por Almir Cezar Filho
Hoje dia 20 fará exatos um mês de falecimento do economista político italiano radicado nos EUA Giovanni Arrighi. Curiosamente, apesar de certa popularidade por aqui pelo Brasil, obtida especialmente após a publicação de O Longo Século XX, houve um total silêncio na grande mídia sobre sua morte.
Nascido em 1937 na Itália, falecido em Baltimore, EUA em 20 de junho de 2009, Giovanni Arrighi se formou como economista neoclássico em Milão, Itália. Foi doutor em Economia e catedrático de Sociologia na Universidade estadual de Nova York (campus de Binghamton) e professor de Sociologia e gerente do Instituto para Estudos Globais em Cultura, Poder e História da Universidade Johns Hopkins, ambas instituições localizadas nos Estados Unidos da América. Atuou principalmente no campo da sociologia comparativa e história, na análise do sistema mundial e em sociologia econômica.
É um dos 5 principais autores sobre a Teoria do Sistema Mundial, juntamente com o seu fundador Immanuel Wallerstein, Samir Amim, Theotonio dos Santos e o falecido em 2005 André Gunder Frank. Seus livros mais recentes são "O Longo Século XX", "Caos e Governabilidade no Moderno Sistema Mundial" (em co-autoria com a esposa e companheira intelectual Beverly Silver) e "Adam Smith em Pequim". Em conjunto, formam sua trilogia sobre o capitalismo em perspectiva histórico-mundial.
Sua morte, pelo câncer, que lutava por vários meses, ceifou justamente em um momento de intensa produção intelectual.
Postamos aqui dois vídeos onde Arrighi expõe suas ideias. No primeiro é um auto-depoimento de Arrighi entitulado "Lendo Karl Polanyi em Pequim" preparado para o Encontro internacional sobre Karl Polanyi ocorrido em 2008 em Montreal, Canadá e cujo título é um trocadilho com o título de seu famoso livro "Adam Smith em Pequim".
O segundo é uma entrevista concedida em 2005 em Madri para a Universidade Nômade.
Fontes: "http://pt.wikipedia.org/wiki/Giovanni_Arrighi"
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segunda-feira, 20 de julho de 2009
Um mês sem Giovanni Arrighi, o escritor de "O longo século XX"
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Depressão, uma visão de longa duração - artigo de Immanuel Walerstein
Um breve artigo do pensador IMMANUEL WALERSTEIN, um dos maiores expoentes da teoria do sistema mundo, aporte desenvolvida também por André Gunder Frank, Giovanni Arrighi, Theotonio dos Santos e Samir Amim.
(http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15320)
Estamos nos movendo em direção a um mundo protecionista. Estamos nos movendo para um papel muito maior do governo na produção. Mesmo os EUA e a Grã Bretanha estão nacionalizando parcialmente os bancos e as grandes empresas moribundas. Nos dirigimos a uma distribuição conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à centro-esquerda ou formas autoritárias de extrema direita.
Immanuel Wallerstein - La Jornada
Tradução: Katarina Peixoto
A depressão já começou. Alguns jornalistas, um tanto constrangidos, seguem perguntando aos economistas se talvez não estejamos só entrando numa mera recessão. Não creia neles nem por um minuto. Já estamos no começo de uma depressão mundial de grande envergadura com desemprego maciço em quase todas as partes. Pode assumir a forma de uma deflação nominal clássica, com todas as suas conseqüências para as pessoas comuns. É um pouco menos provável que assuma a forma de uma inflação galopante, que é somente uma outra forma de deflacionar valores, inclusive pior para as pessoas comuns. É claro que todo mundo se pergunta o que disparou essa depressão. Serão os derivativos, que Warren Buffett chama de "armas financeiras de destruição em massa"? Ou são, por acaso, as hipotecas subprime? Ou os especuladores do petróleo? Julgar culpas não tem importância real. Isso é concentrar-se na poeira, como dizia Fernand Braudel, dos eventos de curta duração. Se quisermos entender o que está ocorrendo necessitamos lançar um olhar amplo para outras temporalidades, que são muito mais reveladoras. Um é o dos vai-e-vens cíclicos de média duração. O outro é aquele das tendências estruturais de longa duração. A economia-mundo capitalista teve, durante vários séculos, pelo menos duas formas de vai-e-vens cíclicos. Uns são os chamados ciclos de Kondratieff, que