sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A utopia reacionária do livre mercado

Ensaio sobre a Pós-Modernidade de Direita nº1

por Almir Cezar Filho

No último ano, houve um ascenso da falsa ideologia do livre-mercado, como também da meritocracia, penetrando na consciência de amplos setores da classe média. O mercado virou uma deidade suprema. O Mercado, plenamente livre, traria paz, pleno emprego, crescimento virtuoso e sustentável, fim da pobreza e das crises. Perfeito (o Mercado), não aceitaria qualquer tipo de intervenção pública e estatal. O Estado, "malvadão". Ignoram assim todo o limite a sua atuação e mesmo a crítica científica a esse conceito, inclusive de matriz burguesa.

São os mesmos que procuram enquadrar o Marxismo de anticientífico, enquanto agora o Nazismo virou de "esquerda". Ignoram toda a história e as décadas de debate. E o fazem contraditoriamente negligenciando o fato que Mises foi ministro das Finanças da Áustria, a simpatia de vários de seus discípulos ao regime fascista austríaco de Engelbert Dollfuss, antecessor do nazismo, sendo conselheiro daquele governo, até o assassinato do ditador (1934), e se exilou com medo por ser judeu. Com isso, arregimentam uma legião de não-economistas e de jovens, com base a sua boa propaganda aliada à exploração do senso comum pró-capitalismo e do desconhecimento sobre Economia.

A História econômica e do pensamento econômico é reescrita. Nessa ascensão, figuras obscuras ou de alcance limitada no debate do pensamento econômico, como Ludwig von Mises ganharam estatura de grande gênio da Economia. Friedrich Hayek virou profeta moderno, com estatura superior a Keynes, Schumpeter, Kalecki, todos "estatistas", antiliberdades.  Carl Menger superior a Walras e Marshall.

Há sim uma ofensiva de think tanks de direita, financiadas por grandes corporações empresariais estadunidenses, que abraçaram o propagandismo em torno ao pensamento ultralibertariano econômico de direita, em sua luta contra o tal "bolivarianismo" na América Latina. Usando as ferramentas das redes sociais, forte emprego da internet e técnicas virais, com base aos sensos comuns já consolidados anteriormente no público médio, procurando reforçar preconceitos, esteriótipos e contrainformação no plano econômico e político, se apoiando nos clichês de economia construídos à décadas pela mídia. Assim, combinam um conservadorismo moral, comportamental e político com um liberalismo radical em temas econômicos.

Quando a crítica ao pensamento econômico mainstream alcança a razão do público médio, fogem para o debate ideológico mais rasteiro ou procuram negar a teoria geral neoclássica, seu fundamento teórico, valendo-se do fato, que a Escola Austríaca também era crítica aos seus postulados. Em momento histórico, como o qual vivemos, de forte crise econômica, onde o pensamento mainstream, ortodoxo, foi colocado em xeque, principalmente na América do Norte e Europa, conseguem assim dissociar-se.

Reciclam os clichês econômicos, em patamares maiores, com maior mitificação. O Mercado vira um ente sobrenatural. Ignoram ainda toda crítica à teoria microeconômica neoclássica, enquanto insatisfatória, quando confrontada com problemas de produtos conjuntos, escolhas de técnicas e trabalho heterogêneo, e com as possibilidades de processos substitutos, como o trabalho geral é alocado entre as partes necessárias e o excedente. E ainda a geração e distribuição do excedente entre os detentores dos fatores de produção.

Quanto ao desemprego, desigualdade e pobreza, o sistema capitalista não ruma automaticamente, sem a intervenção pública. Ao contrário do que pensam os defensores do mercado perfeito, um equilíbrio harrodiano (entre poupança e investimento, que garantiria pleno emprego dos fatores, ao menos do capital) se estabeleça em economias capitalistas, ele deve ser acompanhado de um certo montante de desemprego de mão-de-obra, a menos que a taxa de salário real mínimo de subsistência seja fixada num nível muito baixo em comparação com a tecnologia prevalecente; assim, sob o capitalismo, o equilíbrio de crescimento de pleno emprego é geralmente impossível. Ou gera inflação ou uma crise mais à frente. Quando ocorre, há um salário real mínimo muito baixo.

