Mostrando postagens com marcador Chávez. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Chávez. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Construtoras brasileiras se expandem pela América Latina

Mais uma manifestação da "submetropolização" do Brasil.  Duas grandes correntes teóricas marxistas, o trotskismo e a teoria marxista da dependência, já apontavam para a condição da economia brasileira para seus vizinhos sul-americanos como um submetrópole (Nahuel Moreno) ou mesmo subimperialismo (Ruy Mauro Marini).

Nas últimas décadas essa característica parece ter se acelerado, e ganho inclusive um papel preponderante para o funcionamento interno das respectivas economias (da submetrópole e das suas satélites), como também uma importância mais global ao sistema mundial capitalista, além das fronteiras latino-americanas. É não é a toa que o Brasil passou a ser tratado na escala de submetrópoles mundiais, os chamados BRICS.

 Construtoras brasileiras se expandem pela América Latina 

Impulsionadas pelo Governo Federal, transnacionais da construção civil ampliam sua ação na América Latina causando conflitos e destruição ambiental por onde passam


MANUELA MORAES, DE BAURU (SP)


Ponte da Odebrecht na Venezuela 

• As empresas brasileiras de construção civil tiveram um grande crescimento em sua atuação no exterior nos últimos dez anos. Graças ao financiamento público do BNDES e a ação do governo Lula, empresas como a OAS Ltda., Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Odebrecht tiveram um crescimento de 544% em sua atuação na América Latina e na África.

O movimento de internacionalização destas empresas iniciou-se nos anos 1970 com a encomenda pela Ditadura Militar de obras de grande porte, como rodovias e usinas hidrelétricas, o que garantiu o aumento dos lucros e a formação de conglomerados. Agora, este movimento é acelerado pela atuação do BNDES, que entre 2001 e 2010 aumentou em 1.185% o financiamento das obras realizadas por empreiteiras brasileiras no exterior, passando de US$73 milhões para US$937 milhões. Para este ano a previsão é de que os desembolsos cheguem a US$1,3 bilhão.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Apesar de queda, desigualdade persiste na América Latina

Apesar de queda, desigualdade persiste na América Latina. Brasil continua entre os mais desiguais. Política visam governabilidade e perpetuação do poder dos governos. Não ataca os problemas estruturais de fundo da desigualdade e somente foi possível pelo cenário externo favorável.

Houve uma tendência de queda da desigualdade da renda no Brasil durante o governo Lula, mas essa redução da desigualdade é fenômeno praticamente generalizado na América Latina na década 2000-2010. O Brasil experimentou uma melhora na sua posição no ranking mundial dos países com maior grau de desigualdade. Saiu da 4ª posição no ranking mundial dos países mais desiguais para a 5ª posição. Porém com uma queda muito menor que os demais latino-americanos.

No conjunto dos países que mostram melhores resultados quanto à redução da desigualdade, o Brasil ocupa a 3ª posição, atrás da Venezuela (projeto de orientação socialista) e do Peru (projeto liberal), o que demonstra que os programas sociais não encontraram barreiras ideológicas à sua execução. Essas são algumas das conclusões do trabalho "Redução da desigualdade da renda no governo Lula - Análise comparativa", do professor Reinaldo Gonçalves, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O estudo baseia-se em painel de 12 países da América Latina: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Honduras, México, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela. As variáveis para análise são o coeficiente de Gini, que mede a distribuição de renda e varia de 0 (completa igualdade) a 100 (máxima concentração); e a renda média per capita dos domicílios dos 20% mais ricos e dos 20% mais pobres, de acordo com dados da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

No painel de 12 países, somente Honduras não teve redução dos índices de desigualdade. As maiores quedas do coeficiente de Gini ocorreram na Venezuela, no Peru e no Brasil, enquanto as maiores reduções na comparação entre a renda média dos 20% mais ricos e os 20% mais pobres aconteceram na Bolívia, na Venezuela e no Brasil.

Embora tenha ocorrido queda da desigualdade, de modo geral, os países da América Latina continuam com coeficientes de Gini muito mais elevados do que a média mundial. Por exemplo, na primeira década do século XXI, o coeficiente médio de Gini para os países do painel é de 51,6 enquanto a média mundial é de 39,5. Brasil, Honduras, Bolívia e Colômbia têm os mais elevados coeficientes de desigualdade na América Latina, que tem, na média, elevados coeficientes de desigualdade pelos padrões internacionais.

Reinaldo Gonçalves diz que a evidência empírica disponível aponta para dois fatos marcantes na América Latina na primeira década do século XXI. O primeiro é o comportamento pró-cíclico da renda da região, que acompanha as fases do ciclo econômico internacional: a fase descendente em 2001-02, a extraordinária expansão de 2003 até meados de 2008, a crise de 2008-09 e a recuperação em 2010.

Esse fato é determinante da evolução dos indicadores de desigualdade. No período 2001-10, os países do painel que têm taxa de crescimento do PIB real per capita acima da média são Peru, Argentina, Uruguai, Equador, Chile e Colômbia. O Brasil tem taxa média anual de crescimento do PIB real per capita de 2,2%, inferior à média do painel.
O segundo fato relevante é a tendência de queda da desigualdade da renda na região. Após elevação em 2000-02, a queda é evidente no período 2003-08, que marcou a fase ascendente do ciclo econômico internacional.

Para os países do painel, a média do coeficiente de Gini cai de 55,1 em 2002 para 51,0 em 2008. No entanto, em 2009 há reversão da média do coeficiente de Gini, que aumenta para 51,3. Os países que têm os maiores graus de desigualdade são os mesmos nas últimas duas décadas: Colômbia, Bolívia, Honduras, Brasil, Paraguai e Chile. Nesse período houve algumas mudanças de posição relativa: por exemplo, o Brasil passou da mais elevada desigualdade em meados dos anos 1990 para a 4ª posição no painel na primeira década do século XXI.

Apesar de haver queda da desigualdade na América Latina na primeira metade do século XXI, os países da região continuam com os mais elevados indicadores de desigualdade de renda no mundo. Em meados desta década, quatro entre os cinco países com maior desigualdade estão na região (Colômbia, Bolívia, Honduras e Brasil), e no conjunto dos dez países mais desiguais há oito países latino-americanos.

Segundo Reinaldo Gonçalves, o imperativo da governabilidade e a perpetuação no poder são os determinantes principais das políticas redistributivas na região, independentemente do modelo econômico-político vigente em cada país. Porém, ressalta, sem mudanças estruturais, por exemplo, as principais políticas redistributivas na América Latina, em geral, e no Brasil, em particular, seguem a "linha de menor resistência", visto que envolvem aumento do gasto público social e do salário mínimo real. No período, essas políticas foram condicionadas, em grande medida, pela evolução favorável da economia mundial, via afrouxamento da restrição das contas externas e das contas públicas. A crise global em 2008-09 provocou reversão ou interrupção da tendência de queda da desigualdade na região.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Prêmio Nobel escreve a Obama

Conversación virtual con Mr. Obama

Futurología política



Adolfo Pérez Esquivel



Invité a Barak Obama a tomar un café en el tradicional Café Tortoni, en la Av. De Mayo, en Buenos Aires. Llegó bastante agitado y preocupado desde Washington, dijo que la Casa Blanca está llena de fantasmas y que hay días que no puede dormir, que hacen mucho ruido y que por la mañana cuando va al Salón Oval, encuentra todo revuelto. Yo no creo en los fantasmas, pero que los hay, los hay.

Estimado Barak, siento que tengas tantos problemas; aquí también tenemos nuestros fantasmas que recorren el país haciendo estragos y revuelven todo. Me alegro que estés aquí y podamos conversar tranquilos. El café es bueno, aunque esperaba convidarte con unos mates amargos de los nuestros, pero considerando que ya tienes muchas amarguras como el golpe de Estado en Honduras; no quiero que te amargues más.

Vas a necesitar un guía espiritual que haga un exorcismo en la Casa Blanca y expulse los fantasmas porque te van a complicar la vida.

Ahí están los militares hondureños que corren al trote a Washington para informar que cumplieron las órdenes de dar el golpe de Estado al Presidente Zelaya, según lo programado. Quieren la recompensa y las palmaditas de aprobación en la espalda, están como los cachorros que esperan que el amo les haga una caricia y le tire un hueso.

Muchacho, estos hechos ponen en evidencia que llegaste al gobierno, pero no al poder. Debes reconocer que te dieron una patada en el trasero; no tienen piedad y te van a dar con todo. ¿Que tal el café, te sienta bien?

El golpe cívico – militar en Honduras es una amenaza para todo el continente, buscan imponer la dicta-blanda y es un test para saber la reacción de gobiernos y sociedades. Me parece bien que hayas declarado el no reconocimiento del cuerpo diplomático de la dictadura hondureña. Es un gesto claro en defensa del derecho. Pero bien sabes que las cosas no son lo que son, lo que aparenta no es la realidad. La Secretaria de Estado Hillary Clinton dice que Zelaya comete una imprudencia si regresa a Honduras.

Debe saber que la dignidad tiene sus costos y Zelaya no puede quedarse tranquilo sin hacer nada y esperar que Hillary le diga que tiene que hacer. Volver a imponer los golpes de Estado es peligroso para todos.

Es necesario tomar decisiones claras y concretas, ayudar a que el presidente Zelaya retorne al cargo de presidente de Honduras, sin condiciones y sin imposiciones del Pentágono, la CIA y el Departamento de Estado ¿Sabes de la brutal represión de los militares hondureños contra el pueblo, de la persecución y censura contra los periodistas? Para justificar lo injustificable la dictadura de Micheletti, acusa al presidente de Venezuela Hugo Chávez de todos los males. Bien sabes que la CIA se especializa en desestabilizar gobiernos y provocar golpes de Estado.

Sí, no pongas cara de asombro, no puedes ignorar lo que pasa. ¿Dime Barak, para qué quiere EE.UU. poner tres bases militares más en Colombia?- No me digas que es para luchar contra el narcotráfico, eso no lo cree tú, ni nadie.

Me acabo de enterar que tu gobierno y el Comando Sur invierten millones de dólares en promover la “democracia” en Venezuela, Bolivia y el Ecuador, países que están construyendo otros paradigmas de país, que no son justamente lo que les interesa a los EE UU.

