sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Crise e superprodução: como se "queima" os capitais?

por Almir Cezar Filho

Crise econômica é uma crise de superprodução na economia. A superprodução relativa e de capitais, não absoluta e de mercadorias. A saída das crise se dá pela queima do capital excedentário. Capital (especificamente os capitais constantes, isto é, os capitais fixos e circulantes) em volume maior do que a capacidade de gerar mais-valia.

A queima desse capital excedentário se dá através:

  • do desemprego (redução do estoque de Capital Variável = Trabalhador = Força de Trabalho),
  • estoques depreciados (mercadorias encalhadas que ficam no estoque ou na prateleira até alguém comprar, perdendo valor, pela perda do prazo de validade.
  • falência
  • máquina depreciando sem produzir
  • redução de salários e custos trabalhistas
  •  desvalorização do valor das ações da empresa

Ou algum tipo de incremento na geração de mais-valia, como o aparecimento de uma nova tecnologia que aumente a produtividade do trabalho, a incorporação de um novo mercado, o o surgimento de novo setor na economia (ou onde a composição orgânica de capital seja menor).

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O COMPERJ e a Refinaria de Itaboraí

O Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro) será instalado em Itaboraí, município da região metropolitana do RJ, e terá como principal objetivo aumentar a produção nacional de produtos petroquímicos, com o processamento de cerca de 150 mil barris/dia de óleo pesado.

O investimento deve ficar em torno de US$ 8 bilhões, sendo a maioria da Petrobras.
O início das operações está previsto para 2012.

Haverá com a chegada do Comperj um forte impacto sobre as condições estruturais das cidades do entorno (uma região que inclui Niterói, São Gonçalo e municípios que vão de Magé até Cassimiro de Abreu), algumas das quais municipios rurais ou cidadesdormitório.

As estimativas é a geração de 8 mil empregos no Complexo, e entre atividades diretas e indiretas um total de 20 mil empregos. A partir das atividades do complexo se gerará um total em torno de 200 mil empregos, decorrentes de "efeito renda", sendo mais da metade no Estado do RJ.

Quem nasce em berço de ouro não pode perder o seu tesouro

A proposta apresentada pelo ministro da Fazenda Guido Mantega e o presidente do Banco Central Henrique Meirelles e aprovada hoje pelo Congresso Nacional de socorro preventivo dos bancos e empresas pelo Governo tem cheiro de protecionismo às custas dos impostos dos trabalhadores àquelas que durante anos lucraram.

É a aplicação daquela velha jocosa fórmula:

"quem nasce em berço de ouro não pode perder o seu tesouro".

A proposta geral do governo consiste em estatizar empresas da construção civil pelo BNDES e bancos pequenos pelo CEF e BB e crédito a custo de banana aos bancos pelo BC.


Uma espécie de "Criança Esperança dos ricos" ou "Teleton dos banqueiros e magnatas".

A Crise pega a China de cheio

por Almir Cezar Filho

Notícia garimpada pelo meu amigo Henrique Barros, mestre em Economia e pesquisa do CEPES-UFU sobre incidentes na China que comprovam que a Crise a pegou também, e bem em cheio. A China a partir daí será obrigada a profundas transformações estruturais.

Antes um comentário dele sobre a matéria.

Como já previsto, a crise pega a China de cheio.
Seu crescimento consolidado pela parceria com os Estados Unidos está comprometido.
Como não poderia deixar de ser, já apontam como saída a possibilidade de se voltar pro mercado interno.

Gente pra virar consumidor a China tem de sobra.

E vem fazendo isso em um ritmo elevado na sua trilha de crescimento.
Vai ter de aumentar esse ritmo então.

O interessante é ver as contradições que o capital engendra se manifestando agora de forma mais contundente com a crise.

Trabalhadores estão fazendo protestos.

O regime ditatorial chinês já não tem tanta força sobre a sociedade. Não como tinha.
E se quiser fortalecer seu mercado interno, vai ter de gerar mais consumidores, gerar mais contradições e reduzir ainda mais o controle direto sobre a população.
Esse controle passa ao sistema.

H.


Crise põe de joelhos fábricas de brinquedo na China

Vincent Yu/AP

Polícia cerca sede do governo de Guangdong, em ato de desempregados A agência de notícias oficial da China, Xinhua, liberou na semana passada um informe de teor alarmante: Em 2008, 3.631 exportadores de brinquedos chineses (52,7% das empresas do setor) fecharam as portas. São três as principais causas da bancarrota: custos de produção elevados, aumentos de salários de funcionários e a valorização do yuan, a moeda da China. O recrudescimento da crise nos EUA e na Europa reforçou o negrume de um cenário que já era trevoso. A ultima companhia a abrir falência foi a Smart Union Group. Dava emprego a 7.000 mil chineses. Fornecia brinquedos para daus gigantes americanas: a Mattel e a Hasbro. A Smart Union operava na província de Guangdong, no Sul da China, fronteira com Hong Kong. Uma região apelidada de “fábrica do mundo”. A turbulência financeira iniciada nos EUA e irradiada para o resto mundo está encolhendo o vistoso parque industrial da “fábrica do mundo.” Foi ali, em Guangdong, que a China deu, há 30 anos, os primeiros passos rumo ao capitalismo, distanciando-se do comunismo clássico. A maioria das fábricas de brinquedo da China está assentada nessa província, convertida em laboratório das reformas econômicas encetadas pelo governo chinês. Empresas de Hong Kong, Taiwan, EUA e Europa acorreram a Guangdong, atraídas pelos baixos custos de produção. Passou-se a produzir na região de tênis e roupas íntimas a laptops e iPods. O cenário de prosperidade era turvado na última sexta-feira por manifestações de empregados demitidos da Smart Union Group. Alguns deles foram ouvidos pelo repórter William Foreman, da Associated Press. É de Foreman a notícia da qual foram extraídas as informações relatadas aqui. "Essa crise financeira na América vai nos matar. Ela já está tirando comida das nossas bocas", disse, por exemplo, Wang Wenming, um dos demitos. A empresa vinha atrasando salários havia meses. Shao Xiaoping, outro chinês posto no olho da rua, resumiu assim o drama: "A administração dizia que o problema era que nossos clientes americanos não estavam pagando pelos produtos que encomendavam, de modo que a companhia não tinha como nos pagar". Um grupo de cerca de cem funcionários reuniu-se do lado de fora da empresa, um complexo de cinco andares. Outro grupo maior –cerca de 2.000 pessoas—aglomerou-se defronte da sede do governo de Guangdong. Exigia-se o pagamento dos salários atrasados. O prédio foi cercado por 50 policiais, munidos de escudos e cassetetes (veja foto lá no alto). O aprofundamento da crise americana tonifica uma retração que já vinha tingindo de vermelho os balanços da China. De acordo com dados oficiais, a taxa de crescimento das exportações chinesas caiu no primeiro trimestre de 2008. Foi a primeira queda em três anos. Chan Cheung-yau, presidente do subcomitê de brinquedos e jogos da Associação dos Fabricantes de Brinquedos da China, sediada em Hong Kong, prevê dias piores. Afirma que milhares de outras fábricas vão cerrar as portas na China em 2009. "O aperto do mercado de crédito tornou mais difícil para os fabricantes levantar recursos", diz Cheung-yau. "Isso criou um problema enorme de fluxo de caixa". Como se vê, a marolinha parece ter chegado à China com dimensões tsunâmicas.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Crise Agrícola: a culpa é do Agronegócio (2)

por Almir Cezar Filho

Este artigo é a segunda parte do artigo Crise Agrícola Mundial: a culpa é do Agronegócio, que pretende apresentar a tese que a recente crise agrícola mundial, com a explosão no preço dos produtos agro-pecuários não foi produto de choque de safras ou redução das áreas de cultivo, mas sim da expansão do modelo de agronegócio sobre a agricultura em todo mundo.


Na primeira parte apresentou-se dados que comprovam que a inflação nos preços agrícolas não foi resultado de um choque ou de demanda ou oferta de produtos agrícolas, que na verdade a curva de preço vem seguindo um trajetória distinta da curva de mercado, mas que acompanha a expansão simultânea do monopólio agroindustrial e da commoditização no setor, acrescido de duas outras ocorrências no período recente, a desvalorização mundial do dólar e a alta persistente do barril do petróleo.

A culpa é do agronegócio. Mas o que é o agronegócio?
Se o grande culpado pela recente crise agrícola mundial é o agronegócio, o que é o agronegócio? O agronegócio é a aliança entre os grandes fazendeiros, com as empresas transnacionais do agro, que controlam os insumos agrícolas, o mercado e os preços. Fica com os brasileiros o passivo ambiental, a sobre-exploração de nossa mão-de-obra e uma parte da mais-valia gerada na agricultura, mas o volume maior fica com as empresas transnacionais.

É um modelo de produção agrícola incompatível com a reforma agrária, com a produção de médias fazendas para a produção interna e a agricultura familiar. É um modelo que prioriza a monocultura, a associação com as empresas estrangeiras e as exportações.

A divisão de papéis entre a burguesia brasileira e internacional
Nesse arranjo as empresas transnacionais ficam com o controle das traders (Monsanto, Cargill, etc), das empresas de alimentícias industrializadas (Nestlé, Parmalat, Quaker, etc), das empresas de máquinas e implementos agrícolas (McNelson, etc), dedetização e fertilizantes. Os brasileiros entram com as fazendas.

O agronegócio no Brasil é apenas mais uma faceta da atual situação de nossa economia, que está cada vez mais colonizada e concentrada na distribuição de renda e riqueza. Se olharmos, as maiores empresas, que controlam a produção e o comércio no Brasil, veremos que as 200 maiores empresas controlam a maior parte da economia. O mesmo ocorre na agricultura, as 50 maiores empresas controlam mais de 60% do PIB agrícola, sendo que a maior parte delas é estrangeira.

O agronegócio não é bom para o desenvolvimento do Brasil
Nas últimas duas décadas os sucessivos governos nos países capitalistas periféricos fizeram uma opção clara pelo agronegócio. Aderiram a ilusão de que aumentar as exportações agrícolas do agronegócio seria benéfico ao seus países. Contudo, esqueceram que nos 400 anos anteriores o modelo agroexportador só produziu pobreza e desigualdade social. A exportação de matéria-prima não desenvolveu nenhum país na história do mundo. É justamente esse o mecanismo que o capital internacional usa para espoliar as riquezas naturais da periferia.

