sexta-feira, 6 de maio de 2016

A Pós-Modernidade de direita, o novo ultralibertarianismo econômico e a Escola Austríaca

Ensaio sobre a Pós-Modernidade de Direita nº 5

Por Almir Cezar Filho


No presente artigo tratarei o porquê e como o novo ultralibertarianismo econômico e a Pós-modernidade de Direita na Economia aderiram à Escola Austríaca ou a posições que lhe são próximas. Mas, apesar da Escola Austríaca ter posições liberais, mesmo que não-convencionais às tradições do Liberalismo Clássico e do Neoclássico, de fato o que pregam ou seguem esses pós-modernistas de Direita ou ultralibertarianos em nada tem em comum com o Liberalismo.

Recapitulando, em alguns artigos passados (a série iniciada com o artigo “O perigo do novo libertarianismo econômico”, e antecedido pelo artigo “A utopia reacionária do livre mercado”) venho estudando a popularidade que vem ganhando junto ao público, especialmente de classe média “A” e “B”, o tratamento de temas econômicos sob a forma de um ultralibertariano de um tipo novo, que nada tem de similar com aqueles derivados do Liberalismo convencional, débil em conhecimento econômico científico e interdisciplinaridade com demais ciências sociais.

No último artigo (“O Olavismo Cultural e a Pós-modernidade de direita na Economia”) tratei especificamente que o advento da Pós-Modernidade, como atual zeitgeist[1] nosso tempo, impactou as ideologias e as ciências, não apenas à esquerda, mas a direita também - em todas as ciências sociais, inclusive na Economia.

O Pós-Modernismo na Direita manifesta-se, em graus variados, sob a forma de um jihadismo[3] antissocialista, um desprezo ao pilares do Liberalismo convencional Clássico e Neoclássico; uma idolatria fanática ao livre-mercado, minarquismo[4] doutrinário e a catilinária[5] anti-Estado; e forte liberismo (laissez-faire) no plano econômico e um conservadorismo moral e político raivoso. As vertentes e escolas da Economia mais à Direita acabaram também de certa maneira vinculados a esse fenômeno. Daí temos o ultralibertarianismo econômico.

Uma escultura de arte contemporânea: quadrado que se dobra.
Ainda abordei também nesse mesmo artigo, que a forma mais extremada da Pós-Modernidade de Direita é caricaturalmente chamada aqui no Brasil de "Olavismo Cultural" [2], em referência ao pseudofilósofo Olavo de Carvalho. Quando mais extremada à Direita, apesar do fim da Guerra Fria, esse Pós-modernismo manifesta-se combinado a um certa paranóia marcartista[7], de luta contra a “conspiração do mal” dos socialistas, um complô esquerdista, chamada por eles de Marxismo Cultural, que estaria infiltrado na Academia, na Intelectualidade e da Administração Pública. Por isso, que em muitos casos o Olavismo Cultural anda junto com o ultralibertarianismo.

O Pós-modernismo de direita, seja o Olavismo Cultural, seja o ultralibertarianismo econômico, passaram a ter um amplo alcance. Seu segredo retórico e lógico está em reforçar preconceitos e estereótipos de um modo que agrade ao público; dá a elas a sensação de conforto e segurança com o (des)conhecimento prévio, inclusive sobre fenômenos econômicos.

Os preconceitos econômicos partem de décadas de desinformação sobre temas econômicos e categorias científicas em Economia, incutida pela grande imprensa empresarial e por propagandistas ligados as entidades patronais e mercado financeiro. Os cidadãos de classe média de formação universitária são as principais vítimas. Não tem formação erudita em Economia, mas são bombardeadas diariamente pelo noticiário da grande imprensa.

Curiosamente a Economia tem sua responsabilidade. Esse ambiente é reforçada, por um cenário acadêmico e profissional que contribuí a esse clima. Primeiramente pela própria hegemonia na Academia das Escolas vinculadas ao Liberalismo Neoclássico. Em segundo lugar, por um ensino nos centros de formação em Economia autista e negligente com teorias críticas e heterodoxas, interdisciplinaridade e ética humanista; e, por fim, profissionais economistas vocacionados de maneira “bitolada” para o mercadismo.