¿Dime Barak, vas a continuar la misma política de los anteriores gobiernos, o quieres cambiar y construir una democracia que signifique derecho e igualdad para todos y el respeto a la vida y la dignidad de los pueblos? Te sugiero que todo ese dinero que quieren invertir en “la democracia que ustedes piensan”, la inviertas en fortalecer la democracia dentro de los EEUU, que tiene muchos problemas de discriminación, pobreza, hambre y desempleo- ¿Te parece justo o no?

Llevo muchos años de trabajo y compromiso con los pueblos en América Latina y a mi edad me he vuelto desconfiado; he visto muchas traiciones, claudicaciones y miedos.

Otro problema preocupante, que nos duele es Cuba. Planteas que para cambiar la política de EE UU. con Cuba, esperas gestos de cambio en la Isla. El bloqueo lleva casi 50 años, que tu país impuso en forma unilateral y con la soberbia del más fuerte.

Parece que no tienes buenos asesores, porque el continente latinoamericano ya no es manejable y los pueblos son protagonistas y no espectadores. El pueblo cubano lo ha demostrado y ahora los hondureños, también los bolivianos y venezolanos.

Quien tiene que cambiar es tu gobierno que viola el derecho internacional e impone sanciones a un país soberano. ¿Te olvidas de todas las resoluciones de la ONU y de los países que reclaman el fin del bloqueo y el respeto a la soberanía del pueblo cubano?

Hagamos memoria. ¿Recuerdas al presidente de tu país, John Kennedy, que logró seducir hasta a la bella Marilyn?. Ese muchacho fue el que ordenó invadir Cuba, por la Bahía de Cochinos y se mando una cochinada que le salio mal. ¿Cómo puedes pedir que cambie Cuba, cuando tu gobierno no quiere cambiar?-

Piensa. ¿Qué pasaría si tu país levanta el bloqueo a Cuba sin condiciones y comienza otra etapa de relaciones basada en la cooperación y desarrollo de los pueblos? Parece futurología política. Te pregunto: ¿Que pasaría si liberas a los 5 cubanos presos, comenzando a permitir a sus esposas visitarlos, porque se lo impiden desde hace 10 años?

Dices que es un problema en manos de la justicia, que hay que esperar, que tienes muchas presiones ¿De que justicia hablas? No quiero pasarte, como decimos por estos lados, “la factura”. Simplemente recordarte algunos hechos y problemas en la vida de los pueblos.

Te voy a contar algo de un compatriota tuyo que dio el ejemplo de coherencia entre el decir y el hacer, que influyo muchos en las luchas sociales por la liberación de nuestros pueblos, asumiendo la resistencia civil, como fue el Mahatma Gandhi en la liberación de la India y Luther King, quien lucho en tu tierra en defensa de los derechos civiles y contra la discriminación racial. Me refiero a Henry Thoreau quien dice: “ toda persona amante de la libertad debe ser respetuosa de la ley; debe respetarla y hacerla respetar.- y continúa Thoreau- pero no toda ley es justa, las leyes injustas deben ser desobedecidas hasta su total nulidad”. Por ser coherente fue a parar a la prisión, asumiendo el desafío de defender la libertad, negándose a pagar impuestos injustos e inmorales al gobierno de EE UU. que financiaban la guerra contra México, a quien le arrebataron gran parte del territorio para anexarlo a tu país.

¿Dime, quien decidió instalar más bases militares norteamericanas en Colombia? Eso es jodido y peligroso para el continente.

Otro tema preocupante, es el Oriente Medio. Seguro que te duele en el alma y la conciencia que tu antecesor George Bush, te dejó la cancha embarrada y minada y que cualquier cosa que toques, ¡¡¡¡buuumm ¡!!!.... estalla. Ese personaje sí que hizo daño a tu pueblo y al mundo; es responsable de crímenes de lesa humanidad.

Te voy a contar un cuento Sufi. Acabo de leerlo en un diario barrial, “ La Batuta ”. “Iba la Peste camino a Bagdad cuando se encontró con Nasdurin, quien le preguntó: ¿A donde vas? “A Bagdad a matar diez mil personas”. Después de un tiempo, la Peste volvió a encontrarse con Nasdurin, que muy enojado le dijo: “me mentiste. Dijiste que matarías a diez mil personas y mataste a cien mil”. Y la Peste respondió: “Yo no mentí, maté diez mil, el resto…. murió de miedo”. El miedo paraliza, y del miedo a la cobardía hay un solo paso y nos afecta y reduce nuestros mecanismos de defensa natural.

Obama, es hora repensar y tener una mirada hacia el interior del espíritu, saber escuchar el silencio de Dios, que nos habla a cada uno de nosotros y nosotras. ¿Cuantas muertes provocó la guerra desatada por tu país en Irak y Afganistán, en nombre de lo más perverso e inhumano que se pueda imaginar, la madre de todas las violencias, “la mentira”, invocando la defensa de la democracia y el derecho de los pueblos? Han regado los ríos de sangre y sembrado la muerte.

Eduardo Galeano, ese gran escritor uruguayo dice: “Navega el navegante, aunque sepa que jamás tocará las estrellas que lo guían” ¿Recuerdas que Hugo Chávez te regaló el libro “Las Venas Abiertas de América Latina”, espero que lo hayas leído? ¡No lo leíste todavía!- Eso si que es preocupante. ¿Cómo vas a comprender América latina si no conoces esa obra? Muchacho, trata de comprender a los pueblos y saber cual fue la política de tu país para el continente. Te asombrarás.

Es largo y doloroso el drama que viven Israel y Palestina, nos duele ver que no se vislumbra otro horizonte y continúan sumando muerte y destrucción. Israel, de víctima pasó a ser victimario, violando el derecho del pueblo palestino, sometiéndolo a la violencia social y estructural; construyendo un muro infame que daña a toda la humanidad, e impidiendo que los palestinos tengan su patria; Tu país es el aliado principal de Israel y mientras esa situación de guerra e inestabilidad continúe, la Paz estará ausente de la región.

¿Y por último, por casa cómo estamos Barak? La desocupación, el problema económico, los inmigrantes. Problemas no te faltan. La economía mundial está haciendo agua y está contaminada. La crisis capitalista golpea duro a los más necesitados, pero sigues salvando bancos y no a los pueblos. Es urgente volver a las fuentes y comenzar a pensar en un Nuevo contrato social a escala mundial, lo necesitamos, hemos llegado al fin de una época plagada de aciertos, errores y horrores. Recuerda que la FAO señala que por día mueren en el mundo más de 35 mil niños de hambre. Eso es “terrorismo económico”, del que nunca hablan pero está presente en el mundo

Tu gobierno gasta millones de dólares en armas, en bases militares para dominar y destruir y no para superar el hambre, el desempleo, la marginalidad, el analfabetismo. ¿Sabes Barak de que color es el hambre?- Los hambrientos dicen que es amarillo, todo se vuelve de ese color hasta que la muerte los libera.

Bueno estimado Barak, no hay que perder la esperanza, es necesario construir la Paz que no se regala, es una conquista de la conciencia y el espíritu. Hay mucha reserva en la vida de los pueblos. Muchas cosas quedaron para conversar. Será en otra oportunidad que nos volvamos a reunir. Fue un gusto conversar contigo. La próxima vez te espero con unos mates amargos y tortas fritas.

Te envío un fraterno abrazo solidario de Paz y Bien.-



Buenos Aires, Café Tortoni, a 2 días del mes de Agosto del 2009

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Viva a resistêcia hondurenha...eles não passarão!

Segundo dia: nada será como antes em Honduras



Cristina Barbosa, presidente da Fed. Estudantil da Costa Rica e Roberto Herrera do MAS (LIT-QI)



• Acompanhe a reportagem sobre a resistência ao golpe de Estado, enviada por uma delegação que está em Honduras. Desde o dia seguinte ao golpe, formou-se na Costa Rica o Movimento de Solidariedade ao Povo Hondurenho. O Movimento ao Socialismo (MAS), seção oficial da LIT-QI na Costa Rica, participa desde o início das atividades do comitê, com a firme certeza de que a atitude dos revolucionários da América Central deve ser assumir para si qualquer luta que ocorra nos cinco países da região que foram artificialmente divididos. Neste momento, uma delegação se encontra em Honduras, levando solidariedade e participando da resistência. Estas são as primeiras notícias que eles nos enviam desta importante luta democrática, antioligárquica e antiimperialista.


# Leia a reportagem do primeiro dia



Quinta-feira, 16 de julho, segundo dia
Hoje completam-se 19 dias de luta contra o golpe. Participamos do fechamento de ruas na altura de El Durazno, principal saída de Tegucigalpa para o norte do país. O bloqueio durou das 8h30 até 15h.

O protesto, aqui, reuniu duas mil pessoas e, no sul, cerca de mil. Nesta saída, concentraram-se os ativistas liberais que se opõem ao golpe. Em El Durazno, se concentraram os sindicatos do estado (PANI, Frente de organizações do magistério, INA, enfermeiras etc.).

Além destes bloqueios, estavam fechadas as cidades de San Pedro Sula (capital industrial onde se concentram as maquiladoras) e Porto Cortês (principal porto do país), o que representou uma paralisação importante da economia. Para sexta-feira, espera-se uma nova jornada de resistência, igual à da quinta-feira. Um novo dia de luta nos espera.

Muitos símbolos indicam que, em meio a muitos “estica e afrouxa”, tentam solucionar por cima o conflito. Os olhos apontam para a negociação de sábado em Costa Rica. Vamos resumir alguns fatos políticos que nos parecem importantes.

1) O governo golpista mostra sinais de cansaço. A saída de dois servidores públicos do governo, entre eles López Colindres (chanceler), se soma a um estranhamento dos militares com o governo e com o próprio anúncio de Michelletti de que poderia renunciar desde que Zelaya não regressasse.

2) Diferentes formas de repressão seguem ativas, como, por exemplo, o fechamento temporário dos sinais de rádio e TV, o toque de recolher, a perseguição a servidores públicos governistas, a perseguição sindical, o assassinato seletivo ocultado como crime comum. Esta violência política é acompanhada também pelo aumento da delinquência, como ajustes de contas e fatos vinculados aos “maras” (violenta gangue da região).

3) O custo econômico do golpe num país tão pobre como Honduras, começa a surgir. Há projetos interrompidos, fundos congelados e bloqueios. Além disso, há o custo de manter mobilizado o exército por 19 dias. Amanhã é o pagamento de salário dos servidores públicos. Gabriela Núñez, ministra de finanças, está tentando reunir fundos de todos os lados.

