Ensaios sobre Desenvolvimento, Planejamento e Soberania Social
Por Almir Cezar Filho | Série Limiar e Transformação Econômica
Juntas, quatro dimensões - explicáveis abaixo - compõem o que podemos chamar de "Teorema da Acumulação Coerente", isto é, um sistema econômico é sustentável quando o excedente é gerado de forma produtiva, distribuído de modo planificado e reaplicado socialmente.
Apresentação
A presente tetralogia de ensaios reúne quatro textos teóricos e críticos que, em conjunto, formulam uma teoria marxista contemporânea do desenvolvimento, articulando macroeconomia, estrutura produtiva, política industrial e transformação social. Inspirada em Evguêni Preobrazhensky, Michał Kalecki, Celso Furtado e Theotonio dos Santos, esta obra desenvolve o conceito de acumulação coerente — uma síntese entre racionalidade planificada, proporcionalidade intersetorial e redistribuição solidária.
Ao longo dos textos, o autor reconstrói, sob novas condições históricas, a tradição do planejamento e da economia política do desenvolvimento no Brasil e na América Latina. Mais que uma teoria da produção ou da política econômica, trata-se de uma teoria da coerência social do desenvolvimento — um esforço de reintegração entre economia, política e ética, num tempo em que a acumulação capitalista global se mostra desordenada, excludente e insustentável.
A Tetralogia propõe, assim, um paradigma alternativo de modernização, no qual o Estado, o trabalho e a comunidade se tornam sujeitos conscientes da acumulação, transformando o excedente em bem comum e o crescimento em soberania.
I. Crescimento Garantido e Não Inflacionário
Objeto: Theorem of Structural Coherence (Teorema da Coerência Estrutural)
Resumo: Este primeiro ensaio estabelece a base macroeconômica da série. Inspirado em Kalecki e reinterpretado sob a ótica de Preobrazhensky, ele propõe que a estabilidade de preços e o crescimento sustentável dependem não da austeridade fiscal, mas da compatibilidade entre os ritmos de expansão dos setores produtivos. O artigo formula o conceito de taxa de crescimento garantido não inflacionário, relacionando investimento, poupança e capacidade produtiva em um modelo de coerência interdepartamental. A inflação, assim, é redefinida como sintoma da desproporção estrutural, e a política econômica, como instrumento de recomposição das proporções racionais da economia.
Tese central: a estabilidade monetária é um problema de coerência produtiva, não de disciplina fiscal.
II. A Doença Egípcia: Um Paradigma Invertido da Doença Holandesa
Objeto: Structural Stagnation and Dependent Inflation (Estagnação Estrutural e Inflação Dependente)
Resumo: O segundo ensaio da série investiga a patologia do subdesenvolvimento dependente: economias que nunca completaram sua industrialização e vivem sob ciclos de estagnação ("stop-in-go") e inflação crônica. Enquanto a conhecida por economista “doença holandesa”, resulta do excesso de divisas e da valorização cambial, a “doença egípcia”, denominação inaugurada no artigo, nasce da escassez estrutural e da vulnerabilidade externa. O texto demonstra que o problema inflacionário nas economia capitalistas periféricas não deriva do gasto público, mas de gargalos produtivos, desindustrialização e dependência tecnológica. A solução, portanto, não é a contração monetária, mas o planejamento da capacidade e a recomposição intersetorial da economia nacional.
> Tese central: a inflação periférica é a forma monetária da desproporção produtiva — o reflexo da dependência em preços.
Link: https://limiaretransformacao.blogspot.com/2025/10/a-doenca-egipcia-um-paradigma-invertido.html
III. Do Boom Agrário à Nova Industrialização: O Agronegócio como Fonte de Acumulação Primitiva Nacional
Objeto: National Primitive Accumulation and Productive Reconstruction (Acumulação Primitiva Nacional e Reconstrução Produtiva)
Resumo: O terceiro ensaio propõe uma reinterpretação contemporânea do conceito de acumulação primitiva socialista, formulado por Preobrazhensky. Transposto ao contexto do capitalismo periférico, ele se transforma em acumulação primitiva nacional — a transferência planificada do excedente dos setores primários (agronegócio, energia, mineração) para o investimento industrial, tecnológico e científico. O texto mostra como o atual boom do agronegócio, se articulado a políticas públicas, pode tornar-se motor da reindustrialização verde e digital, rompendo com a dependência financeira e tecnológica que marca a economia do Brasil.
> Tese central: o campo, historicamente símbolo da dependência, pode se tornar alicerce da soberania produtiva — se o Estado assumir o papel de mediador da acumulação.
Link: https://limiaretransformacao.blogspot.com/2025/11/do-boom-do-agro-nova-industrializacao-o.html
IV. Economia Solidária e a Nova Racionalidade do Desenvolvimento
Objeto: The Social Form of Coherent Accumulation (Formação social da acumulação coerente)
Resumo: O quarto ensaio encerra a série ao introduzir a dimensão humana e social da coerência econômica: a Economia Solidária. Mais que política pública, ela é uma forma social de racionalidade econômica, baseada na autogestão, na propriedade coletiva e na reintegração entre trabalho e comunidade. O texto mostra como a Economia Solidária constitui o elo entre o planejamento macroeconômico e a redistribuição social, funcionando como circuito social de retorno do excedente produtivo às comunidades. Ela é a expressão prática do princípio de que a economia deve servir à vida — e não o contrário.
> Tese central: a solidariedade é a face social da coerência econômica; o desenvolvimento só é autêntico quando reapropria o excedente em benefício coletivo.
Link: https://limiaretransformacao.blogspot.com/2025/11/economia-solidaria-e-nova-racionalidade.html
Referência Blbliografica do Dossiê (Para citar)
- CEZAR FILHO, Almir. Tetralogia da Acumulação Coerente: Ensaios sobre Desenvolvimento, Planejamento e Soberania Social. Série Limiar e Transformação Econômica. Niterói–Brasília, 2025.
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