quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Um pleno 2009!!!

Queridos amigas e amigos,

É terminado mais um ciclo solar.Os humanos consideram esse momento especial, instante para reflexões, votos e promessas.
Desejo a vocês que seja um instante de luz para iniciar uma jornada de realizações de suas potencialidades.

Um pleno 2009 pra vocês,
Almir

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Grandes desafios de 2009 - uma crítica aos neoliberais

Matéria no Blog do Luís Nassif (www.luisnassif.com.br)
29/12/2008 - 12:20
Os grandes desafios de 2009
No valor de hoje, Affonso Celso Pastore dá sua receita: em qualquer circunstância juros altos. Ou, como utilizar seletivamente argumentos em favor da tese.

Leia o artigo na íntegra (http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2008/12/29/os-grandes-desafios-de-2009/#more-14281)

Nassif pega o artigo do Pastore e comenta as contradições do pensamento neoliberal que o autor expõe a respeita da crise e da posição do Banco Central brasileiro nela.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Crise Mundial segundo Theotonio dos Santos

por Almir Cezar

O professor Theotonio dos Santos, do Departamento de Economia da UFF, recentemente em mesa do workshop internacional "A Crise Mundial: Desafios e Oportunidades" organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (PPGRI) da UFF, destaca que a crise econômica mundial tem como causa o aumento da tecnologia e a robotização da produção, que provocou queda de custo, produtividade colossal e diminuição nos preços dos produtos.

A crise cristaliza-se de três maneiras:

i) No setor financeiro, que precisa ser reestruturado, e os investimentos têm de ser feitos no setor produtivo. O setor financeiro se autonomizou da produção, mas seus lucros são gerados no setor produtivo, por transferência. Se há menor lucro no setor financeiro menor lucro possível será repassado ao setor financeiro. Contudo, os capitalistas nos últimos tempos invertiam capitais no setor financeiro, estragulando o setor produtivo.
ii) Na Índia se está produzindo carro por US$ 2,5 mil, e a China, que irá produzir carro ao preço de US$ 1 mil. Ele explica também que, em termos de tempo de produção, enquanto o Japão monta um carro, os Estados Unidos só fazem o correspondente a 40% dessa fabricação. O que leva a uma desvantagem competitiva, com a consequente menor taxa de lucro nas fábricas estadunidenses.

iii) não houve aumento na construção de imóveis e, sim, uma supervalorização dos que já existiam. O mesmo ocorreu com as empresas, uma supervalorização das ações, pelo efeito riqueza, pela valorização dos ativos (do patrimônio das empresas), e não pelo aumento dos dividendos a ser divididos aos acionistas, resultantes de um aumento dos lucros.

Dos Santos também ressalta que a população estadunidense está contra o apoio ao setor financeiro e é um processo compulsório de transferência de recursos que o Estado faz para esse setor. Como esse processo parece que não se dará calmamente o mercado financeiro não se tranquiliza. A crise financeira deverá ser prolongada e difícil, tanto pela gravidade própria como pela resistência popular.

Mensagem de Boas Festas

mensagem de Boas Festas que recebi do meu amigo Carlos Alberto Serrano que considero a mais bela mensagem desse tipo no presente ano. Lembra-no que o amor ao próximo não é exclusividade cristã.


Amigos,
Um fim de ano nos traz duas festas para comemorar: o Natal e o Ano Novo. Desejo à todos que tanto um quanto o outro sejam maravilhosos. Desejo um Feliz Natal, não pelo caráter religioso, do qual não compartilho como ateu, e como dois terços da humanidade que por este ou outro motivo também não o compartilham. Desejo um feliz natal com outro caráter: que esta festa perca seu caráter místico e mítico, se transforme num momento em que toda os trabalhadores possam confraternizar-se, num dia de perdão, compaixão e unidade frente ao mundo. E é isso que eu desejo à todos: que perdoem uns aos outros por seus erros, que tenham compaixão pelo seu companheiro ao lado, enquanto companheiros nessa jornada extraordinária que é a que vive há tanto tempo a humanidade neste pequeno mundo perdido no universo.E desejo um feliz ano-novo! Que esta época seja uma época de balanço de nossos erros e acertos, para que no ano que se avizinha erremos menos e acertemos mais. Principalmente, que em 2009 amemos e lutemos mais, pois nossas vidas só tem sentindo no amor e na luta. Que 2009 seja um ano de sonhos e realizações. Sonhos com o pé no chão da realidade, sonhos que transformem e realizem. Num ano que imporá desafios à todos nós trabalhadores, num ano de crise, que esta não nos proste, mas nos dê como nunca motivos para revolucionar nossas vidas e o mundo. Luta e amor é o que desejo à todos!
Grande beijo e abraços aos meus amigos, e que possamos estar mais próximos no ano que se avizinha!
Estes são os meus votos, de Carlos Serrano.


O que acham, não é boa a mensagem? Faço votos que em 2009 realizem suas potencialidades, lutem, preferencialmente coletivamente, pela efetivação dessas potencialidades.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

BC: fluxo cambial está negativo em US$ 4,098 bi

http://jbonline.terra.com.br/extra/2008/12/24/e241216060.html

Agência Brasil
BRASÍLIA - O Banco Central (BC) atualizou nesta quarta-feira os números relativos ao fluxo cambial dos primeiros 15 dias úteis de dezembro. O saldo da entrada e saída de moeda estrangeira continua negativo em US$ 4,098 bilhões. Porém é positivo no acumulado do ano em US$ 1,292 bilhão.


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Comentário

As empresas multinacionais e as nacionais com acionistas estrangeiros estão remetendo como nunca lucros e dividendos para compensar os prejuízos nos negócios de lá fora ou para salvar as matrizes que estão em situação pré-falimentar.

Se a Vale adquire ativos de carvão na Colômbia, por que que ela demite dizendo ter prejuízos?