historicamente teriam uma duração de 50-60 anos. E outros são os ciclos hegemônicos, que são muito mais longos.Em termos de ciclos hegemônicos, os EUA foram um adversário dessa hegemonia nos idos de 1873; conseguiu sua hegemonia depois de 1945 e vem declinando desde os anos 70. As loucuras de George W. Bush transformaram esse declínio lento em precipitado. E agora já estamos longe de qualquer retomada da hegemonia estadunidense. Entramos, como acontece normalmente, num mundo multipolar. Os EUA permanecem como potência forte, talvez a mais forte, mas continuará declinando em relação a outras potências, nas próximas décadas. Não há muito o que alguém possa fazer para mudar isso. Os ciclos de Kondratieff têm uma temporalidade diferente. O mundo saiu da última fase B do ciclo Kondratieff em 1945, e então o retorno mais forte à fase A vem ocorrendo, na história do sistema-mundo moderno. Chegou ao seu clímax por volta de 1967-1973, e começou o seu descenso. Esta fase B foi muito mais longa que as fases B anteriores e seguimos nela. As características de uma fase B de Kondratieff são bem conhecidas e coincidem com o que a economia-mundo vem experimentado desde os anos 70. As taxas de lucro nas atividades produtivas baixam, especialmente naqueles tipos de produção que tenham sido mais rentáveis. Em conseqüência, os capitalistas que desejem níveis de lucro realmente altos se inclinam para o setor financeiro, e se envolvem no que basicamente é especulação. Para que as atividades produtivas não se tornem tão pouco rentáveis, têm de mudar-se das zonas centrais para outras partes do sistema-mundo, negociando custos menores de transação com mão-de-obra mais barata. É por isso que começam a desaparecer os empregos em Detroit, Essen e Nagoya, e a se expandirem nas fábricas da China, da Índia e do Brasil.Quanto às bolhas especulativas, algumas pessoas sempre fazem muito dinheiro com elas. Só que cedo ou tarde as bolhas especulativas sempre arrebentam. Se se pergunta por que essa fase B do ciclo Kondratieff durou tanto, é porque os poderes existentes - o Departamento do Tesouro e o Federal Reserve (Banco Central) norte-americanos, o FMI e seus colaboradores na Europa ocidental e Japão - intervieram regularmente no mercado e de maneira importante para ajudar a economia-mundo - em 1987, quando a bolsa despencou; em 1989, no colapso do crédito e das poupanças nos EUA; em 1997, com a queda das bolsas na Ásia oriental; em 1998, pelas mãos dos chamados Long Term Capital Management, um fundo Hedge de capitais de longo prazo; em 2001-2002, com Enron. Com base no que aprenderam com as lições das fases B anteriores de Kondratieff, os poderes existentes pensaram que podiam vencer o sistema. Mas há limites intrínsecos para fazer isto. E agora chegamos neles, como Henry Paulson e Ben Bernanke o estão aprendendo para sua vergonha e talvez assombro. Desta vez não será tão fácil, provavelmente será impossível, evitar o pior. No passado, uma vez que a depressão dava rédea solta a seus estragos, a economia-mundo se levantava com base nas inovações que podiam ser quase monopolizadas por um tempo. Assim, quando se diz que o mercado financeiro voltará a levantar-se, é isso o que se pensa que ocorrerá, agora como no passado, depois de as populações do mundo sentirem todo o estrago causado. E talvez em alguns poucos anos assim seja. Há, contudo, algo novo que pode interferir nesse belo padrão cíclico que tem sustentado o sistema capitalista por uns 500 anos. As tendências estruturais podem interferir nas tendências cíclicas. Os traços estruturais básicos do capitalismo como sistema-mundo operam mediante certas regras que podem ser traçadas num gráfico como um equilíbrio em movimento ascendente. O problema, como acontece com todos os equilíbrios estruturais de todos os sistemas, é que com o tempo as curvas se movem para muito além do equilíbrio e se torna impossível regressar ao ponto anterior. O que se fez para que o sistema tenha se tornado tão distante do equilíbrio? Grosso modo, o que ocorre é que, ao longo de 500 anos, os três custos básicos da produção capitalista - pessoal, insumos e impostos - têm subido constantemente no percentual dos preços possíveis de venda, de tal modo que hoje se tornou impossível obter grandes lucros da produção quase monopolizada