Para comprovar que não é a agroexportação que enriquece um país, vejamos uma comparação no Brasil: a Embraer, empresa aeronáutica, uma indústria de ponta, exporta atualmente ao redor de 5 bilhões de dólares por ano, o que é um valor superior a todas as exportações anuais de carne bovina e derivados, resultantes de 240 milhões de hectares e de um rebanho de 250 milhões de cabeças de gado.
Sabedor disso, mais cúmplice do agronegócio, o governo brasileiro foi o que mais defendeu a abertura do comércio mundial agrícola, a chamada Rodada Doha. O Brasil, felizmente derrotado, defendeu a abertura do mercado dos países centrais, Europa, EUA e Japão, para aumentar as exportações de matérias-primas agrícolas, mesmo que para isso cedesse abrindo ainda mais o mercado brasileiro aos produtos industrializados estrangeiros.

As consequência sociais nefasta
Outra característica, o agronegócio se expande à custa do pequeno produtor familiar, que não consegue mais competir e perde suas terras. Mas também esse mesmo agronegócio precisa dessa mão-de-obra que perde terra, empregando-a sob salários baixíssimos e jornadas extenuantes, quando não utilizando sob a forma de trabalho escravo – a cada dia, bolsões de trabalhadores escravos aparecem no Pará, no Amazonas, Mato Grosso, em tantas partes do país – principalmente em regiões que não se consegue competir com fazendas mecanizadas do Sul e Sudeste.

A retomada do trabalho escravo ou análogo na fazenda brasileira e em vários setores da agroindústria também é consequência do modelo agrícola voltado à hegemonia do agronegócio. Existe um nível extenuante de jornada de trabalho na agroindústria, como na indústria da soja, para não falar da cana-de-açúcar, onde trabalhadores têm de cortar 10 ou mesmo 15 toneladas de cana por dia, o que leva freqüentemente a mortes no trabalho. Há um processo de intensificação do trabalho, lesões por acidente ou esforço repetitivo, sofrimento pelo medo do desemprego. Falta de direitos e de condições de trabalho.

Acelera-se a já enorme concentração da propriedade da terra. Agora com um novo agravante, à medida que muitas empresas transnacionais estão comprando terras também. No mínimo mais de 20 milhões de hectares já teriam sido desnacionalizados no Brasil. Só o Daniel Dantas, o mega-fraudador do escândalo da Operação Satiagraha, conhecido como testa-de-ferro teria comprado 600 mil hectares no Pará. No RS, três empresas papeleiras compraram em três anos quase um milhão de hectares. As transnacionais passam por elas mesmas operar na agricultura.O que num segundo momento levará a ruína dos próprios grandes latifundiários do agronegócio.

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Ciclos econômicos e papel da política: "ondas longas" ou regulação pela lei do valor e direção do desenvolvimento.

Por Almir Cezar Filho

Marx e Engels, assim como Lênin e Trotsky sempre mostraram a inter-relação causa-efeito-causa entre os fenômenos econômicos e políticos. Kondratiev, em sua teoria das “ondas longas” [1], apesar de partir acertadamente de Marx e Engels, de temas como os ciclos econômicos, a relação entre a luta de classes e os movimentos do capital, o recrudescimento dessa luta em momentos de crise, porém conclui, considerando equivocadamente, os fenômenos políticos como mero sintoma ou reflexo do ciclo econômico. Marx não fala da fase de crise como um momento de perturbação do "equilíbrio" do Capitalismo, mas como momentos da dinâmica desse sistema; componente obrigatório do processo temporal de acumulação.

Não há uma oposição entre equilíbrio e desequilíbrio, entre momentos sucessivos de equilíbrio e desequilíbrio. Mas há sim a ideia de dinâmica regular ou normal (na perspectiva de auto e retro-acumulação do capital), sendo que periodicamente adicionados por momentos de crise da acumulação e da necessidade de destruição do capital excedentário, que permitirá quando superados a própria retomada da trajetória de acumulação. Isto é, momentos que a dinâmica se torna irregular e/ou instável. Com esta abordagem, há um sentido lógico na dialética da acumulação ao ciclo, que é ignorado por Kondratiev.

Embora Kondratiev parta da ideia acertada que o ciclo econômico tem determinações endógenas, a partir do próprio processo de acumulação do capital, confunde-se, estendendo tal abordagem ao desenvolvimento capitalista no longo prazo, onde esse sim, os fenômenos extra-econômicos, principalmente os políticos, especialmente o Estado, atuam determinando a dinâmica do desenvolvimento, como uma espécie de "direção", tal como Engels diria.

A Crise: a culpa é da lei do valor

por Almir Cezar Filho

A Crise trará de volta outra coisa que andou sumida, a lembrança da marxiana lei do valor. Em verdade, a culpa da crise é a lei do valor, isto é, ela explica a crise como algo intrínseco ao Capitalismo, à economia de mercado. A lei do valor é como se fosse o núcleo explicativo desse sistema.

A crise é resultado da própria operação da lei do valor. Como lembra um texto dos anos 80.
  “A lei do valor é então incapaz de evitar a crise, a instabilidade. Num certo sentido é ela mesma motor da contradição, do movimento que gera a interrupção do processo de acumulação, conseqüência da ação da lei do valor” (PAULA, João Antônio de. “Atualidade da Lei do Valor” In Revista de Economia Política, vol. 4, no. 2 abril-junho 1984. PP.111-134). 
João Antônio Paula se referência em Eugeni Preobrajenski quando escreveu - autor que andou esquecido, mesmo entre os marxistas, e que esperamos ser redescoberto.

Crise agrícola mundial: a culpa é do agronegócio!

por Almir Cezar Filho

A crise econômica mundial parece que é formada por três crises diferentes mas combinadas. Uma crise energética mundial, uma crise financeira mundial e por fim, uma crise agrícola mundial.

A culpa da crise agrícola não está num suposto descompasso na última década entre produção mundial de alimentos e aumento do consumo e sim na crescente monopolização da produção de bens agrícolas proporcionado pela agroindústria e pela commoditização desse mercado.

As mudanças na trajetória dos preços

A crise agrícola é explicada pela mídia e os economistas convencional como resultado de um processo de desproporção entre oferta e demanda mundial de alimentos. Esse seria resultado, por um lado, da negligência ou ausência de políticas públicas para estímulo da ampliação da produção agrícola e, por outro, a incorporação de novos consumidores ou aumento do consumo de alimentos devido aumento da renda mundial e diminuição da pobreza, devido o crescimento econômico recente em vários países periféricos, especialmente China e Índia, outrora exportadores, agora são importadores de grãos. Contudo, é só ver que gráfico com a série estatística das últimas três décadas que curvas do volume mundial de grãos e de consumo, com raras exceções, andam simultaneamente.

Tudo bem que a China outrora país agrícola onde até duas décadas atrás mais de 80% estava no campo, passou a incorporar na vida urbana uma massa de milhões de pessoas, mas esses consumidores novos não ficaram sem alimentos vindos de outras partes do mundo. E que as políticas públicas de segurança alimentar no período foram uma vergonha.

Na verdade, a questão da trajetória altista nos preços é causada por uma série de mudanças, mas que não estão na mudança na demanda mundial de alimentos. De início é preciso destacar que houve sim nos anos 2000 recomposição dos preços reais, que tinham uma trajetória de queda a vários anos.




Em segundo lugar, ocorreu mudança entre os países que cumpriam papel de exportadores e importadores; países exportadores passaram a ser importadores (caso da China), mas houve ingresso de novos países exportadores (países do Sudeste Asiático, África, etc) e ampliação do volume de outros que já eram exportadores (Brasil, etc). Mas com resultado zero, entre saída e entrada de grandes exportadores.

O que houve realmente foi um descolamento entre os preços dos alimentos e matérias primas agrícolas e a relação entre oferta e demanda. A variação dos preços deixou de acompanhar o equilíbrio de mercado.



Aí sim entra um aspecto da crise agrícola mundial, marcada pela alta dos preços dos alimentos, não é gerada pela falta em termos absolutos dos produtos agrícolas, mas apenas por preços crescentes ou em patamares maiores que a renda dos consumidores mais pobres. Impactando em toda a cadeia de custos da economia, à medida que alimentação é parâmetro de inflação, definição de salários e componente de matéria prima de outros produtos.

Mas o que explicaria a alta dos preços agrícolas, senão é diferença entre oferta e demanda?

Duas forças vêm atuando nesse fenômeno e pode ajudar a explicar: os produtos agrícolas viraram cada vez mais commodities e a baixa do dólar/ alta do petróleo.
Os produtos agrícolas passaram a ser commodities (do inglês, commodity, mercadoria), mercadorias padronizadas, que têm seu preço cotado em bolsa de mercadorias e futuros. Essa bolsa um tipo de mercado financeiro especial onde não se compram ações de empresas ou empréstimos, mas se negociam opções futuras (com meses de antecedência) das mercadorias. São commodities o ouro, o aço, o minério de ferro e produtos agrícolas, como o café, o trigo, a soja, etc.

Os preços reais e correntes dos produtos agrícolas acabam acompanhando o preço das cotações futuras. Além disso, essa cotação é internacional. Uma alta lá fora impacta no preço dentro do país. Uma expectativa de alta nos meses no futuro empurra para cima hoje o preço da mercadoria. E como essas mercadorias são cotadas em dólar, uma valorização dessa moeda frente à moeda nacional, empurra para cima o preço desses produtos.

Como qualquer mercado financeiro, na bolsa de futuro se especula com a cotação dos preços. O negócio é “comprar na baixa, para vender na alta”. Operando como a jogatina que vemos na bolsa de valores, onde se transaciona ações de empresas. O preço das commodities está sujeito a intensa especulação financeira, não se relacionando com questões do mundo real.

Como o especulador ele tenta ganhar se antecipando aos demais apostadores, ele sempre age segundo suas expectativas quanto ao futuro. Essas expectativas são formuladas olhando para o mundo real, com base a notícias, informações.

Muitas vezes, por medo ou desconfiança em outros mercados financeiros, ações ou derivativos, os investidores financeiros podem correr para as commodities na tentativa de proteger seu dinheiro. Inflando seus preços pelo excesso de procura.
O excesso de liquidez internacional, isto é, por conta dos lucros e do crescimento mundial no último período, havia mais dinheiro nas economias do que negócios para se investir. Os governos para manter o crescimento econômico mantiveram as taxas de juros internacionais muito baixas, especialmente dos EUA. Os investidores acabaram trocando os títulos de dívida por aplicações em commodities, ainda mais nos dois últimos anos, quando a taxa de lucro das empresas vinha dando sinal de queda, e o mercado de ações e derivativos (títulos de empréstimos a empresas) tornou-se um mau ou mais arriscada aplicação.

