quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

'Por que não festejo o Natal, e sim o "Primeiro do Ano" ', por Mário Maestri


O artigo selecionado e publicado a seguir é um texto enviado por nosso amigo Carlos Alberto Serrano, sociólogo, sindicalista e editor do blog Catalunya Brazil.  São palavras de crítica ao Natal - e ao que representa e passou a representar -, mas também de esperança, de ligação com o que há de belo em seu simbolismo. São palavras cheias de certo anti-cristianismo, de uma compreensão anti-religiosa. Porém, apesar disso (é talvez justamente por isso) de um profundo humanismo. E de resgate do verdadeiro sentido do Natal e das festas de fim-de-ano, que são anteriores ao próprio aparecimento do Natal moderno ou mesmo do Natal tradicional.

Leia as palavras de Mário: "Não festejo o Natal porque, desde criança, como creio para muitíssimos de nós, a festa, não sei muito bem por que, constituía um momento de tensão e angústia, talvez por prometer sentimentos de paz e fraternidade há muito perdidos, substituindo-os pela comilança indigesta e a abertura sôfrega de presentes, ciumentamente cotejados com os cantos dos olhos aos dos outros presenteados. ...Celebro o Primeiro do Ano, tradição pagã, sem religião e cor, quando os extrovertidos abraçam os mais próximos e os introvertidos levantam tímidos a taça aos estranhos, despedindo-se com esperança de um ano mais ou menos pesado, mais ou menos frutífero, mais ou menos sofrido, na certeza renovada de que, enquanto houver vida e luta, haverá esperança."

Com esse artigo desejamos um feliz Natal e Ano-Novo aos nossos leitores, companheiros e amigos. Ou melhor: um feliz Primeiro do Ano, ao lado da família e amigos, e que 2010 seja um ano de realizações plenas e boas a todos. Que superemos os limites da vida e transformemos positivamente a realidade.

***
Por que não festejo e me faz mal o Natal*

Dezembro 24, 2009 - por Mário Maestri**

Não festejo e me faz mal o Natal por diversas razões, algumas fracas, outras mais fortes. Primeiro, sou ateu praticante e, sobretudo, adulto. Portanto, não participo da solução fácil e infantil de responsabilizar entidade superior, o tal de “pai eterno”, pelos desastres espirituais e materiais de cuja produção e, sobretudo, necessária reparação, nós mesmos, humanos, somos responsáveis.

Sobretudo como historiador, não vejo como celebrar o natalício de personagem sobre o qual quase não temos informação positiva e não sabemos nada sobre a data, local e condições de nascimento. Personagem que, confesso, não me é simpático, mesmo na narrativa mítico-religiosa, pois amarelou na hora de liderar seu povo, mandando-o pagar o exigido pelo invasor romano: “Dai a deus o que é de deus, dai a César, o que é de César”!

O Natal me faz mal por constituir promoção mercadológica escandalosa que invade crescentemente o mundo exigindo que, sob a pena da imediata sanção moral e afetiva, a população, seja qual for o credo, caso o tenha, presenteie familiares, amigos, superiores e subalternos, para o gáudio do comércio e tristeza de suas finanças, numa redução miserável do valor do sentimento ao custo do presente.

Não festejo e me desgosta o Natal por ser momento de ritual mecânico de hipócrita fraternidade que, em vez de fortalecer a solidariedade agonizante em cada um de nós, reforça a pretensão da redenção e do poder do indivíduo, maldição mitológica do liberalismo, simbolizada na excelência do aniversariante, exclusivo e único demiurgo dos males sociais e espirituais da humanidade.

Desgosta-me o caráter anti-social e exclusivista de celebração que reúne egoísta apenas os membros da família restrita, mesmo os que não se freqüentaram e se suportaram durante o ano vencido, e não o farão, no ano vindouro. Festa que acolhe somente os estrangeiros incorporados por vínculos matrimoniais ao grupo familiar excelente, expulsos da cerimônia apenas ousam romper aqueles liames.

Horroriza-me o sentimento de falsa e melosa fraternidade geral, com que nos intoxica com impudícia crescente a grande mídia, ano após ano, quando a celebração aproxima-se, no contexto da contraditória santificação social do egoísmo e do individualismo, ao igual dos armistícios natalinos das grandes guerras que reforçavam, e ainda reforçam – vide o peru de Bush, no Iraque – o consenso sobre a bondade dos valores que justificavam o massacre de cada dia, interrompendo-o por uma noite apenas.

Não festejo o Natal porque, desde criança, como creio para muitíssimos de nós, a festa, não sei muito bem por que, constituía um momento de tensão e angústia, talvez por prometer sentimentos de paz e fraternidade há muito perdidos, substituindo-os pela comilança indigesta e a abertura sôfrega de presentes, ciumentamente cotejados com os cantos dos olhos aos dos outros presenteados.

Por tudo isso, celebro, sim, o Primeiro do Ano, festa plebéia, hedonista, aberta a todos, sem discursos melosos, celebrada na praça e na rua, no virar da noite, ao pipocar dos fogos lançados contra os céus. Celebro o Primeiro do Ano, tradição pagã, sem religião e cor, quando os extrovertidos abraçam os mais próximos e os introvertidos levantam tímidos a taça aos estranhos, despedindo-se com esperança de um ano mais ou menos pesado, mais ou menos frutífero, mais ou menos sofrido, na certeza renovada de que, enquanto houver vida e luta, haverá esperança.

(*) Publicado em La Insignia [  http://www.lainsignia.org ]
(**) Historiador e professor do curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Haiti


Bela imagem tirada pela equipe da Conlutas que visitou recentemente o Haiti, país ocupado por tropas da ONU e do Brasil. Apesar da pobreza e da opressão, existe esperança, é só olhar na olhos de uma criança.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Ativista hondurenho da comunidade LGTB é assassinado

O ativista político hondurenho Walter Orlando Tróchez, de 27 anos, foi assassinado no último dia 13, ao receber dois disparos no Centro de Tegucigalpa, capital de Honduras. A informação é do Centro de Investigação e Promoção dos Direitos Humanos (Ciprodeh). Tróchez atuava pelos direitos da comunidade gay, lésbica, transexual e bissexual, além de ser membro ativo da Frente Nacional de Resistência contra o Golpe de Estado.

A poucos dias, o ativista havia sido vítima de golpes brutais, tortura e tentativa de sequestro por supostos membros da Direção Nacional de Investigação Criminal (DNIC). Eles o "interceptaram e subiram em um veículo tipo pick up, de cor cinza e sem placas, enquanto lhe golpeavam e interrogavam, solicitando informação sobre os líderes da resistência e seus movimentos", afirmou o Ciprodeh.

"Desafortunadamente, seu assassinato vem evidenciar a falta de proteção à integridade e à vida dos defensores de direitos humanos por parte das autoridades policiais e judiciais, que têm se comportado de forma negligente e a favor do regime repressivo", disse o Ciprodeh, em referência ao golpe de Estado que depôs e expulsou do país o presidente Manuel Zelaya, em 28 de junho.

Segundo a entidade, até hoje Honduras já soma 41 mortes, vítimas da repressão e perseguição política do governo provisório de Roberto Micheletti. Entre esses, registram-se 16 assassinatos somente de membros e ativistas da comunidade LGTB.

Em comunicado enviado há um mês, a Associação LGTTB Arcoiris e o Coletivo TTT da Cidade de San Pedro Sula denunciaram o incremento dos crimes de ódio e homofobia contra a comunidade LGTTB desde o golpe de Estado.

"Desde o último dia 29 de junho […] se incrementaram os crimes de ódio e homofobia, [...] que põem mais uma vez em evidência os altos níveis de ódio, estigma e discriminação contra pessoas da diversidade sexual, o que chamamos de homofobia, lesbofobia, bifobia e, principalmente, transfobia", disseram.

Como promotores desses crimes, as entidades citaram a Cúpula Religiosa Hondurenha em cumplicidade com "grupos opressores" como as Forças Armadas, a Secretaria Nacional de Segurança, a empresa privada e os grupos Próvida e Opus Dei.

Adital

Fontes:

Andes/SN
www.conlutas.org.br

sábado, 12 de dezembro de 2009

Manifestação pelo clima em Copenhague leva multidão às ruas

Manifestação pelo clima em Copenhague leva multidão às ruas e termina com 600 presos
- Por Carolina Ribeiro Pietoso, de Copenhague

Cerca de 40 mil manifestantes marcharam pelas frias ruas da capital dinamarquesa de Copenhague neste sábado e 600 pessoas foram detidas, durante uma passeata que exigia a assinatura de um acordo climático global ambicioso. A estimativa é da polícia local. Já os organizadores do protesto afirmaram que 100 mil pessoas participaram da marcha, que teve início às 14h (11h, horário de Brasília).

Segundo a enviada do iG a Copenhague, Carolina Ribeiro Pietoso, alguns fatos isolados de violência foram registrados, mas a manifestação ocorreu de forma tranquila.

"Houve lançamento de pedras e, ao mesmo tempo, as pessoas estavam colocando máscaras", justificou o porta-voz da polícia, Rasmus Bernt Skovsgaard. "Decidimos realizar prisões preventivas para dar aos manifestantes pacíficos a possibilidade de continuar".

Em uma das ocorrências mais graves, um grupo de 400 pessoas vestidas de preto enfrentou a polícia e quebrou vitrines no centro da cidade. O fato foi registrado menos de meia hora após a saída da manifestação. Os jovens estavam com foices e martelos e também lançaram latinhas de gás.

A manifestação, apoiada por mais de 500 organizações de 67 países, saiu da praça do Parlamento com direção ao centro de convenções, onde acontece a conferência promovida pela ONU, que termina no próximo dia 18. A marcha percorreu cerca de 6 km.

- "Não há Plano B"

A reportagem do iG conversou com alguns manifestantes, que reforçaram a urgência dos governos e sociedade em atuar na defesa pelo clima. Todos destacam que "não há Plano B".

"A polícia fez muito alarde durante esta semana para tentar retratar os manifestantes como criminosos. Mas nós somos pessoas da paz. Viemos aqui porque acreditamos que apenas por meio da união a raça humana conseguirá sobreviver a problemas que ela mesma criou", afirmou a estudante Camile Reault, de 24 anos. Ela veio da França por acreditar que o momento é histórico e exige ação coletiva.

"Eu acredito em anarquia. Por mim, a gente quebrava tudo porque, infelizmente, só assim se consegue atenção. E os políticos estão aqui para falar em dinheiro, enquanto nós estamos aqui para falar do planeta e da vida humana", afirmou o inglês Robert Cunningham, de 38 anos, que participa de todos os grandes protestos que acontecem no mundo, seja qual for a causa.

"Eu sou a natureza. Eu sou o clima. Por isso estou aqui para defender minha existência", afirmou a chinesa Wuan Quo Jin, de 27 anos.

- Semana decisiva

Ministros de Meio Ambiente de todo o mundo estão chegando neste sábado à conferência e terão alguns dias para trabalhar num acordo, antes que mais de 100 chefes de Estado e governo cheguem à capital dinamarquesa, o que deve ocorrer no final da próxima semana.

Por enquanto, as promessas de redução de gases de efeito estufa estão muito abaixo do que os cientistas dizem ser necessário para evitar que as temperaturas subam para níveis potencialmente catastróficos.