que sempre foi a base da acumulação capitalista significativa. Não é porque o capitalismo esteja falhando no que faz melhor. É precisamente porque o está fazendo tão bem que finalmente minou a base para acumulações futuras. Quando chegamos a esse ponto o sistema se bifurca (na linguagem dos estudos de alta complexidade). As conseqüências imediatas são uma turbulência altamente caótica, que nosso sistema-mundo está experimentando neste momento e que seguirá experimentando por uns 20-50 anos. Como todos apostam na direção que pensam ser a mais imediatamente adequada para sua perspectiva, emergirá uma ordem de caos numa das veredas dos muitos caminhos alternativos diferentes. Podemos assegurar com confiança que o presente sistema não sobreviverá. O que não podemos predizer é qual nova ordem será escolhida para substituí-lo, porque esta será o resultado de uma infinidade de pressões individuais. Mas cedo ou tarde um novo sistema se instalará. Não será um sistema capitalista, mas pode ser algo muito pior (ainda mais polarizado e hierárquico) ou algo muito melhor (relativamente democrático e relativamente igualitário) que o atual sistema. Decidir um novo sistema é a luta política mundial mais importante de nossos tempos. E, quanto às perspectivas imediatas de curta duração, ad interim, é claro o que ocorre em todas as partes. Estamos nos movendo em direção a um mundo protecionista (esqueça-se da chamada globalização). Estamos nos movendo para um papel muito maior do governo na produção. Mesmo os EUA e a Grã Bretanha estão nacionalizando parcialmente os bancos e as grandes empresas moribundas. Nos dirigimos a uma distribuição populista conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à centro-esquerda ou formas autoritárias de extrema direita. E nos movemos em direção a conflitos sociais agudos no interior de alguns estados, à medida que todo o mundo passa a competir por uma fatia menor do bolo. No curto prazo, não é, de modo algum, um panorama agradável.
(http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15320)
Estamos nos movendo em direção a um mundo protecionista. Estamos nos movendo para um papel muito maior do governo na produção. Mesmo os EUA e a Grã Bretanha estão nacionalizando parcialmente os bancos e as grandes empresas moribundas. Nos dirigimos a uma distribuição conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à centro-esquerda ou formas autoritárias de extrema direita.
Immanuel Wallerstein - La Jornada
Immanuel Wallerstein, sociólogo norte-americano, um dos teóricos da Teoria do Sistema Mundial (de onde vem a expressão Sistema-Mundo) e pesquisador sênior da Universidade Yale. É autor de Sistema Mundial Moderno, de 1974.
Tradução: Katarina Peixoto
A depressão já começou. Alguns jornalistas, um tanto constrangidos, seguem perguntando aos economistas se talvez não estejamos só entrando numa mera recessão. Não creia neles nem por um minuto. Já estamos no começo de uma depressão mundial de grande envergadura com desemprego maciço em quase todas as partes. Pode assumir a forma de uma deflação nominal clássica, com todas as suas conseqüências para as pessoas comuns. É um pouco menos provável que assuma a forma de uma inflação galopante, que é somente uma outra forma de deflacionar valores, inclusive pior para as pessoas comuns. É claro que todo mundo se pergunta o que disparou essa depressão. Serão os derivativos, que Warren Buffett chama de "armas financeiras de destruição em massa"? Ou são, por acaso, as hipotecas subprime? Ou os especuladores do petróleo? Julgar culpas não tem importância real. Isso é concentrar-se na poeira, como dizia Fernand Braudel, dos eventos de curta duração. Se quisermos entender o que está ocorrendo necessitamos lançar um olhar amplo para outras temporalidades, que são muito mais reveladoras. Um é o dos vai-e-vens cíclicos de média duração. O outro é aquele das tendências estruturais de longa duração. A economia-mundo capitalista teve, durante vários séculos, pelo menos duas formas de vai-e-vens cíclicos. Uns são os chamados ciclos de Kondratieff, que historicamente teriam uma duração de 50-60 anos. E outros são os ciclos hegemônicos, que são muito mais longos.Em termos de ciclos hegemônicos, os EUA foram um adversário dessa hegemonia nos idos de 1873; conseguiu sua