A notícias abaixo da compra de empresa pela Vale

http://jbonline.terra.com.br/extra/2008/12/24/e241215986.html]

SÃO PAULO, 24 de dezembro de 2008 - JB Online -A Companhia Vale do Rio Doce (Vale) informou ontem que assinou um contrato de compra e venda para adquirir 100% dos ativos de exportação de carvão da Cementos Argos (Argos) na Colômbia por US$ 300 milhões.

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Essa notícia comprova que o problema da Vale não é a desaceleração econômica com a redução das suas exportações de minérios. Não anda faltando dinheiro para essa empresa, haja visto que compra outra empresa.

Mas o que há é a exigência de ampliação rápida e urgente dos lucros gerados por ela a fim de compensar a redução dos lucros e ou compensar prejuízos em outros negócios dos seus acionistas.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

É Natal

Enfim... é mais um solistício de Natal.
Como manda a tradição, não apenas cristã, é um momento solene de confraternização e reencontro das famílias e amigos para celebrar a vida, o renascimento e a boa-vontade e todos os mais nobres sentimentos humanos.
Desejo aos amigos leitores do blog que sejam inundados pelos sentimentos de boa-vontade e solidariedade.

Um feliz Natal.

sábado, 20 de dezembro de 2008

O padrão de desenvolvimento abriu o Brasil à crise internacional

Crise econômica internacional é transmitida a economia brasileira pela dependência que está tem ao capital internacional, muito mais, do que pela questão do impacto sob exportações e crédito.

O capitalismo brasileiro é maduro, organizado e integrado à economia internacional. À primeira vista, parece tratar-se de um capitalismo com acentuado grau de autonomia, em decorrência da anterior participação do Estado na economia.

Contudo, essa participação realizou-se sob a lógica do capital internacional e serviu para facilitar a consolidação dos monopólios internacionais no Brasil, e não para estabelecer um processo de desenvolvimento econômico sustentado e autônomo, num projeto auto-consciente da burguesia interna.

Até mesmo os poucos grandes capitais nacionais que sobreviveram ao terremoto neoliberal dos anos 1990 encontram-se atualmente integrados e dependentes ao grande capital internacional.

Grandes empresas como a Vale, ou mesmo a Petrobras, têm como acionistas empresas, bancos e investidores estrangeiros, onde quando caiem seus lucros em outros negócios, obrigam, para manter o patamar de suas rentabilidades, sacrifícios ou sobrecargas nos negócios brasileiros. Está aí a razão da crise sobre empresas como a Vale, muito mais do que a queda conjuntural de vendas, é sim a exigência de manter ou ampliar as receitas para enviar lucros aos seus acionistas, que simultaneamente passam por forte prejuízos com empresas de seus países.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Selvageria da PMERJ a ativistas contrários a entrega de petróleo brasileiro

Nesta quinta-feira as manifestações contra a 10ª Rodada de Licitações de Blocos para a Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural - um protesto era pacífico - acabaram com uma brutal violência da Polícia Militar e da Guarda Municipal no Rio de Janeiro. Num repressão brutal e perseguição implacável pelas ruas do centro do Rio, que lembra os tempos da ditadura militar. O saldo foram cerca de 50 feridos e três presos.

Eduardo Henrique Soares da Costa, diretor do Sindipetro-RJ e militante do PSTU, foi internado às pressas, gravemente ferido com um corte na cabeça. Um militante do MST teve o braço quebrado. Emanuel Cancella, coordenador-geral do Sindipetro-RJ, Gualberto Tinoco “Pitéu”, professor, diretor do Sepe-RJ e militante do PSTU, e Thigo Lúcio Costa, estudante de jornalismo, estão detidos.

Já existe uma moção de repúdio a violência, e muitos sindicatos e movimentos já assinaram. Está circulando na internet e é muito importante que ela consiga o máximo de apoio. É preciso saber quem deu a ordem. Se foi o comando, se foi a ANP, o governo do estado.
É obvio que os PMS agiram assim para proteger a entrega do petróleo. Entregaram 50 no primeiro dia. A Petrobras, a ANP (dirigida pelo PCdoB) e o governo Lula também precisam se pronunciar.

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Leia mais em www.pstu.org.br

Carta da Ocupação Machado de Assis

Companheiros, recebi um carta dos ativistas sem-teto da Ocupação Machado de Assis, na cidade do Rio de Janeiro. A carta por si só explica o processo e a dinâmica desse movimento, do qual estou totalmente solidário e que pretendo, inclusive, manter um intercâmbio de idéias e ações.

Camaradas,

Na madrugada do dia 21 de novembro de trabalhadores sem-teto do Rio de Janeiro deram mais uma resposta ao já conhecido problema de habitação popular do nosso país. Cerca de cem famílias ocuparam na rua da Gamboa número 111 o que antes era uma fábrica abandonada a cerca de vinte anos e agora é a Ocupação Machado de Assis.
Em mais um passo pela abolição da escravatura que continua disfarçada nos dias atuais na forma de subemprego, do racismo e da criminalização do povo pobre, as trabalhadoras e trabalhadores sem-teto iniciaram essa luta que não é restrita apenas à conquista da moradia
A Ocupação Machado de Assis também pretende ser um instrumento de resgate da cultura da região de Gamboa, berço do samba, do carnaval e de outras manifestações da cultura negra no Rio de Janeiro. Por isso pretendemos desenvolver atividades da cultura afro-brasileira como capoeira, culinária afro, carnaval de rua entre outras. Além de atender a uma antiga reivindicação das religiões de matriz africana, que é um espaço que receba as imagens de orixás que estão há décadas retidas no museu da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

à Memória de dois lutadores de Niterói que partiram

Em menos de uma semana eu e Niterói perdermos duas figuras maravilhosas e corajosas da esquerda: o professor João Batista de Andrade e a gari Rogéria. Os dois eram meus amigos pessoais.

João Batista era um figura que influenciou muitos jovens de Niterói e através desse jovens outros foram influenciados - passaram a ser sujeitos críticos e ativos. JB além de ser um "eterno" candidato a vereador, era vanguarda no movimento da educação pública, mas também participou de quase todas as lutas que Niterói e região passou. Morreu atropelado na semana passada.