Um acordo preliminar foi apresentado na sexta-feira, mas ele não traz números específicos sobre o financiamento, diz apenas que todos os países juntos devem reduzir as emissões entre 50% e 95% até 2050, e que países ricos devem diminuir as emissões entre 25% e 40% até 2020, tomando como base, em ambos os casos, os níveis de 1990. O rascunho deixa em aberto a forma de acordo, que poderia vir sob a forma de um documento legal ou de uma declaração política.

Segundo a Agencia Reuters,pelo menos 30 mil pessoas seguem em marcha pelo clima

Ian Fry, representante da pequena ilha de Tuvalu, localizada no Oceano Pacífico, fez um apelo emocionado em favor de um formato mais forte, que legalmente obrigue todos os países a se comprometerem com o controle das emissões.

Ele pediu ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que aproveite o Prêmio Nobel da Paz recebido esta semana e assuma a luta contra a mudança climática, que chamou de "a maior ameaça para a humanidade".

Todd Stern, enviado especial dos EUA para a conferência, disse que o texto do acordo apresentado ontem é "construtivo", mas destacou que a seção sobre a ajuda aos países pobres é "desequilibrada". Ele disse que as exigências sobre os países industrializados são mais rígidas do que as dos países em desenvolvimento e que a seção "não é base para negociações".

Avanço pequeno

Grupos ambientais saudaram o texto como um avanço, mas lamentaram a falta do que consideram elementos essenciais. O acordo preliminar, elaborado por Michael Zammit Cutajar, de Malta, afirma que as emissões globais de gases de efeito estufa devem atingir um pico "assim que possível", mas não chega a citar um ano como meta.

O texto pede novo financiamento nos próximos três anos dos países ricos para que os mais pobres se adaptem à mudança climática, mas não menciona números. Além disso, o texto não traz propostas específicas sobre a ajuda no longo prazo.

Fontes: Agência Reuters e Portal IG

Em Brasília...

A PM do Arruda ataca trabalhadores e estudantes que protestaram contra o mensalão do DEM de Brasília

http://www.youtube.com/watch?v=ycbvb4pR8IE

Enquanto isso no Haiti...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Os fatos por trás das estatísticas

do blog Luís Nassif


Um dos grandes problemas da análise macroeconômica é não haver conhecimento sistematizado sobre o que acontece na microeconomia. Esse desconhecimento pode levar a enganos complicados.

 1. No setor de máquinas e equipamentos, hoje em dia 10% das máquinas vendidas pelas empresas como sendo nacionais são importadas da China. O empresário importa, coloca seu selo, vende sem riscos, ganha sua margem e garante a rentabilidade da empresa.


2. Esse jogo – que elimina emprego e desenvolvimento tecnológico – é contado duas vezes nas estatísticas. Quando importa, entra como investimento. Quando revende, entra como venda nova.

3. No entanto, nas estatísticas permite a alguns cabeções estabelecer correlações positivas entre câmbio apreciado e aumento dos investimentos.

4. Recentemente, a Associação Brasileira de Importadores de Equipamentos procurou a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) preocupada com a apreciação cambial. Ante a surpresa da Abimaq – afinal, dólar barato facilitar importações – foi-lhe dito que os clientes estavam importando produtos acabados, em vez de máquinas.

5. Os dados do Banco Central para a entrada de investimentos externos mostram que eles se concentram especialmente em compra de ativos internos ou empréstimos entre companhias. Nos dois casos, não há aumento da capacidade instalada.

6. Quando o câmbio se aprecia, reduz o preço dos novos equipamentos (que podem representar, digamos, 5% do faturamento da empresa) e nos setores traedebles (exportáveis) impacta 100% do faturamento.


                                                                                                                        

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O capitalismo perdeu seu coração

Ótimo artigo do jornalista, economista e professor J. Carlos de Assis, embora keynesiano, bem preocupado com as transformações que o capitalismo passará pós crise de 2008.

J. Carlos de Assis

Os próximos dez anos serão radicalmente diferentes dos dez últimos por força dos novos rumos que tomará a civilização mundial. Não me refiro apenas a mudanças de padrão tecnológico, que se tornaram triviais ao longo das últimas três décadas. Refiro-me a uma mudança de paradigma na estrutura básica do sistema capitalista ocidental, apoiada essencialmente no princípio de propriedade privada e de livre iniciativa, pretensamente sob restrição única de forças “impessoais” do mercado.
                                        clique aqui para ler

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Contra avanços de movimentos especulativos Índia estuda controlar capitais

Índia já estuda controlar capitais


Medida se soma à reação de emergentes contra avanço de movimentos especulativos

A Índia também já admite adotar medidas para restringir a entrada de capital estrangeiro no país, caso ela aumente. O anúncio foi feito pelo presidente do Banco Central indiano, Duvvuri Subbarao.

A declaração reforça as recentes ações de outros emergentes para conter o rápido avanço dos preços dos ativos, entre outras bolhas causadas pelo fluxo de recursos para países emergentes.

"No futuro, deve haver um aumento nos fluxos de capital e eu acho que não devemos descartar uma administração de capital ativo, como fizemos de 2006 a 2008," disse Subbarao, durante uma conferência econômica.

Os comentários ocorrem no momento em que vários países emergentes anunciam medidas para conter a entrada de grandes fluxos de capital estrangeiro em suas economias.

O Brasil foi um dos criaram barreiras mais modestas, como a criação de imposto de 2% sobre o investimento estrangeiro em fundos de renda fixa e de ações. Já Taiwan proibiu fundos estrangeiros de investir em depósitos a prazo no país.

"Nossa tarefa, no médio prazo, é melhorar e aumentar a capacidade de absorção da economia, mas para isso precisamos calibrar as reservas, que correspondem, aproximadamente, ao déficit em conta corrente", destacou Subbarao.

Fonte: Monitor Mercantil, 08 de dezembro de 2009

domingo, 6 de dezembro de 2009

"Acadêmicos amestrados": sobre os "especialistas" da Grande Mídia

Acadêmicos amestrados

Por Idelber Avelar, Revista Fórum

Se um marciano aterrissasse hoje no Brasil e se informasse pela Rede Globo e pelos três jornalões, seria difícil que nosso extra-terrestre escapasse da conclusão de que o maior filósofo brasileiro se chama Roberto Romano; que nosso grande cientista político é Bolívar Lamounier; que Marco Antonio Villa é o cume da historiografia nacional; que nossa maior antropóloga é Yvonne Maggie, e que o maior especialista em relações raciais é Demétrio Magnoli. Trata-se de outro monólogo que a mídia nos impõe com graus inauditos de desfaçatez: a mitologia do especialista convocado para validar as posições da própria mídia. Curiosamente, são sempre os mesmos.

Se você for acadêmico e quiser espaço na mídia brasileira, o processo é simples. Basta lançar-se numa cruzada contra as cotas raciais, escrever platitudes demonstrando que o racismo no Brasil não existe, construir sofismas que concluam que a política externa do Itamaraty é um desastre, armar gráficos pseudocientíficos provando que o Bolsa Família inibe a geração de empregos. Estará garantido o espaço, ainda que, como acadêmico, o seu histórico na disciplina seja bastante modesto.

Mesmo pessoas bem informadas pensaram, durante os anos 90, que o elogio ao neoliberalismo, à contenção do gasto público e à sanha privatizadora era uma unanimidade entre os economistas. Na economia, ao contrário das outras disciplinas, a mídia possuía um leque mais amplo de especialistas para avalizar sua ideologia. A força da voz dos especialistas foi considerável e criou um efeito de manada. Eles falavam em nome da racionalidade, da verdade científica, da inexorável matemática. A verdade, evidentemente, é que essa unanimidade jamais existiu. De Maria da Conceição Tavares a Joseph Stiglitz, uma série de economistas com obra reconhecida no mundo apontou o beco sem saída das políticas de liquidação do patrimônio público. Chris Harman, economista britânico de formação marxista, previu o atual colapso do mercado financeiro na época em que os especialistas da mídia repetiam a mesma fórmula neoliberal e pontificavam sobre a “morte de Marx”. Foi ridicularizado como dinossauro e até hoje não ouviu qualquer pedido de desculpas dos papagaios da cantilena do FMI.

Há uma razão pela qual não uso aspas na palavra especialistas ou nos títulos dos acadêmicos amestrados da mídia. Villa é historiador mesmo, Maggie é antropóloga de verdade, o título de filósofo de Roberto Romano foi conquistado com méritos. Não acho válido usar com eles a desqualificação que eles usam com os demais. No entanto, o fato indiscutível é que eles não são, nem de longe, os cumes das suas respectivas disciplinas no Brasil. Sua visibilidade foi conquistada a partir da própria mídia. Não é um reflexo de reconhecimento conquistado antes na universidade, a partir do qual os meios de comunicação os teriam buscado para opinar como autoridades. É um uso desonesto, feito pela mídia, da autoridade do diploma, convocado para validar uma opinião definida a priori. É lamentável que um acadêmico, cujo primeiro compromisso deveria ser com a busca da verdade, se preste a esse jogo. O prêmio é a visibilidade que a mídia pode emprestar – cada vez menor, diga-se de passagem. O preço é altíssimo: a perda da credibilidade.

O Brasil possui filósofos reconhecidos mundialmente, mas Roberto Romano não é um deles. Visite, em qualquer país, um colóquio sobre a obra de Espinosa, pensador singular do século XVII. É impensável que alguém ali não conheça Marilena Chauí, saudada nos quatro cantos do planeta pelo seu A Nervura do Real, obra de 941 páginas, acompanhada de outras 240 páginas de notas, que revoluciona a compreensão de Espinosa como filósofo da potência e da liberdade. Uma vez, num congresso, apresentei a um filósofo holandês uma seleção das coisas ditas sobre Marilena na mídia brasileira, especialmente na revista Veja. Tive que mostrar arquivos pdf para que o colega não me acusasse de mentiroso. Ele não conseguia entender como uma especialista desse quilate, admirada em todo o mundo, pudesse ser chamada de “vagabunda” pela revista semanal de maior circulação no seu próprio país.

Enquanto isso, Roberto Romano é apresentado como “o filósofo” pelo jornal O Globo, ao qual dá entrevistas em que acusa o blog da Petrobras de “terrorismo de Estado”. Terrorismo de Estado! Um blog! Está lá: O Globo, 10 de junho de 2009. Na época, matutei cá com meus botões: o que pensará uma vítima de terrorismo de Estado real – por exemplo, uma família palestina expulsa de seu lar, com o filho espancado por soldados israelenses – se lhe disséssemos que um filósofo qualifica como “terrorismo de Estado” a inauguração de um blog em que uma empresa pública reproduz as entrevistas com ela feitas pela mídia? É a esse triste papel que se prestam os acadêmicos amestrados, em troca de algumas migalhas de visibilidade.

A lambança mais patética aconteceu recentemente. Em artigo na Folha de São Paulo, Marco Antonio Villa qualificava a política externa do Itamaraty de “trapalhadas” e chamava Celso Amorim de “líder estudantil” e “cavalo de troia de bufões latino-americanos”. Poucos dias depois, a respeitadíssima revista Foreign Policy – que não tem nada de esquerdista – apresentava o que era, segundo ela, a chave do sucesso da política externa do governo Lula: Celso Amorim, o “melhor chanceler do mundo”, nas palavras da própria revista. Nenhum contraponto a Villa jamais foi publicado pela Folha.