hegemonia depois de 1945 e vem declinando desde os anos 70. As loucuras de George W. Bush transformaram esse declínio lento em precipitado. E agora já estamos longe de qualquer retomada da hegemonia estadunidense. Entramos, como acontece normalmente, num mundo multipolar. Os EUA permanecem como potência forte, talvez a mais forte, mas continuará declinando em relação a outras potências, nas próximas décadas. Não há muito o que alguém possa fazer para mudar isso. Os ciclos de Kondratieff têm uma temporalidade diferente. O mundo saiu da última fase B do ciclo Kondratieff em 1945, e então o retorno mais forte à fase A vem ocorrendo, na história do sistema-mundo moderno. Chegou ao seu clímax por volta de 1967-1973, e começou o seu descenso. Esta fase B foi muito mais longa que as fases B anteriores e seguimos nela. As características de uma fase B de Kondratieff são bem conhecidas e coincidem com o que a economia-mundo vem experimentado desde os anos 70. As taxas de lucro nas atividades produtivas baixam, especialmente naqueles tipos de produção que tenham sido mais rentáveis. Em conseqüência, os capitalistas que desejem níveis de lucro realmente altos se inclinam para o setor financeiro, e se envolvem no que basicamente é especulação. Para que as atividades produtivas não se tornem tão pouco rentáveis, têm de mudar-se das zonas centrais para outras partes do sistema-mundo, negociando custos menores de transação com mão-de-obra mais barata. É por isso que começam a desaparecer os empregos em Detroit, Essen e Nagoya, e a se expandirem nas fábricas da China, da Índia e do Brasil.Quanto às bolhas especulativas, algumas pessoas sempre fazem muito dinheiro com elas. Só que cedo ou tarde as bolhas especulativas sempre arrebentam. Se se pergunta por que essa fase B do ciclo Kondratieff durou tanto, é porque os poderes existentes - o Departamento do Tesouro e o Federal Reserve (Banco Central) norte-americanos, o FMI e seus colaboradores na Europa ocidental e Japão - intervieram regularmente no mercado e de maneira importante para ajudar a economia-mundo - em 1987, quando a bolsa despencou; em 1989, no colapso do crédito e das poupanças nos EUA; em 1997, com a queda das bolsas na Ásia oriental; em 1998, pelas mãos dos chamados Long Term Capital Management, um fundo Hedge de capitais de longo prazo; em 2001-2002, com Enron. Com base no que aprenderam com as lições das fases B anteriores de Kondratieff, os poderes existentes pensaram que podiam vencer o sistema. Mas há limites intrínsecos para fazer isto. E agora chegamos neles, como Henry Paulson e Ben Bernanke o estão aprendendo para sua vergonha e talvez assombro. Desta vez não será tão fácil, provavelmente será impossível, evitar o pior. No passado, uma vez que a depressão dava rédea solta a seus estragos, a economia-mundo se levantava com base nas inovações que podiam ser quase monopolizadas por um tempo. Assim, quando se diz que o mercado financeiro voltará a levantar-se, é isso o que se pensa que ocorrerá, agora como no passado, depois de as populações do mundo sentirem todo o estrago causado. E talvez em alguns poucos anos assim seja. Há, contudo, algo novo que pode interferir nesse belo padrão cíclico que tem sustentado o sistema capitalista por uns 500 anos. As tendências estruturais podem interferir nas tendências cíclicas. Os traços estruturais básicos do capitalismo como sistema-mundo operam mediante certas regras que podem ser traçadas num gráfico como um equilíbrio em movimento ascendente. O problema, como acontece com todos os equilíbrios estruturais de todos os sistemas, é que com o tempo as curvas se movem para muito além do equilíbrio e se torna impossível regressar ao ponto anterior. O que se fez para que o sistema tenha se tornado tão distante do equilíbrio? Grosso modo, o que ocorre é que, ao longo de 500 anos, os três custos básicos da produção capitalista - pessoal, insumos e impostos - têm subido constantemente no percentual dos preços possíveis de venda, de tal modo que hoje se tornou impossível obter grandes lucros da produção quase monopolizada que sempre foi a base da acumulação capitalista significativa. Não é porque o capitalismo esteja falhando no que faz melhor. É precisamente porque o está fazendo tão bem que finalmente minou a base para acumulações