domingo, 29 de maio de 2011

O Equilíbrio Capitalista: Ciclo, Desenvolvimento e Revolução segundo LeónTrotski

por Almir Cezar Filho

Nos últimos dois anos a crise econômica mundial surgida pelo estouro da bolha imobiliária estadunidense lembrou ao mundo que o Capitalismo sempre viveu imerso (ou sob a ameaça de) a recorrentes crises. Por sua vez, todos aqueles que sonham e luta contra esse regime social de produção sabem que nessas circunstâncias de fragilidade este fica mais vulnerável a questionamentos e ataques. Contudo, a superação do Capitalismo segundo o marxismo se faz no sentido de edificar a sociedade socialista e através da revolução proletária. Contudo, apesar dessa compreensão, um contingente de marxistas estabelece uma vinculação equivocada entre a crise e a revolução.

Esta compreensão gera, com certeza, distintas caracterizações sobre o momento histórico em que vivemos. Ainda mais, à medida que, apesar da conjuntura internacional ser de franca instabilidade, o cenário brasileiro aparentemente caminha no sentido oposto. Apesar de sabermos que em algum momento essas trajetórias se convergirão, fica aberto, por um lado, saber se a situação brasileira seria propicia a revolução ou não, e por outro lado, se as circunstâncias existentes atualmente no plano internacional abriram à perspectiva da revolução pelo mundo.

O revolucionário Leon Trotski sempre expressou a questão sobre a estabilidade e o equilíbrio dinâmico do Capitalismo e o papel dialética da crise e da revolução na dinâmica do desenvolvimento econômico e social desse. Em seus textos, particularmente nos anos subsequentes ao ano de 1921, momento em que parecia que o Capitalismo estava recuperando-se da I Grande Guerra e da vaga revolucionária do pós-guerra, ali ele exprime sua preocupação entre os rumos do Capitalismo Mundial e a reação dialética entre luta de casses, ciclos industriais e possibilidades de longo prazo do desenvolvimento capitalista. Os textos dão uma compreensão distinta do que a militância socialista costuma supor entre a natureza da crise capitalista, a reação entre crise e boom, crise e revolução e o próprio papel da luta e organização proletária como deflagradora das crises (na trajetória inversa que o socialismo vulgar sempre supõe ser).


Nesse sentido, é importante apresentar metodologicamente a partir das passagens apanhadas dos vários textos, a análise mais abstrata de Trotski a respeito do equilíbrio dinâmico do capitalismo, o processo revolucionário e a circunstância do desenvolvimento econômico, e a partir daí possibilitar em um segundo momento uma análise mais concreta da presente situação mundial e nacional e de suas perspectivas a luta revolucionária.

O equilíbrio dinâmico nas três esferas sociais

Trotski apresenta o conceito de equilíbrio dinâmico do capitalismo, a reação de equilíbrio nas três esferas sociais: (i) a esfera das reações econômicas, (ii) a esfera das reações políticas ou da luta de classe e (iii) a esfera das reações inter-estatais ou internacionais. Portanto, crise é o desequilíbrio nas três esferas, e lembra que o Capitalismo constrói e reconstrói esse equilíbrio, num processo contínuo.

“O equilíbrio capitalista é um fenômeno complicado; o regime capitalista constrói esse equilíbrio, o rompe, o reconstrói e o rompe outra vez, alargando, de passo, os limites de seu domínio. Na esfera econômica, estas constantes rupturas e restaurações do equilíbrio tomam a forma de crises e booms. Na esfera das reações entre classes, a ruptura do equilíbrio consiste em greves, em lockout, em luta revolucionária. Na esfera das reações entre estados, a ruptura do equilíbrio é a guerra, ou bem, mais solapadamente, a guerra das tarifas alfandegárias, a guerra econômica ou bloqueio. O capitalismo possui então um equilíbrio dinâmico, o qual está sempre em processo de ruptura ou restauração. Ao mesmo tempo, semelhante equilíbrio possui grande força de resistência; a prova melhor que temos dela é que ainda existe o mundo capitalista.” (“A Situação Mundial”. Pág.1)

O equilíbrio capitalista está determinado por fatos, fenômenos e fatores múltiplos: de primeira, segunda e terceira categoria. O capitalismo é um fenômeno mundial. Tem conseguido dominar o mundo inteiro, como podem observar durante a guerra: quando um país produz demais, sem ter mercado que consumisse suas mercadorias, enquanto que outro necessitava produtos que lhe eram inaccessíveis. Naquele momento, a interdependência das diferentes partes do mercado mundial se faz sentir em todo situação. Na etapa alcançada antes da guerra, o capitalismo estava baseado na divisão internacional do trabalho e no intercambio internacional dos produtos.