Poucos países possuem um acervo acadêmico tão qualificado sobre relações raciais como o Brasil. Na mídia, os “especialistas” sobre isso – agora sim, com aspas – são Yvonne Maggie, antropóloga que depois de um único livro decidiu fazer uma carreira baseada exclusivamente no combate às cotas, e Demétrio Magnoli, o inacreditável geógrafo que, a partir da inexistência biológica das raças, conclui que o racismo deve ser algum tipo de miragem que só existe na cabeça dos negros e dos petistas.

Por isso, caro leitor, ao ver algum veículo de mídia apresentar um especialista, não deixe de fazer as perguntas indispensáveis: quem é ele? Qual é o seu cacife na disciplina? Por que está ali? Quais serão os outros pontos de vista existentes na mesma disciplina? Quantas vezes esses pontos de vista foram contemplados pelo mesmo veículo? No caso da mídia brasileira, as respostas a essas perguntas são verdadeiras vergonhas nacionais.

domingo, 29 de novembro de 2009

Demitir no Brasil é muito barato

TERCEIRIZAÇÃO E ENCOLHIMENTO DA INDÚSTRIA PRODUZEM ACHATAMENTO SALARIAL

O Brasil detém uma das mais altas taxas de rotatividade de mão-de-obra - 25% nos últimos 10 anos, chegando a 30% em setores como o metalúrgico. Somente em outubro, apesar do saldo de 230.956 vagas com carteira assinada e da criação de 1,433 milhão de empregos formais, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgou também que foram demitidos 1,202 milhão de trabalhadores.

Em 2008, quando foi gerado 1,810 milhão de empregos formais, o número de demissões chegou a 1,605 milhão, no mesmo período.

Segundo o economista Paulo Jager, do Dieese, a rotatividade, em parte, faz parte da estratégia dos empregadores para reduzir salários, assim como a terceirização na indústria, que provocou migração para o setor de serviços.

"Mas há também um grande números de empresas abrindo e fechando, enquanto outras se expandem ou encolhem, mas certamente a maior parte dos empregos gerados são de menor remuneração."

A economista Beatriz David acrescenta que existe "manobra para não repassar os ganhos das convenções coletivas". Beatriz calcula que as leis trabalhistas encareçam a folha de pagamento das empresas em até 50%, mas reitera que, mesmo assim, "é muito barato demitir no Brasil".

Aos obstinados defensores de cortes nos gastos públicos, ela lembra que o impacto das demissões sobre o pagamento do seguro-desemprego. Em 2006, por exemplo, o Ministério do Trabalho informou que o seguro-desemprego consumiu R$ 6,5 bilhões.

"A flexibilização da legislação trabalhista mundo afora não favoreceu a criação de novos postos de trabalho. Em todos os países nos quais se flexibilizou não aumentou o nível de emprego."

Segundo a economista, medidas como diminuir imposto para contratar mais resultaram apenas em contratações temporárias.
 
Fonte: Jornal Monitor Mercantil

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Italianos com Cesare Battisti

ITALIANOS COM CESARE BATTISTI


Nós estamos com Cesare Battisti

Fabiana Stefanoni, da redação do jornal Progetto Comunista*

Em relação ao caso Cesare Battisti, todos – do PDL ao PD, da Liga a Itália dos Valores (1), da imprensa reacionária a considerada progressista (La Repubblica à frente) – comemoram a decisão da Suprema Corte brasileira de permitir a extradição de Cesare Battisti.

Por que o Supremo Tribunal brasileiro disse sim a extradição? Por que os homicídios de que Battisti é acusado seriam "crimes comuns", não políticos, portanto nenhum asilo. Resumindo: na Itália todo o parlamento com um repugnante aplauso unânime, comemora a prisão do “terrorista Battisti”, culpado de ter cometido crimes políticos; no Brasil, foi condenado porque os crimes de que é acusado não teriam relação com a política.

O certo, nesta lógica sem lógica, é que, na Itália, além dos capitais dos fraudadores milionários beneficiados pelo escudo fiscal, reentrará um inocente que tem culpa apenas de aderir, vinte anos atrás, a uma organização política aventureira que substituía a radicalização da classe operária pela luta armada. Sabemos também que, enquanto Battisti, retornará a prisão na pátria por feitos nunca cometidos, o Estado burguês que o condena à prisão concederá o perdão, pela mão de Ghendi ou de outro advogado do Presidente, a milhares de fraudadores (veja-se o caso Parmalat), mafiosos (subsecretário ou não), assassinos de trabalhadores inocentes (veja-se o caso da Thyssen Krupp (2) ou os processos por mortes causadas pelo amianto).

Um escritor de romance terminará na prisão, enquanto a canalha capitalista e mafiosa brindarão a prisão do “terrorista”. Aqui vemos o segundo aspecto tragicamente grotesco deste episódio. Todos - mas propriamente todos: da “TG1 da liberdade” a “TG3 da oposição pelo bem” (3) - estão de acordo em definir Cesare Battisti como um “ex-terrorista responsável por quatro homicídios”.

Leia o restante da matéria acessando o blog Defesa do Trabalhador (clique ou cole o link abaixo na barra de endereços do seu navegador)

http://defesadotrabalhador.blogspot.com/2009/11/italianos-com-cesare-battisti.html

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Intelectuais de esquerda organizam livros sobre a crise econômica mundial

DICA DE LIVRO

Dica de livro do dia é o livro Capitalismo em Crise em que vários intelectuais socialistas brasileiros abordam a crise econômica mundial pela perspectiva da natureza e da dinâmica intrínseca do modo de produção capitalista. O livro Capitalismo em Crise é o resultado de um esforço coletivo para compreender a natureza da crise que abala o sistema capitalista mundial e os desafios que o novo momento histórico suscita para as classes trabalhadoras.

Os sete artigos que compõem o livro possuem ao menos três denominadores comuns: a perspectiva de classe na análise da realidade; a percepção da crise como um fenômeno de grande envergadura, que eclode num contexto histórico marcado pela degeneração do próprio modo de produção capitalista; e o socialismo como único horizonte capaz de evitar os processos destrutivos que ameaçam a humanidade.

O livro é da Editora Instituto José Luís e Rosa Sunderman, jovem editora ligada ao Instituto do mesmo nome, que vem editando e publicando clássicos do marxismo e livros de novos autores da esquerda brasileira, tanto acadêmicos quanto militantes, brindando os leitores com formação política e econômico-política de alto nível.

Capitalismo em Crise: A natureza e dinâmica da crise econômica mundial - Plínio de Arruda Sampaio Jr. (org) Eduardo Almeida, Jorge Grespan, Maria Orlanda Pinassi, Ricardo Antunes, Valério Arcary, Virgínia Fontes. ISBN 978-85-99156-51-3; 160 págs.


visite o portal eletrônico: http://www.editorasundermann.com.br/ e-mail: vendas@editorasundermann.com.br

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A sociedade brasileira é racista e a mídia reflete isso

A sociedade brasileira ainda guarda uma herança da escravatura. Essa é a opinião do professor Muniz Sodré, da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ, que participou na última quinta, dia 15, do seminário “O Papel da Mídia no Debate sobre Igualdade Racial” na Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

A palestra teve o propósito de debater o papel dos veículos de comunicação nas questões relativas a desigualdades raciais e a atuação da mídia numa sociedade democrática, seus limites e responsabilidades.

Discutiu-se o papel monoliticamente contrário da grande imprensa contra as cotas raciais, sem nenhum espaço para o contraditório e seus defensores. O uso da televisão por parte de certas igrejas para demonizar as religiões afro-brasileiras. E o espaço na teledramaturgia diminuto aos papéis de negros.

A sociedade brasileira é desigual e a mídia é o seu reflexo.  Ao final do debate, foi opinião predominante entre os presentes que a mídia conseguirá atuar em favor de ações por igualdade racial quando houver a democratização dos meios de comunicação, hoje monopolizados por empresas favoráveis à permanência da desigualdade.

veja o artigo As cotas raciais segundo a mídia, por Thor Weglinski, comentando o debate.

domingo, 22 de novembro de 2009

Cai desigualdade racial no mercado de trabalho, mas resultados devem ser mais rápidos

A redução das desigualdades entre negros e brancos no mercado de trabalho depende de iniciativas mais firmes do setor sindical, das empresas e dos governos. A avaliação é da diretora executiva do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), Cida Bento, que acredita que o Brasil tem avançado na questão, mas a passos lentos.

"A situação está melhorando, mas de forma muita lenta ainda. Poderia ser mais rápido se as instituições assumissem esse objetivo", avalia.

Cida reconhece avanços recentes, como os apontados por levantamentos regionais do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) que apontam aumento da inserção dos negros no mercado de trabalho, melhoria dos rendimentos médios desses trabalhadores e ampliação do número de negros em cargos de chefia de 2004 a 2008.

No entanto, as diferenças ainda são profundas e os trabalhadores negros continuam ganhando menos e ocupando postos de menor qualificação e com menos proteção social.

"Falta o movimento sindical assumir o problema que ele tem que pautar. Tem que formar, provocar as empresas e incluir cláusulas de promoção de igualdade nos acordos de trabalho", sugere.

Ações desse tipo têm aumentado a participação de negros no setor bancário, por exemplo. Segundo Cida, 66% dos negros que trabalham em bancos foram contratados nos últimos três anos, após acordos entre trabalhadores e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), com participação do Ministério Público do Trabalho.

Fonte: ABr

sábado, 21 de novembro de 2009

Brasil tem dívida histórica com quilombolas

O presidente do Incra disse que a titulação de 30 áreas quilombolas, nesta sexta-feira em Salvador, "é o resgate de uma dívida histórica que o Estado tem com essas comunidades".

Contudo, o Governo recuou sobre o tema durante no Estatuto da Igualdade Racial. O governo fez um grande recuo sobre esse tema, na discussão das votações do Estatuto da Igualdade Racial, após receber pressão da bancada ruralista do Congresso Nacional, mesmo entre aqueles da base de apoio do governo.

Há um bom artigo do jornal Opinião Socialista que expõe isso (Estatuto da Igualdade Racial: entre o apoio envergonhado e a oposição escandalosa). E tem sido um dos temas centrais de denúncia dos movimentos sociais combativos (como a Conlutas) nos discursos nesse dia 20 de novembro.


Brasil tem dívida histórica com quilombolas, diz presidente do Incra

O presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, disse que a titulação de 30 áreas quilombolas, nesta sexta-feira em Salvador, é o resgate de uma dívida histórica que o Estado tem com essas comunidades. A declaração foi feita em entrevista ao programa Revista Brasil, da Rádio Nacional.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A Economia Política da Opressão: Capitalismo, socialismo e discriminação

Hoje é feriado em vários estados e centenas de municípios. É o Dia de Zumbi dos Palmares, o Dia Nacional da Consciência Negra. Em homenagem a essa data, re-editamos o artigo publicado originalmente, no 20 de novembro do ano passado. O artigo procura discutir os elementos econômico-político que sustentam o racismo e demais opressões no sistema capitalista.

por Almir Cezar Filho

Hoje é feriado estadual de Zumbi dos Palmares e Dia Nacional da Consciência Negra.