Rogéria era ex-sindicalista do Sintacluns (sindicato dos trabalhadores em asseio, conservação e limpeza urbana) e militante do PSTU. Morreu anteontem.
Fiquei chocado com as perdas e não tinha palavras para postar aqui. Após a perda de um tive que passar por outra.

Niterói sentirá falta desse dois abnegados lutadores. Espero que as futuras gerações lembrem-se de seus sacrifício e vitórias.

JB e Rogério presentes!!!

Crise dos EUA e teoria do sistema-mundo

por Almir Cezar

Posto aqui um artigo escrito por Theotonio dos Santos para a revista Teoria&Debate (da Fundação Perseu Abramo). É uma resenha do livro O Longo Século XX do Giovanni Arrighi. Theotonio e Arrighi são dois expoentes na chamada "teoria do sistema-mundo". Em O Longo Século XX Arrighi tenta construir a idéia que o século XX representa maior do que seria cronologicamente é, e sim, o período histórico do capitalismo de configuração enquanto sistema mundial.

Arrighi e Theotonio já anteviam a vários anos a crise na economia dos EUA e perde seu papel no sistema mundial - contrapondo um pouco ao que José Luís Fiori escreve (como está no artigo que postei ontem). Theotonio contudo, afirma que o enfraquecimento dos EUA não implica sua sucessão por algum país da Ásia, como concluirá Arrighi, mas como ele afirma que o processo de fragilização dos EUA vem de um processo a mais tempo do que apenas resultado da presente crise de 2008. Na verdade a crise é a manifestação mais radical desse processo de mais de uma década.

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Resenhas: A teoria do sistema-mundo
em 31/01/1997 2845 leituras)

O Longo Século XX, de Giovanni Arrighi. Contraponto, Rio de Janeiro, 394 páginas 1996.por Theotônio dos Santos

A tradução para o português de premiado livro de Giovanni Arrighi sobre o longo século XX e a ampla repercussão que alcançou na imprensa brasileira sua presença no país representam o início da atualização do Brasil com uma corrente de pensamento que ocupa um lugar proeminente nas Ciências Sociais contemporâneas. Arrighi faz parte do grupo de cientistas sociais que, desde os anos 70, vem trabalhando sistematicamente numa reinterpretação da história da economia, da sociologia e da antropologia a partir da noção de sistema mundial. Esta categoria de análise arranca de Braudel - na sua recém-traduzida História da Civilização Material - e é trabalhada sistematicamente por lmmanuel Wallerstein no conjunto de livros que vem escrevendo sobre O Moderno Sistema Mundial. Gunder Frank, Samir Amin e outros autores, entre os quais me inscrevo, deram um grande desenvolvimento a este enfoque teórico quase desconhecido no Brasil.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Colapso do poder americano?

Essa é a tese do professor José Luís Fiori, que a crise atual, apesar de seu epicentro ser nos EUA e o fragilizar como nunca, não representa o fim ou colapso de seu poder.

A matéria abaixo me foi enviada pelo meu amigo o pesquisador Henrique Barros do CEPES através da lista epin.

Boa lida.



