sábado, 24 de janeiro de 2026

Desenvolvimento Territorial e Valor: uma leitura marxista das desigualdades regionais e do caso fluminense

Como a transferência espacial de valor e a lógica combinada do território moldam o subdesenvolvimento regional e os limites da agricultura no Rio de Janeiro

por Almir Cezar Filho

Resumo

O artigo propõe uma leitura marxista do desenvolvimento territorial a partir da teoria do valor e da dependência.  Defende que as desigualdades regionais no Brasil — e particularmente no estado do Rio de Janeiro — são expressões espaciais da acumulação capitalista desigual, na qual o excedente flui das regiões produtivas para os centros de comando financeiro e político.  A análise combina os aportes de Marx, Preobrazhensky, Kalecki e Celso Furtado, articulando-os em torno da noção de acumulação coerente territorial, segundo a qual o desenvolvimento exige compatibilidade entre ritmos setoriais, escalas espaciais e estruturas sociais. Com base em dados recentes sobre desindustrialização e desagriculturalização fluminense, o texto demonstra como o território foi esvaziado de valor, ao mesmo tempo em que manteve nichos extrativos e uma agricultura familiar fragmentada.  Defende-se que a reindustrialização verde e cooperativa, ancorada na agricultura familiar, no cooperativismo e na agroecologia, constitui caminho possível e necessário para reconstruir a base produtiva e a soberania regional.  Propõe-se, por fim, um modelo preobrazhenskiano de planejamento territorial, em que o excedente do petróleo e das rendas urbanas financia a industrialização difusa, a agroindustrialização artesanal e o turismo de base comunitária — formando uma nova geografia da acumulação social.


Palavras-chave: Desenvolvimento territorial; desigualdade regional; lei do valor; acumulação coerente; reindustrialização; agricultura familiar; cooperativismo; agroecologia; Preobrazhensky; Kalecki; Celso Furtado; Rio de Janeiro; soberania produtiva.

I. Introdução – O espaço como forma e contradição do desenvolvimento

O desenvolvimento territorial é, antes de tudo, uma questão de valor e poder.  Não se trata apenas de distribuir investimentos ou equilibrar indicadores regionais, mas de compreender como o capitalismo produz, concentra e desloca valor no espaço.  O território, longe de ser cenário neutro, é parte ativa da acumulação: ele organiza os fluxos de capital, define as hierarquias produtivas e expressa, em sua geografia, a estrutura de classes e de dependência.  Assim como o tempo estrutura o ciclo econômico, o espaço estrutura a desigualdade — é o seu corpo visível, o mapa das contradições da acumulação.

A economia regional brasileira é marcada por uma geografia de desigualdades historicamente produzidas.  A centralização industrial e financeira no Sudeste, o esvaziamento das periferias e a primarização das economias interioranas não são efeitos naturais, mas resultado de políticas e estruturas de valorização seletiva do capital.

O território é, portanto, o palco onde a lei do valor se espacializa, redistribuindo o excedente de modo desigual: o que é produzido em um ponto é apropriado em outro.  Como observou Preobrazhensky, a acumulação não é apenas setorial, mas também espacial — uma transferência territorial de excedente, que enriquece alguns espaços enquanto empobrece outros.

Na formação econômica do Brasil, essa lógica assumiu a forma de um centro dinâmico e periferias dependentes, estruturadas pela extração de matérias-primas e pela subordinação tecnológica.
A industrialização, em vez de romper essa hierarquia, a reconfigurou internamente: o Sudeste tornou-se o centro industrial e financeiro, e o restante do território, sua zona de abastecimento. Mesmo dentro dos estados, como no caso fluminense, essa divisão interna do trabalho reproduz a assimetria nacional — metrópoles concentradoras de serviços e capital convivendo com interiores agrários fragilizados, dependentes e desarticulados.

As tentativas de políticas regionais e de desconcentração produtiva, embora bem-intencionadas, não alteraram as relações de valor entre os territórios. Investimentos públicos e incentivos fiscais dispersaram a renda, mas não construíram capacidade produtiva endógena.  Em muitos casos, os programas de desenvolvimento regional criaram enclaves industriais e corredores logísticos voltados à exportação, sem internalizar as cadeias de valor.

Assim, o território se tornou apenas o canal de passagem do excedente, e não seu locus de acumulação.  O resultado é uma economia espacialmente desequilibrada: ilhas de modernização cercadas por mares de estagnação.