Portanto, no sistema capitalista o mercado é pautado à tendência crônica ao desequilíbrio. Não pela interferência do Estado ou dos movimentos da sociedade civil, mas por circunstâncias endógenas do próprio da reprodução geral do sistema. Sua apologética do mercado e do capitalismo ignoram o criticidade a respeito de ambos, com ela a ciência. Pois sem crítica é impossível ciência.

Pior, da mitificação do mercado, do achatamento, da simplificação da sua compreensão, não é a renúncia do keynesianismo, da Socialdemocracia ou do Welfare State. É o abandono do pensamento liberal clássico e neoclássico, ideologia dominante do Capitalismo, do modo burguês predominante da sociedade contemporânea. Renunciam ao cerne do pensamento liberal convencional, que sempre se pautou no peso e contrapeso do mercado pelo Estado e pela sociedade civil, as duas outras esferas da vida social, segundo esse pensamento. Rasgam Riqueza das Nações, morre de novo Adam Smith.

Renunciam com isso as duas co-garantidoras da própria liberdade, a igualdade e a fraternidade. Isso explica a popularidade de Hayek junto aos Chicago Boys da tecnocracia da ditadura Pinochet e o papel de Mises na ditadura Dollfuss.

Pensar no Mercado livre e perfeito, onipotente, onisciente e onipresente, apenas se dá não na antilógica da renúncia do Estado e da sociedade civil. Do Estado mínimo. Da sociedade civil colapsada no mercado, nas relações sociais resumidas em trocas mercantis monetárias.  Não o triunfo da liberdade, mas da tirania.

Sem que seja Estado de Direito pleno, torna-se um anti-Estado, pois não existe para dirimir conflito do exercício pleno das liberdades por cada indivíduo, mas para coibir o exercício dessa liberdade, à bem daqueles que gozam de poder no mercado.  Torna-se um Estado Totalitário. Não à toa a popularidade do "livre mercado" na cabeça dos reacionários de plantão, dos governos autoritários. É uma utopia reacionária, no mínimo, quando não uma distopia.

Pior, pior: se a Economia Política é base fundamental da Economia como ciência. O Marxismo nasce como sua crítica, não como sua negação. Quando muito a negação da apologética dos clássicos ou do pensamento vulgar dos neoclássicos. A despeito da lógica de alguns Contudo, o novo ultralibetarianismo implica na renúncia da Economia Política, e portanto, de qualquer possibilidade da Economia como ciência. Não à toa que, segundo eles, se estudaria tanta a economia para simploriamente aprender que não se deveria intervir na economia. E na verdade, são eles que são anticientíficos, ao contrário dos marxistas e dos demais "estatistas".

O único alento nisso tudo, se é um alento, que apesar dessa lógica perversa floresce, é que há terreno fértil para o extremismo de pensamento econômico oposto. Não por acaso, numa se vendeu em décadas O Capital, e debater alternativas radicais ao capitalismo voltaram a ser uma possibilidade, sem ser taxada de maluquice, apesar de muitos ainda fazerem. Se voltamos à polarização à direita, também voltamos à polarização à esquerda.

Se é verdade que a História não está certa para a vitória da esquerdo, do progressismo, também não está para o tenebroso desfrecho da direita, dos conservadores, dos reacionários. Aí entra os intelectuais e cientistas sociais de esquerda denunciando o caráter do "livre mercado", para conquistar o público e ajudar abrir seus olhos ao mundo e às possibilidades de mudá-lo.

Atualizado em 19/01/2016 às 18h26

Um comentário:

  1. Sinto-me grata pelo texto. Nunca consegui me acostumar com os discursos pró (neo)liberalismo no meio de falas do senso comum. Obrigada!

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