Houve então uma disparada das commodities, reforçada pela impressão de elevação da procura mundial de alimentos e problemas com o preço de alimentos que podem servir como agrocombustíveis, como era o caso principalmente do milho, devido a política do Governo dos EUA sobre o etanol. Mas é mais impressão, ou mesmo uma especulação.
O problema também envolve a questão do câmbio e do preço do petróleo. O dólar no mundo inteiro anda caindo. Essa queda no valor foi compensada pelo traders de produtos agrícolas pela elevação do preço em dólar.

Também houve aumento nos custos de produção vinculados ao aumento do preço do petróleo. Mais de 40% dos custos agrícolas estão associados a combustíveis, tanto no transporte como no maquinário. Ainda há custos agrícolas vinculados a petróleo tanto na dedetização e fertilizantes, ambos derivados do petróleo. Custos que foram repassados ao consumidor aproveitando que no período foi possível transferir para o preço e manter as vendas no mesmo patamar.

Mas somente em um mercado monopolizado permite que o produtor transfira totalmente ao consumidor, via preço, um aumento dos seus custos que lhe traria caso contrário uma redução dos lucros. Num mercado monopolizado, com poucos ofertantes obriga aos demandantes aceitar muita coisa, pois não têm opção de alternativa de oferta.
O mercado agrícola não era até recentemente tão monopolizado, especialmente na produção de alimentos básicos. Isso foi uma conseqüência do surgimento do agronegócio.

O agronegócio ainda trouxe consigo a ênfase da produção voltada ao commodity, o que por sua vez tem os custso com maquinários e os custos vinculados ao petróleo (combustíveis, fertilizantes, lubrificantes e inseticidas), que também é um commodity.

Veja a continuação deste artigo Crise Agrícola: a culpa é do Agronegócio (2)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Enfim, os países admitem estarem em recessão

por Almir Cezar Filho

O anúncio da G.Bretanha de que houve decrescimento do PIB, ie, entrou em recessão, empurrou as bolsas de valores para o chão.

Ontem houve anuncios de queda dos lucros de várias grandes empresas maiores do que o previsto.

Enfim, já estamos em recessão.

Falta saber por quanto tempo ou se essa crise será maior do que uma recessão, uma depressão. Há sinais disso, principalmente nos EUA.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Crise global empurra bancos para mais concentração?

por Almir Cezar

Entre as matérias dos dias encontramos juntamente que a crise empurra os bancos para maior concentração.

Concentração é quando há menos empresas num setor da economia. Mas também significa que há mais negócios concentrados em um menor número de empresas. Empresas numericamente menores mas com um volume de capital muito maior.

Na atual crise econômica mundial, que começou com uma crise financeira mundial, que embora fosse deflagrada com um estouro de uma bolha imobiliária, hipotecária e no mercado de derivativos vinculado aos dois os bancos foram enormemente comprometidos com o estouro. É só ver o inúmero caso de falências e socorros a grandes e tradicionais bancos comerciais e de investimentos. Abriu-se a etapa de bancos em melhores condições comprassem bancos combalidos. A concentração bancária.
Isso é até estímulada pelos governos para evitar que eles fiquem com o ônus (o ônus que os atemoriza é o ônus político) de socorrer negócios privados, ou tentar dar uma aparecia de "saída de mercado" a quebra de um banco.

Contudo, a concentração não é uma situação que ocorre na crise. É apenas na crise que se precipita de maneira mais visível.

É no período de bonanza econômica que os bancos têm recursos para comprar outros bancos. Que as fusões se tornam vantajosas para ambas empresas, à medida que não se carrega junto passivos financeiros e contábeis difíceis de serem resolvidos.
É também durante a bonanza que as empresas vão se diferenciando, entre aquelas que estão bem e aquelas que vão ficando mal. É a diferenciação entre o resultado dos negócios que abre a possibilidade de absorção de empresa por outra. É que torna inclusive essa possibilidade possível.

Apenas na crise é o momento que a concentração se torna imperativa, pois é o momento que o se manifesta que há certos capitais excedentários (que sobram) ao patamar necessário máximo a geração de mais-valia. Os capitais débeis, que sobram, que serão destruidos para reduzir a superprodução, deverão ter sua destruição conduzida pelos capitais não-debéis. A empresa forte absorve a empresa fraca.

Em suma, não é a crise que gera a concentração. A concentração é parte da dinâmica regular do capitalismo. No momento que essa dinâmica se torna irregular, é apenas o momento que a concentração do capital se manifesta, se precipita, ao menos de maneira mais abrupta.

Estatização nova palavra de ordem da burguesia

por Almir Cezar

Uma palavra que a partir dos anos 1990 virou palavrão, "estatização", voltou a ser palavra de ordem da burguesia pelo mundo. É isso que os governos europeus e mesmo dos EUA estão fazendo nos bancos.

Óbvio que expressão não seja usada explicitamente - substituem por nomes como compra de ações, intervenção parcial, socorro, aporte nos ativos, etc. Até porque o nome estatização ou nacionalização implicaria aos eleitores a idéia que se meu dinheiro dos impostos está sendo usado para socorrer bancos eu quero decidir o funcionamento desses negócios.

Os anos 1990 vimos o êxtase em torno das privatizações. Agora a burguesia que lucros nesses anos, vêm com o pires na mão pedindo ajuda, socorro, do Estado.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Notícias do Dia - Um Brasil de contrastes

notícia 1- Arrecadação da Receita sobe 10% no ano e alcança valor recorde
A arrecadação total de impostos e contribuições federais e de contribuições previdenciárias alcançou R$ 499,225 bilhões nos nove primeiros meses de 2008, em termos nominais. Com a correção pelo IPCA, o montante sobe para R$ 508,813 bilhões, recorde de acordo com os dados divulgados pela Super Receita. O recolhimento total teve ampliação de 10,08% em termos reais, ou seja, também com correção pelo IPCA, frente ao mesmo período de 2007 (R$ 462,226 bilhões).
notícia 2 - Um em cada três brasileiros não tem condições dignas de moradia nas cidades
Em todo o Brasil, 54 milhões de pessoas, o equivalente a 34,5% da população urbana, ainda vivem em condições de moradia inadequadas. Os dados fazem parte de estudo feito com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2007, divulgado nesta terça-feira pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A pesquisa ainda mostrou um salto no número de pessoas morando em favelas. Eram 4,9 milhões em 1992 e sete milhões em 2007.
...
Alguma coisa está errado no Estado brasileiro!!!

Taxa de juros: a taxa da discórdia

por Almir Cezar Filho

O que a autoridade monetária brasileira deve fazer com a taxa de juros diante da crise econômica?
Há um pouco mais de um mês atrás o Banco Central brasileiro aumentou a taxa de juros alegando ser uma medida preventiva a intensificação da crise econômica mundial. 

Contudo, no mundo inteiro os bancos centrais vêm, ao contrário do seu análogo brasileiro, reduzindo drasticamente a suas taxas.

Então a questão está colocada: o que deve o BC diante da crise?
Ao meu ver reduzir drasticamente a taxa de juros para aumentar o crédito na economia e manter o investimentos em curso e o estímulo dos consumidores. O risco principal na economia brasileira não é de aumento da inflação mas de desaceleração econômica. Se o BC irá fazer, é outra coisa. Duvido. O BC brasileiro é foi capturado pelos banqueiros nacionais, e na prática, age como um comitê deles.

Num momento de crise bancária internacional, onde seu lucro caí vertiginosamente em outros países, encontrar um local - o Brasil - onde a lucratividade se mantém ou se amplia, devido a altas taxas de juros, e portanto, altos rendimentos com os títulos públicos e com empréstimos, é uma salvação aos negócios.

O fim dessa situação só ocorrer se a situação econômica no Brasil piorar muito e os políticos forem obrigados a pressionar o Banco Central a mudar sua orientação. Ou o povo na rua exigir a cabeça do presidente do BC (Meirelles) e de quem colocou lá (o presidente Lula).

Crise chegou na China

por Almir Cezar Filho

Embora a China seja onde a imprensa sofra um dos maiores controle das notícias do mundo, começam a chegar no Ocidente notícias do impacto da crise mundial na indústria de lá.

A desaceleração econômica parece ser vista a olhos vivos. Fábricas estão sendo fechadas e operários postos na rua, inclusive sem indenização ou com salários atrasados.

O governo já diz que a economia crescerá menos e abaixo dos dois dígitos como crescera nos últimos anos. Os recém-desempregados sem os direitos trabalhistas que o regime do PC sempre negou não têm acesso a seguro-desemprego, indenização por dispensa ou acesso a massa falida.

A expansão chinesa das últimas 3 décadas era apoiada num relação umbilical e simbiotica com a economia dos EUA, e agora essa dependência cobra sua fatura.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Taxa de juros e Banco Central - segundo a teoria econômica convencional

por Almir Cezar Filho

O Banco Central é o "banco dos bancos". É o banco onde os bancos pedem emprestado e onde colocam seu dinheiro.

É a "autoridade monetária". É o órgão público responsável por garantir o "poder de compra da moeda", i.e., zela para que a moeda do país contra inflação e desvalorização cambial. Preserva a capacidade de compra da moeda ao longo do tempo.
É o órgão emissor de moeda. É o órgão público com o monopólio da criação de moeda na economia. Criação no sentido econômico amplo, desde a impressão, emissão ou compra de títulos públicos, crédito aos bancos e ações que impedem que os bancos comerciais através de crédito criem mais moeda.

Faz parte dos órgãos de política econômica do Governo. A política econômica é o conjunto de medidas efetuados pelo Governo em vista de zela pelo bem-estar social através do bom funcionamento da economia. Junto da Fazenda Nacional, Tesouro e Secretária de Orçamento é principais órgãos realizadores da política econômica.

Há a idéia que a quantidade de moeda na economia determina o poder de compra dessa moeda. Devido a lei da oferta e da demanda. Muito de um bem no mercado leva a queda de seu preço, logo o valor desse bem ao ser trocado por outro ("o poder de compra").
Mas o preço da moeda não é a inflação. Inflação é aumento no nível de preços dos bens da economia. Deflação é o oposto da inflação, é queda no nível de preços.
Inflação é desvalorização da moeda, é a moeda comprando menos.

Contudo, a taxa de juros é o preço da moeda. O preço para comprar moeda - pegar emprestado e pagá-la. Quanto menos moeda circulando na economia, menor a chamada "liquidez" (o dinheiro fica menos líquido, disponível para negócios). Quanto menos moeda maior o preço dela, maior a taxa de juros. A taxa de juros seria uma espécie de 'aluguel' pelo uso da moeda.


No Caso Brasileiro, o BC é membro do Conselho Monetário Nacional - órgão deliberativo que cuida da política monetária.
O CMN é composto pelo ministro da Fazenda, do Planejamento e do presidente do BC.

A política econômica é divida em política fiscal - gastos públicos e impostos - e política monetária - crédito, controle da inflação, fixação da taxa de juros.

