sexta-feira, 4 de novembro de 2016

''Onda conservadora'' ou emergência de uma nova Direita?

Ensaios sobre a Pós-Modernidade de Direita nº 17

Por Almir Cezar Filho

Desde as eleições de novembro de 2014, e ainda mais com os protestos em 2015 e 2016 contra a corrupção revelada pela Operação Lava Jato e a favor do impeachment de Dilma, formou-se uma espécie de consenso de que estaríamos vivendo uma ascensão conservadora. Movimentos como MBL, a vitória de João Dória do PSDB e do bispo Crivella, Escola Sem Partido, o impeachment sob uma grande fragilidade legal,  a consolidação bancada evangélica e da bala no Congresso Nacional e tantos outros fenômenos reacionários estão causando perplexidade em muitos setores da sociedade brasileira. E entre os dirigentes e intelectuais de esquerda e os pesquisadores não é diferente para entender essa “onda” de extrema-direita, conservadora e fundamentalista. Quanto há de verdade aí?

Este consenso, somado a uma ideia de tendência conservadora da maioria da população brasileira, pintam um quadro dramático: de um país essencialmente de direita que estaria “saindo do armário”. É inegável que seguimos, apesar de tudo, um país entranhadamente patriarcal, racista, classista, homofóbico, apegado a autoridades tradicionais. A mobilização deste tipo de pauta, o discurso seletivo contra a corrupção e a retórica anti-comunista da Guerra Fria foram, além disso, os únicos recursos retóricos eficientes disponíveis à oposição num período em que a melhoria das condições materiais da população era incontestável.

Ao longo da série de ensaios analisamos a erupção de uma nova Direita. Caracterizamos que esta em nada é similar a direita convencional da Modernidade, liberal ou conservadora. Mas por que a emergência no Brasil da nova Direita Pós-Moderna é confundida com uma "onda conservadora"?

Primeiramente, porque demorou a se desenvolver e consolidar esse tipo novo de Direita no Brasil. Por décadas seguimos no país convivendo com as vertentes desenvolvidas na Modernidade, inclusive pelo atraso e hibridismo típicos da sociedade brasileira.

Em segundo, quando enfim emergiram no Brasil se deu simultaneamente a um momento de fortíssima polarização política, e não menos ideológica. Portanto, se dão em um luta extrema.

Em terceiro, essa nova direita se manifesta indo mais ao extremo desse mesmo espectro político, à direita inclusive da própria direita Moderna, em sua eterna busca de conciliação. 

Em quarto, a emergência dessa nova direita rompe na conjuntura justamente com uma concertação em vigor que se dava com a esquerda, no caso, mais precisamente com a Centro-Esquerda. Mesmo que com um Centro-Esquerda com muito pouco do programa clássico de esquerda. 

Em quinto, essa ruptura surge mesmo a custa  da aliança social implícita que mantêm estável o regime democrático-burguês nacional. Pelo contrário, o faz colocando no limite esse regime.

Em sexto, essa nova direita, como demonstrado ao longo da série de ensaios não é liberal, nem conservadora, mesmo para os patamares brasileiros, pelo menos em termos convencionais, portanto, choca os participantes ativos sociedade civil, especialmente a vanguarda, não habituados a esse tipo de comportamento, discurso e pauta.

Em sétimo, a longa crise econômica mundial, que sinaliza não terminar tão cedo, imprime uma imperiosa necessidade às burguesias marginais, composição de classe em geral típica das lideranças desses tipos de movimentos, a serem ousados e rápidos, com resultados explosivos.

Em oitavo, a velha direita e centro-direita, isto é as velhas lideranças tradicionais da burguesia, não perderam tempo em se apoiar nessa nova direita, compondo com ela um bloco de poder, em vista dos interesses convergentes de classe. Esse bloco é frágil, mas no momento está unido, e aplicando sua pauta.

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