4) O mais importante é que o movimento popular segue ativo apesar das ameaças. Entre os docentes, é muito forte. Exemplo disso foi o início da transmissão da rádio clandestina ligada à Resistência (Rádio Morazán) e de que as ações continuarão amanhã, mesmo que não se concretize a paralisação geral. No interior do país, as ações também ganham força.

5) É importante assinalar que a direita latino-americana mantém uma campanha muito agressiva em relação a Honduras. Hoje chegou o grupo UNO América, que é o “rim dos vermes”. Seu objetivo era legalizar o golpe e lhe dar apoio político. Na delegação, haviam reconhecidos representantes da direita da Venezuela e da Colômbia. Além do delírio fascistóide e dos argumentos deste grupo, a presença de UNO América assinala um claro vínculo das direitas golpistas latino-americanas e norte-americanas, mas, sobretudo, um esforço deste setor ultradireitista em descongelar o isolamento internacional dos golpistas.

Estes são alguns fatos, mas como assinalamos, a situação é instável. Ainda que existam sinais de negociação, o “estica e afrouxa” de ambos os lados, o fato mais importante para os revolucionários é que o povo continua nas ruas e com um nível crescente de politização. Se Zelaya retornar pela ação das massas, isso representaria uma clara vitória democrática e popular, que não seria detida facilmente, mas continuaria avançando e questionando o regime. Se as elites conseguem uma saída negociada [1], não será fácil para eles desativar as bandeiras que foram articuladas pelo movimento popular, sobretudo, o chamado à Assembleia Nacional Constituinte.

Como dissemos algumas vezes, nada será como antes em Honduras.


NOTA:
1. É claro, no processo de possíveis saídas negociadas, que cumpre um papel fundamental a mediação pró-imperialista do presidente Arias, que já tem levantado a consigna de governo de reconciliação nacional, que consistiria em duas opções: ou num governo de transição, apoiado na Corte Suprema de Justiça, ou num regresso condicionado de Mel Zelaya, isto é, afastado da Alba, sem o projeto de quarta urna, e com a anistia para ambos os lados. Estas saídas são incômodas para os golpistas, sobretudo para as forças armadas. Outra opção pela qual se decantariam os golpistas é um governo de reconciliação sem Zelaya, em que ele possa regressar e ser anistiado dos supostos delitos políticos, mas que seja julgado pelos delitos de corrupção. Como se vê, os cenários são múltiplos e variáveis. Evidentemente, para os revolucionários, a melhor saída é que o movimento popular consiga através de sua ação independente uma quebra total do regime e uma convocação à Assembleia Nacional Constituinte sobre as ruínas do velho regime, apoiado nas organizações populares. Para conseguir isto, é evidente que é preciso forjar uma força política ampla, orientada pela independência de classe e a meta socialista.


Retirado do Portal www.pstu.org.br

segunda-feira, 6 de julho de 2009

ONU pede a restauração da ordem constitucional em Honduras

Retirado do "Portal ig" em 06/07/2009 - 12:22 e a Redação com agências internacionais


GENEBA - O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu nesta segunda-feira a restauração, com assistência da Organização dos Estados Americanos (OEA), da "ordem constitucional" em Honduras, onde o presidente Manuel Zelaya foi detido e expulso pelos militares.


O Governo brasileiro se diz preocupado com o aumento de violência em Honduras, Zelaya pede às Forças Armadas que baixem as armas, ao ser impedido de pousar em Honduras e ter que descer em El Salvador.


"A OEA deve assumir um papel de líder para encontrar uma solução pacífica graças à qual se possa restaurar a ordem constituicional", afirmou Ban, acrescentando lamentar muito a perda de vidas humanas na repressão aos partidários do presidente derrubado.

Zelaya não concretizou o objetivo de retornar a Tegucigalpa no domingo, mas a imagem das novas autoridades hondurenhas ficou ainda mais arranhada aos olhos da comunidade internacional com a morte de dois manifestantes em um protesto.

Em um cenário digno de um filme de ação, o Exército hondurenho, que ignorou as ordens de Zelaya, bloqueou a pista do aeroporto de Toncontin com caminhões para impedir o pouso do avião Falcon, registrado na Venezuela, no qual o presidente viajava, uma semana depois de ter sido deposto e expulso por um golpe militar de Estado.

domingo, 28 de junho de 2009

Golpe de Estado em Honduras

Honduras, país na América Central, cujo presidente recentemente eleito, tenta seguir o estilo político e estratégia de Hugo Chávez. Convocado plebiscito para reformas institucionais para hoje, domingo, 28 de junho, desencadeou ao longo dos dias que antecederam um severa crise política, à medida que os militares parecem ter desobedecido ordens de ajudar na organização do pleito, e partiram para o golpe de estado.

Militares prendem presidente de Honduras

28 de junho de 2009 • 09h47 • atualizado às 11h10

28 de junho de 2009 - EFE

Militares de Honduras prenderam o presidente do país, Manuel Zelaya, neste domingo, informou seu secretário pessoal, Eduardo Enrique Reina. A casa de Zelaya foi cercada por soldados. Cortes de luz foram registrados em diversos pontos do país.

Reina disse à imprensa local que, "com muita preocupação, a Guarda de Honra informou que o presidente foi detido pelos militares e levado a (instalações da) Força Aérea". Além de pedir ao povo e aos políticos hondurenhos que se "manifestem em defesa da democracia", o secretário afirmou que o caso "já foi denunciado à comunidade internacional".

Zelaya foi detido por militares entre 5h e 6h (8h e 9h de Brasília). Não momento da prisão, ele estava no palácio presidencial, que permanece cercado por cerca de 300 soldados. A detenção do chefe de Estado aconteceu aproximadamente duas horas antes do início da "consulta popular" convocada por Zelaya para votar uma reforma constitucional, declarada ilegal por órgãos como o Parlamento e a Suprema Corte.

Pouco mais de uma hora depois da detenção de Zelaya, por volta das 7h (10h de Brasília), a transmissão das rádios foi interrompida por instantes, mas voltou ao normal após alguns minutos. Os meios de comunicação estão pedindo à população que fique em casa e aguarde um comunicado oficial de uma autoridade não especificada.

A recusa das Forças Armadas em colaborar com o presidente na consulta mantinha o país numa situação de crise política há alguns dias. Na quarta-feira, Zelaya destituiu o chefe das Forças Armadas hondurenhas, Romeo Vásquez. Dois dias depois, o presidente disse que Vásquez continuava no cargo e que apenas havia anunciado a destituição do oficial, não chegando a executá-la.

Hondureños llegan a Palacio Presidencial para exigir el retorno del presidente Zelaya


Caracas, 28 Jun. ABN .- Hondureños, de distintos puntos de la capital, se dirigen masivamente, desde temprano horas de la mañana de este domingo, al Palacio Presidencial de Tegucigalpa, Honduras, Manuel Zelaya, en apoyo al presidente de este país, y a exigir su retorno.

Telesur reportó que camiones militares rodean la casa presidencial, y el pueblo Hondureño, continuaba llegando a la Casa de Gobierno, para reclamar a las fuerzas militares el regreso de su presidente que permanece secuestrado, luego de conocerse un golpe de Estado contra su gobierno, perpetrado por militares.

Asimismo, Florencia Salgado periodista de la Casa Presidencial, quien fue rehén de los militares que secuestraron al presidente Zelaya, relató que los militares “nos apuntaron con las armas, en el salón Morasán, y corrían por la casa. Fue algo terrible e inhumano”.

Del mismo modo, exhortó a las organizaciones de derechos humanos a pronunciarse contra este golpe de estado, “y a no permitir esta situación, porque si permitimos esto, mañana nos van a violentar los derechos de todos los hondureños, incluso de los militares”.

La periodista también exhortó a los militares a respetar los derechos humanos.

sábado, 27 de junho de 2009

István Mészáros é ganhador do Prêmio Libertador al Pensamiento Crítico

Caracas, 25 Jun. - Con sua obra El desafío y la carga del tiempo histórico. El socialismo en el siglo XXI, o húngaro István Mészáros, considerado um dos principais pensadores marxistas da atualidade, resultou na quinta-feira 25 como ganhador do Premio Libertador al Pensamiento Crítico 2008.

István Mészáros, professor emérito da Universidade de Sussex (Inglaterra), pensador radical, discípulo e colaborador do filósofo Georg Lukács, com quem trabalhou na Universidade de Budapest de 1954 até a repressão soviética em 1956. Assim mesmo, Mészáros é profundo conhecedor da longa tradição dos estudos marxistas e autor de obras clássicas como A teoria da alienação e O poder da ideología. Sua obra de maior envergadura e densidade é o estudo Para além do capital, publicado no Brasil no ano 2002.

Com sua obra El desafío y la carga del tiempo histórico. El socialismo en el siglo XXI, o húngaro István Mészáros, considerado um dos principais pensadores marxistas da actualidad, resulou esta quinta-feira como gahnador do Premio Libertador al Pensamiento Crítico 2008.

A decisão foi anunciada no hotel Alba Caracas, pelo júri conformado pelo ganhador da terceira edição, Renán Vega Cantor (Colombia), o economista e investigador Theotonio Dos Santos (Brasil), o sociólogo Bernard Duterme (Bélgica), e os escritores Judith Valencia e Juan Antonio Calzadilla (Venezuela).

A quarta edição deste prêmio, cuja convocação reuniu mais de uma centena de obras concorrentes, entregará ao ganhador 150 mil dólares, um trofeu, um certificado e a publicação de sua obra por parte do Ministerio del Poder Popular para la Cultura del Venezuela.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Internacionalismo e campismo: dilemas da aposta estratégica

Recebi esse excelente artigo do próprio Valério Arcary e posto aqui hoje.

Internacionalismo e campismo: dilemas da aposta estratégica

por Valério Arcary
professor do IFECT-SP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo) e doutor em história pela USP

Resumo

A pesquisa sobre o tema do internacionalismo tropeça em um paradoxo. Os marxistas previram que a burguesia seria uma classe, irredutivelmente, nacional. Anteciparam outro prognóstico ainda mais ousado: os proletariados nacionais se elevariam, politicamente, à perspectiva internacionalista. Mas, a história foi mais complicada. A burguesia, quando se sentiu ameaçada no século XX pelo perigo de transformações anticapitalistas, demonstrou capacidade de superar suas divergências nacionais. Já o proletariado encontrou dificuldades, até hoje, intransponíveis, para reconstruir um movimento internacionalista. O destino de sua luta, diante da crise econômica mais séria depois de 1929, parece depender da redescoberta do internacionalismo.