Livro debate o "mito do colapso do poder americano"
"Os professores José Luís Fiori, Carlos Medeiros e Franklin Serrano, do Núcleo de Estudos Internacionais do Instituto de Economia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) lançam livro defendendo que a crise atual não significa o fim do poder dos EUA ou do capitalismo. Lançamento ocorre nesta quinta, na Livraria Argumento, no Rio de Janeiro.Redação - Carta MaiorA Editora Record e a Livraria Argumento lançam nesta quinta-feira (11), no Rio de Janeiro, o livro “O mito do colapso do poder americano”, de autoria conjunta de José Luís Fiori, Carlos Medeiros e Franklin Serrano professores do Núcleo de Estudos Internacionais do Instituto de Economia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em meio à grave crise econômica que assola todas as nações do planeta, os autores argumentam que a desordem, a crise e as guerras fazem parte de uma transformação de longo prazo, que vem aumentando naturalmente a pressão competitiva dentro do sistema mundial e provocando uma nova corrida imperialista entre as grandes potências. O lançamento ocorrerá às 19 horas, na Livraria Argumento Copacabana (Rua Barata Ribeiro, 502).
O livro surgiu durante uma conversa entre os três professores no final de 2007. Na ocasião, eles debateram sobre a abordagem de políticas internacionais, que acreditavam estar muito defasada , relata Franklin Serrano. Com a recente crise na economia norte-americana, iniciada com o colapso do setor imobiliário, a obra acaba por caracterizar uma fase imediatamente anterior à conjuntura atual. No livro, Carlos Medeiros trata das diferenças no processo de transição para o capitalismo da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e da China. José Luis Fiori, por sua vez, ao contrário do que alguns autores vêm defendendo, argumenta que a crise atual não significa o fim do poder dos Estados Unidos ou do capitalismo. Para Fiori, “apesar da violência desta crise financeira, não deverá haver um vácuo nem uma sucessão na liderança política e militar do sistema mundial”. Do ponto de vista econômico, defende ainda, o mais provável é que ocorra uma fusão financeira cada vez maior entre a China e os EUA.
Segue entrevista concedida por José Luís Fiori ao jornal O Globo (em 30/11/2008), tratando de um dos argumentos centrais do livro:
“Vai haver uma nova corrida imperialista"
Professor e diretor do Programa de Pós-graduação de Economia Política Internacional da UFRJ, José Luís Fiori contesta a tese de que a crise global, que nasceu no berço americano, signifique o fim ou colapso do poder global dos Estados Unidos ou a crise terminal do capitalismo.
No livro que chegou às bancas esta semana, "O mito do colapso do poder americano" (Record), escrito em parceria com Carlos Medeiros e Franklin Serrano, Fiori volta ao século XIII para mostrar o movimento de formação dos Estados nacionais. Ele prevê "nova corrida imperialista", com os EUA no papel central, junto com China e Rússia, indo para África e Ásia Central. E diz que acabou a "adolescência assistida da América do Sul".
No seu livro, o senhor prevê uma nova corrida imperialista. Como isso vai ocorrer, quem serão os atores dessa nova corrida?Fiori: É uma idéia de uma explosão, que eu exponho pela primeira vez nesse livro. Cheguei a essa conclusão, a partir de uma reflexão longa, com um diálogo crítico com toda a teoria dos ciclos hegemônicos. Concordo que os EUA estão enfrentando no campo econômico e de sua estratégia militar internacional uma grande crise. Minha divergência é teórica e tem a ver com a própria déia de que o foco de analise do sistema mundial seja a ascensão e declínio de países tomados individualmente. A minha pesquisa histórica e minha reflexão teórica foram cada vez me fazendo pensar mais na relação da Inglaterra e Estados Unidos, não como uma sucessão de ciclos hegemônicos, e sim, uma continuidade de uma mesma força expansiva anglo-saxônica, que arranca da Holanda, passa pela Inglaterra e chega ao Estados Unidos. Mesmo que aceitasse que houvesse fim do ciclo hegemônico, ela não tem nada a ver com o fim de um modo de produção e da uma formação social.
Globo: Fala-se até em fim do capitalismo... Fiori: Mesmo que acreditasse nesse colapso, o fim da supremacia americana não é o fim do capitalismo. Não vai ser o fim do capital financeiro. Não há nenhum sinal disso. A origem desse sistema mundial que nasce da Europa e é ganhador impõe sua supremacia ao mundo, nas suas formas básicas de organização do poder como estado e da economia como capitalista. Vitória estrondosa que nasce na Europa nos Séculos XII a XIV até o aparecimento das economias nacionais no fim do século XVI. Fernando Braudel sugere que é preciso subir ao sótão para ver as relações do príncipe com o banqueiro. O sistema mundial que nasceu na Europa se assemelha mais a um universo em expansão contínua do que a uma sucessão de ciclos vitais ou biológicos. Como se este sistema acumulasse energia e se expandisse de forma continua desde o século XIII e passando momentos de explosão expansiva, como no século XVI, XIX e agora de novo, neste início do século XXI.
E a globalização? Fiori: O que se globalizou foi o fenômeno do estado nação. Agora tem estado nacional para todos os lados. No início do Século XX, eram no mais 60 países, no máximo. Agora tem 200 estados. O capital, quando mais fortalece e expande, mais fica nacionalista.
Com a crise, isso ficou mais claro? Fiori: Agora só um cego não vê. Ficou transparente a relação inseparável que sempre existiu entre o príncipe e banqueiro, de que fala Braudel.
O senhor quer dizer que não é possível essa separação entre estado e mercado? Fiori: Jamais, porque a união entre o Estado e o capital foi a originalidade da Europa e é a grande fonte da força expansiva vitoriosa deste sistema que nasceu na Europa. Uma teoria que só fale do mercado não dá conta do que seja o capitalismo. Como disse Braudel, "o capitalismo é o antimercado". O pior do ponto de vista ético é que o que "ordena" esse sistema mundial é a possibilidade permanente da guerra, e a existência de "eixos de conflito crônicos". Não são os acordos internacionais ou multilaterais, estes acordos são sempre transitórios, o que permanece é a possibilidade e a preparação permanente para a guerra. Além disto, este sistema em expansão é sempre "imperialista" e neste sentido o imperialismo não é uma etapa superior do capitalismo, é sua condição originária e permanente. Neste sistema interestatal capitalista a sua liderança é sempre coletiva, competitiva e complementar. E seus líderes transitórios nunca desaparecem. Neste sentido, uma vez que se afirmou globalmente o poder americano, ele pode se transformar, mas já não desaparecerá mais, a menos que este sistema ou universo desapareça como um todo. Para bem ou para o mal, já não há possibilidade de uma ordem mundial futura, qualquer que ela seja, sem a presença do poder americano, que jamais vai parar de acumular poder e riqueza, mesmo quando já esteja quilômetros à frente dos seus seguidores e competidores imediatos.
E para onde deve se dar esta nova onda expansiva de que o senhor fala? Fiori: Minha impressão que está expansão competitiva e imperialista se dará imediatamente na África Central, e em um tempo mais, na América do Sul.
Então, a África é o continente da vez? Fiori: Lamentavelmente, porque é um continente que foi punido por todas as ondas expansivas e imperialistas do sistema mundial. Além disso, a competição entre as grandes potências gera "zona de fratura" onde tendem a se multiplicar as guerras civis, como já está acontecendo de novo na África A América do Sul virá logo a seguir por se tratar de um território com imensos recursos energéticos, minerais, hídricos, com zonas de plantações de alimentos espantosamente produtivas e população escassa.
É um território potencial sim. Há sinais disso. Conflitos aqui e lá. Uma manifestação indiscutível de que a região está se integrando dentro do sistema mundial de competição entre as nações. Já não há mais espaço vazio. Todos estão dentro da zona de pressão competitiva global. Neste sentido, costumo dizer que acabou a "adolescência assistida" da América Latina. Chegou a hora de caminhar com as próprias pernas dentro de um mundo cada vez mais complexo. O nível de relacionamento econômico, trocas, de comércio e investimento, está crescendo. As conexões energéticas e de transporte estão se adensando. Seremos em breve os maiores exportadores de alimentos do mundo, e a Argentina já ocupa um lugar de destaque neste campo. Não é uma coisa trivial. E há o petróleo. A água é questão essencial.
Já há sinais disso? Fiori: Por todo o lado. Pequenos conflitos já são manifestações de coisas que estão em curso. Você vê menos porque a América Latina é uma região sabidamente de supremacia americana. Mas a ativação da IV frota americana é um exemplo deste aumento da preocupação com o continente. Estas disputas no continente não passam apenas pelo interesse e a competição externa, passam também pela expansão do Brasil e dos seus interesses econômicos e políticos que também vão se internacionalizando rapidamente. Aqui também, este aumento da pressão competitiva tende a criar novas "zonas de fratura", ativando assimetrias e diferençaspreexistentes que acabam se transformando quase invariavelmente em guerras civis ou regionais, como acontece em todo o mundo. As assimetrias e conflitos locais que estavam latentes e que se transformam em conflitos vivos.
E a Rússia? Fiori: Na verdade, um dos grandes desestabilizadores do sistema mundial nas próximas décadas deverá ser a Rússia e não a China. A Rússia foi a grande derrotada deste final do século XX, e perdeu cerca de um terço do território do seu velho império. Daqui para frente sua estratégia estará sempre voltada para a recuperação total ou parcial de suas perdas. Isso será um fator básico de contestação de qualquer nova ordem que nasça nas próximas décadas. É inevitável. Não há como a política externa e a estratégia internacional da Rússia não estarem orientadas nos próximos 50 anos pela perdas que teve nos últimos 15 anos. Não há como. É da lógica do sistema, é da história.
Por que? Fiori: Não se tira um terço de seu território e de sua população sem provocar uma resposta. Ninguém, nenhum povo jamais aceitou pacificamente este tipo de amputação.
No seu livro, o senhor diz que não haverá um duelo final entre China e Estados Unidos. Fiori: Nem haverá um duelo final e a integração financeira só tende a crescer, numa aliança virtuosíssima. Isso não quer dizer que não vão competir fortemente pelo controle de energia e de alimentos...
E o Obama? Fiori: Frente a uma situação como a que estamos vivendo, não há conversa. É uma crise econômica, profunda, extensa, gravíssima, prolongada. A isso se junta a incerteza do ponto de vista estratégico militar americano depois do fracasso no Oriente Médio. A junção das duas coisas cria um situação de grande complexidade seja na administração da crise econômica, seja na reorientação da estratégia militarinternacional dos EUA.
E a sua futura política externa? Fiori: Neste campo, muitos depositam expectativas contraditórias no novo governo americano. Mas, o programa democrata da sra. Hillary como o de Obama são explicitamente intervencionistas. Além disto, a provável futura secretária de Estado, sra. Hillary Clinton, foi a favor da guerra no Iraque. E no governo de Bill Clinton, os Estados Unidos fizeram cerca de 48 intervenções ao redor do mundo ao contrário do que se imagina do que foi a década de 90. Os Estados Unidos têm hoje acordo militar com cerca de 130 países e tem mais de 700 bases militares ao redor do mundo. Os EUA não têm mais como recuar desta posição global. Enfrentarão dificuldades e contradições crescentes, mas não recuarão por sua própria vontade.
O senhor diz que o Brasil não terá uma presença internacional maior, que vai consolidar sua posição na América do Sul. Fiori: O que digo é que o Brasil não tem capacidade nem mostra interesse em projetar globalmente o seu poder. Mas sim tem um poder e capacidade crescente dentro da América do Sul. Neste sentido, deve se prever uma tensão maior entre o Brasil e a nova administração democrata do que a que houve durante a administração republicana. Haverá disputa de interesses de todos os tipos crescentemente, mas não quer dizer que haverá um rompimento com os Estados. Pela tradição dos democratas, e pelos programas de Obama e Clinton, pode-se prever uma intervenção americana maior na América do Sul. Portanto, deverão surgir mais áreas de divergência entre o Brasil e os EUA. É natural que assim seja. Eu diria que é inevitável. Além disso, o Brasil tem alargado sua presença em vários cenários, e instâncias multilaterais, isso o Brasil expandiu muito. Relações com a África, com a Ásia, o G-20. Mas isso é diferente de ter uma capacidade de projeção global de poder que tem a ver Basicamente com canhão e capital.
O senhor acredita numa mudança na engenharia financeira depois da crise? Fiori: Sim, mas sem qualquer tipo de acordo ou regulação multilateral . Mais uma vez, como nas década de 70 e 80, os EUA vão tentar reorganizar e regular o sistema a partir de si mesmo. O resto serão reuniões e discursos. Bom material para discussões de intelectuais e teses acadêmicas. Mas que não servirão para mais nada do que isto.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Vale quer que Lula reduza direitos trabalhistas