futuras. Quando chegamos a esse ponto o sistema se bifurca (na linguagem dos estudos de alta complexidade). As conseqüências imediatas são uma turbulência altamente caótica, que nosso sistema-mundo está experimentando neste momento e que seguirá experimentando por uns 20-50 anos. Como todos apostam na direção que pensam ser a mais imediatamente adequada para sua perspectiva, emergirá uma ordem de caos numa das veredas dos muitos caminhos alternativos diferentes. Podemos assegurar com confiança que o presente sistema não sobreviverá. O que não podemos predizer é qual nova ordem será escolhida para substituí-lo, porque esta será o resultado de uma infinidade de pressões individuais. Mas cedo ou tarde um novo sistema se instalará. Não será um sistema capitalista, mas pode ser algo muito pior (ainda mais polarizado e hierárquico) ou algo muito melhor (relativamente democrático e relativamente igualitário) que o atual sistema. Decidir um novo sistema é a luta política mundial mais importante de nossos tempos. E, quanto às perspectivas imediatas de curta duração, ad interim, é claro o que ocorre em todas as partes. Estamos nos movendo em direção a um mundo protecionista (esqueça-se da chamada globalização). Estamos nos movendo para um papel muito maior do governo na produção. Mesmo os EUA e a Grã Bretanha estão nacionalizando parcialmente os bancos e as grandes empresas moribundas. Nos dirigimos a uma distribuição populista conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à centro-esquerda ou formas autoritárias de extrema direita. E nos movemos em direção a conflitos sociais agudos no interior de alguns estados, à medida que todo o mundo passa a competir por uma fatia menor do bolo. No curto prazo, não é, de modo algum, um panorama agradável.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Por que a crise é menos grave no Brasil e nos BRICs do que na Europa ou EUA?
Por Almir Cezar Filho
Um aspecto interessante da crise atual é a diferença de impacto desta entre, de um lado, os EUA, União Européia e Japão e, do outro, países dos BRICs e ditos “emergentes”. Houve mudanças no Capitalismo mundial que levou a uma modificação na divisão internacional do trabalho que se torna visível apenas agora com a crise.
A crise se manifestou inicialmente como estouro do “bolha” nos EUA do mercado imobiliário e financeiro de subprime e hipotecário. Contaminou os bancos de investimentos e bancos comerciais, chegando no Canadá e no outro lado do Atlântico (em maior medida) e no outro lado do Pacífico (menor medida). Já na China, Índia, Brasil e Rússia, ela se manifesta muito mais nas bolsas de valores e com ainda poucos sinais no restante do mercado financeiro bancário e no setor real da economia. Os poucos sinais no setor real estão ligados a temor de desaquecimento do consumo, especialmente no caso de exportação e de consumo interno ligado a crédito facilitado, e restrições ao financiamento internacional e crédito para investimentos.
As bolsas dos BRICs e dos “emergentes” caem por algumas razões, todos ligados ao pânico dos especuladores internacionais. No início da crise, ainda no ano passado, com o estouro da “bolha”, as bolsas desses países se tornaram um refúgio para os fundos e bancos de investimentos, só que agora o pânico é grande, e as empresas desses países por conta da generalização da crise devem ter queda em seus lucros. E também, até agosto desse ano esperava-se apenas que os EUA iriam entrar em pequena recessão e não que o mundo, especialmente os países centrais, iriam mergulhar juntos, assim o Brasil, Rússia, etc, poderiam ser um transitório refúgio ou meio de recuperar as perdas.
O porquê da queda acentuadas nos BRICs nas bolsas
As ações estavam em alta nos BRICs já a alguns anos e com viés de crescimento. As taxas de lucro estavam em trajetória de expansão, tornaram-se atrativas. As empresas nacionais dos BRICs aproveitam para terem ganhos em cima disso, realizando IPOs (abertura inicial de ações) e expansões das subscrições acionárias, não apenas para financiar investimentos, mas para ter ganhos na sobrevalorização de ações. Como diz o ditado no mercado financeiro: “a bolsa sobe no boato e caí no fato”. O fato é que os lucros não cresceriam tanto e a tendência agora é o contrário é de redução no pagamento dos dividendos.
