, nas suas formas básicas de organização do poder como estado e da economia como capitalista. Vitória estrondosa que nasce na Europa nos Séculos XII a XIV até o aparecimento das economias nacionais no fim do século XVI. Fernando Braudel sugere que é preciso subir ao sótão para ver as relações do príncipe com o banqueiro. O sistema mundial que nasceu na Europa se assemelha mais a um universo em expansão contínua do que a uma sucessão de ciclos vitais ou biológicos. Como se este sistema acumulasse energia e se expandisse de forma continua desde o século XIII e passando momentos de explosão expansiva, como no século XVI, XIX e agora de novo, neste início do século XXI.
E a globalização? Fiori: O que se globalizou foi o fenômeno do estado nação. Agora tem estado nacional para todos os lados. No início do Século XX, eram no mais 60 países, no máximo. Agora tem 200 estados. O capital, quando mais fortalece e expande, mais fica nacionalista.
Com a crise, isso ficou mais claro? Fiori: Agora só um cego não vê. Ficou transparente a relação inseparável que sempre existiu entre o príncipe e banqueiro, de que fala Braudel.
O senhor quer dizer que não é possível essa separação entre estado e mercado? Fiori: Jamais, porque a união entre o Estado e o capital foi a originalidade da Europa e é a grande fonte da força expansiva vitoriosa deste sistema que nasceu na Europa. Uma teoria que só fale do mercado não dá conta do que seja o capitalismo. Como disse Braudel, "o capitalismo é o antimercado". O pior do ponto de vista ético é que o que "ordena" esse sistema mundial é a possibilidade permanente da guerra, e a existência de "eixos de conflito crônicos". Não são os acordos internacionais ou multilaterais, estes acordos são sempre transitórios, o que permanece é a possibilidade e a preparação permanente para a guerra. Além disto, este sistema em expansão é sempre "imperialista" e neste sentido o imperialismo não é uma etapa superior do capitalismo, é sua condição originária e permanente. Neste sistema interestatal capitalista a sua liderança é sempre coletiva, competitiva e complementar. E seus líderes transitórios nunca desaparecem. Neste sentido, uma vez que se afirmou globalmente o poder americano, ele pode se transformar, mas já não desaparecerá mais, a menos que este sistema ou universo desapareça como um todo. Para bem ou para o mal, já não há possibilidade de uma ordem mundial futura, qualquer que ela seja, sem a presença do poder americano, que jamais vai parar de acumular poder e riqueza, mesmo quando já esteja quilômetros à frente dos seus seguidores e competidores imediatos.
E para onde deve se dar esta nova onda expansiva de que o senhor fala? Fiori: Minha impressão que está expansão competitiva e imperialista se dará imediatamente na África Central, e em um tempo mais, na América do Sul.
Então, a África é o continente da vez? Fiori: Lamentavelmente, porque é um continente que foi punido por todas as ondas expansivas e imperialistas do sistema mundial. Além disso, a competição entre as grandes potências gera "zona de fratura" onde tendem a se multiplicar as guerras civis, como já está acontecendo de novo na África A América do Sul virá logo a seguir por se tratar de um território com imensos recursos energéticos, minerais, hídricos, com zonas de plantações de alimentos espantosamente produtivas e população escassa.
É um território potencial sim. Há sinais disso. Conflitos aqui e lá. Uma manifestação indiscutível de que a região está se integrando dentro do sistema mundial de competição entre as nações. Já não há mais espaço vazio. Todos estão dentro da zona de pressão competitiva global. Neste sentido, costumo dizer que acabou a "adolescência assistida" da América Latina. Chegou a hora de caminhar com as próprias pernas dentro de um mundo cada vez mais complexo. O nível de relacionamento econômico, trocas, de comércio e investimento, está crescendo. As conexões energéticas e de transporte estão se adensando. Seremos em breve os maiores exportadores de alimentos do mundo, e a Argentina já ocupa um lugar de destaque neste campo. Não é uma coisa trivial. E há o petróleo. A água é questão essencial.