Muito se fala do racismo, das discriminações principalmente racial, e a opressão de setores da sociedade. Mas há um apelo que é possível ser superada dentro do marco do Capitalismo a questão da discriminação racial, ou com Cultura, ou com educação ou com inserção no mercado. Se aplicarmos um estudo da Economia Política proletária veremos que não.

É por isso que escrevi algo:

CAPITALISMO, SOCIALISMO E DISCRIMINAÇÃO
a Economia Política da opressão


por Almir Cezar Baptista Filho

Os socialistas sempre afirmaram que dois aspectos cruciais das liberdades (as liberdades civis e a liberdade econômica) do capitalismo são incompletas, sendo essa uma situação que o capitalismo, por sua própria natureza, está incapacitado para solucionar. A sociedade capitalista jamais poderá generalizar as liberdades que, sob certas condições, propicia a um setor favorecido de seus membros. E também, afirmam que as sociedades capitalistas não superam nem podem superar uma situação meramente formal de liberdade (jurídica e ideológica) ou pior, concepção negativa - protetora e legitimadora da grande propriedade e da exploração econômica. O Socialismo, por outro lado, pode levar as liberdades a todos os cidadãos e, finalmente, considerando-as fato consumado, pode avançar rumo ao objetivo de propiciar a todos a liberdade positiva de viver a vida em sua plenitude.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

São Paulo perde participação no PIB do país, diz IBGE


O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulga as Contas Regionais 2007. Ocorreu mudanças na distribuição econômica e industrial do Brasil, porém mantendo a desigualdade regional brasileira. Os dados divulgados pelo IBGE nesta quarta-feira revelam que o Estado de São Paulo perdeu peso no PIB nacional,  contudo, desde 1995, oito estados (SP, RJ, MG, RS, PR, BA, SC e DF) mantém a liderança das participações no PIB do país e, em 2007, eles concentravam quase 80% da economia.

Entre as grandes regiões, a participação do Sudeste continua sendo a maior mas, entre 1995 e 2007, ela caiu de 59,1% para 56,4%. Já o Nordeste, no mesmo período, teve o maior avanço: de 12,0% para 13,1%. Em 2007, nove estados, representando 54% do PIB brasileiro, cresceram acima da média (6,1%), e o do MT teve a maior alta (11,3%). O DF continua com o maior PIB per capita: R$ 40.696.

De 1995 a 2007, participação do Sudeste no PIB do país caiu de 59,1% para 56,4%. De 1995 a 2007, oito estados mais industrializados do país (SP, MG, RS, PR, RJ, SC, BA e AM) concentram mais de 87% do valor adicionado da indústria do país. De 1995 a 2007, as economias de SP, RJ e RS cresceram abaixo da média do país. Por um lado, em 2007, o PIB do Mato Grosso teve o maior crescimento (11,3%) e São Paulo o 4º maior (7,4%). Por outro lado, em 2007, Nordeste e Norte crescem abaixo da média nacional.

O Estado de São Paulo perdeu peso no PIB nacional. Em 1995, São Paulo contríbuía com 37,3% de toda a economia brasileira. Em 2007, esse índice caiu 3,4 pontos percentuais e ficou em 33,9%. O ano de 2007 é mais recente que o IBGE dispõe em suas estatísticas. O PIB é a soma de todas as riquezas produzidas no país. A economia paulista perdeu participação na indústria geral e em serviços, mas ganhou na agropecuária.São Paulo concentra 11,8% do PIB da Agropecuária brasileira.  A indústria de transformação do Estado teve a maior perda (-4,3 pontos percentuais) dentre todas as 27 unidades da federação.


Segundo o IBGE, essa perda na indústria paulista ocorreu porque houve transferências de alguns setores industriais para outros Estados, com a migração de algumas fábricas para perto da matéria-prima ou do consumidor final. Além disso, também influíram no processo alguns incentivos fiscais para investimento industriais em outros Estados, avalia o instituto.

Não só São Paulo, mas toda a região Sudeste perdeu influência no PIB do país. Entre 1995 e 2007, a participação do Sudeste caiu de 59,1% para 56,4% (São Paulo liderou a queda na região). Já o Nordeste, no mesmo período, teve o maior avanço: de 12,0% para 13,1%. Apesar da retração, São Paulo continua liderando de longe. Ele representa 33,9% do PIB, enquanto o segundo lugar, o Rio de Janeiro, tem 11,2%. No entanto, o Rio não perdeu nenhuma fatia: na comparação entre 1995-2007, o Estado fluminense ficou como estava (sua participação já era de 11,2% em 1995).

Em 2007, nove Estados, representando 54% do PIB brasileiro, cresceram acima da média (6,1%). Mato Grosso foi o que teve a maior alta: 11,3%. O Sudeste continua com a maior participação no PIB do país que, entre 1995 e 2007, caiu (-2,7 pontos percentuais) de 59,1% para 56,4%. O Centro-Oeste teve avanço: de 8,4% para 8,9%. O Sul também ganhou participação na série (0,4 pontos, de 16,2% para 16,6%).

Para saber mais:
veja a notícia no site do IBGE

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

terça-feira, 17 de novembro de 2009

(Eleições 2010) Mais um pré-candidato a presidente: PSTU lança Zé Maria



O eleitorado de esquerda terá mais uma alternativa para a eleição presidencial de 2010, além das pré-candidaturas de Dilma Roussef do PT, do Ciro Gomes do PSB, da Marina Silva do PV e da Heloisa Helena do PSOL. Hoje, terça-feira, dia 17, será lançado a pré-candidatura de Zé Maria no Rio de Janeiro.

José Maria de Almeida, o Zé Maria, é um histórico dirigente sindical e militante do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado). Atualmente é a principal liderança da nova central sindical CONLUTAS (Coordenação Nacional de Lutas), construida a partir de rupturas da CUT.

O Ato será na Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, Praça da República, Campo de Santana, Centro do Rio (próxima a Central do Brasil), a partir das 19h. Para aqueles que se interessarem mas não puderem ir, haverá transmissão online pelo portal eletrônico do PSTU (http://www.pstu.org.br/).

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Seminário na UFF discute crise econômica e os seus desdobramentos

A partir desta segunda-feira, 16 de novembro, até quarta-feira, 18, a Faculdade de Economia da UFF realiza o 7º Seminário Acadêmico, que terá como tema central “A Crise do ‘Subprime’ e Seus Desdobramentos”. Os temas das mesas serão “A Crise e a Regulação Financeira”, “Mercado de Trabalho na Conjuntura Atual” e “Perspectivas e Cenários para a Economia Brasileira”.

Todos os debates ocorrerão às 16h, no auditório da Faculdade de Economia, Rua Tiradentes, 17, Ingá, Niterói.

O evento é organizado pelo Programa de Educação Tutorial do curso de Ciências Econômicas (PET – Economia). As inscrições devem ser feitas pelo e-mail seminarioacademico2009@gmail.com.

Todos os participantes, discentes e docentes, receberão certificados.

sábado, 14 de novembro de 2009

Dias 20 a 25 de novembro: Festival Arariboia Cine 2009

Em comemoração ao aniversário de Niterói  a UFF e a Prefeitura de Niterói promovem  o Festival Arariboia Cine 2009.

A oitava edição do Festival Arariboia Cine ocorre entre 20 e 25 de novembro. Dentro do tema deste ano, “Retratos”, será apresentada uma seleção de curtas e longas-metragens nacionais. Além disso, haverá uma mostra especial em homenagem ao cineasta e montador niteroiense Ricardo Miranda, mostrando a trajetória de sua carreira.

 Serão realizadas exibições no Cine Arte UFF (Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí), no MAC-Museu de Arte Contemporânea (Mirante da Boa Viagem, s/n, Boa Viagem) e no SESC/Niterói (Rua Padre Anchieta, 56, Centro). A periferia de Niterói contará com 12 exibições, em uma parceria com o Projeto Cine Tela Brasil. A entrada é franca.

A programação completa pode ser conferida no site http://www.arariboiacine.pro.br/

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

José Welmovick fala em 1991 sobre a Queda do Muro de Berlim

O então dirigente político, o sociológo José Welmovick, da antiga Convergência Socialista, corrente marxista na época pertencente ao PT, mas que em 1992 será um dos grupos fundadores do PSTU,  fala em evento ainda em 1991, sobre a Queda do Muro de Berlim e o processo de revolução política em curso nos países do Leste Europeu no fim da década de 1980 e início da década de 1990.



Alguns destaques na entrevista:

O sociológo classifica os processos políticos vividos no Leste Europeu de "revoluções políticas", de cunho democrático, cujas massas trabalhadoras dos países se rebeleram aos anos de repressão, ditadura e exploração imposta pelas direções burocráticas stalinistas, mas que devido a imaturidade das direções políticas pró-democráticas, o movimento foi sendo canalizado ou cooptados para projetos restauradores do capitalismo. O que destaca: restauração capitalista do Leste.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A notícia da abertura do Muro de Berlim - Jornal Nacional

 Histórica matéria do Jornal Nacional de 1989 com a notícia da abertura do Muro de Berlim, que dava uma versão oficial burguesa sobre aqueles acontecimentos.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Cronologia da Queda do Muro de Berlim: da Perestroika ao fim da URSS (1985-1991)


Cronologia: a queda do Muro de Berlim e a restauração capitalista no Leste europeu

Fonte: Editora Sundermann*

• 1985

10 de março – Gorbatchev assume como secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).

Abril – Reunião do CC do PCUS inicia uma política de reformas econômicas definidas como “Aceleração” da economia (Uskorénie), considerada a primeira pedra no edifício da Perestroika. O centro da política da Aceleração é o aumento da produtividade do trabalho. O resultado inicial é desastroso. Acidentes ligados à exploração desmedida de unidades produtivas tornaram-se cada vez mais frequentes. O mais conhecido deles foi a explosão na usina atômica de Chernobyl, na Ucrânia, em 26 de abril de 1986.

1986

Fevereiro – O XXVII Congresso do PCUS vota pela ampliação do processo de reformas em todos os níveis da URSS: econômico, político e de relações exteriores. O informe político é apresentado por Gorbachev (A URSS Rumo ao século XXI). As diretrizes para as reformas econômicas são apresentadas por Rizhkov. Entre as principais alterações no programa, a política internacional da URSS de coexistência pacífica com o imperialismo toma a forma de “Cooperação Internacional”. No plano da economia, a resolução decide ampliar a política da “Aceleração”, estabelecendo que a principal estratégia é a alteração da forma de crescimento econômico, dando ênfase para a renovação tecnológica e o aumento da produtividade.

A principal alteração do congresso ocorre nos organismos dirigentes com uma ampla renovação da direção. Neste congresso, o CC tem uma renovação de 40% e o Poltibirô se renova em 70% até o início de 1987. São incorporados: Eduard Shevardnadze, ex-chefe da KGB e ministro do Interior na Geórgia; Alexander Yakovlev, de trajetória reformista, até então exilado, na embaixada soviética do Canadá (volta a URSS na eleição de Gorbachev e assume o Instituto de Economia); Boris Yeltsin, chefe do partido em Sverdolovsk (assume a chefia do partido em Moscou). A renovação também atinge 60% dos secretários regionais.