A diferença entre China e Brasil e qual a alternativa para o Brasil
Isso explica porque no Brasil a queda na bolsa é pior dos que no resto dos BRICs. O Brasil entre esses países é o que possui o mercado financeiro e de bolsa mais sofisticado. A Bolsa de SP movimenta em bolsa inclusive valores superiores que as bolsas dos outros BRICs, mesmo Xangai (excetuando Hong Kong, particularmente muito vinculado mais ao movimento do Japão e dos tigres asiáticos do que da própria China). O vínculo também entre bancos, fundos de investimentos e empresas é muito maior.
Mas a China será a que deve mais sofrer com a desaceleração da economia dos EUA. O temor do mundo é exatamente isso. Por um lado, a China é a grande exportadora do mundo, tendo seu principal mercado consumidor justamente os EUA, que também é a economia cujas empresas são os maiores investidores na China. A expansão do PIB chinês é fortemente puxado pelas exportações de manufaturados, numa proporção muito menor do que dos outros BRICs. Por outro, o pânico no mundo também é explicado, pelo fato (ou que avaliação), que embora a economia chinesa seja uma (nova) locomotiva do mundo - e pode até explicar porque a crise não se disseminou pelo mundo de maneira mais rápida - não teria condições de compensar a recessão dos EUA.
É nessa característica que diferencia o Brasil da China. A economia brasileira cresceu nos últimos anos puxado muito mais pelo mercado interno – crédito facilitado ao consumidor, crescimento da renda do trabalhador, projeto de investimentos privados e programa de investimentos públicos – do que pelo mercado externo. Significa que em segundo momento o Brasil pode estar em melhor condição que a China, desde que a equipe econômica do Governo Lula, identificada com uma visão macroeconômica neoliberal e financista não erre a mão, puxando o freio do PIB, numa avaliação equivocada de que para diminuir a crise seria preciso desacelerar a economia ou manter altas as taxas de juros para reter dólar aqui.
Na verdade, a melhor maneira de diminuir a crise no Brasil é o Brasil crescer. A previsão do crescimento do PIB para o ano que vem era de mais de 5%, mas a avaliação após agudização da crise em agosto/setembro foi para menos de 4%. Se houver uma generalização de redução do crescimento as empresas suspenderão seus investimentos e as famílias compras programadas - por medo de prejuízos, menor lucro e medo do desemprego ou inadimplência - empurrando como uma bola de neve o PIB para baixo. Aí, a bolsa cairá de vez. As empresas venderam menos e demitirão. Os dólares fugiram – com impacto nas taxas de juros (para retê-los) e nos preços (inflação via desvalorização do real, elevando os preços das commodities. O Brasil precisa crescer no ano que vem para fugir da crise.
A nova divisão internacional do trabalho e o subimperialismo dos BRICs
Estamos falando dos BRICs – a duas décadas atrás expressão nem existia. O que aconteceu foi uma mudança no capitalismo mundial. Uma mudança na divisão internacional do trabalho. Mas será agora na crise que veremos uma reconfiguração enorme no sistema.
Parafrasendo André Gunder Frank, as maiores mudanças qualitativas na divisão internacional do trabalho ocorrem num período de crise da acumulação e capital, e que essas mudanças são, então, quantitativamente aumentadas durante um período seguinte de expansão, que foi facilitado por elas. Esses movimentos ascendentes ocorreram, evidentemente, depois de crises anteriores (no caso, a crise mundial dos anos 70 e 80), veremos tão logo a crise seja seguida de uma expansão ou uma atenuação da crise.
Embora quantitativamente essas mudanças na DIT sejam mais visíveis durante os períodos de ascensão do grande ciclo, qualitativamente elas parecem concentrar-se no momento de crise e nos primeiros anos do movimento descente. É então que ocorre uma luta séria pelos mercados, luta essa que também se baseia numa mudança relativa nas forças produtivas entre potências econômicas, tal como aconteceu em fins do século XIX, com a ascensão ao lado da Inglaterra e França, de países como Alemanha, Japão, EUA e Itália. Essas novas transformações qualitativas na DIT são claramente percebidas com maior definição após os anos 70 com a Europa Ocidental e Japão, e agora com os BRICs.