Quanto mais zelosamente os governos e a burguesia de todos os países procuram desunir os operários e lançá-los uns contra os outros(...), tanto mais imperioso é o dever do proletariado consciente de defender a sua coesão de classe, o seu internacionalismo, as suas convicções socialistas (...)Num momento da maior importância histórica mundial, a maioria dos dirigentes da Internacional Socialista tenta substituir o socialismo pelo nacionalismo.[1] (Vladimir Ilitch Ulianov, alias, Lenin)


A crise econômica de 2008 colocou na ordem do dia a discussão sobre o futuro da atual ordem mundial. A necessidade intransferível de uma coordenação internacional, algo que seria o mais próximo de um governo mundial, parece urgente. Mas, essa coordenação choca com as assimetrias que dividem o mundo em países centrais e periféricos. Nenhum Estado na história do capitalismo renunciou às vantagens de sua posição dominante no sistema mundial sem resistências.

Amsterdã entrou em guerra com Londres por três vezes no século XVII, até que a Holanda aceitou um papel complementar na relação com a Inglaterra. A Inglaterra entrou em guerra seis vezes com a França pela liderança no sistema europeu de Estados, entre o final do século XVII e a derrota final napoleônica em 1815. Alemanha e Inglaterra mergulharam o mundo, em 1939, em uma guerra total. Depois de 1945, o Japão aceitou o papel complementar na relação com os EUA e, depois da crise dos anos setenta, a França aceitou um papel complementar na relação com a Alemanha. Não será diferente com os EUA: coordenação internacional da crise é um eufemismo para a supremacia de Washington.

A crise contemporânea revela que as instituições erguidas a partir de Bretton Woods em 1944 não correspondem mais às necessidades do capitalismo. FMI, Banco Mundial, OMC, OIT, Banco de compensações internacionais de Basiléia e ONU, todas as organizações de regulação econômica, social e política estarão sendo reavaliadas. As turbulências no mercado mundial ameaçam se transformar em terremotos sociais – como na Grécia em dezembro de 2008, ou na ilha de Guadalupe, depois de trinta dias de greve geral - e exigem que os Estados renegociem o formato do sistema de Estados. Sendo improvável, senão impossível, apesar das pressões que já se manifestaram nos EUA, na Europa e no Japão, uma retração protecionista semelhante aos anos trinta, a questão da regulação mundial passou a ser uma das questões decisivas.

Marx e Engels defenderam no interior da I Internacional que as burguesias nacionais européias seriam classes prisioneiras do nacionalismo, em função da estreiteza de seus interesses econômicos. Previram, em 1871, depois que a guerra defensiva da Alemanha contra o Império francês se transformou em guerra ofensiva, culminando com a derrota da Comuna de Paris pelas tropas do governo francês, protegido pelo exército alemão em Versailles, e a anexação da Alsácia e Lorena, que as lutas fracionais entre as duas burguesias mais poderosas do continente semeavam as condições históricas para uma nova guerra, porém, incomparavelmente, mais destrutiva. A I Guerra Mundial lhes deu razão. O nacionalismo dos Impérios europeus nasceu das rivalidades burguesas, que só eram relevadas diante do perigo da subversão operária.

A segunda geração marxista, na época da II Internacional, defendeu que o “internacionalismo” do capital seria o imperialismo. O imperialismo de uma nação só seria possível com a destruição do direito de existência independente de outras. O nacionalismo das burguesias centrais corresponderia à anexação das burguesias periféricas aos interesses das metrópoles contra os interesses de suas próprias nações à independência. O imperialismo seria a forma mais exaltada e mais perigosa de nacionalismo: o nacionalismo das nações opressoras. Concluíram que o imperialismo seria a fase do apogeu e, ao mesmo tempo, do declínio do capitalismo.

Este prognóstico passou a prova da história? Afinal, o capitalismo uniu econômica e politicamente o mundo, em sucessivas etapas, ao longo de um processo que consumiu séculos. Mas, não é um bom critério histórico confundir o que foi produto do capitalismo com o que foi a obra dos capitalistas. O capitalismo é um sistema que se afirmou em escala internacional. Já os capitalistas são uma classe que permaneceu dividida por antagonismos nacionais. Construíram monopólios e bancos que, embora atuando em escala global, continuaram sendo negócios nacionais. O capitalismo histórico criou o mercado mundial e estruturou um sistema internacional de Estados, mas preservou, intactas, as fronteiras políticas dos países centrais, aqueles que deram forma ao moderno imperialismo.

Os marxistas anteciparam outro prognóstico ainda mais ousado: os proletariados nacionais se elevariam, politicamente, à perspectiva internacionalista, em função de seu impulso revolucionário: “a emancipação da classe operária não é um objetivo nacional, mas social, que abarca todos os países em que existe a sociedade moderna” (Marx, 1988, p.8). Proletários de todo o mundo, uni-vos! Esta foi a palavra de ordem central que o marxismo apresentou como síntese de um programa socialista. Seria uma questão de tempo para que os limites nacionais do capital se manifestassem, incontornavelmente, e para que a grandeza internacionalista do projeto socialista se afirmasse, inelutavelmente. Teria este projeto bases materiais, ou era uma utopia?

A supremacia dos EUA no sistema internacional de Estados

A história foi, todavia, mais complicada do que tinham antecipado os fundadores do moderno movimento socialista. Ao longo do século XX, revolução e contra-revolução mediram forças, mas o capitalismo conseguiu preservar-se. Em quatro ondas de assalto internacionais ao domínio da burguesia – depois de 1917, depois da crise de 1929, depois de 1944, e depois de 1968 - a revolução mundial desafiou o capitalismo e foi derrotada (Hobsbawm, 1996). O Capital se internacionalizou até os limites máximos do mercado mundial. A capacidade demonstrada pela burguesia, depois de duas guerras mundiais devastadoras, de superar as suas divergências nacionais, surpreendeu os marxistas, mas foi muito estudada. Já, a dificuldade do proletariado de se unir à escala mundial contra o capitalismo, depois do triunfo do estalinismo na ex-URSS, decepcionou-os, mas é menos compreendida.

O capital financeiro domina o mundo. E o capital financeiro dos EUA domina o capitalismo mundial. Essa dominação foi incontrariável, e não parece previsível que venha a ser desafiada durante a fase aberta pela atual crise. Haverá conflitos comerciais, mas não haverá guerra comercial entre as potências. A terrível lição dos anos trinta não ocorreu em vão. Uma solução militar para a crise não é plausível. Caberá aos EUA assumir a liderança da coordenação internacional.

O capital financeiro foi o produto histórico da fusão do capital bancário com o capital industrial, sob a liderança do primeiro, na elaboração de Hilferding de 1912, retomada por Lenin no seu Imperialismo, fase superior do capitalismo: “se fosse necessário dar uma definição o mais breve possível do imperialismo, deveria dizer-se que o imperialismo é a fase monopolista do capitalismo (...) o capital financeiro é o capital bancário de alguns grandes bancos monopolistas fundido com o capital dos grupos monopolistas industriais” (Lenin, 1966, p.762).

Depois da Segunda Guerra Mundial, a liderança norte-americana sobre o capitalismo internacional se afirmou de forma incontroversa. Sua supremacia foi ainda maior que a inglesa no século XIX. Essa hegemonia traduziu-se no lugar do capital financeiro yankee no capitalismo erguido após as negociações de Bretton Woods em 1944. A primazia dos capitais norte-americanos sustentou-se, também, nos trinta anos de crescimento do pós-guerra, enquanto Europa e Japão ainda se reconstruíam, na superioridade da sua capacidade industrial, na estabilidade política-social interna do governo dos EUA e, por último, mas não menos importante, no papel insubstituível do seu aparato militar, inclusive, nas armas nucleares.

Na seqüência da restauração capitalista na China e na ex-URSS, contrariando a hipótese de autores como Arrigui, no seu O longo século XX, ou Wallerstein (2002), o papel da liderança norte-americana não só não diminuiu, como aumentou. A transferência de indústrias para o Oriente nos anos 90 não parece ter sido expressão somente da decadência, mas, sobretudo, da fortaleza do capital norte-americano, que se aproveitou da oportunidade histórica da restauração capitalista para tentar incorporar a China como semicolônia na sua área de dominação direta. O papel do capital financeiro dos EUA adquiriu dimensões espantosas durante a globalização dos últimos quinze anos. Os capitais fictícios – aqueles que acumulam hoje, na perspectiva da valorização futura – agigantaram-se até dimensões colossais, algo próximo de dez vezes o PIB mundial, ou mais de US$500 trilhões, segundo o Banco de Compensações Internacionais de Basiléia, alimentando as bolhas dos preços dos ativos que começaram a explodir no segundo semestre de 2007, e mergulharam em colapso em setembro de 2008, após a falência do Lehmann Brothers.

Uma ordem mundial menos estável depois da dissolução da URSS

Em resumo, a configuração do sistema mundial de Estados mudou em 1945, com a hegemonia inconteste dos EUA sobre os outros imperialismos. Uma ordem mundial incomparavelmente mais estável se construiu, em comparação com a primeira metade do século, pela inapelável derrota alemã e japonesa, e pelo papel auxiliar vital de Moscou ao garantir a coexistência pacífica, ou seja, ao se comprometer em não incentivar revoluções que desafiassem a ordem capitalista. Em perspectiva histórica, temos hoje a dimensão de que os conflitos entre os EUA e a URSS eram condicionados pelo interesse mútuo de preservação da ordem, e foram até teatralizados pelos dois Estados, como destacou Wallerstein (2002).

Karl Kautsky tinha previsto no início do século XX a possibilidade do ultra-imperialismo. E antecipava que a época do ultra-imperialismo seria uma época de paz, porque seria a superação dos imperialismos nacionais. O ultra-imperialismo seria a expressão política de uma transformação econômico-social: assim como com o imperialismo, na virada do século XIX para o XX, teria ficado para trás a época da livre concorrência, a fusão dos monopólios nacionais em grandes corporações multinacionais deixava para trás a época das guerras burguesas pelo controle do mercado mundial. Seria a época de uma burguesia, enfim, internacionalista. O ultra-imperialismo seria a época do Império mundial. Mas, duas guerras catastróficas em menos de trinta anos desmoralizaram a idéia do ultra-imperialismo. Toni Negri e Michael Hardt, com seu Império(2002), retiraram a hipótese de Kautsky do esquecimento. Cem anos depois não parece que seu livro terá melhor destino.