por Almir Cezar Filho

O presidente da Vale, Roger Agnelli, quer que o governo adote “medidas de exceção” para enfrentar a crise. Ele sugeriu a Lula que promova a flexibilização dos direitos trabalhistas para “ganhar tempo até que a situação melhore”, segundo disse o próprio Agnelli em entrevista ao O Estado de SP. O jornal classifica o empresário como “interlocutor privilegiado” do presidente.

O curioso é que os executivos das grandes empresas do porte, do tipo da Vale, choram agora pedindo privilégios ao Estado para se auto-sustentarem diante da crise enquanto à anos atrás pediam não interferência sobre seus negócios.

A poucos dias o presidente da Ford, implorava ao governos dos EUA, ajuda econômica para vencer os desafios da crise. Durante anos ganharam mais de 50 milhões por ano e não deram nenhum retorno a sociedade e aos seus trabalhadores. Porque não cortar dos seus próprios salários? Por que nos anos de bonanças não diminuiram seus lucros?
Essa situação prova que a burguesia e seus gerentes apenas sabem administrar a economia em época de abundância e bonança, à primeira crise querem transferir as despesas e os prejuízos aos trabalhadores da festança que fizeram na época de grandes lucros. O curioso é que a VALE lucrou apenas no primeiro ano após a privatização o valor pelo que foi vendida na privataria de FHC.

Não recentemente a revista Veja (baluarte do neoliberalismo neofascista brasileiro) mostrava com muito orgulho os aumentos astronômicos de faturamento dessa empresa, exaltando sempre a decisão certo de FHC em privatiza-la e inclusíve fazendo comparações com empresas públicas que não haviam sido privatizadas e que não conseguiam faturar tanto, ou seja, mandar tanto dinheiro para fora do país. Agora para que onde foi todo aquele dinheiro?.