Outubro – Durante a Cúpula de Reykjavik, Gorbachev e Reagan assinam o tratado de desarmamento que reduz em 5% o arsenal nuclear de cada país.

Novembro – Aprovada lei que permitia a iniciativa privada em cerca de 30 ramos diferentes da indústria e do comércio.

Dezembro – Mobilizações em Alma-Ata, no Cazaquistão, começam a partir da nomeação de um russo para o posto de primeiro-secretário do PC. Ao final do ano, o déficit orçamentário da URSS atingiu 17 bilhões de rublos e continuou a crescer.

1987

O ano tem início com uma queda na produção industrial e uma grave crise econômica.

Janeiro – Plenária do CC do PCUS anuncia a política da Perestroika (reconstrução) em que aprofunda as medidas de reformas econômicas da Aceleração. Uma maior autonomia às empresas e sua atuação segundo os princípios da livre concorrência. As medidas políticas, conhecidas como Glasnost (transparência), preconizavam uma reforma de todas as instituições políticas. Eleições para os Soviets de todos os níveis com a participação de vários candidatos, o que deveria ser, de agora em diante, regra da sociedade soviética.

Maio – Um grupo de estudantes armênios inicia uma mobilização pela incorporação da região de Nagorno–Karabaj à Armênia. Um abaixo-assinado colhe 90 mil assinaturas de um total de 126 mil habitantes.

Junho – Nova plenária do CC do PCUS reafirma a política da Perestroika e o cronograma para a aplicação das reformas, cujo objetivo era chegar a um socialismo de mercado. O enunciado básico do documento estava pautado nos seguintes eixos:

1. o sistema de planificação central devia somente manejar as variáveis de importância estatal e não tomar decisões que afetassem os níveis inferiores da economia;

2. a eficiência das empresas passa a ser medida de acordo com as variáveis econômicas e não políticas;

3. autonomia para as empresas em todas as decisões operacionais.

A resolução também aborda a necessidade da disciplina laboral para o aumento da produtividade e a renovação tecnológica. O projeto apresentado estava constituído em três fases: extensão da experiência econômica em grande escala; responsabilidade econômica plena; e mudanças estruturais para alcançar o socialismo de mercado que entraria em vigor no XIII Plano Quinquenal (1991-1995).

O CC aprova a Lei de Empresas, que deveria entrar em vigor a partir de 1º de janeiro de 1988. A lei impõe o fim gradativo das subvenções estatais às empresas e o livre contrato com fornecedores, inclusive do estrangeiro. As empresas poderiam estabelecer relações diretas entre si, sem o intermédio da Gosplan. A lei também previa a gradativa diminuição do percentual estatal da produção.

Fim do Ministério do Comercio Exterior que controlava o monopólio do comércio internacional. Em seu lugar, se constitui a Comissão de Relações Econômicas Internacionais.

26 de junho – Em artigo no Pravda, Gorbachev afirma que as medidas da Perestroika não caminham em direção ao capitalismo, mas têm por objetivo “as relações de intercambio de bens por dinheiro utilizadas de forma inteligente através dos preços e de um sistema financeiro e de crédito”. A continuação defende a introdução do trabalho privado e do trabalho cooperativo, reivindicando, para isso, os artigos de Lênin sobre as cooperativas.

Verão – Anunciadas as medidas da Glasnost, que incluíam um sensível enfraquecimento do regime de censura, a libertação de vários dissidentes, além de outras medidas de cunho democrático.

Outono – Na reunião do Politbirô, Yeltsin critica duramente Gorbachev pelo atraso das reformas, defendendo acelerar o ritmo. Em seguida, Yeltsin é afastado do cargo sob a justificativa de voluntarismo.

Dezembro – Tratado de Washington: Gorbachev e Reagan acordam a eliminação dos foguetes de médio e longo alcance dos dois países. A prioridade no desmonte é dada aos foguetes locados na Alemanha Oriental e na Tchecoslováquia. De forma unilateral, a URSS desmonta os mísseis localizados na Sibéria e no Extremo Oriente.

1988

Fevereiro – Greve geral paralisa a república da Armênia, reivindicando a região de Nagorno–Karabaj.

Junho – Na XIX Conferência do PCUS, Gorbachev responsabiliza o aparato estatal e partidário pelo fracasso das reformas e defende medidas para separar gradualmente as funções entre o partido e o Estado. A conferência vota alterações na estrutura do Estado. A mais importante foi a criação de um parlamento, o Congresso de Deputados do Povo (CDP), como o órgão soberano do Estado. Apesar da manutenção do monopólio político do PCUS, a reforma permite o lançamento de candidatos avulsos.

É aprovada uma emenda constitucional que legitima a transparência (Glasnost): direito à livre informação, acesso às reuniões dos comitês do partido e aos documentos oficiais, salvo os de interesse da segurança nacional. Vota-se no mesmo sentido uma reforma jurídica, cirando um Conselho Constitucional para adequar as leis à nova realidade e promover as garantias individuais. É criado um conselho para acompanhar a luta contra a burocracia.

Julho – Publicada a Lei sobre as Cooperativas. Em um ano, são criadas 200 mil empresas sob este critério. As cooperativas funcionam como empresas privadas que atuam na esfera do comércio, comprando mercadorias por preços estatais e revendendo-as a preços altíssimos. Essas empresas tinham permissão para importar.

Aumenta a tensão social. A dívida externa da URSS atinge a cifra de US$ 40 bilhões. Em 1990, ela chega a US$ 57,6 bilhões. O déficit orçamentário atinge 11% do PIB. O total da dívida pública é de dois terços da renda nacional. A colheita de cereais foi 20% menor do que a realizada em 1978, ou seja, uma produção 20% inferior a de dez anos antes.

A República da Estônia aprova a “Declaração sobre a Soberania das leis da República com relação às da União e sobre a propriedade republicana da terra, do subsolo e dos principais meios de produção”.

1989

Início – Na Lituânia, surge o movimento Saiudis, que defende a reconstrução do Estado independente da Lituânia.

19 fevereiro – Em Minsk, capital da Bielorússia, uma gigantesca mobilização operária exige democracia. A principal reivindicação: “as fábricas para os operários, a terra para os camponeses e o poder ao povo”.

Março – Eleições ao Congresso de Deputados do Povo, que deveria eleger um novo Soviet Supremo. Pela primeira vez, se discute abertamente a revogação do artigo 6º da Constituição, que garantia ao PCUS o monopólio do poder político.

8 de abril – Manifestação em Tiblisi, na Geórgia, exige a saída da república da URSS; 19 pessoas são mortas durante repressão.

Primavera – O Soviet Supremo aprova a redução do contingente das Forças Armadas para 500 mil soldados e a diminuição do orçamento militar em 14%.

3 de junho – Massacre de Tiananmen en Pequim.

14 de julho – Gorbachev é convidado à reunião do G7 e declara que a “Perestroika é inseparável de uma política que tende para nossa plena participação na economia mundial. O mundo só pode sair beneficiado com a abertura de um mercado tão grande como o da URSS” (New York Times, 16/7/1989)

Verão – Início das greves mineiras na região da Sibéria (Kuzbass). As reivindicações por melhores condições de trabalho tinham como centro a luta contra a aceleração do ritmo de produção das minas pela política de aumento da produtividade; a penúria dos produtos, entre os quais os de alimentação; as horas-extras e o horário noturno que eram mal remunerados; e a segurança no trabalho (152 mortes por acidente haviam acontecido no último ano). A pauta de reivindicação exigia melhor alimentação, roupas, moradia e equipamentos, dando ênfase ao sabão.

A greve se alastra para outras regiões: Donbass e Vorkuta (extremo norte da Rússia europeia), Ucrânia (Dniepropentrovsky) e Karaganda (Cazaquistão). Na Região do Kusbass, os comitês de greves tomam medidas de controle das cidades: proíbem a bebida alcoólica e o mercado ilegal e controlam o abastecimento. Em algumas regiões (Vorkuta, Kusbass), além das reivindicações econômicas, são introduzidas reivindicações políticas: entrega do poder aos soviets locais, anulação do artigo 6º da Constituição, eleição direta e secreta para a presidência do Soviete Supremo da URSS e para os organismos locais e direito de greve.

Surgem as grandes assembleias e dos comitês de greve. A luta também se amplia contra a corrupção. Alguns burocratas tiveram suas casas vasculhadas pelos mineiros que encontraram estoque de produtos alimentícios que nunca chegavam às suas cantinas. A greve termina com a promessa de abastecimento. Um carregamento de sabão é efetuado imediatamente.

20 de julho – A greve termina com várias concessões que incluem aumento salarial, melhoria no sistema de atenção médica e das aposentadorias e promessa de participação dos trabalhadores na administração das minas.

9 de novembro – Unificação da Alemanha

Dezembro – Tem início a crise de abastecimento de produtos de primeira necessidade. As mercadorias vendidas em lojas e mercados estatais são imediatamente compradas e revendidas pelas cooperativas a preços bem superiores. Várias manifestações em diferentes repúblicas exigem mais autonomia. A maioria delas é reprimida violentamente.

15 de dezembro – Retirada das tropas soviéticas do Afeganistão. O 2º Congresso dos Deputados do Povo condena a intervenção soviética no Afeganistão. Inicia-se a saída das tropas soviéticas da Tchecoslováquia, Hungria, Polônia e Alemanha Oriental.

Final do ano – O Azerbaijão aprova uma Lei de Soberania similar à aprovada na Letônia.

Cai o regime de Nicolai Ceaucescu na Romênia.

1990

Início do ano – A crise de abastecimento atinge proporções alarmantes: dos 1.101 produtos considerados de uso cotidiano (incluindo alimentos), somente 56 se encontravam disponíveis nas lojas e mercados estatais.

Janeiro – O Grupo Interregional de Deputados, integrado por Yeltsin, ainda nos marcos do PCUS, se converte em Plataforma Democrática.

A revista Time elege Gorbachev com o homem da década. Gorbachev, em visita à Lituânia, anuncia a votação da Lei de Secessão, que permitirá o exercício do direito de autodeterminação.

Tropas soviéticas reprimem manifestação da Frente Popular Azeri, em Baku, deixando 40 vítimas.

4 de fevereiro – Manifestação de 500 mil em Moscou exige o fim do artigo 6º da Constituição e ampliação das liberdades democráticas.

7 de fevereiro – O CC do PCUS aprova a revogação do artigo 6º da Constituição que garantia a este o monopólio do poder político.

13 de fevereiro – A KGB reconhece oficialmente as vítimas da contrarrevolução stalinista. Admite a condenação de 3.778.324 pessoas; 786.098 foram condenadas à morte e executadas. A maioria era formada por operários, camponeses, altos responsáveis do Estado e oficiais das forças armadas. No informe da KGB, ficam de fora os que morreram nos campos de concentração e os que foram assassinados no exterior como, Leon Trotsky, Leon Sedov, Reiss e muitos outros.

Primavera – As eleições aos Soviets locais são polarizadas pelo tema da revogação do artigo 6º da Constituição e da soberania nacional das repúblicas. Surgem dois blocos eleitorais: Plataforma PCUS e Rússia Democrática, de caráter claramente oposicionista.