(...) Sem dúvida, esta divisão do trabalho não é sempre a mesma, não está sujeita a regras. Estabeleceu-se historicamente, e às vezes se tumultua por crises, competições e tarifas. Mas, em geral, a economia mundial se funda sobre o feito de que a produção do mundo se reparte, em maior ou menor proporção, entre diferentes países. (...)

Em cada país, a agricultura prove à indústria com objetos de primeira necessidade para os operários e com bens para a produção (matérias-primas); por sua vez, a indústria provê ao campo objetos de uso pessoal e doméstico, assim como de instrumentos de produção agrícola. Deste modo se dá estabelecida certa reciprocidade. No interior da mesma indústria assistimos a fabricação de instrumentos de produção e a fabricação de objetos de consumo, e entre estes dois ramos principais da indústria se estabelece certa interação a qual passa por constantes rupturas para ser reconstruída sobre novas bases.

(...) Há que considerar, ademais, o equilíbrio das classes baseado sobre o da economia nacional. No período anterior a guerra, existia uma paz armada, não somente no que se refere as reações internacionais senão - em grande escala - em quanto se referia a burgueses e ao proletariado, graças a um sistema de acordos coletivos referente aos salários; sistema levado a cabo pelos sindicatos centralizados e o capital industrial, a sua vez se centralizando mais e mais.

(...) Mais tarde se aborda a questão do equilíbrio internacional, isto é, da coexistência dos Estados capitalistas, sem a qual, evidentemente, a reconstrução da economia capitalista se faz impossível.” (Ibidim. Pág. 3)”

Boom e crise e desenvolvimento

Trotski fala também da reação entre os ciclos econômicos e o desenvolvimento capitalista e a ligação dialética entre crise e boom. As oscilações econômicas marcam em se um processo contínuo e característico do próprio funcionamento, natureza e desenvolvimento do Capitalismo como sistema. Os momentos de crise assim como o boom não são momentos que mostram que o Capitalismo ou que caminha para seu fim ou também que é um sistema equilibrado, ou que terá uma vida eterna.

A crise apenas mostra que as contradições inexoráveis do desenvolvimento do sistema capitalista não foram superadas, e que a dinâmica típica do Capitalismo é a oscilação periódica provocada pelo próprio processo de acumulação de capital, que tem seu auge no período de boom.

Fala aqui também da idéia de “curva de desenvolvimento capitalista” que irá desenvolver em um outro trabalho esse titulo, onde apresenta que a dinâmica do capitalismo é um processo de longo termo onde o desenvolvimento seria a dinâmica de longo prazo, o resumo e acúmulo das contradições e das forças produtivas constituídas ao longo da sucessão de crises e booms.

“(...) Em efeito, o capitalismo vive por crises e booms, assim como um ser humano vive por inalar e exalar. Primeiro há um boom na indústria, logo uma paralisação, logo uma crise, seguida por uma paralisação na crise, logo uma melhora, outra paralisação, e assim continua.
A alternância das crises e os booms, com todos seus estados intermediários, constituíram um ciclo ou um dos grandes ciclos do desenvolvimento industrial. Cada ciclo abarca um período de oito, nove, dez, onze anos. Se estudamos os cento trinta e oito últimos anos percebemos que a este período correspondem dezesseis ciclos. A cada ciclo corresponde, em conseqüência, pouco menos de nove anos: oito anos e cinco oitavos. Por razão de suas contradições interiores, o capitalismo não se desenvolve em linha reta, senão de maneira zigzagueante: ora se levanta, ora caí. É precisamente este fenômeno o que permite dizer aos apologistas do capitalismo: “Desde que observamos após a guerra uma sucessão de booms e crises, se desprende que todas as coisas estão trabalhando juntas para o melhor do capitalismo.” Sem dúvida a realidade é outra. O fato que o capitalismo continue oscilando ciclicamente após a guerra indica, sensivelmente, que ainda não está morto e que, todavia não nos enfrentamos com um cadáver. Até que o capitalismo não seja vencido por uma revolução proletária, continuará vivendo em ciclos, subindo e baixando. As crises e os booms são próprios do capitalismo desde o dia de seu nascimento; acompanharam-lhe até a tumba. Mas para definir a idade do capitalismo e seu estado geral, para estabelecer se ainda está desenvolvendo-se, ou se já está maduro, ou se está em decadência, um deve diagnosticar o caráter dos ciclos, tal como se julga o estado do organismo humano, segundo o modo como respira: tranqüilo ou entrecortadamente, profundo ou suave, etc.