Agora pedem redução de direitos trabalhistas. Direitos esses, que apenas parte da população tem acertos, se não bastasse a outra parte viver no mundo da informalidade, provocada pelo desemprego provocado pelos anos reengenharias das grandes empresas. Agnelli poderia dar o exemplo, “flexibilizando” seus próprios direitos trabalhistas, ou mesmo seu salário. Ou, melhor suprimindo seus privilégios corporativos referente ao seu cargo na empresa.

O pior é que Lula de certa forma foi eleito pela burguesia brasileira para flexibilizar os direito dos trabalhadores. A corja da burocracia sindical cutista e da Força vai apoiar e aplaudir. Acredito que os trabalhadores não irão aceitar.

O que Lula deveria fazer é - se a Vale precisa tanto de ajuda - que volte a ser pública e que os futuros lucros sejam transferidos ao povo brasileiro, e que isso aconteça com todas as estatais. E a cada empresa que receber ajuda haja controle dos trabalhadores na produção e no lucro e garantia e estabilidade de emprego aos funcionários.

Competição imperialista global

Recebi do meu amigo Henrique Barros, pesquisador do CEPES, centro de estudos, pesquisas e planejamento econômicos-sociais, esse texto de José Luís Fiori, professor do instituto de economia da UFRJ, sobre as mudanças na geopolítica mundial e na dinâmica social em decorrência da presente crise econômica mundial.
O texto me foi enviado pela lista do grupo de discussão sobre Economia Política Internacional que Henrique vem organizando para debate a crise o endereço eletrônico para mensagens é epin@yahoogrupos.com.br .

O Fantasma das rebeliões

"O mais provável é que voltem à ordem do dia as revoltas e revoluções sociais. Elas não serão socialistas nem proletárias, mas adquirirão maior intensidade e violência nos territórios situados em "zonas de fratura [1]"

José Luís Fiori(12/12/2008)

Não existe uma teoria da revolução, existem várias. Mas quase todas reconhecem a existência de um denominador comum. Na experiência revolucionária dos séculos 19 e 20, as revoltas acontecem - quase sempre - em sociedades fraturadas, com estados enfraquecidos pelas guerras e por grandes crises econômicas, e situados em "zonas de fratura", onde se concentra a pressão geopolítica da disputa entre as grandes potências. São nestes territórios, que costumam nascer e multiplicar as rebeliões mais importantes e resistentes. Sempre violentas, não tem homogeneidade ideológica e não produzem grandes mudanças estruturais imediatas, como costuma acontecer no caso das revoluções sociais e políticas bem sucedidas. Pois bem, se esta tese for correta, não é difícil de prever o novo mapa mundial das rebeliões, deste início do século 21. Basta seguir os passos da competição geopolítica e econômica das grandes potências, depois do fim da Guerra Fria, e localizar os seus pontos de maior pressão competitiva, onde estas potências exercem de forma mais direta sua capacidade de dividir e mobilizar as forças locais, umas contra as outras, dentro dos estados situados nestes "tabuleiros geopolíticos" mais disputados. Alguns destes pontos são mais visíveis, e de explosividade imediata. Outros, são menos visíveis e de combustão mais lenta.Tudo começou em 1991, com a desintegração da União Soviética e a entrada das forças OTAN ou dos EUA, na Europa Central, nos Bálcãs, no Cáucaso e na Ásia Central - região mundial de maior complexidade geopolítica, envolvendo os territórios do Afeganistão, Paquistão, Norte da Índia, Cashemira e Tibet. Não havia nenhuma grande potência que não estivesse envolvida em alguma destas áreas e na disputas pelo seu controle. Utilizavam ou incentivavam grupos e organizações locais, de todo tipo, numa sucessão de revoltas, rebeliões, atentados terroristas e guerras civis que não tinham como parar, a menos de um acordo multilateral improvável, ou de uma retirada de todas as grandes potencias envolvidas, o que é rigorosamente impossível do ponto de vista da lógica do sistema e dos interesses e posições que já tinham sido ocupadas pelos participantes daquele novo "grande jogo". Alfred Mackinder e Nicholas Spykman - os dois maiores teóricos geopolíticos anglo-americanos - definiram esta faixa de terra que vai do Báltico até a China, como uma fronteira decisiva para o controle do poder mundial, situada entre as "potências marítimas" e as "grandes potências terrestres", ou seja, entre a Grã Bretanha e os Estados Unidos, de um lado, e do outro, sobretudo, a Rússia e a China.Logo em seguida, neste "mapa da pólvora", apareceu a África Negra. Depois de 2001, os EUA mudaram sua política externa e aumentaram sua presença no continente africano. Mas tal mudança de posição não foi um fenômeno isolado, e foi seguida pela União Européia, Rússia, China, Índia, e também pelo Brasil. Em poucos anos, o cenário africano mudou. Aumentou a competição imperialista, e de novo, como nos séculos anteriores, as potências e suas grandes empresas utilizam a seu favor, e muitas vezes incentivam , as lutas tribais e as guerras locais, entre os estados que nasceram da decomposição dos seus próprios impérios coloniais. Neste momento, já estavam em curso rebeliões e guerras civis, no Congo, na Somália, no Zimbábue e na Nigéria, com participação de países e empresas de fora da África, e com o envolvimento direto de Angola, Ruanda, Namíbia e Burundi. Também neste caso, não havia perspectiva de acordo local, ou de retirada das grandes potências, e o mais provável é que a África se transformasse - uma vez mais - em território privilegiado da corrida imperialista e num verdadeiro "semilheiro" de rebeliões de todo tipo.