Março – O 3º Congresso de Deputados do Povo (extraordinário) revoga o artigo 6º da Constituição. O Congresso aprovou também a criação do cargo de presidente da URSS, elegendo Gorbachev e lhe conferindo amplos poderes: direito de decretar a lei marcial e o estado de emergência, direito de veto sobre as decisões do Soviet Supremo, prerrogativa da iniciativa legislativa com o dispositivo para votações de urgência.

A Lituânia declara independência da URSS. O parlamento Lituano reconhece como ilegal a anexação do país à União Soviética após a assinatura do Pacto Hitler-Stalin. A administração da União responde com sanções econômicas.

Abril – O Soviet Supremo aprova a Lei de Secessão das Repúblicas. O critério exige um referendo com a participação de dois terços da população com direito a voto. Caso não fosse atingido esse percentual, outro referendo somente poderia ser convocado após dez anos; 10% dos eleitores inscritos poderiam questionar o resultado do referendo e pedir nova convocação, que não poderia ser efetuada num prazo inferior a cinco anos. À instituição legislativa da União, caberia dar a palavra final após o referendo.

Maio – Em 16 de maio, é aberto o Primeiro Congresso de Deputados de Povo da República Russa, polarizado pelos debates em torno da soberania da Rússia em relação à URSS.

Em 27 de maio, um conflito armado na fronteira entre Armênia e Azerbaijão deixa 22 mortos.

Yeltsin é eleito presidente do Congresso de Deputados do Povo da Federação Russa.

Final de maio – Apresentado o Plano Albakinin que previa a transição à economia de mercado em três etapas entre 1991 e 1995. O plano incluía medidas antimonopólio, livre concorrência, permissão de investimentos estrangeiros e conversão parcial do rublo. O projeto tinha como base o controle da transição para a economia de mercado pelas instituições da União e um processo de privatização por etapas. A ação dos oposicionistas paralisou a aplicação. O plano já não tinha a retórica de socialismo de mercado. O debate aberto se concentra em como realizar a transição para a economia de mercado.

Ao final da primavera todas as repúblicas soviéticas aprovam declarações de soberania. A Rússia aprovou a sua em 12 de junho.

19 de junho – É fundado o Partido Comunista da Rússia. Até então, todas as repúblicas tinham seu próprio PC, exceto a Rússia. Com a presença de 2.700 delegados, foi eleito Ivan Poloskóv como secretário-geral. O congresso foi marcado por profundas críticas a Gorbachev e ao setor da burocracia agrupado na Rússia Democrática.

Movimento cooperativista atinge a marca de um milhão de associados (assalariados).

Gorbachev, Yeltsin e o então presidente da República da Rússia, Silayev, entram em acordo para a implementação de um novo plano econômico, denominado “500 dias”, elaborado por um grupo de jovens economistas liderados por Shatalin-Yavlinsky. O plano previa a transformação radical da economia soviética em 500 dias através da completa eliminação do Estado como agente regulador, liberalização dos preços e ampla privatização.

2 a 14 de julho – O XXVIII Congresso do PCUS, o último, em sua declaração final reconhece o estado de profunda crise organizativa e ideológica. Já haviam deixado a estrutura geral do PCUS os partidos comunistas da Letônia, Lituânia e Estônia. A crise atingira o Komsomol (Juventude) e os sindicatos. Durante o congresso, foi aprovado o novo programa do partido e sua reestruturação segundo o modelo social-democrata europeu. Yakovlev, Shevarnadze e outros defendem a construção de uma nova organização de massas, o Movimento das Reformas Democráticas. Yeltsin e o agrupamento Rússia Democrática rompem com o PCUS.

Agosto – Tem início entre e a União e as repúblicas a discussão de um novo Acordo da União, cujo objetivo era reformar profundamente a relação entre as repúblicas e o centro.

Outono – Rússia Democrática conquista 250 mandatos dos 1.063 disputados para o novo Congresso de Deputados do Povo. Seus votos estão concentrados nos grandes centros urbanos e industriais. O PCUS ainda detém 80% dos mandatos ao congresso.

Aprovado pelo Soviete Supremo a lei sobre privatização e desestatização. A lei previa a privatização de 40% a 50% do patrimônio industrial da URSS em um ano e meio, e de 20% a 30% no biênio seguinte.

9 de outubro – O Plano 500 dias é rejeitado pelo CC do PCUS, cujos membros passam a exigir medidas contra as forças extremistas. Sob pressão do CC, Gorbachev recua do acordo com Yeltsin e Silayev.

16 de outubro – Yeltsin acusa o governo da União Soviética pela ruptura do acordo e defende a implementação pela República da Rússia das reformas contidas no plano sobre a base da completa separação entre a União e a república da Rússia no que diz respeito a orçamento, propriedade, exército, armamentos e alfândega.

Fim de outubro – Congresso mineiro em Novo-Kuznetsky (Sibéria), com a participação de 334 delegados das principais regiões do país, se pronuncia contra a aplicação do Plano dos 500 dias.

1º de novembro – O Soviet Supremo da República da Rússia analisa a proposta de transferência para a propriedade republicana de toda a propriedade da União em território russo.

23 de novembro – Apresentado por Gorbachev o texto do novo Acordo da União. O texto abandona a definição do país como socialista. A sigla URSS passaria a significar União das Repúblicas Soberanas Soviéticas. O texto conserva um grande poder nas mãos da União, mantém as prerrogativas sobre a defesa (exército), soberania do Estado (KGB) e a política exterior nas mãos do centro. Cria o critério de soberania compartida ou dupla soberania sobre os recursos naturais, segurança e política econômica e social, dividido entre o centro e as repúblicas. Cria a possibilidade de que as repúblicas autônomas adiram diretamente a União, o que levaria, por exemplo, a desagregação de Rússia. A proposta desagradou a todas as repúblicas, inclusive as que não pleiteavam a separação como as repúblicas asiáticas. Enquanto a maioria das repúblicas já havia declarado a independência ou autonomia, o texto do tratado não reconhece o direito de independência.

Dezembro – Gorbachev busca tomar a iniciativa política, depois das rupturas no PCUS. Anuncia uma reforma estrutural em todo o aparato estatal e o fortalecimento do poder presidencial e das estruturas do Estado Central contra as medidas unilaterais votadas pelas repúblicas. Nomeia para as funções centrais da União (KGB, vice-presidência, Defesa, Interior) uma nova equipe que defendia uma linha de “mão-dura” com relação às repúblicas, que fica conhecida como a Troika.

4 de dezembro – Gorbachev exonera Bakatin do posto de ministro de Assuntos Interiores e nomeia Boris Pugo. O vice-ministro será o legendário general Gromov, veterano e herói da Guerra do Afeganistão.

17 de dezembro – Gorbachev nomeia Yanaev, para o posto de vice-presidente da URSS. Krioutchkov, nomeado recentemente por Gorbachev novo chefe do KGB, acusa os “esquerdistas e social-democratas, os nacionalistas e anticomunistas” de utilizar contra o partido o “terror moral e ameaças de ataques físicos e de atiçar as paixões nacionalistas e de organizar ações de massas provocadoras para desestabilizar o poder do Estado”. Referindo-se aos problemas sociais agudos, afirmou que, em ausência de uma solução política, seria necessário opor a força com a força.

21 de dezembro – Eduard Shevarnadze, Ministro das Relações Exteriores, renuncia ao cargo e denuncia a preparação de um golpe reacionário e a possível instauração de uma ditadura na URSS. Rompe a equipe central da Perestroika. O economista Shatalin e outros membros do birô político, Yakovlev a e N. Petrakov, rompem com Gorbachev nos meses seguintes.

Final de dezembro – O IV Congresso dos Deputados do Povo marca para março de 1991 um referendo sobre a manutenção ou não da URSS. Gorbachev passa a defender a palavra-de-ordem “A União ou o caos”.

1991

Início do ano – Marcado pelo aprofundamento da crise econômica, sobretudo de abastecimento. Nos seis primeiros meses do ano, o PIB foi 10% menor comparado com o mesmo período do ano anterior. A produção industrial, 6% menor, e a produção agrícola, 11%. A especulação comercial atinge níveis insuportáveis para a maioria da população. Também se acentuam as contradições entre a União e todas as repúblicas na medida em que não existe nenhuma instituição com autoridade para aplicar qualquer medida econômica a fundo. O mercado ilegal ganha a superfície. As cooperativas de comércio importam bens que vendem a preços altíssimos, encontrando compradores numa parcela da população conhecida como os novos ricos, que prosperam a partir da privatização do comércio e do surgimento da indústria de serviços e da expansão das cooperativas.

A propriedade do Estado Central sofre uma grande pilhagem. Casas de campo, empresas etc. são vendidas a preços ridículos. A máfia prospera com a cumplicidade do Estado.

Janeiro – Arkadi Volensk, ex-apparatnich e exercendo a presidência de uma associação lobista, a União pelo Desenvolvimento da Indústria e Tecnologia, agrupação de novos empresários, declara no Fórum de Davos que o problema da URSS se resume ao fato de que “a população esta infectada por uma ideologia política anticapitalista difundida pós-outubro de 1917 e continua acreditando no mito estéril da igualdade social”.

9 de janeiro – O Ministério do Interior proíbe o programa televisivo Usgliad, de corte oposicionista e crítico ao regime, o que gera manifestações e um abaixo-assinado pela reabertura do programa.

10 de janeiro – Gorbachev envia um ultimato ao governo da Lituânia exigindo a restauração da Constituição Soviética naquele território.

13 de janeiro – Forças especiais do Exército Soviético e da KGB e o temido Esquadrão Alfa tomam o centro de telecomunicações de Vilnius, capital lituana; 14 pessoas morrem.

24 de janeiro – Reforma do sistema monetário: toda a massa de dinheiro do país deveria ser trocada em apenas três dias, sendo que o limite pessoal era de 500 rublos por cidadão em cada troca. Em frente aos bancos, se formaram gigantescas filas que rapidamente se transformaram em tumultos. O objetivo da reforma, segundo palavras do primeiro-ministro Pavlov, era retirar de circulação de 5% a 10% da massa de dinheiro circulante no país e com isso aplicar um golpe de morte no mercado ilegal.

1º de fevereiro – Devido aos protestos causados pela reforma monetária, o governo da União ordena o patrulhamento conjunto entre as forças da polícia e o exército nas ruas das grandes cidades. Decreto da Presidência amplia os poderes das forças policiais e estende seus poderes para a supervisão das atividades econômicas.

10 de fevereiro – 90% da população da Lituânia votam pela independência em plebiscito organizado pelo governo republicano. Gorbachev se nega a reconhecer os resultados, declarando sua inconstitucionalidade.

19 de fevereiro – Yeltsin, em cadeia federal de televisão, acusa Gorbatchev de ter enganado o povo, além de utilizar as forças armadas contra os civis e de ser incapaz de fazer o trânsito a uma economia de mercado. Denuncia a instauração de uma ditadura chamada de direção presidencial. Conclama: “Gorbatchev conduz o país ao borde de uma ditadura e deve renunciar imediatamente”. Ele exige a transferência de seus poderes a um órgão coletivo, o Conselho da Federação.