A política monetária é feita através da definição pelo BC da taxa básica de juros - taxa pelo qual o BC empresta para outros bancos (a chamada "taxa Selic"). É com base essa taxa que os bancos fixam sua taxa aos clientes tomadores.

O BC decide o patamar da taxa de juros em vista o controle da inflação, o nível ótimo de crescimento econômico, o patamar da taxa de câmbio e a rolagem da dívida pública.

A taxa de juros básicas é usado como instrumento de controle da inflação a medida que limita o crédito da economia. Com menos crédito as pessoas consomem menos ou as empresas não têm recursos para investimentos, com a economia menos aquecida diminui a pressão sobre os preços (diminui a demanda sobre as mercadorias).

A taxa de juros básicas não é a única forma de controlar a inflação. O aumento da produção na economia, logo ampliação da oferta de mercadoria, atendendo a demanda, leva a manutenção dos preços. Portanto uma política econômica que vise o crescimento econômico pode ao invés de ampliar a inflação e sim reduzi-la.

A taxa de câmbio é a taxa de troca entre a moeda doméstica com a moeda estrangeira. É quanto de real compra-se dólar. Ela é importante pois uma série de produtos são importados ou são exportáveis, com uma apreciação cambial, se o dólar sobe, os produtos ficam mais caros se comprados em real. Logo, a taxa de câmbio tem impacto sobre a inflação.

A taxa de câmbio tem relação com a taxa de juros. Se a taxa de juros do Brasil for maior que a dos EUA, os investidores americanos podem vir para o Brasil, comprar os títulos públicos que redem juros. Com a entrada de dólares no Brasil em excesso o valor do dólar cai em termos de real. O inverso acontece. Por isso o BC manipula o câmbio via a taxa de juros.

Outra coisa, o BC controla a taxa de câmbio vendendo os dólares das reservas cambiais, ou comprando dólares do mercado, portanto controlando a oferta de dólares da economia.
Quem cuida das reservas internacionais é o BC. Ele pega os dólares e troca por real e vice-versa. As reservas cambiais, chamadas pomposamente de "reservas internacionais" são o depósito obrigatório que as empresas exportadores deixam os dólares obtidos com as vendas de produtos. Os importadores recorrem as reservas para obter dólares para pagar suas importações.
Se o Brasil exporta muito obtém um aumento da reserva. As exportações levam a uma acréscimo do montante da reserva, uma importação leva uma dedução da reserva.

A taxa de câmbio também pode sofrer uma variação com uma fuga de capitais. Os investidores saiem do país e levam os dólares que haviam entrado.
A taxa de câmbio também sofre com o impacto da saida dos lucros das empresas multinacionais.

A taxa de juros básicas não é única forma de controlar a quantidade de moeda na economia. Os bancos comerciais podem criar moeda através do crédito - do empréstimo ao cliente final e do empréstimo entre os bancos. O BC pode criar regra que restrinja o crédito ou limitar a disponibilidade de uso dos recursos em mãos dos bancos. O BC pode por exemplo alterar a quantidade do compulsório bancário - o volume de recursos que os bancos depositam no BC como garantia dos negócios.
Outra maneira de ampliar ou reduzir a base monetária é comprando ou vendendo título públicos. Vendendo títulos, o BC tira moeda da economia, comprando coloca de volta moeda circulando.

O BC diante da crise reduziu o compulsório para compensar a queda da liquidez. Porém nada os obrigam a emprestar, o que está acontecendo. O chamado de "empoçamento". Os bancos com medo de prejuízos ou queda dos lucros não querem emprestar. Fica-se na mesma.

domingo, 19 de outubro de 2008

Perguntas e respostas sobre a Crise

por Almir Cezar Filho*

Aí vai uma série de perguntas e respostas sobre a crise econômica iniciada em 2008 com a implosão dos títulos subprimes nos EUA e falência de bancos hipotecários.

O que tem a ver com os Subprimes?
O ponto de partida é uma verdadeira estafa que os bancos ocidentais ganharam uma enorme quantidade de dinheiro às custas dos estadunidenses, declarando que se não eram capazes de pagar, ficariam sem suas casas.

É somente uma crise bancária?
Não. Trata-se de uma verdadeira crise econômica que começou no setor bancário, mas suas causas são muito mais profundas. Na realidade, toda a economia dos Estados Unidos vive a crédito há 30 anos. As empresas se endividam acima de suas possibilidades, o Estado se endivida também acima de suas possibilidades (para fazer a guerra) e os cidadãos são levados também a endividar-se; é a única maneira de manter, artificialmente, um crescimento econômico.

A velha receita keynesiana de novo: Será que dará certo?

por Almir Cezar

O Governo da Grã-Bretanha anunciou que em resposta a desaceleração econômica reavaliará o orçamento público do ano que vem com objetivo de ampliar o gasto público. Anunciarão um pacto de obras públicas e compras governamentais.

É a velha receita keynesiana de substituir uma redução dos componente consumo, exportação e investimento privado da demanda efetiva pelos gastos públicos. Com isso reduz as perdas dos capitalistas com a crise e sua queda da taxa de lucros.

Mas não estamos mais nos tempos do economista John M. Keynes. O Capitalismo mudou. E ainda há o fato que os mesmo que atacaram o keynesianismo nos Governos serão os mesmos que aplicaram essas políticas econômicas.

E aí, será que dará certo? Dúvido.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Entrevista de Belluzo sobre a Crise Econômica

Em tempos de crise, preferência pela liquidez.

E os bancos não são diferentes.

Não são diferentes, mas são especiais.

Além de sua preferência pela liquidez, o empoçamento da liquidez nos grandes bancos brasileiros deve ter sido exponenciado, no início, por uma aposta de que os pequenos bancos iriam quebrar e assim seriam facilmente absorvidos.

No artigo abaixo, Belluzo dá o tom de como deve ser enfrentado o problema do crédito.

Henrique Barros.

COMO EVITAR A RECESSÃO (I)

Belluzzo: "A palavra que falta dizer é estatização do crédito"

É preciso deixar de lado a esperança liberal de que os bancos vão agir em benefício da sociedade e do desenvolvimento. O governo tem que injetar crédito direto na veia do setor produtivo e demais instituições. A palavra que falta dizer é: estatização do crédito”, diz, em entrevista à Carta Maior, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor-titular do Instituto de Economia da Unicamp e presidente do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento.

Redação - Carta Maior O governo brasileiro, através do Banco Central, trava uma queda de braço neste momento entre a lógica do interesse privado, que orienta o sistema bancário, e as necessidade de crédito para girar a economia e assim evitar a recessão, ou pelo menos amortecer seu desembarque no país.

Nos últimos dias, o BC tem liberado volumes crescentes de recursos ao setor – na forma de redução do percentual de depósitos à vista, compulsoriamente recolhidos aos cofres oficiais, como medida de regulação da liquidez. Mesmo assim a economia patina. Em vez de robustecer os empréstimos ao mercado e a outras instituições, os bancos têm preferido o abrigo seguro das aplicações em títulos público, que aumentaram em mais de 25% desde o início da crise.

O negócio é bom para os bancos; graças à política ortodoxa de juros do BC, propicia um rendimento de 8% reais, sem risco à tesouraria. Mas é um mau negócio para o país. Na verdade, problema semelhante ocorre em outras praças do mundo nesse momento. Há um empoçamento geral de liquidez que acelera e antecipa dinâmicas recessivas fazendo ruir as Bolsas, como se vê hoje depois da euforia da última terça-feira. “O problema é que as ações implementadas até agora não conseguiram reanimar os mecanismos de crédito. Ou melhor, elas são inadequadas para isso; de uma vez por todas é preciso entender que liquidez não é crédito”, explica o economista Luiz Gonzaga Belluzzo em entrevista à Carta Maior.

“Liquidez só se torna crédito quando os bancos cumprem a sua função original e repassam recursos permitindo girar a roda da economia. Não adianta o governo brigar contra a lógica do interesse privado neste momento. É preciso deixar de lado a esperança liberal de que os bancos vão agir em benefício da sociedade e do desenvolvimento. O governo tem que injetar crédito direto na veia do setor produtivo e demais instituições. A palavra que falta dizer é: estatização do crédito”, afirma o economista, professor-titular do Instituto de Economia da Unicamp e presidente do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento.

“O Banco Central deve se tornar o emprestador universal , de modo a permitir que a liquidez disponível chegue a quem pode transformá-la em dinâmica produtiva”, reforça Belluzzo. “Para isso o BC deve liberar volumes determinados de crédito ao mercado e anunciar que a rede bancária, de agora em diante, está a seu serviço como repassadora do recurso. O industrial poderá então dirigir-se ao seu gerente e solicitar o empréstimo, sem o risco de ouvir uma negativa. O dinheiro do BC está lá a sua disposição”, emenda o economista.

Belluzzo lembra que os fatos caminham à frente das idéias também neste caso. Como decorrência da desregulação geral das finanças, desde os anos 70, os bancos sofreram uma mutação em todo mundo. Eles renunciaram à condição original de emprestadores finais, aqueles que geram o crédito e carregam o risco até a liquidação dos contratos: tornaram-se meros corretores das finanças, como observa também o economista francês Michel Aglietta. “O banco continua a originar o empréstimo, mas securitiza a operação, revendendo-a no mercado de forma a dividir os riscos”, explica Belluzzo. O problema é que esse mecanismo de defesa degenerou-se.
Assumiu a forma de imensas pirâmide de ativos securitizados, em diferentes versões de derivativos que turbinaram os circuitos especulativos das finanças desreguladas. Sua essência desestabilizadora – são pirâmides invertidas cujo ponto de apoio em valor real se esfumou - só foi reconhecida pelos neoliberais urbi et orbi quando a casa caiu nos EUA, na explosão da bolha imobiliária.

O que ocorreu no sistema financeiro do capitalismo desregulado , segundo o professor da Unicamp, vencedor do Troféu Juca Pato (2004) com o livro “Ensaios sobre o Capitalismo no Século XX”, é que os bancos comerciais se igualaram aos bancos de investimento – que originalmente repassavam ativos - e estes assumiram prerrogativas das instituições comerciais, em operações especulativas de balcão. “Ou seja, o sistema bancário tornou-se um mero repassador de dinheiro. O jeito então é tratá-lo como tal, e não esperar uma reconversão social numa hora dessas”.