Depois da dissolução da URSS, nove entre cada dez interpretações exaltavam a vitória histórica do capitalismo e da democracia e a inauguração de uma época de paz. Revoluções seriam rebeliões arcaicas para sempre enterradas. O socialismo teria sido derrotado pelo próprio proletariado que, supostamente, deveria representar. A superioridade da propriedade privada e do mercado teria sido confirmada pela história. Uma maior estabilidade no sistema internacional de Estados garantiria uma época de prosperidade sustentável.

É verdade que a supremacia dos EUA no sistema mundial de Estados não diminuiu depois de 1989/91, ficou maior. Mas, a estabilidade de sua dominação não aumentou, na verdade, diminuiu. O que foi interpretado, apressadamente, como o fim da época aberta pela revolução de Outubro, revelou-se uma virada histórica transcendental, mas não como foi previsto. A possibilidade de reformas durante as décadas de ajuste neoliberal ficou menor. As desregulamentações ultra-liberais abriram caminho para uma financeirização do capitalismo que fermentou as bolhas que explodiram em 2000 e agora em 2007.

Sem o papel de contenção que era cumprido pelo Estado soviético, a instabilidade política e social aumentou nos dois elos mais frágeis da dominação imperialista: o Oriente Médio e a América Latina. Moscou perdeu a capacidade de cumprir a função de controle que exerceu durante décadas no Golfo Pérsico: a OLP perdeu influência para o Hamas, o Hisbolah assumiu a liderança da resistência a Israel no Líbano e o Irã se consolidou como Estado independente. Na América Latina, os velhos Partidos Comunistas desmoronaram, e abriu-se um novo ciclo político com as insurreições populares que deslocaram mais de dez presidentes eleitos, em menos de dez anos, como conseqüência das crises econômicas de 1989/1992 e 1999/2003, sem que a extensão das políticas sociais focadas e compensatórias assegure condições de estabilidade social quando se abaterem sobre o continente as seqüelas da nova crise.

O lugar da política da casta dirigente na URSS na etapa 1945/89 não deveria ser subestimado, como ficou claro na revolução portuguesa em 1974/75. Apesar de Moscou, todavia, inúmeras situações revolucionárias se precipitaram no pós-guerra – como na Bolívia em 1952, Guatemala em 1953, na Indonésia em 1965, ou no Chile em 1973 – e foram derrotadas. Entretanto, revoluções triunfaram, também, como em Cuba em 1959, Argélia em 1961/63, ou ainda na Nicaragua e Irã em 1979. Em meados dos anos setenta aconteceu o impensável: uma derrota militar de Washington no Vietnam.

Foi a desconfiança das massas trabalhadoras nas suas próprias forças o maior obstáculo a ser vencido em todas as revoluções contemporâneas: essa permaneceu sendo a força de inércia reacionária mais poderosa na história. Mas essa insegurança social não pode ser compreendida, plenamente, sem analisar o papel dos seus partidos dirigentes. Estes partidos, socialdemocracia e estalinismo, estavam comprometidos com a defesa da coexistência pacífica, portanto, com o status quo no sistema internacional de Estados. Depois de 1989/91, a ruína dos PC’s foi a ruína, também, de um dos pilares da estabilidade no Ocidente. Foi o atraso de reformas que incendiou, invariavelmente, a possibilidade de revoluções. Depois de 1989/91, com o desemprego crônico e o salário médio estagnado ou em queda, as ilusões nas possibilidades de uma mobilidade social ascendente diminuíram.

Do internacionalismo marxista ao nacionalismo campista

O curso regressivo do proletariado do internacionalismo ao nacionalismo, entre os anos 20 e os anos trinta do século XX, correspondeu a um processo histórico de acumulação de derrotas da revolução mundial. Na etapa aberta pela vitória da revolução de Outubro, a dinâmica tinha sido inversa. Depois da vitória da revolução russa em 1917, e da crise de 1929, o futuro do capital pareceu, seriamente, ameaçado. A revolução contemporânea foi, objetivamente, uma revolução mundial. A forma de expansão em ondas de contágio dentro de cada continente não foi excepcional: Europa central depois de 1918, Europa do Mediterrâneo depois de 1929, os Bálcãs depois de 1944, o Mediterrâneo depois de 1968, a América Latina depois de 1959, etc...

Mesmo as formas cada vez mais aterrorizadoras do regime tirânico estalinista na URSS, nos anos trinta, não anulavam as façanhas econômicas e sociais que o planejamento econômico e a propriedade estatizada estavam permitindo realizar. A III Internacional cresceu durante seus primeiros quinze anos, rapidamente, como pólo de atração do movimento socialista mundial. Entretanto, desde meados dos anos vinte, e ainda mais acentuadamente depois dos anos trinta, quando dos julgamentos de Moscou, sua orientação política evoluiu, vertiginosamente, do internacionalismo para o campismo.

Os campistas apoiavam seus argumentos com uma demonstração simples de sua estratégia. O mundo estava dividido em dois campos, o capitalista e o socialista. Seria uma questão de tempo para que a superioridade do socialismo fosse arrasadora. Revoluções sociais tinham sido enterradas pela história, porque o arsenal nuclear do imperialismo ameaçava a própria existência da civilização. Logo, toda a tática consistia em ganhar tempo para que a transição ao socialismo por via pacífica, respeitando as formas democráticas das Repúblicas burguesas, fosse conquistada. A coexistência pacífica favorecia, presumia-se, a passagem ao socialismo. A luta de classes deveria estar subordinada aos interesses diplomáticos da URSS nas relações com os EUA: a situação mundial se resumia a uma luta entre Estados.

O campismo socialista parecia ter desmoronado no início da década de 90 com a restauração capitalista no Leste e a desintegração da URSS. O campismo foi, na segunda metade do século XX, ao lado do gradualismo democrático-reformista, a mais influente teoria na esquerda mundial. Influenciou gerações, afirmando que o mundo estava dividido em dois campos: o capitalista e o socialista, irreconciliáveis, sendo este último, presumidamente, a retaguarda estratégica das lutas de classes contra o imperialismo, apesar das oscilações da coexistência pacífica. Uma análise lúcida das distintas interpretações campistas – pró Moscou, ou pró Pequim - foi feita por Perry Anderson no seu clássico Considerações sobre o marxismo occidental.(1996)

Algumas poucas vozes marxistas alertaram para as perigosas conseqüências dos critérios campistas. A tradição associada à elaboração de Leon Trotsky se destacou na reivindicação da centralidade do internacionalismo socialista: o antagonismo entre capital e trabalho permanecia a contradição ordenadora para um projeto socialista. Os internacionalistas reconheciam a existência de inúmeras outras contradições. Admitiram que seria justo se posicionar em defesa dos Estados pós-capitalistas contra os capitalistas, em defesa das nações oprimidas contra as opressoras, em defesa de regimes democráticos quando ameaçados pelo perigo de quarteladas ditatoriais, em defesa dos direitos da mulher contra a prepotência do machismo, em defesa do meio-ambiente, etc...

Mas, sustentaram que os antagonismos de classe continuavam sendo a contradição fundamental do capitalismo. Um projeto anticapitalista dependeria, estrategicamente, da reconstrução de um movimento operário internacional. Esta tradição político-programática não hesitou em defender a URSS e, de resto, qualquer Estado periférico diante do imperialismo. Não compartilhava, contudo, o critério da defesa incondicional de Moscou, Pequim, Tirana ou Havana, porque associava o futuro do socialismo à defesa, também, dos interesses da classe trabalhadora na URSS, na China, na Albânia ou em Cuba, contra os privilégios das castas burocráticas no poder nesses países. Nem todos os defensismos da URSS e dos Estados que surgiram das revoluções sociais do século XX eram, portanto, campistas. Existiu uma alternativa à estalinofilia, e à estalinofobia. Uma insuperável divisão, no entanto, se estabeleceu durante décadas entre as lutas no Ocidente e no Oriente, acabando de enterrar o internacionalismo como um movimento político organizado, tal como tinha existido ainda, por exemplo, diante da revolução espanhola.

O “nacionalismo” da URSS nunca foi o mesmo que internacionalismo

Este desafio teórico-programático do movimento socialista desdobrou-se, no século XX, no que podemos resumir como um dilema entre posições internacionalistas e posições nacionalistas. Os nacionalistas observam o mundo a partir de seus países, e os internacionalistas observam seus países a partir do mundo. Os nacionalistas avaliam cada processo revolucionário como o desenlace de uma luta que começa e termina dentro de suas fronteiras. Os internacionalistas consideram cada processo revolucionário como uma refração da revolução mundial. Os marxistas reconheceram, contudo, que o nacionalismo das nações dominantes era reacionário e o das nações dominadas era progressivo.

Mesmo as lutas das nações oprimidas, aquelas que a divisão do mundo ao longo dos últimos quinhentos anos condenou à periferia, como colônias ou semi-colônias, só poderiam erguer Estados independentes de forma efêmera. A ruptura com o sistema mundial de Estados colocaria o desafio anticapitalista, mais cedo ou mais tarde, como inadiável. Estados independentes na periferia, como foi em seu tempo o Egito de Nasser, ou permanece hoje o Irã do partido-igreja islâmico xiita ou Cuba, foram excepcionais, porque a ordem mundial é imperialista e tem um centro. Governos nacionalistas foram e são transitórios.

A primeira perspectiva, o nacionalismo, ainda quando radical, conduziu a resultados, invariavelmente, desanimadores: a esquerda chilena no início dos anos setenta estava cavando, involuntariamente, sua própria sepultura, ao desprezar as lutas no Peru e na Bolívia; os sandinistas da Nicarágua enterraram sua revolução nos acordos de Contadora, dando as costas para El Salvador; a revolução iraniana foi sufocada pelos anos de guerra com o Iraque

Eis o dilema do método: uma análise que equaciona os conflitos entre as classes nos países, ou continentes decisivos, diminuindo o lugar e a política dos Estados na situação mundial, será incapaz de explicar as relações de forças entre as classes, porque o posicionamento dos Estados é uma determinação – na verdade, um elemento central - dos contextos políticos. Pecará por unilateralidade, diminuindo a força da contra-revolução.