O Soviet Supremo da URSS vota uma moção pela destituição Yeltsin da presidência da Federação Russa (292 votos contra, 29 a favor e 27 abstenções. O representante do Grupo Soyuz, grupo de deputados formado em 1990 a partir da onda de separação das repúblicas, defende abertamente a intervenção do exército para aniquilar os separatistas. Afirma que é necessária uma declaração de guerra e pede a decretação de estado de emergência e a criação de um conselho de defesa.

21 de fevereiro – 272 deputados do parlamento russo, organizados pelo PCR, assinam um manifesto pela convocação imediata do Congresso de Deputados do Povo da Rússia em seção extraordinária e pedem a destituição de Yeltsin. Entre os assinantes, estão seis deputados do grupo de Yeltsin.

22 de fevereiro – Manifestação em Moscou de apoio a Yeltsin, com cerca de 400 mil pessoas, exige a destituição de Gorbachev.

23 de fevereiro – Contra a manifestação organizada pelo PCUS, outra manifestação de apoio a Yeltsin, chamada às pressas, reúne cerca de 150 mil pessoas.

Final de fevereiro – Onda de greves e manifestações se amplia para as grandes cidades. Yeltsin ameaça punir todos os funcionários dos comitês do PCUS que não se submetam ao governo da Rússia e exige a dissolução do Soviet Supremo da URSS.

1º de março – Greve dos mineiros de Donbass, Kuzbass e Vorkuta. As reivindicações, além de aumento salarial, exigem a renúncia de Gorbachev, dissolução do Soviet Supremo da URSS e convocação de eleições.

3 de março – Estônia e Letônia fazem um referendo pela independência que é aprovado por esmagadora maioria.

Manifestação em Moscou convocada pela Plataforma Democrática com cerca de 100 mil pessoas.

6 de março – Reunião do Conselho da Federação, chamada por Gorbachev para discutir o novo Tratado da União. De 15 repúblicas, somente oito compareceram. Não houve acordo sobre a proposta de texto, as competências das repúblicas e da União e tampouco sobre qual a pergunta que deveria constar na cédula do referendo.

7 de março – Há dez dias do referendo sobre a manutenção da União, Gorbachev cria o Conselho de Defesa com amplos poderes. O órgão é integrado por todo o aparato militar (KGB, Ministério do Interior, polícia, complexo militar industrial) e o Ministério das Relações Exteriores. O grupo Soyuz reúne o número de assinaturas suficiente para a convocação do Soviet Supremo e pede a destituição de Gorbachev.

9 de março – Gorbachev publica o projeto da União contra a posição das repúblicas. Segue a campanha “A união ou o Caos”.

10 de março – Manifestação contra a destituição de Yeltsin e pela renúncia de Gorbachev reúne cerca de 600 mil. Os mineiros do Kusbass em greve enviam uma delegação à manifestação e pedem a solidariedade da população. No dia seguinte, na praça Manieznaia, começam a se acumular toneladas de produtos alimentícios doados pela população moscovita aos mineiros. Em outras cidades, ocorrem manifestações com a mesma reivindicação: Leningrado, Sverdlovsky e outras 17 grandes cidades.

17 de março – 148 milhões de pessoas participam do referendo sobre a manutenção da URSS; 76% (113 milhões) responderam sim à pergunta do plebiscito que foi formulada da seguinte forma: “Você considera necessária a manutenção da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas na forma de uma federação renovada de repúblicas soberanas e igualitárias, onde serão garantidas integralmente as liberdades e os direitos dos cidadãos que qualquer nacionalidade?” Ficam fora do referendo as seguintes repúblicas: Armênia, Geórgia, Estônia, Letônia, Lituânia, Moldavia.

22 de março – O comitê de coordenação da greve mineira convoca uma greve geral pela destituição de Gorbachev e envia delegados aos principais centros industriais. Os operários do complexo siderúrgico de Ulramash, nos Urais, entram em greve e declaram apoio à greve dos mineiros.

25 de março – Convocada manifestação para a abertura dos trabalhos do Congresso Extraordinário dos Deputados do Povo, que se reuniria no dia 28 e apreciaria moção pela destituição de Yeltsin. Decreto do Ministério do Interior proíbe novas manifestações em todo o território da União.

28 de março – Durante a abertura do Congresso Extraordinário dos Deputados do Povo da Rússia, a União ordena a mobilização das tropas e o cerco a Moscou. Os deputados se recusam a iniciar os trabalhos enquanto as tropas estiverem nas ruas: 50 mil soldados ocupam Moscou com carros blindados e um grande aparato repressivo. Ainda assim, a manifestação se realiza com um milhão de pessoas. Os manifestantes marcham em direção ao Kremlin e são barrados por um cordão policial, mas não houve violência.

Parte dos deputados comunistas, sob a liderança de Rutskoy, rompe com a União e com o PCR e forma a fração Comunistas pela Democracia, em apoio a Yeltsin, que recebe amplos poderes do Congresso. O congresso marca as eleições diretas para presidente da República Russa para junho.

Yeltsin recua da exigência da renúncia de Gorbachev e propõe a criação de uma mesa redonda de conciliação nacional entre a União, as repúblicas (com a participação da terceira força) e os mineiros em greve.

No final de março, 165 minas da União seguem paralisadas. Outras empresas, como a de extração de ouro em Chita, entram em greve. A maior fábrica de amianto, Uralasbest, em Sverdlovsky, se declara em greve. A greve dos mineiros se estende da Ucrânia ocidental até Tula nas proximidades de Moscou.

30 de março – A Geórgia proclama a independência após realizar um referendo.



1º de abril – Aumento oficial de preços para produtos de primeira necessidade. Os alimentos básicos aumentaram entre 250 a 300%, enquanto o aumento salarial foi de 20 a 30%.


2 de abril – Anunciada negociação com os mineiros em greve. Participam das negociações somente os sindicatos oficiais e os diretores da minas. Os sindicatos independentes são impedidos de entrar. A imprensa anuncia o fim da paralisação. No entanto, a greve segue se fortalecendo.

Congelamento da metade do valor dos depósitos em contas de poupança. Desvalorização do rublo ante o dólar de 450%.

3 de abril – Na cidade de Minsk, na Bielorússia, a fábrica eletromecânica Kozlov entra em greve contra o aumento nas refeições (“Preços de mercado, salários de mercado”). Ocupam as ruas da cidade e declaram apoio aos mineiros em greve. A principal fábrica de Caminhões de Minsk acompanha os operários da Kuzlov e se declara em greve.

Em outras cidades da Bielorússia (Grodno, Zhodino, Gomel) ocorrem paralisações. No dia 8 de abril, são 69 fábricas em greve. Em 9 de abril, são 100 mil manifestantes na praça Lênin. São formados comitês de greve por empresas. Uma assembleia com 40 mil operários cria o Comitê de Greve da República, que aprova uma greve geral para o dia 19 de abril. Além das reivindicações salariais, os grevistas exigem a destituição de Gorbachev e do Soviete Supremo da União e da República e a convocação de eleições imediatas.

11 de abril – São atendidas todas as reivindicações salariais na Bielorússia.

Os estudantes de Moscou realizam manifestações pelo aumento das bolsas de estudo.

Nas regiões mineiras da Sibéria, a greve se amplia para as empresas construtoras de poços das minas e as fábricas de automóveis.

16 de abril – Greve do setor de transporte em Kiev (Ucrânia). Em Leningrado, a fábrica Kirov organiza um comitê de greve e declara apoio às reivindicações políticas dos trabalhadores de Minsk. Em Sverdlovsky, a fábrica gigante Uralmamachzabod faz uma greve de advertência de duas horas apoiando as reivindicações de Minsk. Além disso, 46 empresas fazem uma greve de solidariedade com os mineiros.

No Cazaquistão, em Baku, os trabalhadores do Porto e da principal fábrica de máquinas da cidade entram em greve. Em Moscou, a fábrica Azlk entra em estado de alerta e aprova uma plataforma de reivindicações políticas exigindo a destituição de Gorbachev. Na Ucrânia, uma manifestação de mineiros em Kiev pede solidariedade aos trabalhadores. As fábricas Leninskaya Kouznista e a fábrica de aviões Antonov declaram solidariedade aos mineiros e entram em greve.

25 de abril – 100 mil trabalhadores em greve em Leningrado.

26 de abril – Greve geral de duas horas na Federação Russa contra a queda nos padrões vida; 50 milhões atendem ao chamado da Federação Russa de Sindicatos Independentes (ruptura dos sindicatos oficiais).

23 de abril – Pacto de Novo Ogarevo. Yeltsin, pela Rússia, e Gorbachev, pela União, e mais oito repúblicas reivindicam a estabilização das relações entre o governo central e as repúblicas. O pacto inclui a manutenção das medidas econômicas do ministro Pavlov: privatização de um terço das empresas de comércio e completa liberação dos preços até outubro; proibição das greves políticas. O pacto considera “intoleráveis às tentativas de alcançar objetivos políticos mediante a agitação e a desobediência civil e as greves e os chamados a revogação de leis e órgãos de poder estatais legalmente eleitos”. O pacto também abre negociações no sentido de modificar a proposta do novo Tratado da União. As repúblicas ganham status de estados soberanos e seria aberto, após a aprovação do tratado, um período constituinte de dez meses.

24 de abril – Declaração conjunta de Yeltsin e Gorbachev no Pravda exige o fim das greves. Alexandr Krieger, eletricista e vice-presidente do Comitê Nacional de Greve da região do Don, responde à declaração de Yeltsin: “não entendo sua atitude, é uma traição, devia ter nos consultado”. Outras declarações de dirigentes mineiros também tecem críticas a Yeltsin.

24 e 25 de abril – Em reunião do CC do PCUS, é apresentada uma moção pela destituição de Gorbachev do cargo de secretário-geral do partido. A moção é rejeitada.

29 de abril – Yeltsin viaja ao Novo-Kuznetsk (Sibéria) para convencer os mineiros a voltar aos trabalhos.

Primavera – Dissolvido o Pacto de Varsóvia e o Comecon.

Final de abril – A Maioria das reivindicações salariais é atendida. O governo central opta por uma política de aumento da inflação com a impressão massiva de rublos. A inflação dispara, mas o desabastecimento aumenta. Não se encontra produtos no mercado, exceto os importados a preços altíssimos.

5 de maio – Fim da greve dos mineiros. Yeltsin consegue o fim da greve com o compromisso de satisfazer as reivindicações com a transferência do controle das minas da União para a Federação Russa.

6 de maio – Yeltsin e Gorbachev assinam o acordo de transferência.

18 de maio – Publicação do decreto presidencial da União no Pravda, proibindo greve nos serviços essenciais.

12 de junho – Yeltsin vence as eleições para presidente da República Russa com 57% dos votos válidos. O candidato de Gorbachev, Bakatin, obtém uma votação ridícula. Rizhkov, que prega uma política de “mão-dura”, fica em segundo lugar.

Gorbachev se nega a reconhecer a independência da Lituânia e aplica a Lei de Secessão.

Gorbachev defende a entrada da URSS no FMI e o monitoramento do Banco Mundial e advoga a necessidade de empréstimos internacionais para salvar a economia e avançar para a economia de mercado.

20 de julho – O Soviet Supremo da Rússia decreta a despartidarização de fábricas e empresas. As células do PCUS não teriam mais qualquer papel dirigente nestes locais.