Tudo indica que a América do Sul foi incorporada e não tem mais como escapar da pressão competitiva mundial

E o que se pode prever com relação à América do Sul? Durante os séculos 19 e 20, foi uma região de influência anglo-americana, sem grandes disputas imperialistas. Mas neste início do século 21, o cenário e as perspectivas mudaram. De forma lenta, mas implacável, a pressão da nova corrida imperialista, que começou na década de 90, está alcançando a América do Sul e deve produzir os mesmo efeitos do resto do mundo. Já fazem parte deste processo, o envolvimento militar americano com a Colômbia, a reativação da IV Frota Naval dos EUA para o Atlântico Sul, a intensificação dos conflitos fronteiriços entre Venezuela, Colômbia e Equador, e os conflitos internos da Bolívia e da própria Colômbia. Mas também: a criação da UNASUL e do Conselho de Defesa da América do Sul, e todos os projetos políticos e econômicos de integração regional, assim como os grandes projetos de integração comercial e de investimento produtivo na região, da UE, da China, da Rússia, e demais países de fora do continente. Tudo indica que a América do Sul foi incorporada e não tem mais como escapar da pressão competitiva mundial, produzindo uma maior integração do continente mas também, uma maior disputa entre os seus estados, e em particular, entre o Brasil, os Estados Unidos.
Nesta mesma direção, algumas áreas da América do Sul também devem transformar-se em "zonas de fratura" internacional, e aí podem surgir conflitos e rebeliões que envolvam as grandes potências e as empresas que competem pelo controle da região. E no caso das regiões de maior densidade indígena, nos próximos anos, estas rebeliões tenderão a ser de direita, brancas e racistas.Finalmente, sobre este pano de fundo de deve e pode calcular o impacto da nova crise econômica mundial. Será prolongado e deverá atingir todas estas "zonas de fratura", acentuando suas tendências mais perversas. Por isto, neste momento, apesar de que se fale muito de economia, existe um outro fantasma que ronda o mundo e assusta mais os seus dirigentes: o fantasma das rebeliões.

[1] José Luis Fiori, Valor Econômico, 5/11/2008

sábado, 13 de dezembro de 2008

Mais uma dos neoliberais cara-de-pau

Agora atacam usando o nome da CEPAL

"Cepal: política de juros do BC ajudou no combate à pobreza

Fabiano Klostermann INVERTIA (http://br.invertia.com/noticias/noticia.aspx?idNoticia=200812131600_RED_77694484&idtel=)

Na semana em que o Banco Central brasileiro mais uma vez foi criticado por indústria, comércio e sindicatos por resistir a baixar a taxa básica de juros no País, um estudo mostra que a alegada preocupação da instituição com a alta dos preços ajudou o Brasil a reduzir o número de pobres.

Um relatório da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) afirma que por ter sido um dos países da região com menor inflação a partir de 2007, o Brasil conseguiu manter o ritmo de redução de pobres e indigentes."

***

Comentário:

Não fazem Cepal como antigamente...

A justificativa é que o BC brasileiro segurou a inflação, e evitando a redução do poder aquisitivo, evitou o empurrão de uma parcela da população para a pobreza. E que estaria cumprindo acertadamente sua função: o cumprimento das metas de inflação.
A nova CEPAL esquece que foi sim a manutenção do crescimento econômico e da renda que impediu a queda nos padrões de vida, que chegam a citar lá no finalzinho do texto.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Neoliberais caras-de-pau dizem que AL não deve adotar medidas anti-cíclicas

por Almir Cezar Filho

Àqueles que não entendem o porquê a posição do Banco Central brasileiro devem ler essas duas matérias abaixo que li na internet. Há uma lógica de pensamento neoliberal e isso vem de fora.

Enquanto nos países centrais os Bancos Centrais e Tesouros estão operando políticas anti-cíclicas (reversão do ciclo econômico) - como forte ampliação do gasto público e redução de impostos e drástico corte nas taxas de juros - os economistas conservadores (que ainda têm cara-de-pau de sair da toca depois do recente debacle do sistema financeiro) estão propagandeando que o Brasil e os países latino-americanos devem tomar cuidado com políticas anti-cíclicas, que ela seriam de antes da pecularidades dessa região na verdade pró-cíclicas, que elas afetariam o esforço de estabilização macroeconômica iniciado nos anos 1990. O ideal seria o Brasil pegar empréstimo junto ao FMI e não usar usar o receituário anti-crise, aguardar sentado a contaminação, continuar com o posicionamento neoliberal das políticas e rejeitar as políticas anti-cíclicas.

Ao meu ver na verdade esses ideologos cara-de-pau estão defendendo as posições dos grandes bancos e especuladores na América Latina que contraíram títulos públicos e posições em câmbio, e precisam que elas estejam protegidos, à medida que podem ser afetados colateralmente as medidas das políticas anti-cíclicas. Como infelizmente as autoridades macroeconômicas da AL se formaram ou estão organicamente ligadas as organismos acadêmicas ou instituições financeiras seguiram sem dó o velho receituário, negando a nova realidade, e procurando justificativas como as duas apresentadas abaixo para manter suas orientações econômicas, orientações que agridem o povo e empurraram a economias nacionais para uma recessão maior da que seria inevitável - tudo na defesa do interesses de um pequeno, mas cobiçoso, grupo.


Para 'Economist', FMI pode ajudar o Brasil em meio à crise
http://br.invertia.com/noticias/noticia.aspx?idNoticia=200812120948_BBB_77692284

Um artigo na mais recente edição da revista britânica The Economist sugere que recorrer ao FMI, ao Banco Mundial ou ao Banco Interamericano de Desenvolvimento pode ser uma boa idéia para ajudar países latino-americanos - entre eles o Brasil - em meio à crise financeira internacional.

De acordo com o texto, intitulado "Preparing for a Tougher Times" (Preparando-se para Tempos Mais Difíceis, em tradução livre), apesar de acreditarem no início da crise que poderiam escapar do pior, a realidade mostrou ser diferente, e os governos da região agora já enfrentam a perspectiva de uma contração econômica.
Mas a Economist diz que a capacidade dos governos de países latino-americanos de injetar recursos na economia a fim de preservar as conquistas dos últimos anos, como a redução da pobreza, é limitada e varia de caso a caso.

Segundo o artigo, o Brasil não é um dos países que está numa das situações mais confortáveis na região.