Um exemplo: seria ingênuo imaginar uma dinâmica anticapitalista da revolução nicaragüense, como se fosse possível uma nova Cuba, após 1979, ignorando que a política de Washington, com Reagan, tinha como eixo impedir a qualquer preço – como depois ficou claro pela participação de militares israelenses na formação do exército dos “contras”- derrotas como a sofrida em Teerã e na América Central. E a política do Estado cubano não era o apoio à revolução salvadorenha, para que se repetisse em San Salvador o desenlace que ocorreu em Manágua, mas o apoio a negociações que, finalmente, culminaram no acordo de Contadora.

O caminho inverso seria ainda mais desastroso. Quando se subestimam os conflitos entre as classes em cada sociedade, a análise redundará, fatalmente, em avaliações impressionistas, porque as lutas de classes subvertem, em maior ou menor medida, o posicionamento dos Estados. Pecará por superficialidade, exagerando a força da contra-revolução.

Mais um exemplo: seria completamente unilateral imaginar que a ALCA era um projeto econômico-político imbatível, somente porque a maioria dos Estados latino-americanos eram favoráveis ao acordo impulsionado pela administração Bush no início da década, ignorando que as crises sociais agravadas nos anos noventa pelos ajustes neoliberais tinham alterado a relação de forças sociais no continente, de tal maneira, que De La Rua foi defenestrado em 2001, o golpe na Venezuela foi derrotado em 2002, FHC e os tucanos foram eleitoralmente vencidos no Brasil, e Gonzalo de Losada viu-se obrigado a fugir de helicóptero de La Paz em 2003.

As três ondas da revolução latino-americana

A etapa aberta no sistema internacional de Estados após a dissolução da URSS acentuou duas contradições chaves: por um lado, o imperialismo norte-americano manteve a liderança política e militar e lançou-se, primeiro nos Bálcãs, e depois na Ásia Central e no Oriente Médio, em guerras de recolonização, apesar da fragilização de sua economia, em função do crescimento dos déficits gêmeos que preservam o dólar como moeda mundial, porém, à custa da sua desvalorização, como destacou César Benjamim (2003).

Por outro lado, a acelerada internacionalização do capital financeiro veio impondo a necessidade de uma ofensiva contra as conquistas sociais dos trabalhadores nos países periféricos que atinge, também, embora em outra proporção, os proletariados dos países centrais. O início do novo século coincidiu com uma terceira vaga revolucionária na América Latina, e fez ressurgir com a máxima intensidade o tema do internacionalismo.

Não foi a primeira vez que o continente foi incendiado por uma onda revolucionária internacional. A primeira vaga começou na Bolívia em 1952, aprofundou-se com a vitória em Havana em 1959 e foi derrotada no Rio de Janeiro em 1964. A segunda começou com o triunfo em Manágua em 1979, passou pelas quedas das ditaduras nos países chaves do Cone sul – Argentina e Brasil - entre 1982 e 1985, mas a relação de forças foi se invertendo com a derrota da situação revolucionária na Bolívia em 1985 e, na virada da década, com as eleições de Menem e Collor e, depois FHC, no Brasil. Em janeiro de 2000 em Quito começou a terceira vaga revolucionária latino-americana, que permanece em aberto, porque a hora dos combates decisivos ainda não chegou.

O continente latino-americano escreveu sua primeira página na história da revolução socialista com o triunfo da revolução cubana em 1959. O medo de que a revolução se alastrasse de Cuba para todo o continente explicou a política burguesa nos vinte anos que vão de 1960 a 1980. Mas, quando Cuba triunfou, a primeira vaga da revolução anti-burocrática no Leste europeu já tinha sido derrotada na Hungria e na Polônia. E enquanto a quarta vaga da revolução mundial pós-68 se alastrava na Europa para a Itália e Lisboa, e seus ecos instigavam a juventude mexicana a ocupar a Praça do Zócalo na terceira maior cidade do mundo, ao mesmo tempo em que 100.000 saiam às ruas do Rio de Janeiro para gritar ‘abaixo a ditadura’, a situação na América Latina evoluía, desfavoravelmente, para a causa da revolução.

A vaga latino-americana já tinha sido derrotada, anos antes, no golpe do 31 de Março no Rio de Janeiro e a esquerda inspirada no exemplo cubano de inspiração guevarista foi dizimada. No início dos anos oitenta, as ditaduras latino-americanas foram caindo, umas após as outras, mas as classes dominantes lograram estabilizar os regimes democrático-liberais com a promessa da alternância eleitoral. A geração mais velha da esquerda latino-americana tinha medido forças com a contra-revolução e tinha sido esmagada. Um fio de continuidade histórica tinha sido interrompido sem que, porém, as ilusões reformistas na possibilidade de um capitalismo desenvolvimentista e distribuidor de renda – o programa hegemônico da esquerda do pós-guerra, mesmo daquela que pegou em armas - tivessem sido superadas. A onda de revoluções que sacodiu a América Latina entre 2001/2005 reabriu, necessariamente, discussões estratégicas sobre o futuro da luta socialista. Partidos associados aos ajustes neoliberais da década de noventa foram, uns após os outros, sendo derrotados, levando ao poder Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia, Daniel Ortega na Nicarágua, Rafael Correa no Equador, além da reeleição de Hugo Chávez na Venezuela. Fernando Lugo foi eleito no Paraguai. O processo de luta de classes que permitiu derrubar mais de dez presidentes eleitos na América Latina, mas foi absorvido até o momento nos limites dos regimes democrático-eleitorais, poderia avançar até que limites? Governos nacionalistas com políticas sociais compensatórias poderão estabilizar os seus países, mesmo depois que se inverteu a tendência do ciclo econômico, e a crise mundial precipita o continente em uma nova recessão generalizada, senão em depressão? Poderiam voltar a ocorrer revoluções anti-capitalistas protagonizadas por sujeitos sociais não proletários? Em que medida, a pressão da luta de massas poderia empurrar as forças políticas dirigentes – Evo e o MAS na Bolívia, Chávez e o PSUV, por exemplo - além do rubicão da propriedade privada? Os governos nacionalistas alimentam, como seria previsível, novas ilusões campistas.

Não é, contudo, provável que quaisquer destes governos venham a romper os limites do capital e, de resto, da institucionalidade burguesa, como ficou mais ou menos claro no plebiscito negociado por Evo Morales na Bolívia com os governadores das províncias da chamada meia-lua, ao final de 2008. O capitalismo andino de Morales não deverá ter um futuro muito superior às experiências dos governos militares no Peru, no início dos anos setenta. Chávez não parece querer ser um novo Fidel. As diferenças entre o castrismo dos anos sessenta e o chavismo, remetem à relação de forças no sistema internacional de Estados. Cuba não pode ocupar, face à Venezuela, o papel que a URSS ocupou em relação a Cuba. Ao contrário, é tal a fragilidade de Cuba, que os planos de restauração capitalista “a la chinesa” em Havana, fizeram Cuba depender, crescentemente, da Venezuela.

A época dos substitucionismos ficou para trás

No Programa de Transição de 1938, Leon Trotsky tinha previsto que, excepcionalmente, em condições extraordinárias de crise, aprisionados entre a pressão do imperialismo e a pressão da mobilização de massas, direções nacionalistas poderiam ir além dos limites do capitalismo. O que tinha sido previsto como improvável, acabou sendo quase um padrão entre 1945 e 1973. Uma parcela das direções nacionalistas radicalizadas, acossadas pelo imperialismo e apoiadas na mobilização das massas populares, mas ameaçadas, também, pelo perigo de um desbordamento pela sua esquerda, expropriaram o capital. O substitucionismo social do proletariado por massas camponesas e populares, e o substitucionismo político dos marxistas por direções nacionalistas traduziram a grandeza e, também, os limites das revoluções do pós-guerra.

Ao mesmo tempo, em uma parte das ex-colônias ou semicolônias que mergulharam em situações revolucionárias, mas aonde não se deu a ruptura anti-capitalista - como Argélia nos anos sessenta, ou na Nicarágua e Irã, no final dos setenta - surgiram Estados independentes. Alguns lograram manter esta independência, sobretudo, em países com recursos estratégicos como o petróleo. Entretanto, revoluções sociais anti-capitalistas não aconteceram mais desde a derrota americana no Vietnam. Portugal, Nicarágua, Irã, Haiti, Filipinas, Indonésia e África do Sul, entre outros países, conheceram revoluções políticas que derrubaram regimes ditatoriais pró-imperialistas, mas não transbordaram em revoluções sociais. Os processos revolucionários estagnaram e foram contidos nos limites dos novos regimes.

As direções nacionalistas, não só recuaram, primeiro, de qualquer veleidade anti-capitalista – vide o PC da África do Sul, o mais influente partido comunista depois da restauração do capitalismo na URSS - como recuaram depois, em sua maioria – vide a OLP de Arafat - do projeto de se afirmar até como Estados independentes.


A crise ameaça a ordem mundial construída depois da dissolução da URSS

A crise econômica aberta em meados de 2007, agravada em 2008 com sinais depressivos, e que tem nos EUA o seu epicentro mais grave, colocará à prova a dominação capitalista do mundo. A saída para a crise exigirá uma destruição nunca vista de capitais, com desvalorização de ativos, falências, fusões e concentração que já está acontecendo.

Mas, esta crise é diferente de todas as outras pós-1945. Ela não poderá ser superada sem uma ofensiva capitalista reacionária em escala mundial proporcional à gravidade do colapso econômico e financeiro. Serão necessárias cinco iniciativas, todas muito difíceis de serem implementadas, porque despertarão gigantescas resistências político-sociais: um aumento dos níveis de exploração absoluta da classe trabalhadora norte-americana e mundial com aumento das jornadas e redução salarial – e um desemprego em massa que políticas compensatórias dificilmente poderiam neutralizar - que poderá potencializar uma resistência unificada dos proletariados dos países centrais e periféricos; uma deflação dos preços das matérias-primas e, portanto, uma degradação das condições desfavoráveis de troca no comércio mundial entre os países centrais e a periferia, que poderá potencializar uma instabilidade no sistema internacional de Estados e, até favorecer que cheguem ao poder governos nacionalistas como os da Venezuela e Irã; uma redução de custos pela aceleração das inovações tecnológicas, e o desenvolvimento de novos ramos produtivos que acelerem a passagem de uma produção industrial ainda dependente dos combustíveis fósseis, processos que só poderão ser obtidos com o aumento de investimentos que a crise desestimula, e teriam que ser feitos por Estados com déficits gigantescos, apavorados com o crescimento vertiginoso das dívidas públicas; uma ainda mais intensa internacionalização até à última fronteira, tencionando com as pressões protecionistas; e, finalmente, mas não menos importante, uma maior financeirização, que exigirá reformas no sistema monetário internacional, para proteger o dólar como moeda de reserva, ameaçado por uma desvalorização que teria conseqüências imprevisíveis.