O caso do estado do Rio de Janeiro ilustra esse paradoxo com nitidez.  Antigo polo industrial e energético, o estado viu sua base produtiva se esvaziar ao longo das últimas décadas, convertendo-se em economia de serviços e royalties. O interior, especialmente as regiões Norte e Noroeste fluminense, vive a contradição de possuir riqueza agrícola e energética sem reter valor — exporta produção e importa desenvolvimento.  Nessa perspectiva, o problema territorial não é apenas distributivo, mas estrutural: o Rio de Janeiro tornou-se um território de passagem do valor, não de sua reprodução.

Partindo dessa leitura marxista do espaço, este artigo busca repensar o desenvolvimento territorial como processo de acumulação coerente em escala regional, no qual a produção, o investimento e a reprodução social se enraízam no território e se retroalimentam.

Defende-se que o combate às desigualdades regionais não pode se limitar a políticas compensatórias, mas deve se orientar por um planejamento territorial integrado, baseado na valorização produtiva local, na agroecologia e na rearticulação entre campo e cidade.  Trata-se, em última instância, de repor a categoria de valor territorial no centro da análise econômica — compreender o território como forma da luta de classes e da redistribuição do excedente, e o desenvolvimento como construção coletiva de autonomia espacial e social.

sábado, 17 de janeiro de 2026

O Produtor Rural não é Empresário! Os Limites da Abordagem Empresarial na Agropecuária

E o Papel do Cooperativismo e da Economia Solidária no Desenvolvimento Rural Sustentável


Almir Cezar de Carvalho Baptista Filho


ABSTRACT

This article critiques the push to frame rural producers as entrepreneurs and farms as businesses, arguing that this approach is unsuitable for the realities of small and medium-sized farmers. Using insights from General Administration Theory, Microeconomics, and Political Economy, the article reveals the limitations of applying entrepreneurial principles to agriculture. It also critiques the misinterpretation of the concept of agribusiness in Brazil. As an alternative, the article promotes cooperativism, the solidarity economy, and environmental sustainability as more appropriate models for rural development, prioritizing social justice, collective action, and ecological balance.

Palavras-chave: Empreendedorismo rural, agronegócio, agrobusiness, cooperativismo, economia solidária, sustentabilidade ambiental, crítica econômica, desenvolvimento rural, Teoria Geral da Administração, Microeconomia.


Nas últimas décadas, tem-se observado um esforço crescente para promover o campo brasileiro sob a ótica do empreendedorismo e da gestão empresarial. Esse movimento busca enquadrar o produtor rural como um empresário e o estabelecimento agropecuário como uma empresa, adotando estratégias típicas do setor corporativo. Essa abordagem é muitas vezes vendida como uma forma de modernizar a agricultura, aumentar a competitividade e integrar o Brasil às cadeias globais de valor. No entanto, essa visão ignora a complexidade da realidade rural e impõe uma lógica que não se adequa às condições socioeconômicas e ambientais da maioria dos produtores.

Este artigo propõe uma crítica a essa tese, defendendo que o produtor rural não deve ser equiparado a um empresário ou a um empreendedor. Argumentamos que essa transposição do modelo empresarial para a produção agrícola é falha e prejudicial, especialmente para pequenos e médios agricultores, totalmente incompatível com a estrutura de uma empresa. Para isso, utilizaremos conceitos da Teoria Geral da Administração, da Microeconomia — com ênfase nas teorias do Equilíbrio Geral e do Equilíbrio Parcial — e da Economia Política, a fim de demonstrar os limites dessa estratégia.

Ao longo do texto, também procura-se refutar a adoção indiscriminada do conceito de "agronegócio", que, em grande parte, é uma tradução inadequada do termo norte-americano agrobusiness, o que distorce a compreensão da realidade agrícola brasileira.

Por fim, apresentaremos como alternativa ao modelo empresarial o cooperativismo, a economia popular solidária e as práticas de sustentabilidade ambiental, que se mostram mais adequadas para o desenvolvimento rural no Brasil, respeitando suas particularidades e promovendo justiça social e equilíbrio ecológico.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Colapso Ambiental, Declínio do Capitalismo e a Necessidade de um Programa de Transição

por Almir Cezar de Carvalho Baptista Filho


Resumo

A crise ambiental contemporânea, marcada pelo iminente apocalipse planetário decorrente do aquecimento global irreversível, não é um mero fenômeno passageiro, mas sim um sintoma do declínio inescapável do capitalismo mundial. Este artigo, fundamentado em uma perspectiva marxista, explora as intrincadas conexões entre a crise ambiental, a luta de classes e a necessidade urgente de transições substantivas nas forças produtivas. A análise abrange desde a inadequação do capitalismo em lidar com emergências até a proposta de um programa de transição, culminando na crucial implantação global da agroecologia e produção orgânica como pilares de um socialismo verdadeiramente sustentável.