Já há sinais disso? Fiori: Por todo o lado. Pequenos conflitos já são manifestações de coisas que estão em curso. Você vê menos porque a América Latina é uma região sabidamente de supremacia americana. Mas a ativação da IV frota americana é um exemplo deste aumento da preocupação com o continente. Estas disputas no continente não passam apenas pelo interesse e a competição externa, passam também pela expansão do Brasil e dos seus interesses econômicos e políticos que também vão se internacionalizando rapidamente. Aqui também, este aumento da pressão competitiva tende a criar novas "zonas de fratura", ativando assimetrias e diferençaspreexistentes que acabam se transformando quase invariavelmente em guerras civis ou regionais, como acontece em todo o mundo. As assimetrias e conflitos locais que estavam latentes e que se transformam em conflitos vivos.
E a Rússia? Fiori: Na verdade, um dos grandes desestabilizadores do sistema mundial nas próximas décadas deverá ser a Rússia e não a China. A Rússia foi a grande derrotada deste final do século XX, e perdeu cerca de um terço do território do seu velho império. Daqui para frente sua estratégia estará sempre voltada para a recuperação total ou parcial de suas perdas. Isso será um fator básico de contestação de qualquer nova ordem que nasça nas próximas décadas. É inevitável. Não há como a política externa e a estratégia internacional da Rússia não estarem orientadas nos próximos 50 anos pela perdas que teve nos últimos 15 anos. Não há como. É da lógica do sistema, é da história.
Por que? Fiori: Não se tira um terço de seu território e de sua população sem provocar uma resposta. Ninguém, nenhum povo jamais aceitou pacificamente este tipo de amputação.
No seu livro, o senhor diz que não haverá um duelo final entre China e Estados Unidos. Fiori: Nem haverá um duelo final e a integração financeira só tende a crescer, numa aliança virtuosíssima. Isso não quer dizer que não vão competir fortemente pelo controle de energia e de alimentos...
E o Obama? Fiori: Frente a uma situação como a que estamos vivendo, não há conversa. É uma crise econômica, profunda, extensa, gravíssima, prolongada. A isso se junta a incerteza do ponto de vista estratégico militar americano depois do fracasso no Oriente Médio. A junção das duas coisas cria um situação de grande complexidade seja na administração da crise econômica, seja na reorientação da estratégia militarinternacional dos EUA.
E a sua futura política externa? Fiori: Neste campo, muitos depositam expectativas contraditórias no novo governo americano. Mas, o programa democrata da sra. Hillary como o de Obama são explicitamente intervencionistas. Além disto, a provável futura secretária de Estado, sra. Hillary Clinton, foi a favor da guerra no Iraque. E no governo de Bill Clinton, os Estados Unidos fizeram cerca de 48 intervenções ao redor do mundo ao contrário do que se imagina do que foi a década de 90. Os Estados Unidos têm hoje acordo militar com cerca de 130 países e tem mais de 700 bases militares ao redor do mundo. Os EUA não têm mais como recuar desta posição global. Enfrentarão dificuldades e contradições crescentes, mas não recuarão por sua própria vontade.
O senhor diz que o Brasil não terá uma presença internacional maior, que vai consolidar sua posição na América do Sul. Fiori: O que digo é que o Brasil não tem capacidade nem mostra interesse em projetar globalmente o seu poder. Mas sim tem um poder e capacidade crescente dentro da América do Sul. Neste sentido, deve se prever uma tensão maior entre o Brasil e a nova administração democrata do que a que houve durante a administração republicana. Haverá disputa de interesses de todos os tipos crescentemente, mas não quer dizer que haverá um rompimento com os Estados. Pela tradição dos democratas, e pelos programas de Obama e Clinton, pode-se prever uma intervenção americana maior na América do Sul. Portanto, deverão surgir mais áreas de divergência entre o Brasil e os EUA. É natural que assim seja. Eu diria que é inevitável. Além disso, o Brasil tem alargado sua presença em vários cenários, e instâncias multilaterais, isso o Brasil expandiu muito. Relações com a África, com a Ásia, o G-20. Mas isso é diferente de ter uma capacidade de projeção global de poder que tem a ver Basicamente com canhão e capital.
O senhor acredita numa mudança na engenharia financeira depois da crise? Fiori: Sim, mas sem qualquer tipo de acordo ou regulação multilateral . Mais uma vez, como nas década de 70 e 80, os EUA vão tentar reorganizar e regular o sistema a partir de si mesmo. O resto serão reuniões e discursos. Bom material para discussões de intelectuais e teses acadêmicas. Mas que não servirão para mais nada do que isto.
A matéria abaixo me foi enviada pelo meu amigo o pesquisador Henrique Barros do CEPES através da lista epin.