A hesitação do governo pode custar caro. Se a deficiência na pata financeira do capitalismo desregulado já causava problemas em tempos de vacas gordas, agora que o pasto escasseia, em vez de funcionar como contrapeso à recessão a engrenagem bancária age para antecipar o seu desembarque no país e seu teor letal. “O governo deve intervir sem medo, embora o coro conservador-midiático possa clamar respeito aos ditames do livre-mercadismo. Defendi isso ontem no Conselho de Economia da FIESP. A alternativa é fazer mais tarde, quando a vaca já tiver ido para o brejo; vai ser pior”, adverte o professor, palmeirense convicto, e heterodoxo dos mais respeitados nos circuitos acadêmicos, tendo sido incluído em 2001 entre os cem principais economistas do século pelo Biograpfical Dictionary of Dissenting Economistas.

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar...cfm?materia_id=15302

Textos sobre a crise econômica recente

por Almir Cezar

Meu amigo Henrique Barros, recém-mestre em Economia pela UFU e pesquisador do CEPES Centro de Estudos e Pesquisas Econômico-Sociais), estudioso das mudanças contemporâneas do Capitalismo Mundial, montou uma lista de email onde troca-se textos selecionados a respeito da recente crise econômica.

Ele também me enviou alguns textos que tomo a liberdade de postar aqui no blog.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Com a crise, cadê o Fukuyama? Marx vs. Hegel e o fim da História

por Almir Cezar Filho

A crise econômica, junto com os ataques as Torres Gêmeas ( talvez até mais do que elas), mostrou que a História não havia acabado, como proclamou Francis Fukuyama.
Muito pelo contrário, a História humana segue seu rumo (não se sabe em que direção), mas sabe-se que cada vez mais desembestada. O triunfo do neoliberalismo e o advento da globalização acelerados pelo fim da URSS , queda do Muro de Berlim e débâcle do Estado de Bem-estar social podem ter engano alguns ou sido usados como pretexto para defender essa sandice.

Fukuyama, esse moderno profeta liberal, nada tem de moderno. O triunfo do modo de vida burguês, pautado pelo seu Estado liberal e constitucional-parlamentar a mais de um século e meio foi celebrado como egresso no apogeu humano. Numa nova Era de Ouro. Que permitiria que a humanidade sem conflitos internos pudesse exercer suas potencialidades criativas e produtivas pela re-integração dos indivíduos uns com os outros, isto é, pelo fim da alienação, da incapacidade de perceber no outro um ser humano igual a si.

Fukuyama repetiu, ou melhor, apenas atualizar e recontextualizou o pensamento do filosofo alemão Hegel. Acrescentou a importância do livre mercado para a liberdade e manutenção do Estado Democrático. O fim da ex-URSS permitiu a unificação do mercado do mundo, consolidando o livre mercado, com a contribuição da internacionalização do capital e o fim do welfare state.

Hegel, foi um filosofo amado e odiado mesmo em seu tempo, é conterrâneo de outro filosofo que também suscita opiniões apaixonadas, Karl Marx, que por sinal, retirou-lhe a seu jeito muitas e preciosas idéias. Marx é mais completo que Hegel, e se tivesse sido adotado por Fukuyama, teria evitado que mancada mantido o Estado e o mercado entraríamos no fim da História. Veria ao contrário, se ambos reforçados, estaríamos num momento de intensificação dos movimentos, da dinâmica da própria História.

Idealismo x Materialismo

Anteriormente à Marx, Hegel elevou o Idealismo alemão ao seu ápice. Já Marx, através da sua teoria social do Materialismo Histórico e Dialético - cujos pressupostos estão contidos na obra A Ideologia Alemã - explica a realidade sob esse ponto de vista, tendo como ponto de partida as ações concretas dos indivíduos humanos historicamente determinados.

O idealista busca explicar a realidade através das idéias (como se estas determinassem aquelas); os materialistas vão em sentido oposto.
Há um dito que estabelece bem a relação entre Hegel e Marx: "Marx colocou Hegel de pernas para o ar" .

Diferenças quanto ao fim da alienação

Hegel não trabalhava com a Economia Política, que tem origem com os franceses mas teve seu ápice com os britânicos quase que simultaneamente a seu tempo.Hegel achava que o apogeu na sociedade humana encontrava-se no Estado, especialmente com o triunfo do Estado Burguês. Era o Estado que evitaria a alienação. Marx, começa seu pensamento negando Hegel, e em seguida negando a Economia Política Clássica inglesa.Para Marx, o Estado é instrumento de manutenção e realização da alienação. Somente sua supressão garantirá o homem integral (que plenamente gozará de suas potencialidades) ao re-identificar no outro seu semelhante e com este relacionar-se e pproduzir de maneira associada. O Estado impedi isso, media as relações humanas. Serve de instrumento de alienação. Alienação a serviço da dominação de um grupo social sobre o conjunto da sociedade.

A Economia Política clássica, inglesa, embora não falasse em alienação, afirmava que o mercado livre capitalista seria sim o instrumento de re-integração dos indivíduos, que seriam produtores atomizados, separados pela propriedade privadae pela divisão do trabalho. Contudo a propriedade privada e a divisão do trabalho garantiriam aumento da produtividade e busca racional pelo lucro.

Pelo egoísmo particular garatiria-se riqueza coletiva através do mercado.Marx critica dizendo que o mercado é espaço social não de integração mas de alienação, onde os homens se relacionam meramente através das mercadorias, ignorando-se mutuamente. Não há relacionamento entre sujeitos mas entre objetos. Fetichizando um objeto. E através da troca de mercadorias permite-se que alguns possam explorar a maioria, pois a minoria exploradora tem acesso desigual as propriedades privadas que são meios de produção, assegurando-as participação maior nos frutos do trabalho.

Contudo, através da alienação os indivíduos encaram isso com naturalidade.Somente a abolição da mercadoria, tal qual do Estado, permitiria o fim da alienação.

As condições para o fim da História

Marx também como Hegel acreditava que a História humana também podia acabar, mas não de acordo com que entendia Hegel.
Tanto poderia acabar como hoje os ativistas anti-guerras e ecologistas protestam, pela auto-destruição da humanidade por transformar as condições de vida humana em incompatíveis. Como por outro meio, pela ação consciente dos indivíduos produtores e associados, que em reação aos danos que o capitalismo proporcionam se organizariam para enfrentá-lo construindo uma nova sociedade onde a produção fosse coletiva e planejada.

Nessa nova sociedade haveria a abolição justamente daquilo que Hegel concluíra ser a condição sine qua non para combater a alienação, e ao contrário, Marx, concluíra que era sua manifestação moderna, o Estado burguês. O Estado agrega os indivíduos mas para oprimi-los a serviço de uma minoria que se beneficia disso para explorar a maioria.

Marx é mais completo que Hegel, e se tivesse sido adotado por Fukuyama, teria evitado essa mancada. Marx vê no mercado capitalista, na mercadoria e no capital, instrumentos que complementam o Estado na alienação. O Estado seria enquanto principal meio de alienação instrumento para através disso permitir que a mercadoria meio de produção (o capital), em posse de poucos (os capitalistas, também chamados burgueses), pudessem explorar a maioria de indivíduos que não têm essa mercadoria capital, enquanto que também os vende as demais mercadorias para o consumo.

Atualidade de Fukuyama

Nessa lógica interna, haverá sempre homens dispostos a querer possuir mais poder e riqueza, e outros dispostos a não se submeter e entregar. Ou que a ganância supera a próprio limite de gerar riqueza: as crises.

Esses movimentos das relações entre os homens constituem a História. Se a História não acaba, segue seu curso. Se o Estado e o mercado continuam segue-se a exploração do homem pelo homem e a alienação. Continuamos viver segundo os conflitos, as lutas, as convulsões e as crises.

Marx nunca foi tão atual, muito mais do que Hegel.

Estatizarão os bancos

por Almir Cezar Filho

Os EUA estatizarão os bancos!

Não é palavra-de-ordem de grupelho esquerdista. É sim um realidade proposta pelos bancos, FED e políticos.

Na verdade, quando as coisas estão bem para o capital, esses defendem o liberalismo, o livre-mercado. Quando estão mal, defendem a socialização.

Contudo, socializaram os prejuízos.

Queria saber quando irão socializar os lucros.

grupo de discussão sobre a crise

por Almir Cezar

O pessoal do Instituto de Economia da UFU montou uma lista de discussão sobre a crise. O grupo se chama EPIN (Economia Política Internacional).

Quem quiser é só entrar em contato comigo que repasso o endereço.

Estive alguns dias ausente.

Tive que ir a Uberlândia entregar e defender meu projeto de dissertação.
Aproveitei para rever as pessoas queridas, assistir uma defesa final de dissertação e debater sobre a crise com colegas e professores.

Enfim, já estou de volta a minha base operacional pra comentar o mundo.
Vi meio que de longe as notícias.

O mundo pareceu meio montanha-russa nos últimos dois dias (segunda e terça-feira). Foi um mega subida sucedida por uma hiper tombo.

Vamos juntos tentar explicar isso.

Vamo 'bora!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A crise financeira é a crise no capital fictício

por Almir Cezar

Nas crises financeiras parece que o que era sólido se desmancha no ar. A crise financeira é a crise no "capital fictício". Leiam o que disse Marx nO Capital.

"Em um sistema de produção em que toda a trama do processo de reprodução repousa sobre o crédito, quando este cessa repentinamente e somente se admitem pagamentos em dinheiro, tem que produzir-se imediatamente uma crise, uma demanda forte e atropelada de meios de pagamento.
Por isso, à primeira vista, a crise aparece como uma simples crise de crédito e de dinheiro líquido. E, em realidade, trata-se somente da conversão de letras de câmbio em dinheiro. Mas essas letras representam, em sua maioria, compras e vendas reais, as quais, ao sentirem a necessidade de expandir-se amplamente, acabam servindo de base a toda a crise.


Mas, ao lado disto, há uma massa enorme dessas letras que só representam negócios de especulação, que agora se desnudam e explodem como bolhas de sabão, ademais, especulações sobre capitais alheios, mas fracassadas; finalmente, capitais-mercadorias desvalorizados ou até encalhados, ou um refluxo de capital já irrealizável. E todo esse sistema artificial de extensão violenta do processo de reprodução não pode corrigir-se, naturalmente. O Banco da Inglaterra, por exemplo, entregue aos especuladores, com seus bônus, o capital que lhes falta, impede que comprem todas as mercadorias desvalorizadas por seus antigos valores nominais.


No mais, aqui tudo aparece invertido, pois num mundo feito de papel não se revelam nunca o preço real e seus fatores, mas sim somente barras, dinheiro metálico, bônus bancários, letras de câmbio, títulos e valores.


E esta inversão se manifesta em todos os lugares onde se condensa o negócio de dinheiro do país, como ocorre em Londres; todo o processo aparece como inexplicável, menos nos locais mesmo da produção."

Fragmento de "O Capital", Volume 3, Capítulo 30, Capital-dinheiro e capital efetivo, Karl Marx (1818-1883).