Palavras-chaves

Crise ambiental - Aquecimento global - Declínio do capitalismo - Luta de classes - Transição produtiva - Agroecologia - Produção orgânica - Programa de transição - Socialismo - Sustentabilidade


I. Introdução


A contemporaneidade testemunha uma convergência alarmante de eventos, indicando não apenas uma crise ambiental, mas um "apocalipse planetário" em gestação. Esta realidade não é isolada, mas entrelaçada com a queda histórica da taxa de lucros do capitalismo e suas práticas predatórias. Neste contexto, a luta de classes emerge como a centralidade estratégica, conectando questões ecológicas, direitos civis, trabalhistas e além. Este artigo, ancorado no pensamento marxista, navega por camadas complexas, desde a inadequação intrínseca do capitalismo até propostas tangíveis de transição, destacando a indispensabilidade da agroecologia e produção orgânica na construção de uma sociedade pós-capitalista sustentável.


Este artigo adota uma abordagem marxista para analisar a interconexão entre o colapso ambiental, o declínio do capitalismo mundial e a importância da luta de classes como motor de transformação social. Examina-se como a crise ambiental, especialmente o aquecimento global irreversível, está intrinsecamente ligada à busca incessante por lucros máximos no sistema capitalista. O texto destaca a necessidade de superexploração dos recursos naturais e a exploração dos trabalhadores como parte integrante desse modelo econômico.


A centralidade da luta de classes é reafirmada, destacando que as diferentes manifestações dessa luta, incluindo a luta ecológica, são interligadas e representam facetas de um conflito mais amplo. O foco se desloca da visão multitudinária para uma compreensão mais profunda da luta de classes como a força motriz por trás das questões ecológicas, dos direitos civis e trabalhistas.


O artigo argumenta que a questão ambiental não é apenas uma questão de escolha individual no consumo, mas está intrinsecamente relacionada às estruturas de produção, poder e distribuição. Examina as diferentes abordagens da transição produtiva em países desenvolvidos versus em desenvolvimento, especialmente no contexto brasileiro, onde a questão do uso e ocupação dos recursos naturais é central.


Destaca-se a necessidade de repensar a relação dos produtores pobres e dos trabalhadores com as políticas públicas, não dependendo delas como benesses temporárias, mas compreendendo-as como instrumentos transitórios para a construção de um novo modo de produção global. A discussão aborda a importância de um programa de transição que inclua medidas como reforma agrária, controle operário da produção, governança por meio de conselhos populares e a implementação da escala móvel de salários e trabalho.


Por fim, o artigo defende a ruptura com a lógica de preservação do capitalismo ou do “capitalismo verde” e destaca a necessidade de medidas mais profundas, como a aplicação geral e definitiva da agroecologia e produção orgânica, como fundamentais para a transição para uma sociedade socialista pós-capitalista.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Ascensão dos BRICS e o capitalismo contemporâneo: uma perspectiva marxista

Imperialismo, Desenvolvimento desigual, Capitalismo trilateral, Rivalidade geopolítica


por Almir Cezar de Carvalho Baptista Filho


Resumo

Este artigo examina o fenômeno dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) à luz da teoria marxista do imperialismo. O objetivo é investigar a ascensão dos BRICS como atores geoeconômicos e políticos no cenário mundial e analisar seu papel no sistema capitalista atual. Por meio de uma perspectiva marxista, especificamente, trotskista, serão exploradas questões como o desenvolvimento desigual e combinado, a dependência econômica, a rivalidade entre as potências imperialistas e o impacto dos BRICS nas relações internacionais. Além disso, serão examinadas as diferenças entre os BRICS e outras formações econômicas de crescimento acelerado, como os “países emergentes” (ou de industrialização recente-NBD) e os assim chamados "tigres asiáticos". Por fim, o artigo buscará discutir se os BRICS têm o potencial de se tornarem potências imperialistas e quais seriam as implicações para e no sistema global.

Palavras-chaves

BRICS, Imperialismo, Desenvolvimento desigual, Capitalismo trilateral, Rivalidade geopolítica.