Boa lida.
Livro debate o "mito do colapso do poder americano"
"Os professores José Luís Fiori, Carlos Medeiros e Franklin Serrano, do Núcleo de Estudos Internacionais do Instituto de Economia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) lançam livro defendendo que a crise atual não significa o fim do poder dos EUA ou do capitalismo. Lançamento ocorre nesta quinta, na Livraria Argumento, no Rio de Janeiro.Redação - Carta MaiorA Editora Record e a Livraria Argumento lançam nesta quinta-feira (11), no Rio de Janeiro, o livro “O mito do colapso do poder americano”, de autoria conjunta de José Luís Fiori, Carlos Medeiros e Franklin Serrano professores do Núcleo de Estudos Internacionais do Instituto de Economia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em meio à grave crise econômica que assola todas as nações do planeta, os autores argumentam que a desordem, a crise e as guerras fazem parte de uma transformação de longo prazo, que vem aumentando naturalmente a pressão competitiva dentro do sistema mundial e provocando uma nova corrida imperialista entre as grandes potências. O lançamento ocorrerá às 19 horas, na Livraria Argumento Copacabana (Rua Barata Ribeiro, 502).
O livro surgiu durante uma conversa entre os três professores no final de 2007. Na ocasião, eles debateram sobre a abordagem de políticas internacionais, que acreditavam estar muito defasada , relata Franklin Serrano. Com a recente crise na economia norte-americana, iniciada com o colapso do setor imobiliário, a obra acaba por caracterizar uma fase imediatamente anterior à conjuntura atual. No livro, Carlos Medeiros trata das diferenças no processo de transição para o capitalismo da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e da China. José Luis Fiori, por sua vez, ao contrário do que alguns autores vêm defendendo, argumenta que a crise atual não significa o fim do poder dos Estados Unidos ou do capitalismo. Para Fiori, “apesar da violência desta crise financeira, não deverá haver um vácuo nem uma sucessão na liderança política e militar do sistema mundial”. Do ponto de vista econômico, defende ainda, o mais provável é que ocorra uma fusão financeira cada vez maior entre a China e os EUA.
Segue entrevista concedida por José Luís Fiori ao jornal O Globo (em 30/11/2008), tratando de um dos argumentos centrais do livro:
“Vai haver uma nova corrida imperialista"
Professor e diretor do Programa de Pós-graduação de Economia Política Internacional da UFRJ, José Luís Fiori contesta a tese de que a crise global, que nasceu no berço americano, signifique o fim ou colapso do poder global dos Estados Unidos ou a crise terminal do capitalismo.
No livro que chegou às bancas esta semana, "O mito do colapso do poder americano" (Record), escrito em parceria com Carlos Medeiros e Franklin Serrano, Fiori volta ao século XIII para mostrar o movimento de formação dos Estados nacionais. Ele prevê "nova corrida imperialista", com os EUA no papel central, junto com China e Rússia, indo para África e Ásia Central. E diz que acabou a "adolescência assistida da América do Sul".
No seu livro, o senhor prevê uma nova corrida imperialista. Como isso vai ocorrer, quem serão os atores dessa nova corrida?Fiori: É uma idéia de uma explosão, que eu exponho pela primeira vez nesse livro. Cheguei a essa conclusão, a partir de uma reflexão longa, com um diálogo crítico com toda a teoria dos ciclos hegemônicos. Concordo que os EUA estão enfrentando no campo econômico e de sua estratégia militar internacional uma grande crise. Minha divergência é teórica e tem a ver com a própria déia de que o foco de analise do sistema mundial seja a ascensão e declínio de países tomados individualmente. A minha pesquisa histórica e minha reflexão teórica foram cada vez me fazendo pensar mais na relação da Inglaterra e Estados Unidos, não como uma sucessão de ciclos hegemônicos, e sim, uma continuidade de uma mesma força expansiva anglo-saxônica, que arranca da Holanda, passa pela Inglaterra e chega ao Estados Unidos. Mesmo que aceitasse que houvesse fim do ciclo hegemônico, ela não tem nada a ver com o fim de um modo de produção e da uma formação social.