Crise econômica: o caso da Sadia e Aracruz

por Almir Cezar Filho

Grande parte da volatilidade da Bovespa dos últimos dias se deve – além do agravamento da crise internacional – à falta de informações sobre empresas que, a exemplo da Sadia e da Aracruz, tenham abusado das operações de swap cambial.

Há boatos de que o rombo poderia ser superior a R$ 25 ou sumir a R$ 35 bilhões.

Durante anos, os bancos ofereciam essas operações a grandes exportadores. Garantiam crédito a 50% do CDI em troca de uma opção de venda de dólares. Enquanto o dólar caiu, os grandes exportadores conseguiam compensar o câmbio desfavorável com os lucros da atividade financeira.
Agora, esse jogo acabou...

Sadia e Aracruz estão além de endividadas, sem nenhum caixa, o que é fatal para uma empresa.

O problema é que a situação dessas duas empresas apenas pode ser a ponta do iceberg, ou no mínimo o pior caso. É possível terem outros e essa é a razão do pânico.

Queda do Real e da Bolsa de SP

por Almir Cezar

Até esta semana, grande parte da queda nos ativos brasileiros vinha sendo causada pela retirada de dinheiro do Brasil por investidores estrangeiros tentando cobrir perdas em outros mercados, mas, nos últimos dias, os investidores locais também se juntaram ao "êxodo".

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A crise mostra a revelevância das determinações extra-econômicas: o papel dos líderes

Por Almir Cezar Filho

Continuando sobre as determinações extra-econômicas* ... falemos agora da liderança política sobre a economia.

A crise mostra como é importante a questão de liderança política, ou melhor como a ausência prejudica a recuperação da economia ou efetividade de medidas para reversão da situação de crise.

Bush é tão mal visto pela população que qualquer medida é visto com desconfiança, e os demais políticos não aceitam dividir o ônus da aprovação do pacote de socorro ao mercado financeiro. No outro extremo, temos o Governo Lula [sem julgamento de mérito sobre seu Governo], criou um clima de confiança e ações políticas nos últimos anos que fizeram condições diferentes do que o Brasil tinha nas últimas crise internacionais.

O desenvolvimento capitalista sempre implica a relevância das determinações extra-econômicas, onde a política é sua componente.

A demora na aprovação do pacote americano agravou a crise e criou a desconfiança que a medida em si não bastará, nem mesmo para começo do socorro da crise.

(*)tema que parte de minhas investigações teóricas e metodológicas sobre desenvolvimento econômico e dinâmica de longo prazo do capitalismo mundial. Minhas referências são Evguêni Preobrajenski, Léon Trótski e Theotônio dos Santos.

A crise comprovou que o Estado Nacional não é irrelevante

Por Almir Cezar Filho

Essa crise é bem interessante, derrota os economistas convencionais e os ideólogos do neoliberalismo em um aspecto com a Globalização: a irrelevância do Estado Nacional.

Primeiro, mostrou que os Estados Nacionais não são irrelevantes. São sempre acionados pelos agentes do mercado quando este não funciona como previsto. O Estado parece funcionar como meio de garantia da estabilidade do mercado, ou mesmo, meio de re-estabilização do mercado. A maior mostra disso foi a pressão dos próprios bancos pela implantação do pacote de socorro do governo dos EUA. Outras provas são as tratativas por parte da UE de fazer o mesmo e no caso do Brasil, o pânico que tomou o mercado ontem ter sido apenas acalmado com o pronunciamento do ministro da Fazenda e do presidente do BC. Por fim, foi a ausência do Estado nas operações do mercado, através da regulamentação, que se escasseou nas últimas duas décadas.

Mas, em segundo lugar, embora o Estado Nacional seja o guardião, o garantidor inclusive da própria existência do mercado, sua ação isolada, no plano nacional não basta mais para o Capitalismo. As modificações recentes, com a expansão dos capitais para além da esfera do mercado nacional, restringem o próprio raio de ação do Estado. O exemplo, é que apesar da aprovação do pacote dos EUA os mercados pelo mundo, incluindo o mercado dos EUA, não mudaram de “humor”, continuaram em pânico. Avaliaram que os mais de 700 bilhões de dólares e as inúmeras medidas de intervenção eram poucas.

A internacionalização dos capitais obrigou os Estados Nacionais das potências econômicas centrais a baterem cabeça, mas por fim terem que entrar num acordo. Intervieram conjuntamente, com a medida do corte combinado das taxas de juros feitas pelos BCs. Contudo, muitas outras medidas terão que ser feitas. O Federal Reserve (FED, o banco central americano) reduziu a taxa de juros básica nos Estados Unidos em 0,5 ponto percentual, para 1,5%, em uma operação coordenada com o Banco Central Europeu (BCE) e outros quatro bancos centrais (Inglaterra, Suíça e Suécia, além do Canadá).

A crise mostra que falta uma esfera estatal supra-nacional. A ONU, o FMI, o Banco Mundial, etc, não são isso. Falta portanto construí-lo.
Porém, o Capitalismo não está disposto a isso. Esses órgãos multilaterais não cumprem esse papel, mas foram construídos na tentativa de evitar a repetição de uma possível crise no pós Segunda Guerra, tal qual o mundo viveu no pós Primeira Guerra. Mas na verdade, esses órgãos foram muito mais, pelo medo do Socialismo, que a crise empurrasse os países “elos fracos” do Capitalismo para esse caminho, do que para evitar as crises. Pois para evitar as crises implicaria a interferência sobre os negócios, o que os capitalistas não estão dispostos.

Implicaria interferir nos governos, o que as burguesias que controlam o Estado estão muito menos dispostos.

O Estado continua vivo e necessário

por Almir Cezar

A crise mostra duas coisas que os economistas convencionais e os ideologos do neoliberalismo ignoravam:


Primeiro, os Estados Nacionais não estão mortos ou são inúteis. O papel que vêm cumprindo tentando salvar o mercado é inquestionável. É dele a fonte do socorro. O que vimos nos EUA é a maior mostra disso.

Segundo, embora os Estados Nacionais sejam insubstituíveis, e garantia da própria da própria sobrevivência do mercado.

Frase do dia


A piada de "Macaco" Simão:

"Os EUA se tornaram socialistas - o prejuízo é lá e dividiram com o resto do mundo!"

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Por que a crise é menos grave no Brasil e nos BRICs do que na Europa ou EUA?

Por Almir Cezar Filho

Um aspecto interessante da crise atual é a diferença de impacto desta entre, de um lado, os EUA, União Européia e Japão e, do outro, países dos BRICs e ditos “emergentes”. Houve mudanças no Capitalismo mundial que levou a uma modificação na divisão internacional do trabalho que se torna visível apenas agora com a crise.

A crise se manifestou inicialmente como estouro do “bolha” nos EUA do mercado imobiliário e financeiro de subprime e hipotecário. Contaminou os bancos de investimentos e bancos comerciais, chegando no Canadá e no outro lado do Atlântico (em maior medida) e no outro lado do Pacífico (menor medida). Já na China, Índia, Brasil e Rússia, ela se manifesta muito mais nas bolsas de valores e com ainda poucos sinais no restante do mercado financeiro bancário e no setor real da economia. Os poucos sinais no setor real estão ligados a temor de desaquecimento do consumo, especialmente no caso de exportação e de consumo interno ligado a crédito facilitado, e restrições ao financiamento internacional e crédito para investimentos.

As bolsas dos BRICs e dos “emergentes” caem por algumas razões, todos ligados ao pânico dos especuladores internacionais. No início da crise, ainda no ano passado, com o estouro da “bolha”, as bolsas desses países se tornaram um refúgio para os fundos e bancos de investimentos, só que agora o pânico é grande, e as empresas desses países por conta da generalização da crise devem ter queda em seus lucros. E também, até agosto desse ano esperava-se apenas que os EUA iriam entrar em pequena recessão e não que o mundo, especialmente os países centrais, iriam mergulhar juntos, assim o Brasil, Rússia, etc, poderiam ser um transitório refúgio ou meio de recuperar as perdas.

O porquê da queda acentuadas nos BRICs nas bolsas

As ações estavam em alta nos BRICs já a alguns anos e com viés de crescimento. As taxas de lucro estavam em trajetória de expansão, tornaram-se atrativas. As empresas nacionais dos BRICs aproveitam para terem ganhos em cima disso, realizando IPOs (abertura inicial de ações) e expansões das subscrições acionárias, não apenas para financiar investimentos, mas para ter ganhos na sobrevalorização de ações. Como diz o ditado no mercado financeiro: “a bolsa sobe no boato e caí no fato”. O fato é que os lucros não cresceriam tanto e a tendência agora é o contrário é de redução no pagamento dos dividendos.

A diferença entre China e Brasil e qual a alternativa para o Brasil

Isso explica porque no Brasil a queda na bolsa é pior dos que no resto dos BRICs. O Brasil entre esses países é o que possui o mercado financeiro e de bolsa mais sofisticado. A Bolsa de SP movimenta em bolsa inclusive valores superiores que as bolsas dos outros BRICs, mesmo Xangai (excetuando Hong Kong, particularmente muito vinculado mais ao movimento do Japão e dos tigres asiáticos do que da própria China). O vínculo também entre bancos, fundos de investimentos e empresas é muito maior.
Mas a China será a que deve mais sofrer com a desaceleração da economia dos EUA. O temor do mundo é exatamente isso. Por um lado, a China é a grande exportadora do mundo, tendo seu principal mercado consumidor justamente os EUA, que também é a economia cujas empresas são os maiores investidores na China. A expansão do PIB chinês é fortemente puxado pelas exportações de manufaturados, numa proporção muito menor do que dos outros BRICs. Por outro, o pânico no mundo também é explicado, pelo fato (ou que avaliação), que embora a economia chinesa seja uma (nova) locomotiva do mundo - e pode até explicar porque a crise não se disseminou pelo mundo de maneira mais rápida - não teria condições de compensar a recessão dos EUA.

É nessa característica que diferencia o Brasil da China. A economia brasileira cresceu nos últimos anos puxado muito mais pelo mercado interno – crédito facilitado ao consumidor, crescimento da renda do trabalhador, projeto de investimentos privados e programa de investimentos públicos – do que pelo mercado externo. Significa que em segundo momento o Brasil pode estar em melhor condição que a China, desde que a equipe econômica do Governo Lula, identificada com uma visão macroeconômica neoliberal e financista não erre a mão, puxando o freio do PIB, numa avaliação equivocada de que para diminuir a crise seria preciso desacelerar a economia ou manter altas as taxas de juros para reter dólar aqui.