I. Introdução

1. Apresentação dos BRICS e sua ascensão no cenário global.

Os BRICS, sigla que representa os países Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, são considerados um grupo de economias emergentes que ganharam destaque nas últimas décadas. O termo, na verdade um acrônimo, originalmente BRICs, sem a letra “S” de South Africa, foi cunhado em 2001 pelo economista Jim O'Neill (2012), do banco Goldman Sachs, para se referir a esses países que apresentavam perspectivas de crescimento econômico promissoras.

Essas nações possuem características comuns que as distinguem de outras economias em desenvolvimento. São países de grande extensão territorial, população significativa, abundância de recursos naturais e um papel relevante em suas respectivas regiões. Além disso, possuem economias diversificadas e com alto potencial de crescimento.

A ascensão dos BRICS como atores econômicos e políticos no cenário mundial tem sido notável. Eles têm experimentado taxas de crescimento econômico acelerado, impulsionados por investimentos em infraestrutura, industrialização, avanços tecnológicos e aumento do comércio internacional. Essa expansão econômica tem resultado em um aumento significativo do poder político e influência desses países no sistema internacional.

Os BRICS têm buscado maior cooperação e coordenação em questões econômicas e políticas, criando mecanismos de diálogo e cooperação, como a Cúpula BRICS e o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD). Essas iniciativas visam fortalecer a presença dos BRICS no cenário global, ampliar seu papel nas instituições financeiras internacionais e promover o desenvolvimento econômico conjunto.

No entanto, é importante ressaltar que a ascensão dos BRICS também tem sido acompanhada de desafios e contradições. Enquanto esses países buscam um maior protagonismo global, enfrentam questões relacionadas ao desenvolvimento desigual, desequilíbrios internos, desafios sociais e ambientais, além de rivalidades geopolíticas entre si e com outras potências.

No contexto da teoria marxista do imperialismo, o fenômeno dos BRICS oferece uma oportunidade interessante para analisar as contradições e dinâmicas do sistema capitalista atual. Através de uma perspectiva leninista e trotskista, podemos explorar as relações de poder, a dependência econômica, as assimetrias de desenvolvimento e o potencial de transformação dos BRICS em potências imperialistas.

2. A perspectiva marxista e sua relevância para a análise dos BRICS.


A perspectiva marxista é fundamental para a análise dos BRICS à luz do imperialismo. O marxismo, desenvolvido por Karl Marx e Friedrich Engels, oferece um quadro teórico e analítico para compreender as relações sociais, econômicas e políticas dentro do sistema capitalista.

No contexto da teoria marxista do imperialismo, os BRICS podem ser examinados como parte do sistema global capitalista, onde as contradições e dinâmicas de poder são fundamentais para entender a distribuição desigual de recursos, riqueza e influência entre os países.

A teoria marxista do imperialismo, em particular as contribuições de Lenin e Trotsky, oferece insights valiosos para analisar o fenômeno dos BRICS. Lenin argumentou que o imperialismo é uma fase específica do capitalismo, caracterizada pela concentração de capital, pela exportação de capital para outros países, pelo domínio econômico e político das potências capitalistas avançadas sobre regiões dependentes, e pela busca de esferas de influência.

No caso dos BRICS, a análise leninista pode ajudar a examinar a relação entre esses países emergentes e as potências capitalistas dominantes. Seria importante investigar se os BRICS estão se tornando dependentes das potências imperialistas existentes ou se estão desafiando o status quo imperialista, estabelecendo suas próprias esferas de influência e buscando uma posição de poder no sistema global.

Além disso, a perspectiva trotskista pode ser relevante ao examinar o desenvolvimento desigual e combinado dos BRICS. A teoria do desenvolvimento desigual e combinado argumenta que o capitalismo, em sua expansão global, incorpora diferentes estágios de desenvolvimento econômico e social em diferentes países, resultando em assimetrias e contradições dentro do sistema.

Ao aplicar essa perspectiva aos BRICS, é possível analisar como esses países combinam elementos de desenvolvimento capitalista avançado com características de economias emergentes e em desenvolvimento. Isso pode levar a uma compreensão mais aprofundada das contradições internas, desigualdades sociais e impactos regionais dos BRICS.

Em resumo, a perspectiva marxista, com suas análises sobre imperialismo, desenvolvimento desigual e combinado, e relações de poder dentro do sistema capitalista, é altamente relevante para a análise dos BRICS. Ela nos permite examinar criticamente a ascensão desses países e seu papel no sistema global, bem como investigar suas contradições internas, dependências econômicas e potencial para se tornarem potências imperialistas.