Outro forte ingrediente é a suposta constatação geral que o Socialismo é a "ideologia" derrotada nos embates da Modernidade. É utópico e/ou construtor de totalitarismo. Avaliação reforçada com a "queda" do Muro de Berlim e a crise do Estado de Bem-estar social. O planejamento e o estatismo econômico teriam sido reprovados no exame prático da História.

Disseminam-se assim toda uma gama de preconceitos e estereótipos pró-livre mercado e antimarxista. Em outros caso, até mesmo antikeynesianos e antissocial-democratas.

Contudo, esta vitória, não deu legitimidade à ideologia “vencedora”, o Liberalismo. Parte-se da avaliação que o mundo contemporâneo, apesar de dominado pelo modo de produção capitalista, passa a impressão de estar à beira do colapso. E com ele, até mesmo os pilares societais da sociedade capitalista são questionados. O mesmo ocorre aos paradigmas ideológicos que lhe apoiam e as teses científicas lhe dão sustentação ou legitimidade. O Liberalismo convencional, consequentemente ficou desacreditado, e por fim, repudiado, mesmo pelos liberais da Pós-modernidade.

No caso brasileiro, também contribuí o colapso do ciclo político do Lulopetismo, e nos vizinhos latino-americano do Castro-Chavismo (“Bolivarianismo”), com sua política de concessões sociais mínimas a grupo sociais tradicionalmente marginais, conciliação de classe, neodesenvolvimentismo econômico, etc. Portanto, a visão de derrota da nova esquerda que emergiu no final da década de 1990 e das ruínas do neoliberalismo.

Além disso, isso foi turbinado à medida que recentemente passaram a atuar no subcontinente entidades sem fins lucrativos financiadas por megaempresários dos EUA para fazer propaganda ideológica e semiacadêmica do tipo ultralibertariana econômica.

Nessa situação emerge a simpatia pela Escola Austríaca ou das teses teóricas dos economistas dessa Escola, como Carl Menger, Eugen Von Böhm-Bawerk, Ludwig Von Mises e Friedrich Hayek, e mesmo no indefinido Anarcapitalismo (também chamada de AnCap).

Na maioria dos discursos desse novo libertarianismo econômico de direita se expressa um extremado liberismo no plano econômico, mas com um tão ou mais forte (e raivoso) conservadorismo moral e político, inclusive contraditoriamente intervencionista, incompatíveis com os fundamentos mais básicos do Liberalismo, e até mesmo da Escola Austríaca. Ao ponto de se poder dizer que esse novo ultralibertarianismo não é Liberalismo. Mas, apesar disso, o Pós-modernismo de direita na Economia ao menos retoricamente se alinha à Escola Austríaca.

O Liberalismo econômico e político se desenvolveram historicamente em duas grandes tradições hegemônicas, a Clássica, consolidada no final do século XVIII, fundadora do Liberalismo, e hegemônica no pensamento político; e a Neoclássica, consolidada no terceiro quarto do século XIX, hegemônica no pensamento econômico. A Escola Austríaca sempre teve posições liberais não convencionais, no limite de não ser classificado assim, mas com um forte liberismo.

Combinado a dois outros importantes aspectos relacionados às ciências sociais. Primeiramente, uma forte crítica aos fundamentos e formalizações da Teoria Econômica, tanto de matriz Clássica como Neoclássica.

E, em segundo lugar, um repúdio epistemológico às demais Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia, Psicologia, Ciência Política, Geografia e História), onde inclusive é menor o peso paradigmático do Liberalismo, e maior do Socialismo ou do Reformismo social, ou de um Humanismo baseado na universalização de direitos sociais e da solidariedade econômica.

Curiosamente, nessas ciências sociais o peso da Pós-modernidade se manifesta à Esquerda. E vem na Academia e na intelectualidade cultural e artística em geral ganhando amplo espaço ou até mesmo predominância.

Contudo, o Olavismo Cultural e o ultralibertarianismo econômico acusam essa hegemonia socialista e reformista nas ciências sociais de “Marxismo Cultural”, independentemente de a perspectiva metodológica marxista não ser hegemônica ou estar apenas parcialmente presentes. O aspecto teórico da Escola Austríaca metodologicamente crítico às ciências sociais acaba amparando teoricamente a nova caça marcatista ao tal Marxismo Cultural. 