O fundo mesmo deste problema, camaradas, pode ser apresentado da seguinte maneira: tomemos o desenvolvimento do capitalismo (o progresso em a extração do carbono, a fabricação de telas, a produção do ferro, a fundição, o comercio exterior, etc.) nos últimos cento trinta e oito anos, e representamos-lhe por uma curva. Se nos movimentos desta curva, nós expressamos o curso real do desenvolvimento econômico, encontraremos que esta curva não oscila fazendo acima em um arco ininterrompido, senão em zig-zags, curvando-se fazendo acima e fazendo abaixo em correspondência com os respectivos booms e crises. Então, a curva do desenvolvimento econômico é um composto de dois movimentos: um, primário, que expressa o crescimento ascendente do capitalismo; e outro, secundário, que corresponde às oscilações periódicas constantes, reativas aos dezesseis ciclos de um período de cento trinta e oito anos. Nesse tempo, o capitalismo tem vivido aspirando e expirando de maneira diferente, segunda as épocas. Desde o ponto de vista do movimento de base, é dizer, desde o ponto de vista do progresso e decadência do capitalismo, a época de 138 anos [133, incorreto em o original inglês, N. do T.] pode dividir se em cinco períodos: de 1781 a 1851, o capitalismo se desenvolvimento lentamente, a curva sobe penosamente; depois da revolução de 1848, que alarga os limites do mercado europeu, assistimos a um ponto de ruptura. Entre 1851 e 1873, a curva sobe de golpe. Em 1873, as forças produtivas desenvolvidas chocam com os limites do mercado. Produz-se um pânico financeiro. Em seguida, começa um período de depressão que se prolonga até 1894. As flutuações cíclicas têm lugar durante este tempo; mas a curva básica caí ao mesmo nível, aproximadamente. A partir de 1894 começa um novo boom capitalista até a guerra, quase, a curva sobe com vertiginosa rapidez. Ao fim, o fracasso da economia capitalista em o curso do quinto período tem efeito a partir de 1914.

Como se combinam as flutuações cíclicas com o movimento primário? Caramente se vê que, durante os períodos de desenvolvimento rápido do capitalismo, as crises são breves e de caráter superficial, porém que as épocas de boom, são prolongadas. No período de decadência, as crises duram longo tempo e os êxitos são momentâneos, superficiais, e estão baseados na especulação. Nas horas de estancamento, as oscilações se produzem ao redor de um mesmo nível.

Este aqui, pois, como se determina o estado geral do capitalismo, segundo o caráter particular de sua respiração e de seu pulso.” (Ibidim. Págs. 9-10)

Crises, boom e revolução

Há uma reação recíproca entre crise e boom não apenas na economia como também no desenvolvimento da luta revolucionária. Para Trotski a reação entre as crises e a revolução é recíproca, mas numa dialética diferente da que maioria da militância socialista supõe ou mesmo o socialismo vulgar sustenta.
As crises favorecem o aparecimento da revolução, mas não a engendram, muito menos automaticamente. No boom a imprensa burguesa e os especialistas econômicos celebram os êxitos da reabilitação econômica e a perspectiva de um novo período de estabilidade capitalista, por outro lado, esse êxito do Capitalismo tem tão pouca base como os temores complementares dos “esquerdistas”, que pensam que a revolução deve surgir do agravamento ininterrompido das crises.