Globo: Fala-se até em fim do capitalismo... Fiori: Mesmo que acreditasse nesse colapso, o fim da supremacia americana não é o fim do capitalismo. Não vai ser o fim do capital financeiro. Não há nenhum sinal disso. A origem desse sistema mundial que nasce da Europa e é ganhador impõe sua supremacia ao mundo, nas suas formas básicas de organização do poder como estado e da economia como capitalista. Vitória estrondosa que nasce na Europa nos Séculos XII a XIV até o aparecimento das economias nacionais no fim do século XVI. Fernando Braudel sugere que é preciso subir ao sótão para ver as relações do príncipe com o banqueiro. O sistema mundial que nasceu na Europa se assemelha mais a um universo em expansão contínua do que a uma sucessão de ciclos vitais ou biológicos. Como se este sistema acumulasse energia e se expandisse de forma continua desde o século XIII e passando momentos de explosão expansiva, como no século XVI, XIX e agora de novo, neste início do século XXI.
E a globalização? Fiori: O que se globalizou foi o fenômeno do estado nação. Agora tem estado nacional para todos os lados. No início do Século XX, eram no mais 60 países, no máximo. Agora tem 200 estados. O capital, quando mais fortalece e expande, mais fica nacionalista.
Com a crise, isso ficou mais claro? Fiori: Agora só um cego não vê. Ficou transparente a relação inseparável que sempre existiu entre o príncipe e banqueiro, de que fala Braudel.
O senhor quer dizer que não é possível essa separação entre estado e mercado? Fiori: Jamais, porque a união entre o Estado e o capital foi a originalidade da Europa e é a grande fonte da força expansiva vitoriosa deste sistema que nasceu na Europa. Uma teoria que só fale do mercado não dá conta do que seja o capitalismo. Como disse Braudel, "o capitalismo é o antimercado". O pior do ponto de vista ético é que o que "ordena" esse sistema mundial é a possibilidade permanente da guerra, e a existência de "eixos de conflito crônicos". Não são os acordos internacionais ou multilaterais, estes acordos são sempre transitórios, o que permanece é a possibilidade e a preparação permanente para a guerra. Além disto, este sistema em expansão é sempre "imperialista" e neste sentido o imperialismo não é uma etapa superior do capitalismo, é sua condição originária e permanente. Neste sistema interestatal capitalista a sua liderança é sempre coletiva, competitiva e complementar. E seus líderes transitórios nunca desaparecem. Neste sentido, uma vez que se afirmou globalmente o poder americano, ele pode se transformar, mas já não desaparecerá mais, a menos que este sistema ou universo desapareça como um todo. Para bem ou para o mal, já não há possibilidade de uma ordem mundial futura, qualquer que ela seja, sem a presença do poder americano, que jamais vai parar de acumular poder e riqueza, mesmo quando já esteja quilômetros à frente dos seus seguidores e competidores imediatos.
E para onde deve se dar esta nova onda expansiva de que o senhor fala? Fiori: Minha impressão que está expansão competitiva e imperialista se dará imediatamente na África Central, e em um tempo mais, na América do Sul.
Então, a África é o continente da vez? Fiori: Lamentavelmente, porque é um continente que foi punido por todas as ondas expansivas e imperialistas do sistema mundial. Além disso, a competição entre as grandes potências gera "zona de fratura" onde tendem a se multiplicar as guerras civis, como já está acontecendo de novo na África A América do Sul virá logo a seguir por se tratar de um território com imensos recursos energéticos, minerais, hídricos, com zonas de plantações de alimentos espantosamente produtivas e população escassa.
É um território potencial sim. Há sinais disso. Conflitos aqui e lá. Uma manifestação indiscutível de que a região está se integrando dentro do sistema mundial de competição entre as nações. Já não há mais espaço vazio. Todos estão dentro da zona de pressão competitiva global. Neste sentido, costumo dizer que acabou a "adolescência assistida" da América Latina. Chegou a hora de caminhar com as próprias pernas dentro de um mundo cada vez mais complexo. O nível de relacionamento econômico, trocas, de comércio e investimento, está crescendo. As conexões energéticas e de transporte estão se adensando. Seremos em breve os maiores exportadores de alimentos do mundo, e a Argentina já ocupa um lugar de destaque neste campo. Não é uma coisa trivial. E há o petróleo. A água é questão essencial.