Contraditoriamente, essa mesma Escola tem como um dos seus pilares científicos o subjetivismo metodológico. Curiosamente, o subjetivismo é um traço fundamentalmente comum no Pós-modernismo, mesmo o de esquerda. Este aspecto reitera a conclusão que o Olavismo Cultural e o ultralibertarianismo econômico são variantes de direita do Pós-modernismo, e como ambas compartilham semelhanças e sinergias.

Também o subjetivismo metodológico ajuda a dar outro contorno comum entre o Pós-modernismo de direita expresso na adesão à Escola Austríaca com o Pós-modernismo de esquerda, na crítica às divisões classificatórias entre os indivíduos de base objetivas  (por exemplo, classes sociais, etc) e aos mecanismos de governança objetiva (p.ex., Estado, etc). Preferência pelas divisões classificatórias subjetivas em base identitárias dos sujeitos.

Os meios e fins dos planos individuais têm sua origem na mente dos agentes, são imaginados e definidos pelas pessoas. É um subjetivismo "epistêmico"[8]: as expectativas, o conhecimento das preferências e as conjecturas são conhecimento falível e conjectural, imaginados pelos agentes; não sendo "dados" de antemão ao economista (e cientistas sociais em geral).

Por isso, os dois libertarianismos (de Esquerda e de Direita) se aproximam tanto em muitos campos. Ao ponto que uma das versões mais radicais da Escola Austríaca, o AnCap do economista Murray Rothbard, ser tão parecida com o Anarquismo, de esquerda, no anti-estatismo e na defesa da organização apenas exclusivamente espontânea dos indivíduos livres.

Coincidentemente, os intelectuais e as classes políticas tiraram de "moda" toda uma série de conceitos para explicar a realidade. Um dos mais afetados foi a luta de classes, ao ponto que até a esquerda não usa mais. A direita já havia abandonado a mais de um século. Em um passo seguinte, desapareceu a própria necessidade de explicar a realidade. Quando muito em "desconstrução". Contudo, por um lado, não é porque tirou de moda a descrição da realidade que a realidade tirou de não existir mais. Por outro, a palavra "construção" no latim significa "erguer pelo acúmulo". Há um esforço para edificarmos uma nova realidade. Por enquanto, pouca construção e muito acúmulo de vaias.

NOTAS
  1. Olavismo Cultural - vertente política de direita pós-moderna que reformata o conservadorismo extremo e reacionarismo sob um discurso raivoso e acusatório, em base a uso de análises pseudocientíficas e pseudofilosóficas. Referência ao astrólogo e pseudofilósofo Olavo de Carvalho.
  2. Zeitgeist (pronúncia: tzait-gaisst) - termo alemão cuja tradução significa espírito da época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo.
  3. Jihadismo - movimento e doutrina política de fundo religioso islâmica que prega a guerra para disseminação dessa fé religisosa e da implantação de regimes políticos teocráticos.
  4. Minarquismo - ou minarquia é a teoria política que prega que a função do Estado é assegurar os direitos básicos da população, limitando-se restritamente a isso. Sinônimo de "governo mínimo".
  5. Catilinária - discurso oratório de acusação a uma conspiração.
  6.  Liberismo - (ou liberalismo econômico) é a teoria econômica, filosófica e política que propõe a livre iniciativa e o livre mercado, enquanto a  intervenção do Estado na economia se limita ao máximo, a menos que possa favorecer o mercado.
  7. Marcartismo - movimento político de direita nos EUA do pós-Segunda Guerra, dentro do contexto da Guerra Fria, em que pregava a perseguição política e administrativa de comunistas e esquerdistas da política, do funcionalismo público, da Academia e das artes e indústria cultura, sob a alegação de um suposto complô cultural pró-comunista e pró-soviético. Referência a campanha política realizada pelo senador dos EUA Joseph McCarthy, presidente da comissão de atividades antiamericanas. Sinônimo de caça as bruxas na atualidade.
  8. relativo a episteme (conhecimento ou saber como um tipo de experiência); puramente intelectual ou cognitivo; subjetivo
Atualizado em 07/05/2016

Nenhum comentário:

Postar um comentário