Um aspecto de tais modificações é o desenvolvimento do subimperialismo, como Ruy Mauro Marini analisou, como referência ao Brasil. O caso brasileiro não é excessão, visto o BRICs e outros países como África do Sul e México. O subimperialismo do Brasil só pode ser do interesse da potência imperialista. É competidor e aliado. É instrumento, mas do tipo faca de dois gume, gume cortante, no qual enfrenta o imperialismo mas também esse atua nas neocolônias através do subimperialismo. O interessante também que as potências centrais (EUA, UE e Japão), embora competidoras entre si, elas também têm interesses comuns, convergentes, numa região, que o subimperialismo indiano, chinês, russo ou brasileiro, pode proteger, conciliando assim.
Esse novo papel estão vendo agora, e veremos ainda mais no próximo período. A primeira mostra é a manifestação desigual dos efeitos da presente crise nos países industrializados.
Um aspecto interessante da crise atual é a diferença de impacto desta entre, de um lado, os EUA, União Européia e Japão e, do outro, países dos BRICs e ditos “emergentes”. Houve mudanças no Capitalismo mundial que levou a uma modificação na divisão internacional do trabalho que se torna visível apenas agora com a crise.
A crise se manifestou inicialmente como estouro do “bolha” nos EUA do mercado imobiliário e financeiro de subprime e hipotecário. Contaminou os bancos de investimentos e bancos comerciais, chegando no Canadá e no outro lado do Atlântico (em maior medida) e no outro lado do Pacífico (menor medida). Já na China, Índia, Brasil e Rússia, ela se manifesta muito mais nas bolsas de valores e com ainda poucos sinais no restante do mercado financeiro bancário e no setor real da economia. Os poucos sinais no setor real estão ligados a temor de desaquecimento do consumo, especialmente no caso de exportação e de consumo interno ligado a crédito facilitado, e restrições ao financiamento internacional e crédito para investimentos.
As bolsas dos BRICs e dos “emergentes” caem por algumas razões, todos ligados ao pânico dos especuladores internacionais. No início da crise, ainda no ano passado, com o estouro da “bolha”, as bolsas desses países se tornaram um refúgio para os fundos e bancos de investimentos, só que agora o pânico é grande, e as empresas desses países por conta da generalização da crise devem ter queda em seus lucros. E também, até agosto desse ano esperava-se apenas que os EUA iriam entrar em pequena recessão e não que o mundo, especialmente os países centrais, iriam mergulhar juntos, assim o Brasil, Rússia, etc, poderiam ser um transitório refúgio ou meio de recuperar as perdas.
O porquê da queda acentuadas nos BRICs nas bolsas
As ações estavam em alta nos BRICs já a alguns anos e com viés de crescimento. As taxas de lucro estavam em trajetória de expansão, tornaram-se atrativas. As empresas nacionais dos BRICs aproveitam para terem ganhos em cima disso, realizando IPOs (abertura inicial de ações) e expansões das subscrições acionárias, não apenas para financiar investimentos, mas para ter ganhos na sobrevalorização de ações. Como diz o ditado no mercado financeiro: “a bolsa sobe no boato e caí no fato”. O fato é que os lucros não cresceriam tanto e a tendência agora é o contrário é de redução no pagamento dos dividendos.
A diferença entre China e Brasil e qual a alternativa para o Brasil
Isso explica porque no Brasil a queda na bolsa é pior dos que no resto dos BRICs. O Brasil entre esses países é o que possui o mercado financeiro e de bolsa mais sofisticado. A Bolsa de SP movimenta em bolsa inclusive valores superiores que as bolsas dos outros BRICs, mesmo Xangai (excetuando Hong Kong, particularmente muito vinculado mais ao movimento do Japão e dos tigres asiáticos do que da própria China). O vínculo também entre bancos, fundos de investimentos e empresas é muito maior.