Já há sinais disso? Fiori: Por todo o lado. Pequenos conflitos já são manifestações de coisas que estão em curso. Você vê menos porque a América Latina é uma região sabidamente de supremacia americana. Mas a ativação da IV frota americana é um exemplo deste aumento da preocupação com o continente. Estas disputas no continente não passam apenas pelo interesse e a competição externa, passam também pela expansão do Brasil e dos seus interesses econômicos e políticos que também vão se internacionalizando rapidamente. Aqui também, este aumento da pressão competitiva tende a criar novas "zonas de fratura", ativando assimetrias e diferençaspreexistentes que acabam se transformando quase invariavelmente em guerras civis ou regionais, como acontece em todo o mundo. As assimetrias e conflitos locais que estavam latentes e que se transformam em conflitos vivos.
E a Rússia? Fiori: Na verdade, um dos grandes desestabilizadores do sistema mundial nas próximas décadas deverá ser a Rússia e não a China. A Rússia foi a grande derrotada deste final do século XX, e perdeu cerca de um terço do território do seu velho império. Daqui para frente sua estratégia estará sempre voltada para a recuperação total ou parcial de suas perdas. Isso será um fator básico de contestação de qualquer nova ordem que nasça nas próximas décadas. É inevitável. Não há como a política externa e a estratégia internacional da Rússia não estarem orientadas nos próximos 50 anos pela perdas que teve nos últimos 15 anos. Não há como. É da lógica do sistema, é da história.
Por que? Fiori: Não se tira um terço de seu território e de sua população sem provocar uma resposta. Ninguém, nenhum povo jamais aceitou pacificamente este tipo de amputação.
No seu livro, o senhor diz que não haverá um duelo final entre China e Estados Unidos. Fiori: Nem haverá um duelo final e a integração financeira só tende a crescer, numa aliança virtuosíssima. Isso não quer dizer que não vão competir fortemente pelo controle de energia e de alimentos...
E o Obama? Fiori: Frente a uma situação como a que estamos vivendo, não há conversa. É uma crise econômica, profunda, extensa, gravíssima, prolongada. A isso se junta a incerteza do ponto de vista estratégico militar americano depois do fracasso no Oriente Médio. A junção das duas coisas cria um situação de grande complexidade seja na administração da crise econômica, seja na reorientação da estratégia militarinternacional dos EUA.
E a sua futura política externa? Fiori: Neste campo, muitos depositam expectativas contraditórias no novo governo americano. Mas, o programa democrata da sra. Hillary como o de Obama são explicitamente intervencionistas. Além disto, a provável futura secretária de Estado, sra. Hillary Clinton, foi a favor da guerra no Iraque. E no governo de Bill Clinton, os Estados Unidos fizeram cerca de 48 intervenções ao redor do mundo ao contrário do que se imagina do que foi a década de 90. Os Estados Unidos têm hoje acordo militar com cerca de 130 países e tem mais de 700 bases militares ao redor do mundo. Os EUA não têm mais como recuar desta posição global. Enfrentarão dificuldades e contradições crescentes, mas não recuarão por sua própria vontade.
O senhor diz que o Brasil não terá uma presença internacional maior, que vai consolidar sua posição na América do Sul. Fiori: O que digo é que o Brasil não tem capacidade nem mostra interesse em projetar globalmente o seu poder. Mas sim tem um poder e capacidade crescente dentro da América do Sul. Neste sentido, deve se prever uma tensão maior entre o Brasil e a nova administração democrata do que a que houve durante a administração republicana. Haverá disputa de interesses de todos os tipos crescentemente, mas não quer dizer que haverá um rompimento com os Estados. Pela tradição dos democratas, e pelos programas de Obama e Clinton, pode-se prever uma intervenção americana maior na América do Sul. Portanto, deverão surgir mais áreas de divergência entre o Brasil e os EUA. É natural que assim seja. Eu diria que é inevitável. Além disso, o Brasil tem alargado sua presença em vários cenários, e instâncias multilaterais, isso o Brasil expandiu muito. Relações com a África, com a Ásia, o G-20. Mas isso é diferente de ter uma capacidade de projeção global de poder que tem a ver Basicamente com canhão e capital.