Na verdade, a melhor maneira de diminuir a crise no Brasil é o Brasil crescer. A previsão do crescimento do PIB para o ano que vem era de mais de 5%, mas a avaliação após agudização da crise em agosto/setembro foi para menos de 4%. Se houver uma generalização de redução do crescimento as empresas suspenderão seus investimentos e as famílias compras programadas - por medo de prejuízos, menor lucro e medo do desemprego ou inadimplência - empurrando como uma bola de neve o PIB para baixo. Aí, a bolsa cairá de vez. As empresas venderam menos e demitirão. Os dólares fugiram – com impacto nas taxas de juros (para retê-los) e nos preços (inflação via desvalorização do real, elevando os preços das commodities. O Brasil precisa crescer no ano que vem para fugir da crise.

A nova divisão internacional do trabalho e o subimperialismo dos BRICs


Estamos falando dos BRICs – a duas décadas atrás expressão nem existia. O que aconteceu foi uma mudança no capitalismo mundial. Uma mudança na divisão internacional do trabalho. Mas será agora na crise que veremos uma reconfiguração enorme no sistema.

Parafrasendo André Gunder Frank, as maiores mudanças qualitativas na divisão internacional do trabalho ocorrem num período de crise da acumulação e capital, e que essas mudanças são, então, quantitativamente aumentadas durante um período seguinte de expansão, que foi facilitado por elas. Esses movimentos ascendentes ocorreram, evidentemente, depois de crises anteriores (no caso, a crise mundial dos anos 70 e 80), veremos tão logo a crise seja seguida de uma expansão ou uma atenuação da crise.

Embora quantitativamente essas mudanças na DIT sejam mais visíveis durante os períodos de ascensão do grande ciclo, qualitativamente elas parecem concentrar-se no momento de crise e nos primeiros anos do movimento descente. É então que ocorre uma luta séria pelos mercados, luta essa que também se baseia numa mudança relativa nas forças produtivas entre potências econômicas, tal como aconteceu em fins do século XIX, com a ascensão ao lado da Inglaterra e França, de países como Alemanha, Japão, EUA e Itália. Essas novas transformações qualitativas na DIT são claramente percebidas com maior definição após os anos 70 com a Europa Ocidental e Japão, e agora com os BRICs.

Um aspecto de tais modificações é o desenvolvimento do subimperialismo, como Ruy Mauro Marini analisou, como referência ao Brasil. O caso brasileiro não é excessão, visto o BRICs e outros países como África do Sul e México. O subimperialismo do Brasil só pode ser do interesse da potência imperialista. É competidor e aliado. É instrumento, mas do tipo faca de dois gume, gume cortante, no qual enfrenta o imperialismo mas também esse atua nas neocolônias através do subimperialismo. O interessante também que as potências centrais (EUA, UE e Japão), embora competidoras entre si, elas também têm interesses comuns, convergentes, numa região, que o subimperialismo indiano, chinês, russo ou brasileiro, pode proteger, conciliando assim.

Esse novo papel estão vendo agora, e veremos ainda mais no próximo período. A primeira mostra é a manifestação desigual dos efeitos da presente crise nos países industrializados.

Para o Brasil fugir da crise é preciso crescer

por Almir Cezar

Na verdade, a melhor maneira de diminuir a crise no Brasil é o Brasil crescer, é a única forma da nossa economia sair da crise.

A previsão do crescimento do PIB para o ano que vem era de mais de 5%, mas a avaliação após agudização da crise em agosto/setembro foi para menos de 4%.

Se houver uma generalização de redução do crescimento as empresas suspenderão seus investimentos e as famílias compras programadas - por medo de prejuízos, menor lucro e medo do desemprego ou inadimplência - empurrando como uma bola de neve o PIB para baixo.

Aí, a bolsa cairá de vez. As empresas venderam menos e demitirão. Os dólares fugiram – com impacto nas taxas de juros (para retê-los) e nos preços (inflação via desvalorização do real, elevando os preços das commodities.

O Brasil precisa crescer no ano que vem para fugir da crise. Espero que a equipe econômica entenda isso.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O neoliberalismo tomou um surra

por Almir Cezar

O neoliberalismo está morto? Realmente não sei. Mas que tomou uma surra tomou, e agora está moribundo caída pelo chão.

Se ao longo dos anos 1990 (crises Mexicana, Asiáticas, Russa, Brasileira, Argentina) ele já havia dado mostras do que trazia (desemprego, precarização do trabalho, perda de direitos sociais e trabalhistas, desregulamentação do mercado financeiro, privatizações, priorização dos gastos públicos com pagamento da dívida, etc), agora provou que o mesmo pode produzir no centro do capitalismo, com danos muito mais graves.

O capitalismo havia aprendido com a Quebra da Bolsa de NY em 1929 e Depressão dos anos 30 que deixar o mercado livre era risco demais - "o capital é tão importante que é perigoso demais deixar nas mãos dos capitalistas". O que se viu na sequência foi a constituição de um arsenal institucional, legal e ideológico de proteção, coordenação e fiscalização dos negócios havia de evitar as causas que precipitam para a tragédia. Durante décadas também havia o medo do socialismo, lembrando que ao menor erro, as massas proletárias poderiam aderir a outro projeto, exigindo a cabeça dos senhores.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A crise chega ao Brasil apesar do pacote americano

por Almir Cezar

Fim do dia: dólar superou a barreira dos R$2,00. Bolsa caiu 6% apesar da aprovação pelo Senado americano do pacote de socorro aos bancos.

O mercado financeiro balançou sim, com resultado de outros dados assustadores da economia americana - queda vertiginosa no índice de emprego e da produção industrial. Os mais velhos já falam que "não podemos viver outra Depressão".
Há sinais que levam os analistas dizer que não há mais dúvida se os EUA entraram sim ou não em recessão, essa parece inevitável. Os EUA já estão em recessão. O pior é que há sinais que a recessão será longa e difícil superação. Surge dúvidas que implica dizer que pode estar entrando em uma minidepressão nos EUA, com uma recessão mundial, especialmente na UE, no Japão e tigres asiáticos.

No Brasil já há certeza de desaceleração econômica para ano que vem, de mais de 5% ao ano, para algo em torno de 4%. As dúvidas se já nesse ano verá o impacto da desaceleração. Crédito internacional reduzido para as empresas, alteração nas estratégias de negócio, especialmente ligadas a aexportação, e redução dos investimentos das multinacionais (é preciso salvar a matriz). A alta do dólar deve ajudar nas contas externas, mas veio acompanhado da retração da demanda exterior.
Por outro lado, o mercado interno aquecido - investimento público em alta, investimento privado estimulado e consumo em alta devido ao crédito e carteira assinada - ajuda a evitar maior desacelaração de nossa economia, contribuída pelo queda da inflação produzida pela esvaziamento do boom das commodities.
Isso não depende da vontade de Lula e sua trupe na política econômica.

Mas os dólares andam saindo. Empresas multinacionais mandam dinheiro para salvar suas matrizes e diminuem investimento por precaução ou falta de crédito lá fora. E os fundos de investimentos e bancos saiem da bolsa brasileira e recorrem ao velho dólar. Mais gente procurando dólar, o dólar sobe. Prova que parte do boom da bolsa era isso boom. Exagero, fuga da crise hipotecária nos EUA. E agora os especuladores e executivos têm muito medo para ficar na bolsa.

O Equilíbrio Capitalista - questões metodológicas para analisar a crise mundial

por Almir Cezar Filho

Nos períodos de crise não é fácil explicar as crises utilizando o instrumental teórico tradicional da Economia. Venho estudando a algum tempo o autor marxista Leon Trotsky. Ele é muito usado para explicar tanto pela sociologia e pela historiografia os fenômenos revolucionários e políticos, mas esse autor analisou em seu tempo, em vários textos, fenômenos e conjunturas econômicas - a dinâmica e o equilíbrio do sistema capitalista.

Há um texto clássico, “A Situação Mundial”, escrito em 1922, que foi escrito como informe político num congresso partidário, onde analisava a economia mundial após a Primeira Guerra Mundial, a vaga revolucionária posterior e o começo de recuperação européia. O centro do texto é o conceito de "equilíbrio capitalista". É a partir desse conceito ele explica o funcionamento do sistema capitalista e as possibilidades da economia européia voltar a crise que havia passado entre 1918 e 1921.

O equilíbrio capitalista na verdade é uma “dinâmica”, à medida que passa permanentemente por rupturas e construção. Quando se fala em equilíbrio se fala em regularidade na dinâmica, mas há momento de irregularidades (desequilíbrios) e períodos de instabilidade.

Uma explicação não-convencional para as crises no capitalismo

por Almir Cezar Filho
(atualizado em 28/01/2013) 

Nessas horas de graves crises econômicas todo o instrumental da Economia tradicional fica meio inadequado para explicar o funcionamento do capitalismo e a causa das crises. Recorrendo a Leon Trotsky, que possui alguns textos econômicos que oferecem uma perspectiva bem interessante para se investigar o momento, à medida que estes procuravam analisar a fundo, embora a décadas passadas, o funcionamento e a estrutura do capitalismo mundial. Os textos de Trotsky trazem consigo quatros novas visões sobre a dinâmica capitalista: (i) que as oscilações econômicas como a reconstrução permanente do equilíbrio capitalista, (ii) que esta dinâmica não se limita ao econômico strito sensu, mas abarca outras duas dimensões sociais, a política e a internacional, (iii) que as oscilações econômicas periódicas são provocada pelo próprio processo de acumulação de capital, (iv) que o desenvolvimento capitalista seria de certa maneira a própria dinâmica de longo prazo, o resumo e acúmulo das contradições e das forças produtivas constituídas ao longo da sucessão de crises e booms.