Mas, ao contrário do que alguns apressadamente concluíram, as burguesias nacionais não se transformaram em uma classe mundial. A burguesia permaneceu uma classe nacional. O imperialismo norte-americano continuou sendo o imperialismo de uma classe nacional, ainda que com responsabilidades maiores sobre a estabilidade do mercado mundial e do sistema internacional de Estados.

Foi a força dessa supremacia dos EUA de um lado, e o perigo da revolução mundial por outro, que condicionou os limites muito reduzidos para os conflitos entre as potências rivais entre 1945 e 1989/91. Foi a hegemonia reforçada dos EUA durante os anos que ficaram conhecidos como globalização, entre 1991/2008 - anos de uma intensa expansão da financeirização internacional que engrandeceram o lugar do capital yankee, em uma proporção maior do que o crescimento da economia mundial - que manteve a ordem imperialista, apesar das guerras na Yugoslávia, no Iraque e no Afeganistão ainda, relativamente, estável, se fizermos a comparação com a etapa pré-1945.

A explicação para este maior “internacionalismo do capital” é mais político-histórica do que econômica. Os “instintos” contra-revolucionários da burguesia se manifestaram em potência máxima. O capital, quando se sentiu ameaçado, no século XX, pelo perigo da revolução mundial, demonstrou capacidade de superar suas divergências nacionais. As burguesias européias e a japonesa, parceiras, porém, também, rivais imperialistas dos EUA, uniram-se a Washington na defesa do sistema que garantiu a sua sobrevivência social e política. Os investimentos norte-americanos na Alemanha e no Japão, entre outros, tinham sido decisivos para garantir a recuperação nas décadas imediatas do pós-guerra. Tornaram-se mais sócias dos EUA, economicamente - até aceitaram papéis complementares como o Japão - porque as competições políticas ficaram obsoletas, após 1945, diante da disparidade de forças que os distanciava dos EUA, e do desafio estratégico colocado pelas revoluções anticapitalistas.

A crise do campismo socialista

A pesquisa sobre o tema do internacionalismo contemporâneo tropeça em um paradoxo. As lutas do proletariado e dos seus aliados sociais em cada país nunca foram tão dependentes da solidariedade internacional como nos últimos quinze anos, mas a capacidade da classe trabalhadora constituir um campo de resistência de classe – contra o desemprego e a precarização, por exemplo - e ser um pólo de atração à escala mundial permaneceu reduzida.

Surgiram iniciativas progressivas, à escala internacional, como as mobilizações de Seattle, nos EUA e de Genova, na Itália, contra a OMC e o FMI, que lograram despertar entusiasmo em uma nova geração da juventude estudantil. Foram realizadas campanhas na América Latina contra a ALCA. Na seqüência do Fórum Social de Porto Alegre – uma frente única anti-neoliberal que se apoiava nas ilusões do que poderia vir a ser a experiência de um governo Lula no Brasil – foi possível realizar as maiores manifestações de massas contra o governo Bush. Fortaleceu-se um internacionalismo pacifista contra a ameaça de mais guerras coloniais – como no Afeganistão (2001), Iraque (2003), no Líbano (2007) e Faixa de Gaza (2008); um internacionalismo ambiental contra o perigo da devastação ecológica; um internacionalismo humanitário contra genocídios (Bósnia, Kosovo, Ruanda, Darfur); um internacionalismo feminista contra a opressão machista e pela legalização do aborto. Mas, o internacionalismo proletário, ou seja, anticapitalista, o internacionalismo do movimento social mais longevo da história contemporânea não se reconstruiu ainda.

O proletariado, em especial nos países centrais, encontrou no último pós-guerra dificuldades, até hoje intransponíveis, para reconstruir um movimento internacionalista. O internacionalismo exigiu, historicamente, uma organização de classe independente e forte o bastante para resistir às pressões sociais hostis dentro das fronteiras nacionais. A influência dos projetos de colaboração de classes, que se expressou na influência duradoura da socialdemocracia, como na Alemanha e na Inglaterra, ou dos partidos alinhados com Moscou, como na Itália e na França , teve como conseqüência, a renúncia ao internacionalismo. A aliança com frações das burguesias nacionais cobrava o preço da divisão proletária internacional.

A precarização das condições de trabalho – flexibilização das jornadas de trabalho com redução salarial para que as corporações não transferissem as fábricas - foram negociadas pelas direções sindicais com o argumento de que as novas condições impostas pela globalização financeira tornavam inevitáveis concessões para evitar um desemprego ainda maior. A ilusão de que seria possível, dentro de fronteiras nacionais, forjar um projeto político-social capaz de garantir reformas reguladoras do capitalismo, evitando a vertigem de uma ruptura revolucionária, isto é, a medição de forças frontal com suas próprias burguesias, levou os proletariados dos principais países imperialistas a regredir ao nacionalismo.

Essa involução foi potencializada pelas décadas de crescimento econômico, quando reformas foram negociadas gerando o chamado Welfare State. Quando as crises econômicas voltaram com maior intensidade, e a precarização das relações trabalhistas e a queda dos salários médios fizeram retroceder as condições de vida, em algumas camadas do proletariado mais ameaçadas pelo desemprego, e em alguns países em que a emigração de trabalhadores estrangeiros foi satanizada – Áustria e Itália, entre outros – aconteceu uma regressão ao nacionalismo mais estreito.

Os fundamentos graníticos do internacionalismo

O internacionalismo marxista tinha como premissa “granítica” a compreensão de que o capitalismo domina o mercado mundial, mas as relações sociais capitalistas se estruturam no interior de um sistema mundial de Estados que, na época imperialista, seria dilacerado pelos antagonismos entre as potências. O capitalismo seria desafiado pelo proletariado e seus aliados sociais em cada país dentro de fronteiras nacionais, mas sua permanência seria decidida na escala internacional. A perspectiva internacionalista dos socialistas estava alicerçada, portanto, na idéia de que a burguesia seria uma classe com interesses, irremediavelmente, nacionais. A forma degenerada dos nacionalismos exaltados das potências européias ao final do XIX e, sobretudo, depois da I Guerra Mundial, com o nazi-fascismo, confirmou esta análise.

O movimento socialista se constituiu, a partir da experiência da I Internacional nos anos sessenta do século XIX, com a premissa de que a burguesia era uma classe, social e politicamente, mais heterogênea que o proletariado. Os limites históricos do capital – a impossibilidade de manter a valorização ilimitada - se manifestariam na hora das crises econômicas, e nas rivalidades entre os imperialismos. A partir da vitória da revolução russa, os marxistas reagrupados na III Internacional previram que a concorrência entre os grandes monopólios e a competição entre os Estados seriam a força de impulso de guerras mundiais. Este prognóstico foi confirmado até meados do século XX, mas, depois, não.

A classe trabalhadora seria capaz de ir além dos interesses nacionais mais imediatos, e afirmar o seu movimento como internacional. O internacionalismo marxista sempre foi uma questão de método, na análise, de política, na linha de intervenção, de programa, na perspectiva histórica, e de organização no compromisso com o projeto da construção da Internacional. Os trabalhadores deveriam constituir um movimento internacionalista nas metrópoles que seria solidário com a revolução mundial, e apoiaria, portanto, os movimentos nacionalistas da periferia. Porque a hora da revolução social nas metrópoles, seria a hora da libertação nacional das nações oprimidas.

Um capital mais internacional, um movimento operário mais nacional

Quis a ironia da história que este vaticínio fosse confirmado, porém, ao contrário. Nem o governo do Labour party, mesmo depois da greve geral na Inglaterra nos anos vinte, nem a Frente Popular na França de Leon Blum, nos anos trinta, mesmo depois da greve geral que conquistou o direito de férias remuneradas, por exemplo, aceleraram a libertação das colônias dos Impérios britânico e francês. Aconteceu o inverso deste prognóstico fundador: predominou na dinâmica da revolução mundial o oposto. Sem a derrota dos planos de De Gaulle na Argélia, seria impossível compreender a crise de 1968 em Paris, sem a derrota de Salazar nas colônias africanas seria impossível compreender a revolução dos cravos em Lisboa em 1974.

Resumindo: as duas antecipações históricas que fundamentavam a perspectiva internacionalista dos marxistas confirmaram-se, porém, apenas parcialmente. Foram, portanto, subvertidas pela história. O projeto socialista revelou-se muito mais difícil que o previsto pelos fundadores. A capacidade dos imperialismos se articularem diante do perigo da revolução mundial, consolidando uma frente contra-revolucionária que os levou até a aceitar, em circunstâncias excepcionais, a coexistência pacífica com Moscou, surpreendeu. Por outro lado, as dificuldades do proletariado de oferecer, à escala internacional, uma resistência às reestruturações produtivas e ataques aos direitos sociais a partir dos anos 80 do século passado, por exemplo, decepcionou.

Os imperialismos europeus, norte-americano e japonês desenvolveram relações, fundamentalmente, complementares, nos últimos sessenta anos, e não parece razoável prever que a liderança norte-americana no Sistema Mundial de Estados venha a ser desafiada na crise econômica aberta em meados de 2007, e que deu um salto de qualidade no segundo semestre de 2008. Londres manteve uma aliança, para o essencial, quase sem fricções com Washington, e essa perspectiva deverá se manter. Paris e Berlim à frente da União Européia têm as suas diferenciações, como na decisão da invasão do Iraque em 2003, todavia, negociam aceitando o lugar da supremacia norte-americana.