O senhor acredita numa mudança na engenharia financeira depois da crise? Fiori: Sim, mas sem qualquer tipo de acordo ou regulação multilateral . Mais uma vez, como nas década de 70 e 80, os EUA vão tentar reorganizar e regular o sistema a partir de si mesmo. O resto serão reuniões e discursos. Bom material para discussões de intelectuais e teses acadêmicas. Mas que não servirão para mais nada do que isto.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Competição imperialista global
Recebi do meu amigo Henrique Barros, pesquisador do CEPES, centro de estudos, pesquisas e planejamento econômicos-sociais, esse texto de José Luís Fiori, professor do instituto de economia da UFRJ, sobre as mudanças na geopolítica mundial e na dinâmica social em decorrência da presente crise econômica mundial.
O texto me foi enviado pela lista do grupo de discussão sobre Economia Política Internacional que Henrique vem organizando para debate a crise o endereço eletrônico para mensagens é epin@yahoogrupos.com.br .
O Fantasma das rebeliões
"O mais provável é que voltem à ordem do dia as revoltas e revoluções sociais. Elas não serão socialistas nem proletárias, mas adquirirão maior intensidade e violência nos territórios situados em "zonas de fratura [1]"
José Luís Fiori(12/12/2008)
Não existe uma teoria da revolução, existem várias. Mas quase todas reconhecem a existência de um denominador comum. Na experiência revolucionária dos séculos 19 e 20, as revoltas acontecem - quase sempre - em sociedades fraturadas, com estados enfraquecidos pelas guerras e por grandes crises econômicas, e situados em "zonas de fratura", onde se concentra a pressão geopolítica da disputa entre as grandes potências. São nestes territórios, que costumam nascer e multiplicar as rebeliões mais importantes e resistentes. Sempre violentas, não tem homogeneidade ideológica e não produzem grandes mudanças estruturais imediatas, como costuma acontecer no caso das revoluções sociais e políticas bem sucedidas. Pois bem, se esta tese for correta, não é difícil de prever o novo mapa mundial das rebeliões, deste início do século 21. Basta seguir os passos da competição geopolítica e econômica das grandes potências, depois do fim da Guerra Fria, e localizar os seus pontos de maior pressão competitiva, onde estas potências exercem de forma mais direta sua capacidade de dividir e mobilizar as forças locais, umas contra as outras, dentro dos estados situados nestes "tabuleiros geopolíticos" mais disputados. Alguns destes pontos são mais visíveis, e de explosividade imediata. Outros, são menos visíveis e de combustão mais lenta.Tudo começou em 1991, com a desintegração da União Soviética e a entrada das forças OTAN ou dos EUA, na Europa Central, nos Bálcãs, no Cáucaso e na Ásia Central - região mundial de maior complexidade geopolítica, envolvendo os territórios do Afeganistão, Paquistão, Norte da Índia, Cashemira e Tibet. Não havia nenhuma grande potência que não estivesse envolvida em alguma destas áreas e na disputas pelo seu controle. Utilizavam ou incentivavam grupos e organizações locais, de todo tipo, numa sucessão de revoltas, rebeliões, atentados terroristas e guerras civis que não tinham como parar, a menos de um acordo multilateral improvável, ou de uma retirada de todas as grandes potencias envolvidas, o que é rigorosamente impossível do ponto de vista da lógica do sistema e dos interesses e posições que já tinham sido ocupadas pelos participantes daquele novo "grande jogo". Alfred Mackinder e Nicholas Spykman - os dois maiores teóricos geopolíticos anglo-americanos - definiram esta faixa de terra que vai do Báltico até a China, como uma fronteira decisiva para o controle do poder mundial, situada entre as "potências marítimas" e as "grandes potências terrestres", ou seja, entre a Grã Bretanha e os Estados Unidos, de um lado, e do outro, sobretudo, a Rússia e a China.Logo em seguida, neste "mapa da pólvora", apareceu a África Negra. Depois de 2001, os EUA mudaram sua política externa e aumentaram sua presença no continente africano. Mas tal mudança de posição não foi um fenômeno isolado, e foi seguida pela União Européia, Rússia, China, Índia, e também pelo Brasil. Em poucos anos, o cenário africano mudou. Aumentou a competição imperialista, e de novo, como nos séculos anteriores, as potências e suas grandes empresas utilizam a seu favor, e muitas vezes incentivam , as lutas tribais e as guerras locais, entre os estados que nasceram da decomposição dos seus próprios impérios coloniais. Neste momento, já estavam em curso rebeliões e guerras civis, no Congo, na Somália, no Zimbábue e na Nigéria, com participação de países e empresas de fora da África, e com o envolvimento direto de Angola, Ruanda, Namíbia e Burundi. Também neste caso, não havia perspectiva de acordo local, ou de retirada das grandes potências, e o mais provável é que a África se transformasse - uma vez mais - em território privilegiado da corrida imperialista e num verdadeiro "semilheiro" de rebeliões de todo tipo.