Final de julho – Gorbachev admite terem deixado o PCUS cerca de 5 milhões de filiados, reduzindo o número de membros de 21 para 15 milhões.

29 de julho – Yeltsin reconhece a independência da Lituânia.

Na reunião do G7, em Londres, Gorbachev comparece e pede novos empréstimos. Os imperialismos se negam a conceder qualquer empréstimo à URSS, condicionando toda e qualquer linha de crédito à adoção de medidas econômicas no sentido do plano de restauração da Polônia.

“A grande Barganha”: reativação da nova versão do Plano dos 500 dias. Uma equipe de economistas soviéticos, liderada por Yavlinsk, e uma equipe de economistas da Universidade de Harvard, dirigida por Graham Allison e Robert Blackwill, apresentam um plano de transição para a economia de mercado:

1. reforma fiscal e monetária com o objetivo de gerar superávit e tornar o rublo uma moeda conversível e liberação completa dos preços;

2. privatização imediata dos principais ativos do Estado;

3. achatamento salarial e política para o aumento da produtividade;

4. reforma constitucional e preparação de leis que garantam a liberdade de concorrência e o direito à propriedade e o fim de todo o monopólio do Estado.

5. redução do déficit público: redução das despesas militares; redução do efetivo das forças armadas; controle de especialistas norte-americanos sobre a energia atômica;

6. reconhecimento da independência dos países bálticos;

7. plano de investimentos externos na área de infraestrutura: telecomunicações, indústria energética.

23 de julho – Publicado no Sovietskaya Rossia (Rússia Soviética) Manifesto intitulado Um chamado ao Povo. O manifesto conclamava a luta por uma “pátria una e indivisível” e por um “Estado forte”. Assinam o manifesto o general Gromov, adjunto do Ministério do Interior, general Varenikov e outras personalidades vinculadas ao PCUS.

14 de agosto – publicada uma nova versão do projeto de Acordo da União, cujo texto não agradou a ninguém. Nessa época, todas as repúblicas da URSS já haviam elegido seus presidentes. A maioria das empresas havia sido entregue às administrações republicanas. A maioria das repúblicas já havia assinado acordos bilaterais entre si, ignorando a União. O PCUS permanecia a única estrutura realmente pan-soviética.

16 de agosto – Yakovlev denuncia pela rádio a preparação de um golpe de Estado.

Meados de agosto – Gorbachev, Yeltsin e Nazarbaev (presidente do Cazaquistão) se reúnem para discutir nomes para a nova direção do aparato da União após a assinatura do novo Acordo da União, que estava marcada para o dia 20 de agosto. Foi acertado o afastamento da futura direção das figuras mais odiosas, sobretudo daquelas mais ligadas ao aparato repressivo: Yazov, ministro da Defesa, Kriuchkov, chefe da KGB, Pugo, ministro do Interior, e o chefe do Gabinete de Ministros, Pavlov. Gorbachev deixa Moscou e parte em férias para a Crimeia.

18 de agosto – Uma delegação de ministros chega à Crimeia em busca de Gorbachev e propõe que este decrete estado de sítio no país. Gorbachev se recusa e é isolado. Em Moscou, é formada a G.K.Tch.P. (Comissão Estatal do Estado de Sítio), uma espécie de junta, cujos membros eram Yazov, Baklanov, vice-ministro da Defesa, Pavlov, primeiro-ministro, Kriuchkov, Pugo e Yanaev, vice-presidente da URSS. As principais medidas da G.K.Tch.P. foram a censura a todos os meios de comunicação, o afastamento de Gorbachev da presidência da URSS, a proibição de passeatas e manifestações, a ocupação de Moscou com tropas do Exército e reformas econômicas.

19 de agosto – Tropas chegam a Moscou trazidas pela G.K.Tch.P. Decretado toque de recolher. Começa uma grande concentração de pessoas em frente à Casa Branca, onde funcionava o Soviet Supremo e o governo da República Russa. Yeltsin, que acumulava as funções de Presidente da Rússia e Presidente do Soviet supremo da República Russa, chama a população a resistir ao golpe. A população atende ao chamado e constrói barricadas em frente à Casa Branca. Yeltsin assina um decreto subordinando à presidência da Rússia todos os órgãos da União localizados em território russo, inclusive a KGB, o exército e o Ministério do Interior. As tropas trazidas pela G.K.Tch.P. se recusam a entrar em conflito com os manifestantes. A G.K.Tch.P., rapidamente, perde o controle da situação. Yeltsin discursa em cima de um blindado.

Mobilizações operárias: Yuri Kovalenko, porta-voz dos mineiros de Vorkuta, chama a greve geral contra o golpe. Os trabalhadores do petróleo de Tiovmen se solidarizam com a declaração do dirigente mineiro. Dez fábricas em Vladvostok declaram greve. Em Leningrado, a Kirov e a fábrica de tratores Putilov anunciam a resistência ao golpe.

20 de agosto – Um tanque é atingido por um coquetel caseiro. O soldado que conduzia o veículo perde a direção e atropela três pessoas, matando-as. A indignação com o golpe assume proporções de massas. A maioria absoluta dos soldados, inclusive oficiais do exército e também da KGB, trazidos a Moscou pela G.K.Tch.P., permanece inativa perante as ordens dos golpistas. A Estônia decreta a sua independência.

21 de agosto – Os golpistas vão à Crimeia ao encontro de Gorbachev que se recusa recebê-los. Logo após, chegam à Crimeia o vice-presidente e o primeiro-ministro da República Russa, Rutskoy e Silayev. Gorbachev retorna a Moscou, onde Yeltsin já detinha o poder.

22 de agosto – De volta a Moscou, Gorbachev reassume suas funções e concede uma entrevista coletiva que encerra com uma frase inesperada: “De qualquer forma, eu não lhes contei tudo. E nunca contarei tudo”. Gorbachev se reúne com as nove repúblicas para discutir o futuro da União. Decidida a convocação extraordinária do congresso de deputados do povo.

23 de agosto – Todos os membros da G.K.Tch.P. são presos. Três deles são assassinados na mesma semana. Gorbachev se encontra com membros do Soviet Supremo da República Russa que exigem dele a dissolução do PCUS. Gorbachev pronuncia um discurso em que declara sua fidelidade aos ideais comunistas, mas renuncia ao cargo de secretário-geral e dissolve o Comitê Central e todas as organizações regionais do PCUS. Em novembro, por um decreto de Yeltsin, a atuação do PCUS será proibida em todo território russo.

28 de agosto – Yeltsin assina decreto em que subordina à República Russa uma série de estruturas e empresas da União, entre elas: a Academia de Ciências, todas as universidades, o Banco Estatal e o Banco de Comércio Exterior. Tem fim o financiamento por parte da República Russa dos ministérios da União, à exceção do Ministério da Defesa, Ministério dos Transportes e Ministério da Energia Atômica. Começa uma mudança geral na direção das principais estruturas do país.

Setembro – O Congresso de Deputados do Povo da União vota a criação de um Conselho de Estado para “impedir o colapso das estruturas do poder, até que seja definida a criação de um novo sistema político de relações entre as repúblicas”. Segue o debate sobre o caráter da União. O congresso vota que o novo tratado deve se constituir sobre a base de uma União de estados soberanos. O Conselho reconhece a independência das repúblicas Bálticas.

A Geórgia se retira do conselho, exigindo o reconhecimento de sua independência. Mobilizações em Tiblisi exigem a renúncia de Gamsakhurdia. Conflitos armados entre manifestantes e as forças de repressão deixam vários mortos.

Outubro – Dirigentes das 12 principais repúblicas anunciam em Alma-Ata, no Cazaquistão, um acordo de livre circulação de mercadorias, o controle do atual governo central sobre as armas nucleares e o respeito das fronteiras atuais.

1 de dezembro – A Ucrânia decreta a independência, que é imediatamente reconhecida pela Rússia.

8 de dezembro – Os presidentes da Rússia, Ucrânia e Bielorrúsia, Yeltsin, Kravchuk e Shushkevitch, se reúnem e formam a Comunidade dos Estados Independentes. Na declaração da reunião, lê-se: “A URSS, como sujeito do direito internacional e realidade geopolítica, não existe mais”.

21 de dezembro – Em Alma-Ata, 11 repúblicas assinam uma declaração de apoio e adesão ao CEI. Das antigas repúblicas soviéticas, só ficam de fora Geórgia, Lituânia, Letônia e Estônia.

25 de dezembro – Às 19h, Gorbachev faz um pronunciamento oficial, renuncia à presidência da URSS e a dissolve oficialmente.

*Extraído do livro O veredicto da História, de Martín Hernandez

Fonte: Portal PSTU - Especial 20 anos da queda do muro de Berlim

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Queda do Muro de Berlim: do sonho ao pesadelo

por Almir Cezar Filho

A República Democrática Alemã (RDA ou  DDR em alemão), nome oficial da Alemanha Oriental, era das sociedades do conjuntos dos Estados Operários do século XX a mais avançada. Contudo, no fim da década de 1980 esbarrou com o declínio econômico e da confusão política de seus aliados. A URSS da glasnot e perestroika se viu forçada a "entregar de bandeja" a RDA para a Alemanha Ocidental (República Federal Alemã - RFA), na tentativa de aproximação política, em vista a atrair investimentos alemães-ocidentais para o novo "socialismo de mercado" soviético em implantação por Gorbachov.


Os quase duas décadas de movimento abafada por revolução política  que exigia mais democracia e melhoria nas condições de produção e consumo nos países do Leste Europeu foram assediadas pelas "reformas" comandadas por Gorbachov. Em 1989 em visita a Alemanha Oriental, nas comemorações aos 40 anos da fundação da RDA, Gorbachov exige que a burocracia dirigente se submeta a nova aliança entre a URSS e a Alemanha Ocidental. O chefe da burocracia alemã-oriental Honnecker se nega. Nesse momento, a conjuntura abre-se para que os movimentos sociais da Alemanha Oriental rebelem-se e se re-organizem.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

20 anos da queda do Muro de Berlim: líderes mundiais encenam comemoração


A chanceler alemã, Angela Merkel, atravessou, nesta segunda-feira, ao lado do ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchov o local onde ficava um dos postos de controle do Muro de Berlim, em um ato simbólico que faz parte das celebrações dos 20 anos da queda do Muro de Berlim. Merkel, que nasceu na então Alemanha oriental, recebeu dezenas de líderes mundiais para comemorar a queda do Muro que dividiu a Alemanha por 28 anos e que foi considerado símbolo da Guerra Fria e do embate entre socialistas e capitalistas.

O discurso de Merkel foi acompanhado por milhares de turistas que lotam a cidade para acompanhar a série de atos, shows e outros eventos em celebração da "festa da liberdade". O premiê britânico, Gordon Brown, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, o russo, Dmitri Medvedev, e a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, participam das celebrações. Eles representam os aliados da Segunda Guerra (1939-1945) que dividiram entre si o território alemão após a derrota do nazismo de Adolph Hitler e que acabaram levando as duas Alemanhas divididas.

Figuras da época da Alemanha dividida também participam dos eventos, como Gorbatchov, cujas ideias de reforma no socialismo agravaram a crise do regime comunista alemão e aceleraram a queda do Muro.