“As reação recíproca entre o boom e a crise na economia e o desenvolvimento da revolução é de grande interesse para nós não só desde o ponto de vista da teoria senão desde o prático. Muitos de vocês recordarão que Marx e Engels, escreveram em 1851 (quando o boom estava em seu auge), que era necessário reconhecer em esse momento que a revolução de 1848 havia terminado o al menos havia sedo interrompida até uma nova crise. Engels escreveu que a crise de 1847 era a mãe da revolução e que o boom de 1849-1851 havia favorecido a marcha vitoriosa da contra-revolução. Apesar de tudo, seria sem dúvida, falso e injusto interpretar estas conclusões no sentido de que uma crise invariavelmente engendra uma ação revolucionaria e que os booms, em troca, pacificam a classe operária. A revolução de 1848 no nasceu da crise; esta não lhe prestou mais que seu impulso. Em realidade, a revolução fui provocada pela contradição entre a necessidades do desenvolvimento capitalista e as cadeias que o Estado político e social semi-feudal lhe haviam imposto. A revolução de 1848, parcial e indecisa, apagou sem dúvida as últimos rastros do regime de servilismo e de grêmios e alargou o limite do desenvolvimento capitalista. Unicamente nestas condições podo ser considerado o boom de 1851 como o princípio de um crescimento capitalista prolongado até o ano 1873.” (Ibidim. Pág. 11)

Por outro lado, os booms podem ser momentos de intensificação da luta revolucionária, à medida que recompõe as fileiras operárias pelo aumento de contratados e porque as massas trabalhadoras sentem-se confiantes a reivindicações. Durante os booms o ressentimento das massas acumulado durante a crise é empregado nas lutas. E são durante os booms que as contradições tornam-se mais fortes ou são geradas (até porque durante a crise é quando elas são dissolvidas).

As crises servem de empurrão para as lutas. Mas trazem consigo o desemprego, que quando prolongado, pelo contrário, não fortalece as lutas, em razão do medo e do desespero, abrindo inclusive espaço para as direções ultra-esquerdistas ou pelegas.

“Mas um boom é um boom. Isto quer dizer uma crescente demanda de mercadorias, produção em expansão, desemprego que se reduz, preços em ascenso e a possibilidade de salários mais altos. E, nas circunstâncias históricas dadas, o boom não reduzirá senão que pelo contrário agudizará a luta revolucionaria da classe trabalhadora. Isto se desprende de todo o anterior. Em todos os países capitalistas o movimento operário após a guerra alcançou seu pico mais alto e logo finalizou, como temos visto, em um fracasso más o menos pronunciado e em uma retirada, e na desunião das fias operárias. Com estas premissas políticas e psicológicas, uma crise prolongada, ainda que sem nenhuma dúvida pudera aumentado o ressentimento das massas trabalhadoras (especialmente dos desocupados e os sub-ocupados), sem embargo, simultaneamente, pudera ter tendido a debilitar sua atividade, porque esta está intimamente ligada a consciência dos operários de seu rol irrempazable na produção.

O desemprego prolongado a continuação de uma época de ofensivas e retiradas políticas revolucionárias não trabalha em absoluto a favor do Partido Comunista. Pelo contrário, quanto mais tempo perdura a crise, mais ameaça favorecer estados de ânimos anarquistas em um ala e reformistas em outra. (...)

Pelo contrário, o reanimamento industrial está destinado a aumentar, em primeiro lugar, a confiança em se mesmas das massas trabalhadoras, minada agora pelos fracassos e pela desunião de suas próprias fileiras; forçosamente tenderá a unificar a classe operária nas fábricas e plantas e aumentará o anseio de unidade de ação militante.

Já estamos observando os começos deste processo. As massas trabalhadoras sentem que o terreno se afirma abaixo de seus pés. Estão buscando unir suas fileiras. Sentem claramente que a divisão é um obstáculo para a ação. Se estão esforçando não só para unificar sua resistência a ofensiva que o capital descarregou sobre eles produto da crise, senão também para preparar uma contra-ofensiva, baseada nas condições do reanimamento industrial. Esta crise foi um período de esperanças frustradas e de ressentimento, quase sempre de ressentimento impotente. O boom, à medida que se desdobra, apresentará uma saída para esses sentimentos em forma de ação.” (Trotski. Fluxos e refluxos: a conjuntura econômica e o movimento operário mundial, 1921. Pág. 5)

Mas também, Trotski mostra que não existe uma interdependência mecânica, senão dialética e complexa, entre a conjuntura e o caráter da luta de classes.