Tudo indica que a América do Sul foi incorporada e não tem mais como escapar da pressão competitiva mundial
E o que se pode prever com relação à América do Sul? Durante os séculos 19 e 20, foi uma região de influência anglo-americana, sem grandes disputas imperialistas. Mas neste início do século 21, o cenário e as perspectivas mudaram. De forma lenta, mas implacável, a pressão da nova corrida imperialista, que começou na década de 90, está alcançando a América do Sul e deve produzir os mesmo efeitos do resto do mundo. Já fazem parte deste processo, o envolvimento militar americano com a Colômbia, a reativação da IV Frota Naval dos EUA para o Atlântico Sul, a intensificação dos conflitos fronteiriços entre Venezuela, Colômbia e Equador, e os conflitos internos da Bolívia e da própria Colômbia. Mas também: a criação da UNASUL e do Conselho de Defesa da América do Sul, e todos os projetos políticos e econômicos de integração regional, assim como os grandes projetos de integração comercial e de investimento produtivo na região, da UE, da China, da Rússia, e demais países de fora do continente. Tudo indica que a América do Sul foi incorporada e não tem mais como escapar da pressão competitiva mundial, produzindo uma maior integração do continente mas também, uma maior disputa entre os seus estados, e em particular, entre o Brasil, os Estados Unidos.
Nesta mesma direção, algumas áreas da América do Sul também devem transformar-se em "zonas de fratura" internacional, e aí podem surgir conflitos e rebeliões que envolvam as grandes potências e as empresas que competem pelo controle da região. E no caso das regiões de maior densidade indígena, nos próximos anos, estas rebeliões tenderão a ser de direita, brancas e racistas.Finalmente, sobre este pano de fundo de deve e pode calcular o impacto da nova crise econômica mundial. Será prolongado e deverá atingir todas estas "zonas de fratura", acentuando suas tendências mais perversas. Por isto, neste momento, apesar de que se fale muito de economia, existe um outro fantasma que ronda o mundo e assusta mais os seus dirigentes: o fantasma das rebeliões.
[1] José Luis Fiori, Valor Econômico, 5/11/2008
O texto me foi enviado pela lista do grupo de discussão sobre Economia Política Internacional que Henrique vem organizando para debate a crise o endereço eletrônico para mensagens é epin@yahoogrupos.com.br .
O Fantasma das rebeliões
"O mais provável é que voltem à ordem do dia as revoltas e revoluções sociais. Elas não serão socialistas nem proletárias, mas adquirirão maior intensidade e violência nos territórios situados em "zonas de fratura [1]"
José Luís Fiori(12/12/2008)
Não existe uma teoria da revolução, existem várias. Mas quase todas reconhecem a existência de um denominador comum. Na experiência revolucionária dos séculos 19 e 20, as revoltas acontecem - quase sempre - em sociedades fraturadas, com estados enfraquecidos pelas guerras e por grandes crises econômicas, e situados em "zonas de fratura", onde se concentra a pressão geopolítica da disputa entre as grandes potências. São nestes territórios, que costumam nascer e multiplicar as rebeliões mais importantes e resistentes. Sempre violentas, não tem homogeneidade ideológica e não produzem grandes mudanças estruturais imediatas, como costuma acontecer no caso das revoluções sociais e políticas bem sucedidas. Pois bem, se esta tese for correta, não é difícil de prever o novo mapa mundial das rebeliões, deste início do século 21. Basta seguir os passos da competição geopolítica e econômica das grandes potências, depois do fim da Guerra Fria, e localizar os seus pontos de maior pressão competitiva, onde estas potências exercem de forma mais direta sua capacidade de dividir e mobilizar as forças locais, umas contra as outras, dentro dos estados situados nestes "tabuleiros geopolíticos" mais disputados. Alguns destes pontos são mais visíveis, e de explosividade imediata. Outros, são menos visíveis e de combustão mais lenta.Tudo começou em 1991, com a desintegração da União Soviética e a entrada das forças OTAN ou dos EUA, na Europa Central, nos Bálcãs, no Cáucaso e na Ásia Central - região mundial de maior complexidade geopolítica, envolvendo os territórios do Afeganistão, Paquistão, Norte da Índia, Cashemira e Tibet. Não havia nenhuma grande