O equilíbrio capitalista
Se há de se falar da crise capitalista como um "desequilíbrio", Trotsky fala que no Capitalismo o equilíbrio é sempre dinâmico, em que esta dinâmica naturalmente se dá em um fluxo de construção e reconstrução. Assim diferente do que diz a Economia tradicional, Trotsky lembra que, o Capitalismo constrói, rompe/restaura e reconstrói esse equilíbrio em um processo contínuo. Porém, há que se ressaltar que apesar desse equilíbrio estar em permanente mudança, embora com períodos de maior duração da estabilidade, a dinâmica capitalista é resistente, provando a força do sistema e sua permanência, apesar dos períodos de graves crises. A crise não é portanto, uma momento de excepcionalidade, mas uma contraparte ao boom.
Em cada país, a agricultura prove à indústria com objetos de primeira necessidade para os operários e com bens para a produção (matérias-primas); por sua vez, a indústria provê ao campo objetos de uso pessoal e doméstico, assim como de instrumentos de produção agrícola. Deste modo se dá estabelecida certa reciprocidade. No interior da mesma indústria assistimos a fabricação de instrumentos de produção e a fabricação de objetos de consumo, e entre estes dois ramos principais da indústria se estabelece certa interação a qual passa por constantes rupturas para ser reconstruída sobre novas bases.
(“A Situação Mundial”)

O equilíbrio capitalista é um fenômeno complicado; o regime capitalista constrói esse equilíbrio, o rompe, o reconstrói e o rompe outra vez, alargando, de passo, os limites de seu domínio. Na esfera econômica, estas constantes rupturas e restaurações do equilíbrio tomam a forma de crises e booms. (...) O capitalismo possui então um equilíbrio dinâmico, o qual está sempre em processo de ruptura ou restauração. Ao mesmo tempo, semelhante equilíbrio possui grande força de resistência; a prova melhor que temos dela é que ainda existe o mundo capitalista.” (“A Situação Mundial”)
O equilíbrio dinâmico nas três esferas sociais
A dinâmica do capitalismo não é apenas econômica, mas também política e internacional, isto é, a dinâmica capitalista, e portanto seu equilíbrio, é tridimensional. A esfera política é a esfera das relações entre classes, que se manifesta principalmente no Estado e demais instituições, à medida que estas interferem na divisão social do trabalho. A esfera internacional é a esfera das relações entre os múltiplos Estados Nacionais, ao interferir na divisão internacional do trabalho. Portanto, a crise capitalista é o "desequilíbrio", não apenas em uma, mas das três esferas. 
Na esfera das relações entre classes, a ruptura do equilíbrio consiste em greves, em lockout, em luta revolucionária. Na esfera das reações entre estados, a ruptura do equilíbrio é a guerra, ou bem, mais solapadamente, a guerra das tarifas alfandegárias, a guerra econômica ou bloqueio. (“A Situação Mundial”. Pág.1)
E ainda, o equilíbrio capitalista não é apenas nacional mas internacional, à medida que esse sistema é mundial, portanto, se dá em dois níveis.
O equilíbrio capitalista está determinado por fatos, fenômenos e fatores múltiplos: de primeira, segunda e terceira categoria. O capitalismo é um fenômeno mundial. Tem conseguido dominar o mundo inteiro, como podem observar durante a guerra: quando um país produz demais, sem ter mercado que consumisse suas mercadorias, enquanto que outro necessitava produtos que lhe eram inaccessíveis. Naquele momento, a interdependência das diferentes partes do mercado mundial se faz sentir em todo situação. Na etapa alcançada antes da guerra [Primeira Guerra Mundial], o capitalismo estava baseado na divisão internacional do trabalho e no intercambio internacional dos produtos.
(...) Sem dúvida, esta divisão do trabalho não é sempre a mesma, não está sujeita a regras. Estabeleceu-se historicamente, e às vezes se tumultua por crises, competições e tarifas. Mas, em geral, a economia mundial se funda sobre o feito de que a produção do mundo se reparte, em maior ou menor proporção, entre diferentes países. (...)


Trotsky apresenta o conceito de equilíbrio dinâmico do capitalismo, a reação de equilíbrio nas três esferas sociais: a esfera das relações econômicas, a esfera das relações políticas ou da luta de classe e a esfera das reações inter-estatais ou internacionais.
(...) Há que considerar, ademais, o equilíbrio das classes baseado sobre o da economia nacional. No período anterior a guerra, existia uma paz armada, não somente no que se refere as reações internacionais senão - em grande escala - em quanto se referia a burgueses e ao proletariado, graças a um sistema de acordos coletivos referente aos salários; sistema levado a cabo pelos sindicatos centralizados e o capital industrial, a sua vez se centralizando mais e mais.
(...) Mais tarde se aborda a questão do equilíbrio internacional, isto é, da coexistência dos Estados capitalistas, sem a qual, evidentemente, a reconstrução da economia capitalista se faz impossível.” (Ibidim. Pág. 3)”


Boom e crise e  o desenvolvimento capitalista
Trotsky fala da reação entre os ciclos econômicos e o desenvolvimento capitalista, e a ligação dialética entre crise e boom. As oscilações econômicas marcam em si um processo contínuo e característico do próprio funcionamento, natureza e desenvolvimento do Capitalismo como sistema. Os momentos de crise, assim como os de boom, não são momentos que mostrariam que o Capitalismo, nem que caminha para seu fim, nem também que é um sistema equilibrado, ou que terá uma vida eterna. Mas sim, a crise apenas mostra que as contradições inexoráveis do desenvolvimento do sistema capitalista não foram superadas. Logo a dinâmica típica do Capitalismo é a oscilação periódica provocada pelo próprio processo de acumulação de capital, que tem seu auge no período de boom, e seu pior estado no momento da crise.
“(...) Em efeito, o capitalismo vive por crises e booms, assim como um ser humano vive por inalar e exalar. Primeiro há um boom na indústria, logo uma paralisação, logo uma crise, seguida por uma paralisação na crise, logo uma melhora, outra paralisação, e assim continua.
A alternância das crises e os booms, com todos seus estados intermediários, constituíram um ciclo ou um dos grandes ciclos do desenvolvimento industrial. Cada ciclo abarca um período de oito, nove, dez, onze anos. Se estudamos os cento trinta e oito últimos anos percebemos que a este período correspondem dezesseis ciclos. A cada ciclo corresponde, em conseqüência, pouco menos de nove anos: oito anos e cinco oitavos. Por razão de suas contradições interiores, o capitalismo não se desenvolve em linha reta, senão de maneira ziguezagueante: ora se levanta, ora caí. É precisamente este fenômeno o que permite dizer aos apologistas do capitalismo: “Desde que observamos após a guerra uma sucessão de booms e crises, se desprende que todas as coisas estão trabalhando juntas para o melhor do capitalismo.” Sem dúvida a realidade é outra. O fato que o capitalismo continue oscilando ciclicamente após a guerra indica, sensivelmente, que ainda não está morto e que, todavia não nos enfrentamos com um cadáver. Até que o capitalismo não seja vencido por uma revolução proletária, continuará vivendo em ciclos, subindo e baixando. As crises e os booms são próprios do capitalismo desde o dia de seu nascimento; acompanharam-lhe até a tumba. Mas para definir a idade do capitalismo e seu estado geral, para estabelecer se ainda está desenvolvendo-se, ou se já está maduro, ou se está em decadência, um deve diagnosticar o caráter dos ciclos, tal como se julga o estado do organismo humano, segundo o modo como respira: tranqüilo ou entrecortadamente, profundo ou suave, etc.
O desenvolvimento capitalista e a dinâmica de longo prazo
Trotsky também desenvolve a ideia de “curva de desenvolvimento capitalista” que desenrolar em um outro trabalho, exatamente com esse título, onde apresenta que a dinâmica do capitalismo é um processo de longo termo onde o desenvolvimento seria de certa maneira a própria dinâmica de longo prazo, o resumo e acúmulo das contradições e das forças produtivas constituídas ao longo da sucessão de crises e booms.
O fundo mesmo deste problema, camaradas, pode ser apresentado da seguinte maneira: tomemos o desenvolvimento do capitalismo (o progresso em a extração do carbono, a fabricação de telas, a produção do ferro, a fundição, o comercio exterior, etc.) nos últimos cento trinta e oito anos, e representamos-lhe por uma curva. Se nos movimentos desta curva, nós expressamos o curso real do desenvolvimento econômico, encontraremos que esta curva não oscila fazendo acima em um arco ininterrompido, senão em zigue-zagues, curvando-se fazendo acima e fazendo abaixo em correspondência com os respectivos booms e crises. Então, a curva do desenvolvimento econômico é um composto de dois movimentos: um, primário, que expressa o crescimento ascendente do capitalismo; e outro, secundário, que corresponde às oscilações periódicas constantes, reativas aos dezesseis ciclos de um período de cento trinta e oito anos. Nesse tempo, o capitalismo tem vivido aspirando e expirando de maneira diferente, segunda as épocas.


Desde o ponto de vista do movimento de base, é dizer, desde o ponto de vista do progresso e decadência do capitalismo, a época de 138 anos [133, incorreto em o original inglês, N. do T.] pode dividir se em cinco períodos: de 1781 a 1851, o capitalismo se desenvolvimento lentamente, a curva sobe penosamente; depois da revolução de 1848, que alarga os limites do mercado europeu, assistimos a um ponto de ruptura. Entre 1851 e 1873, a curva sobe de golpe. Em 1873, as forças produtivas desenvolvidas chocam com os limites do mercado. Produz-se um pânico financeiro. Em seguida, começa um período de depressão que se prolonga até 1894. As flutuações cíclicas têm lugar durante este tempo; mas a curva básica caí ao mesmo nível, aproximadamente. A partir de 1894 começa um novo boom capitalista até a guerra, quase, a curva sobe com vertiginosa rapidez. Ao fim, o fracasso da economia capitalista em o curso do quinto período tem efeito a partir de 1914.
Como se combinam as flutuações cíclicas com o movimento primário? Claramente se vê que, durante os períodos de desenvolvimento rápido do capitalismo, as crises são breves e de caráter superficial, porém que as épocas de boom, são prolongadas. No período de decadência, as crises duram longo tempo e os êxitos são momentâneos, superficiais, e estão baseados na especulação. Nas horas de estancamento, as oscilações se produzem ao redor de um mesmo nível.
Este aqui, pois, como se determina o estado geral do capitalismo, segundo o caráter particular de sua respiração e de seu pulso.” (Ibidim. Págs. 9-10)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Crise agrícola e alimentar mundial

por Almir Cezar Filho

As 15 perguntas para explicar a crise agrícola e alimentar mundial e suas conexões na economia e sociedade

O que é o preço?
O que é preço agrícola?
Como se forma o preço agrícola e quais seus determinantes?
Qual o impacto dos preços agrícolas nos demais preços, na inflação e nos salários?
Por que os preços agrícolas estão tão altos?
Qual a relação entre preços agrícolas e o mercado financeiros?
O que é o agronegócio? Qual a diferença para o latifúndio/ plantation?
O que são os “traders”?
Qual a relação entre produtos agrícolas e o preço dos combustíveis, fertilizantes, pesticidas e do petróleo em geral?
Qual são os principais produtores e exportadores agrícolas do mundo e por quê?
O que são biocombustíveis e agrocombustíveis e por que teriam impacto nos preços dos alimentos?
O agronegócio prejudica/ rivaliza com a produção de alimentos?
Qual a relação dos preços com o real (moeda brasileira) valorizado e/ou a taxa de juros alta?
É bom o Brasil ser o “celeiro do mundo” e para quem?
Como fica a situação do produtor camponês nisso tudo e possíveis alternativas e soluções a crise?