A desestabilização da dominação capitalista mundial, desde o final da II Guerra Mundial, dependeu mais da luta nacionalista revolucionária de massas populares e camponesas não proletárias dos países periféricos, do que da ação internacionalista dos proletariados dos países centrais. É verdade que a onda revolucionária aberta em 1968 começou em Paris, alastrou para a Itália, passou pela queda da ditadura dos coronéis na Grécia, e depois ameaçou a dominação burguesa na área do Mediterrâneo, com a revolução portuguesa de 1974/75, e o ascenso espanhol entre 1976/78. Mas, foi contida. A liderança da socialdemocracia e do estalinismo sobre os batalhões pesados da classe operária – França, Itália, Alemanha, Inglaterra - explica, em grande medida, as derrotas políticas e sociais, um país atrás do outro, ao longo dos anos oitenta e noventa do século XX. O processo de superação da hegemonia dos partidos eleitorais-reformistas sobre os trabalhadores, iniciado em 1968, foi interrompido e retrocedeu.

A revolução mundial deslocou-se outra vez nas décadas seguintes, como entre 1945-1968, para os países periféricos, onde, à exceção do Brasil (1978/1989), Argentina (1982/1989, menos em 2001) e Bolívia (1985 e, mais recentemente, 2003/2005), o proletariado cumpriu um papel auxiliar nas lutas revolucionárias mais significativas: Nicarágua e Irã (1979) ou Venezuela (1989 e, muitos anos depois, 2002).

A explicação do paradoxo não é simples. Toda situação internacional foi sempre o resultado de um processo de lutas entre as classes, mas também, de luta entre Estados. E a competição entre Estados assumiu formas diferentes nos últimos cento e cinqüenta anos. Esgotada a época de expansão e apogeu do capitalismo, sob liderança inglesa, abriu-se uma época histórica de longa decadência do capitalismo e, ao mesmo tempo, uma etapa política, na primeira metade do século XX, de lutas furiosas entre os impérios pela disputa da liderança no sistema internacional, que culminou em duas guerras mundiais que quase liquidaram a civilização, encerrando-se com a consolidação da supremacia econômica e política norte-americana em 1945.

Três ondas da revolução mundial ameaçaram a dominação capitalista na primeira metade do século XX - ao final das duas guerras mundiais, e como conseqüência da crise de 29 - mas, apesar da vitória da revolução russa, foram derrotadas. Os bolcheviques tinham previsto que ou a revolução russa seria a ante-sala da revolução européia, ou a restauração capitalista seria uma questão de tempo. Confirmou-se o vaticínio de Lênin, esquecida pela esquerda mundial: depois Agosto de 1914, na Conferência de Zimmervald, na Suíça, o líder de Outubro de 1917 tinha defendido a imediata fundação da III Internacional, polemizando com a esquerda alemã dirigida por Rosa Luxemburgo e com o próprio Trotsky. Argumentou que o desafio da Internacional concentrava todo o dilema estratégico.

Bibliografia:

ANDERSON, Perry. Considerações sobre o marxismo occidental. Lisboa, Afrontamento, 1976.

ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX. São Paulo, UNESP, e Rio de Janeiro, Contraponto. (s/d).

BENJAMIM, Cesar, Tendências da nova ordem mundial e o lugar do Brasil. www.contrapontoeditora.com.br/docs/00.julho_2003_Nova_ordem_mundial.pdf,
Acessado em 15/05 2007.

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos, o breve século XX – 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.

LENIN, Vladimir Ilitch Ulianov, El imperialismo, fase superior del capitalismo, in Obras Escogidas, volume 1. Moscou, Editorial Progresso, 1966.

MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. Estatutos provisórios da Associação Internacional de Trabalhadores, in La Internacional. Mexico, Fondo de Cultura Económica, 1988.

NEGRI, Toni, e HARDT, Michael. Imperio. Buenos Aires: Paidós, 2002.

WALLERSTEIN, Immanuel. Os Estados Unidos e o mundo: hoje, ontem e amanhã, in Após o liberalismo. Petrópolis, Editora Vozes, 2002.



[1] LENIN, Vladimir Ilitch, A Guerra e a Social-Democracia da Rússia, in http://www.marxists.org/portugues/lenin/1914/09/28.htm, acesso em 10-05-2007

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Competição imperialista global

Recebi do meu amigo Henrique Barros, pesquisador do CEPES, centro de estudos, pesquisas e planejamento econômicos-sociais, esse texto de José Luís Fiori, professor do instituto de economia da UFRJ, sobre as mudanças na geopolítica mundial e na dinâmica social em decorrência da presente crise econômica mundial.
O texto me foi enviado pela lista do grupo de discussão sobre Economia Política Internacional que Henrique vem organizando para debate a crise o endereço eletrônico para mensagens é epin@yahoogrupos.com.br .

O Fantasma das rebeliões

"O mais provável é que voltem à ordem do dia as revoltas e revoluções sociais. Elas não serão socialistas nem proletárias, mas adquirirão maior intensidade e violência nos territórios situados em "zonas de fratura [1]"

José Luís Fiori(12/12/2008)

Não existe uma teoria da revolução, existem várias. Mas quase todas reconhecem a existência de um denominador comum. Na experiência revolucionária dos séculos 19 e 20, as revoltas acontecem - quase sempre - em sociedades fraturadas, com estados enfraquecidos pelas guerras e por grandes crises econômicas, e situados em "zonas de fratura", onde se concentra a pressão geopolítica da disputa entre as grandes potências. São nestes territórios, que costumam nascer e multiplicar as rebeliões mais importantes e resistentes. Sempre violentas, não tem homogeneidade ideológica e não produzem grandes mudanças estruturais imediatas, como costuma acontecer no caso das revoluções sociais e políticas bem sucedidas. Pois bem, se esta tese for correta, não é difícil de prever o novo mapa mundial das rebeliões, deste início do século 21. Basta seguir os passos da competição geopolítica e econômica das grandes potências, depois do fim da Guerra Fria, e localizar os seus pontos de maior pressão competitiva, onde estas potências exercem de forma mais direta sua capacidade de dividir e mobilizar as forças locais, umas contra as outras, dentro dos estados situados nestes "tabuleiros geopolíticos" mais disputados. Alguns destes pontos são mais visíveis, e de explosividade imediata. Outros, são menos visíveis e de combustão mais lenta.Tudo começou em 1991, com a desintegração da União Soviética e a entrada das forças OTAN ou dos EUA, na Europa Central, nos Bálcãs, no Cáucaso e na Ásia Central - região mundial de maior complexidade geopolítica, envolvendo os territórios do Afeganistão, Paquistão, Norte da Índia, Cashemira e Tibet. Não havia nenhuma grande potência que não estivesse envolvida em alguma destas áreas e na disputas pelo seu controle. Utilizavam ou incentivavam grupos e organizações locais, de todo tipo, numa sucessão de revoltas, rebeliões, atentados terroristas e guerras civis que não tinham como parar, a menos de um acordo multilateral improvável, ou de uma retirada de todas as grandes potencias envolvidas, o que é rigorosamente impossível do ponto de vista da lógica do sistema e dos interesses e posições que já tinham sido ocupadas pelos participantes daquele novo "grande jogo". Alfred Mackinder e Nicholas Spykman - os dois maiores teóricos geopolíticos anglo-americanos - definiram esta faixa de terra que vai do Báltico até a China, como uma fronteira decisiva para o controle do poder mundial, situada entre as "potências marítimas" e as "grandes potências terrestres", ou seja, entre a Grã Bretanha e os Estados Unidos, de um lado, e do outro, sobretudo, a Rússia e a China.Logo em seguida, neste "mapa da pólvora", apareceu a África Negra. Depois de 2001, os EUA mudaram sua política externa e aumentaram sua presença no continente africano. Mas tal mudança de posição não foi um fenômeno isolado, e foi seguida pela União Européia, Rússia, China, Índia, e também pelo Brasil. Em poucos anos, o cenário africano mudou. Aumentou a competição imperialista, e de novo, como nos séculos anteriores, as potências e suas grandes empresas utilizam a seu favor, e muitas vezes incentivam , as lutas tribais e as guerras locais, entre os estados que nasceram da decomposição dos seus próprios impérios coloniais. Neste momento, já estavam em curso rebeliões e guerras civis, no Congo, na Somália, no Zimbábue e na Nigéria, com participação de países e empresas de fora da África, e com o envolvimento direto de Angola, Ruanda, Namíbia e Burundi. Também neste caso, não havia perspectiva de acordo local, ou de retirada das grandes potências, e o mais provável é que a África se transformasse - uma vez mais - em território privilegiado da corrida imperialista e num verdadeiro "semilheiro" de rebeliões de todo tipo.

Tudo indica que a América do Sul foi incorporada e não tem mais como escapar da pressão competitiva mundial

E o que se pode prever com relação à América do Sul? Durante os séculos 19 e 20, foi uma região de influência anglo-americana, sem grandes disputas imperialistas. Mas neste início do século 21, o cenário e as perspectivas mudaram. De forma lenta, mas implacável, a pressão da nova corrida imperialista, que começou na década de 90, está alcançando a América do Sul e deve produzir os mesmo efeitos do resto do mundo. Já fazem parte deste processo, o envolvimento militar americano com a Colômbia, a reativação da IV Frota Naval dos EUA para o Atlântico Sul, a intensificação dos conflitos fronteiriços entre Venezuela, Colômbia e Equador, e os conflitos internos da Bolívia e da própria Colômbia. Mas também: a criação da UNASUL e do Conselho de Defesa da América do Sul, e todos os projetos políticos e econômicos de integração regional, assim como os grandes projetos de integração comercial e de investimento produtivo na região, da UE, da China, da Rússia, e demais países de fora do continente. Tudo indica que a América do Sul foi incorporada e não tem mais como escapar da pressão competitiva mundial, produzindo uma maior integração do continente mas também, uma maior disputa entre os seus estados, e em particular, entre o Brasil, os Estados Unidos.
Nesta mesma direção, algumas áreas da América do Sul também devem transformar-se em "zonas de fratura" internacional, e aí podem surgir conflitos e rebeliões que envolvam as grandes potências e as empresas que competem pelo controle da região. E no caso das regiões de maior densidade indígena, nos próximos anos, estas rebeliões tenderão a ser de direita, brancas e racistas.Finalmente, sobre este pano de fundo de deve e pode calcular o impacto da nova crise econômica mundial. Será prolongado e deverá atingir todas estas "zonas de fratura", acentuando suas tendências mais perversas. Por isto, neste momento, apesar de que se fale muito de economia, existe um outro fantasma que ronda o mundo e assusta mais os seus dirigentes: o fantasma das rebeliões.

[1] José Luis Fiori, Valor Econômico, 5/11/2008