potência que não estivesse envolvida em alguma destas áreas e na disputas pelo seu controle. Utilizavam ou incentivavam grupos e organizações locais, de todo tipo, numa sucessão de revoltas, rebeliões, atentados terroristas e guerras civis que não tinham como parar, a menos de um acordo multilateral improvável, ou de uma retirada de todas as grandes potencias envolvidas, o que é rigorosamente impossível do ponto de vista da lógica do sistema e dos interesses e posições que já tinham sido ocupadas pelos participantes daquele novo "grande jogo". Alfred Mackinder e Nicholas Spykman - os dois maiores teóricos geopolíticos anglo-americanos - definiram esta faixa de terra que vai do Báltico até a China, como uma fronteira decisiva para o controle do poder mundial, situada entre as "potências marítimas" e as "grandes potências terrestres", ou seja, entre a Grã Bretanha e os Estados Unidos, de um lado, e do outro, sobretudo, a Rússia e a China.Logo em seguida, neste "mapa da pólvora", apareceu a África Negra. Depois de 2001, os EUA mudaram sua política externa e aumentaram sua presença no continente africano. Mas tal mudança de posição não foi um fenômeno isolado, e foi seguida pela União Européia, Rússia, China, Índia, e também pelo Brasil. Em poucos anos, o cenário africano mudou. Aumentou a competição imperialista, e de novo, como nos séculos anteriores, as potências e suas grandes empresas utilizam a seu favor, e muitas vezes incentivam , as lutas tribais e as guerras locais, entre os estados que nasceram da decomposição dos seus próprios impérios coloniais. Neste momento, já estavam em curso rebeliões e guerras civis, no Congo, na Somália, no Zimbábue e na Nigéria, com participação de países e empresas de fora da África, e com o envolvimento direto de Angola, Ruanda, Namíbia e Burundi. Também neste caso, não havia perspectiva de acordo local, ou de retirada das grandes potências, e o mais provável é que a África se transformasse - uma vez mais - em território privilegiado da corrida imperialista e num verdadeiro "semilheiro" de rebeliões de todo tipo.
Tudo indica que a América do Sul foi incorporada e não tem mais como escapar da pressão competitiva mundial
E o que se pode prever com relação à América do Sul? Durante os séculos 19 e 20, foi uma região de influência anglo-americana, sem grandes disputas imperialistas. Mas neste início do século 21, o cenário e as perspectivas mudaram. De forma lenta, mas implacável, a pressão da nova corrida imperialista, que começou na década de 90, está alcançando a América do Sul e deve produzir os mesmo efeitos do resto do mundo. Já fazem parte deste processo, o envolvimento militar americano com a Colômbia, a reativação da IV Frota Naval dos EUA para o Atlântico Sul, a intensificação dos conflitos fronteiriços entre Venezuela, Colômbia e Equador, e os conflitos internos da Bolívia e da própria Colômbia. Mas também: a criação da UNASUL e do Conselho de Defesa da América do Sul, e todos os projetos políticos e econômicos de integração regional, assim como os grandes projetos de integração comercial e de investimento produtivo na região, da UE, da China, da Rússia, e demais países de fora do continente. Tudo indica que a América do Sul foi incorporada e não tem mais como escapar da pressão competitiva mundial, produzindo uma maior integração do continente mas também, uma maior disputa entre os seus estados, e em particular, entre o Brasil, os Estados Unidos.
Nesta mesma direção, algumas áreas da América do Sul também devem transformar-se em "zonas de fratura" internacional, e aí podem surgir conflitos e rebeliões que envolvam as grandes potências e as empresas que competem pelo controle da região. E no caso das regiões de maior densidade indígena, nos próximos anos, estas rebeliões tenderão a ser de direita, brancas e racistas.Finalmente, sobre este pano de fundo de deve e pode calcular o impacto da nova crise econômica mundial. Será prolongado e deverá atingir todas estas "zonas de fratura", acentuando suas tendências mais perversas. Por isto, neste momento, apesar de que se fale muito de economia, existe um outro fantasma que ronda o mundo e assusta mais os seus dirigentes: o fantasma das rebeliões.
[1] José Luis Fiori, Valor Econômico, 5/11/2008
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