Mas a China será a que deve mais sofrer com a desaceleração da economia dos EUA. O temor do mundo é exatamente isso. Por um lado, a China é a grande exportadora do mundo, tendo seu principal mercado consumidor justamente os EUA, que também é a economia cujas empresas são os maiores investidores na China. A expansão do PIB chinês é fortemente puxado pelas exportações de manufaturados, numa proporção muito menor do que dos outros BRICs. Por outro, o pânico no mundo também é explicado, pelo fato (ou que avaliação), que embora a economia chinesa seja uma (nova) locomotiva do mundo - e pode até explicar porque a crise não se disseminou pelo mundo de maneira mais rápida - não teria condições de compensar a recessão dos EUA.
É nessa característica que diferencia o Brasil da China. A economia brasileira cresceu nos últimos anos puxado muito mais pelo mercado interno – crédito facilitado ao consumidor, crescimento da renda do trabalhador, projeto de investimentos privados e programa de investimentos públicos – do que pelo mercado externo. Significa que em segundo momento o Brasil pode estar em melhor condição que a China, desde que a equipe econômica do Governo Lula, identificada com uma visão macroeconômica neoliberal e financista não erre a mão, puxando o freio do PIB, numa avaliação equivocada de que para diminuir a crise seria preciso desacelerar a economia ou manter altas as taxas de juros para reter dólar aqui.
Na verdade, a melhor maneira de diminuir a crise no Brasil é o Brasil crescer. A previsão do crescimento do PIB para o ano que vem era de mais de 5%, mas a avaliação após agudização da crise em agosto/setembro foi para menos de 4%. Se houver uma generalização de redução do crescimento as empresas suspenderão seus investimentos e as famílias compras programadas - por medo de prejuízos, menor lucro e medo do desemprego ou inadimplência - empurrando como uma bola de neve o PIB para baixo. Aí, a bolsa cairá de vez. As empresas venderam menos e demitirão. Os dólares fugiram – com impacto nas taxas de juros (para retê-los) e nos preços (inflação via desvalorização do real, elevando os preços das commodities. O Brasil precisa crescer no ano que vem para fugir da crise.
A nova divisão internacional do trabalho e o subimperialismo dos BRICs
Estamos falando dos BRICs – a duas décadas atrás expressão nem existia. O que aconteceu foi uma mudança no capitalismo mundial. Uma mudança na divisão internacional do trabalho. Mas será agora na crise que veremos uma reconfiguração enorme no sistema.
Parafrasendo André Gunder Frank, as maiores mudanças qualitativas na divisão internacional do trabalho ocorrem num período de crise da acumulação e capital, e que essas mudanças são, então, quantitativamente aumentadas durante um período seguinte de expansão, que foi facilitado por elas. Esses movimentos ascendentes ocorreram, evidentemente, depois de crises anteriores (no caso, a crise mundial dos anos 70 e 80), veremos tão logo a crise seja seguida de uma expansão ou uma atenuação da crise.
Embora quantitativamente essas mudanças na DIT sejam mais visíveis durante os períodos de ascensão do grande ciclo, qualitativamente elas parecem concentrar-se no momento de crise e nos primeiros anos do movimento descente. É então que ocorre uma luta séria pelos mercados, luta essa que também se baseia numa mudança relativa nas forças produtivas entre potências econômicas, tal como aconteceu em fins do século XIX, com a ascensão ao lado da Inglaterra e França, de países como Alemanha, Japão, EUA e Itália. Essas novas transformações qualitativas na DIT são claramente percebidas com maior definição após os anos 70 com a Europa Ocidental e Japão, e agora com os BRICs.
Um aspecto de tais modificações é o desenvolvimento do subimperialismo, como Ruy Mauro Marini analisou, como referência ao Brasil. O caso brasileiro não é excessão, visto o BRICs e outros países como África do Sul e México. O subimperialismo do Brasil só pode ser do interesse da potência imperialista. É competidor e aliado. É instrumento, mas do tipo faca de dois gume, gume cortante, no qual enfrenta o imperialismo mas também esse atua nas neocolônias através do subimperialismo. O interessante também que as potências centrais (EUA, UE e Japão), embora competidoras entre si, elas também têm interesses comuns, convergentes, numa região, que o subimperialismo indiano, chinês, russo ou brasileiro, pode proteger, conciliando assim.
Esse novo papel estão vendo agora, e veremos ainda mais no próximo período. A primeira mostra é a manifestação desigual dos efeitos da presente crise nos países industrializados.
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