Um sofista poderia apresentar a objeção de que se nós cremos que o reanimamento industrial ulterior não necessariamente nos levará diretamente a vitória, então começará obviamente um novo ciclo industrial, o qual significa outro passo fará a restauração do equilíbrio capitalista. Nesse caso, não se estaria realmente ante o perigo do surgimento de uma nova época de recuperação capitalista? A isto se poderia contestar assim: Se o Partido Comunista não cresce; se o proletariado não adquire experiência; se o proletariado não resiste em uma forma revolucionaria más audaz e irreconciliável; se não consegue passar na primeira oportunidade favorável da defensiva à ofensiva; então a mecânica do desenvolvimento capitalista, com o complemento das manobras do estado burguês, sem duvida lograria cumprir seu trabalho no longo prazo. Países inteiros seriam lançados violentamente à barbárie econômica; dezenas de milhões de seres humanos pereceriam de fome, com desespero em seus corações, e sobre seus ossos seria restaurado algum novo tipo de equilíbrio do mundo capitalista. Mas tal perspectiva é pura abstração. No caminho especulativo para este equilíbrio capitalista, há muitos obstáculos gigantescos: o caos do mercado mundial, o desbaratamento dos sistemas monetários, o domínio do militarismo, a ameaça de guerra, a falta de confiança no futuro. As forças elementares do capitalismo estão buscando vias de escape entre pilhas de obstáculos.” (Trotski. Fluxos e refluxos: a conjuntura econômica e o movimento operário mundial, 1921. Pág. 6)

As mudanças ao decorrer dos períodos de estabilidade e a agudeza das contradições sociais

Assim por sua vez, no período de estabilidade social se desenvolve as contradições sociais, enquanto evolução. As crises são momentos onde as contradições tornam-se inconciliáveis, explodindo. A revolução permite apenas que as contradições sejam superadas parcial ou totalmente, na medida da decorrência do alcance ou sucesso, abrindo espaço para um novo patamar de desenvolvimento, um alargamento dos seus limites das possibilidades do Capitalismo.

Mas a evolução econômica não é um processo automático. Sobre as bases da produção vivem e trabalham os indivíduos e através deles que se faz a revolução. É o domínio das reações entre as casses. No período de calmaria, de prosperidade, desenvolve a acumulação de capital. Desenvolve-se o número de proletários e sua concentração, a organização do capital, tudo se desenvolve. Com ela a riqueza nacional e as rendas nacionais diminuem ao mesmo tempo em que aumenta o número de proletários. Quanto mais se restringe a base material, mais cresce a luta entre as casses e os diferentes grupos pela repartição das rendas nacionais.

“A evolução econômica não é um processo automático. Até aqui tem falado das bases de produção, mas as coisas não param por aqui. Sobre estas bases vivem e trabalham os homens, e é para estes homens para aonde a revolução se realiza. Que tem ocorrido no domínio das reações entre os homens, o melhor dito, entre as casses? Temos visto que Alemanha e certos países de Europa tem sido arrojados, em o que concerne a seu nível econômico, a vinte ou trinta anos atrás. E desde o ponto de vista social, no sentido de classe tem retrocedido também? Em absoluto. As classes, em Alemanha, o número dos operários e sua concentração, a organização do capital, todo se desenvolveu antes da guerra graças à prosperidade dos últimos anos, e este desenvolvimento traz progressos ainda: durante a guerra, a conseqüência da intervenção do Estado, e depois da guerra a causa da febre de especulação e do acúmulo de capitais. Assistimos a dois processos da evolução econômica: a riqueza nacional e as rendas nacionais diminuem, entretanto que o desenvolvimento das casses aumenta. O número de proletários aumenta, os capitais se concentram em cada vez menos mãos, as bancos se fundem, as empresas industriais se concentram em trustes. Todo o qual determina que se faça inevitável a luta de casses, cada vez mais aguda, como resultado da redução das rendas nacionais. Quanto mais se restringe a base material, mais crescerá a luta entre as casses e os diferentes grupos pelo reparto da rendas nacionais. Não há que esquecer nunca desta circunstância.” (A Situação Mundial. Pág. 11-12)

A dinâmica do desenvolvimento capitalista e a revolução proletária

As forças elementares do Capitalismo sempre procuram rotas alternativas para contornar os obstáculos do sistema, porém, por um lado, são essas mesmas forças que impulsionam a classe trabalhadora adiante, e por outro, a própria classe é um fator de desenvolvimento, e inclusive seu mais importante.

“As forças elementares do capitalismo estão buscando vias de escape entre pilhas de obstáculos. Mas estas mesmas forças elementares fustigam a classe trabalhadora e a impulsionam para adiante. O desenvolvimento da classe trabalhadora não cessa, inclusive quando esta retrocede. Porque, enquanto perde posições, acumula experiência e consolida seu partido. Marcha para frente. A classe trabalhadora é uma das condições do desenvolvimento social, um dos fatores deste desenvolvimento, e por sobre todas as coisas seu fator más importante, porque personifica o futuro.” (Trotski. Fluxos e refluxos: a conjuntura econômica e o movimento operário mundial, 1921. Pág. 6)

Há nesse sentido, a respeito da luta de classe, de seu elemento político uma importância central no processo de desenvolvimento econômico, uma espécie de “primazia da política”, à medida que a luta política do proletariado, incluindo o partido, suas táticas, etc., estabelece a margem ao reanimamento ou estrangulação do Capitalismo, determinando assim o movimento das flutuações do desenvolvimento industrial, ao impor limites à acumulação e/ou estabilidade capitalista.

“A curva básica do desenvolvimento industrial está buscando rotas para acima. El movimento se torna complexo pelas flutuações cíclicas, que em lãs condiciones de pós-guerra se parecem mais a espasmos. É naturalmente impossível prever em que ponto do desenvolvimento se produzirá uma combinação de condições objetivas e subjetivas tais como para produzir um cambio revolucionário. Tampouco é possível prever se isto ocorrerá em el curso do atual reanimamento, em seu começo, ou para seu fim, ou com a chegada de um novo ciclo. Es suficiente para nós compreender que el ritmo do desenvolvimento depende em grande medida de nós, de nosso partido, de suas táticas.” (Trotski. Fluxos e refluxos: a conjuntura econômica e o movimento operário mundial, 1921. Pág. 6)

A Revolução e o papel do Partido

A situação revolucionária é uma situação conjuntural, onde vários fatores atuam conjuntamente, mas é muito circunstancial.

“Uma situação revolucionária, no sentido especial da palavra, é uma situação muito concreta. Surge da interseção de todo um conjunto de fatores: uma situação econômica crítica, uma agudização das reações entre as casses, um estado de ânimo combativo entre os trabalhadores, incerteza dentro da classe dominante, um estado de ânimo revolucionário dentro da pequena-burguesia, uma situação internacional favorável para a revolução, etc. Em sua própria essência, uma situação tal pode e deve madurar, e então se manterá só durante certo tempo. No pode durar eternamente.

Se não é utilizada estrategicamente, começará a desintegrar-se. (...)” (Sobre a questão da “Estabilização” da a Economia Mundial, 1925. Pág. 5)

Trotski fala também de aproveitamento da situação de desequilíbrio pelos revolucionários. Para ele o perigo para a revolução não está na recuperação econômica capitalista, mas sem que o partido revolucionário não esteja preparado aos desafios e/ou a classe não esteja organizada.

(...) A situação econômica européia, apesar de todas suas melhoras, segue sendo terrivelmente crítica. Nos anos futuros suas contradições vão assumir um caráter profundamente mais agudo. Pelo tanto, em reação com, digamos, Inglaterra, o problema de a revolução consiste sobre todo em se fará o tempo suficiente para que o partido comunista se forme, se prepare e desenvolva aços estreitos com a classe operária antes de que chegue o momento, como sucedeu em Alemanha de 1923, quando a situação revolucionária se viu tão aguda que exige uma ofensiva decidida. Em minha opinião, isto se refere também a toda Europa. Qualquer “perigo” não virá da consolidação de uma estabilização na Europa, do renascimento das forças econômicas capitalistas, baixo as quais a revolução seria posposta para um futuro distante. Não, o perigo é que a situação revolucionaria pode progredir tão rapidamente e em forma tão aguda que os partidos comunistas não tiveram tempo suficiente de formar se devidamente. Toda nossa atenção deve estar enfocada sobre esta questão. Assim é como toda a situação européia, em geral e de conjunto, se me aparece a mim.” (Ibidim. Pág.6)

Conclusão: "calmaria", revolução e o partido

A conclusão é que a caracterização de uma situação de boom econômico pode oferecer um prognóstico bom para a luta revolucionária, ao invés do que pensam muitos esquerdistas. E o inverso, pode ser muito ruim. Inclusive à medida que o partido revolucionário pode não estar a “altura” da situação revolucionária.

A tarefa das organizações da classe trabalhadora, especialmente o partido revolucionário, é detectar as fontes e a profundidade da agudeza das contradições sociais que seriam fontes da revolução, e investir que a luta vá nessa direção, e quando a luta de classe se desenrola regular, aproveitar as possibilidades nos momentos decisivos.

A tarefa do Partido Comunista consiste em captar a situação existente em sua totalidade, participar ativamente na luta empreendida pea classe operária, a fim de conquistar, durante tal luta, a maioria desta classe. Se a situação em qualquer país se faz extremadamente crítica, estamos obrigados a enfocar as questões fundamentais da maneira mais intransigente e a combater no estado em que os acontecimentos nos encontram. Sem dúvida, se os acontecimentos se desenvolvem de modo regular, devemos aproveitar todas as possibilidades para ter com nós a maioria da classe operária antes dos acontecimentos decisevos.” (“A Situação Mundial”. Pág.16)

Quando a situação for de crise, os comunistas devem organizar as lutas. Transformar a contra-ofensiva do capital em ofensiva contra ee.

(...), durante a luta econômica defensiva determinada pelas crises, os comunistas devem desempenhar um papel muito ativo em todos os sindicatos, em todas as greves e ações, em todos os movimentos, sempre mantendo sua unidade interna inquebrável em seu trabalho, e sempre dando um passo a frente como a aa mais resoluta e melhor disciplinada da classe operária. A luta econômica defensiva pode extender-se como resultado do curso das crises e dos giros na situação política, arrastando novas frações da classe operária, da popuação e do exército de desocupados, e depois de ter-se transformado, em certo momento, em luta revolucionária ofensiva, pode ser coroada com a vitória. Para tal fim devem tender todos nossos esforços.” (Ibidim)

Quando for a situação econômica for de melhora, lembrar que a luta revolucionária não se detém indefinidamente. E que com as condições criadas constantemente pelo Capitalismo, de agudização das contradições e de geração de outras, um novo ascenso econômico não pode ser prolongado nem profundo. Mas em tais condições “um boom temporário não pode menos que fortalecer a autoconfiança da classe operária, e fundir suas fileiras não só nas fábricas senão também em suas lutas, dando impulso não só a sua contra-ofensiva econômica senão também a sua luta revolucionária peo poder” (Ibidim). Isto é, esta situação também é favorável, ainda que mais complexa.

Porém, o mais importante é saber que não se obtém vitórias automaticamente. É preciso, como escreveu Trótski, fundador do Exército Vermelho, agir como o inimigo burguês, com o "pés no chão", à medida que ele é forte e conhece nossos flancos fracos. Exige cálculos frios e um entusiasmo, não-delirante ou impressionista, que espera que a revolução brote a qualquer momento, sem a necessidade de ser “cultivada”, e que somente de uma grande crise a solução se apresentasse. É preciso aprender com as experiências revolucionárias do passado, sobretudo em seus erros e fracassos. E por fim, a luta revolucionária exige que se leve em conta a peculiariedade de cada situação.

A situação mundial e as perspectivas futuras no desenvolvimento capitalista sempre são profundamente revolucionárias - apesar de brevissemos períodos em contrários, que apenas confirmam a regra. Isto cria as premissas objetivas necessárias para a vitória da revolução proletária socialista. Contudo, somente as táticas hábeis e uma poderosa organização pode dar a garantia plena disso.

Bibliografia

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