"Os governos vão enfrentar a restrição representada pela queda da renda dos impostos", diz o texto. "O Brasil está comprometido com um superávit fiscal primário de 3,8% do PIB, com o objetivo de continuar a reduzir o peso de sua dívida. Se diminuir essa meta, isso poderia comprometer a habilidade de o Banco Central reduzir a taxa de juros."

"Nos últimos anos, o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o FMI tiveram pouco trabalho na América Latina porque os governos podiam levantar dinheiro nos mercado de capital. Isso mudou."

"Seria trágico se eventos externos levassem a América Latina a jogar fora a estabilidade econômica que trabalhou tão duro para conseguir", conclui a Economist.

***

Revista: corte de juros pode não servir para emergentes
http://br.invertia.com/noticias/noticia.aspx?idNoticia=200812120951_BBB_77692300&idtel=

Em sua edição mais recente, a revista britânica The Economist afirma que medidas anticíclicas, como cortes de juros e aumento de gastos do governo, podem não ser as melhores políticas a serem adotadas por economias emergentes para frear os efeitos da crise.
No artigo intitulado "Can emerging economies now afford counter-cyclical policies?" (Podem as economias emergentes adotar políticas anticíclicas, em tradução livre), a publicação afirma que as medidas anticíclicas - ações normalmente adotadas por governos para minimizar efeitos de "ciclos econômicos", nesse caso com a crise global financeira - podem ser enganosas para os emergentes.
"Diferente dos Estados Unidos, onde a taxa de juros pode cair e o déficit orçamentário aumentar sem maiores calamidades, os mercados emergentes sempre tiveram que se preocupar com a perda de confiança dos investidores e o colapso de suas moedas".
Ainda comparando as economias emergentes com os EUA, a revista afirma que quando o Federal Reserve (o banco central americano) planeja as taxas de juros, se preocupa com a inflação e o crescimento, e não com a estabilidade do dólar.
"Já os políticos de economias emergentes não podem se dar a esse luxo. Nesses países, que são suscetíveis a inflação alta, a estabilidade monetária ajuda a manter os preços e os débitos com o exterior".
Por essa razão, afirma a revista, as economias emergentes devem normalmente aumentar as taxas de juros sob uma ameaça de uma desaceleração, em um esforço para defender suas moedas.
"Essa política monetária pró-cíclica ameaça a economia, infligindo perdas a bancos e para seus clientes, mas pode ser o menor dos males. Países ricos podem suportar uma ameaça a suas moedas com uma negligência benigna, já as economias emergentes não".
A revista ainda afirma que economias emergentes "prudentes" conseguiram aproveitar o tempo em que suas moedas tinham maior aceitação para ter vantagens agora. A publicação cita o Brasil como exemplo, que diminuiu sua dívida em moeda estrangeira e que, com a desvalorização do real, viu a carga de seus débitos diminuir.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Maria da Conceição: Decisão do BC "era esperada"

Diego Salmen - Terra Magazine

Em meio à tormenta na economia mundial, o Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu, por unanimidade, manter a taxa básica de juros (Selic) da economia em 13,75%. A decisão foi tomada na noite desta quarta-feira, 10.
Para a economista Maria da Conceição Tavares, a decisão não surpreende. Explica: "Todo mundo já esperava. O mercado, consultores, economistas como (Luiz Gonzaga) Belluzzo, Delfim Netto".
A postura do Banco Central é diversa daquela adotada pelos Estados Unidos e uma série de países na Europa e Ásia - que reduziram os juros, inclusive de forma coordenada, para combater os efeitos da crise financeira.
Questionada sobre os motivos da manutenção, pondera: "Deve ser por conta da balança de pagamentos, da inflação".
Em tempo: a taxa permanece em 13,75% desde setembro. A reunião de ontem foi a última do colegiado em 2008.

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3385650-EI6579,00-Maria+da+Conceicao+Decisao+do+BC+era+esperada.html

Maria da Conceição: Decisão do BC "era esperada"

Em meio à tormenta na economia mundial, o Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu, por unanimidade, manter a taxa básica de juros (Selic) da economia em 13,75%. A decisão foi tomada na noite desta quarta-feira, 10.

Para a economista Maria da Conceição Tavares, a decisão não surpreende. Explica: "Todo mundo já esperava. O mercado, consultores, economistas como (Luiz Gonzaga) Belluzzo, Delfim Netto".

A postura do Banco Central é diversa daquela adotada pelos Estados Unidos e uma série de países na Europa e Ásia - que reduziram os juros, inclusive de forma coordenada, para combater os efeitos da crise financeira.

Questionada sobre os motivos da manutenção, pondera: "Deve ser por conta da balança de pagamentos, da inflação".

Em tempo: a taxa permanece em 13,75% desde setembro. A reunião de ontem foi a última do colegiado em 2008.




Comentário:

1) M.C. Tavares antes do governo Lula era bem mais crítica.

2) O BC brasileiro vai na contramão internacional, da série histórica recente registrada pelo IBGE e da tendência visível no Brasil por maioria absoluta dos economistas de deflação e desaceleração econômica.

3) O BC foi capturado pelo sistema bancário. Sua lógica é subordinada a da manutenção da rentabilidade dos bancos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Inicia-se um ciclo de estatização na economia mundial

Matéria coletada do site do Paulo Henrique Amorim (http://www2.paulohenriqueamorim.com.br/?p=2282)

<< O pacote de socorro à indústria automobilística que está em discussão nos Estados Unidos obrigará as três grandes montadoras americanas, General Motors, Ford e Chrysler, a aceitar um grau inédito de interferência do governo nos seus negócios em troca da ajuda financeira que elas precisam obter para enfrentar a crise que engolfou o setor.Conforme o rascunho do projeto em discussão no Congresso, as empresas terão que rever as políticas de remuneração dos seus executivos, suspender o pagamento de dividendos aos acionistas e submeter seus investimentos à aprovação de um funcionário do governo que terá a missão de monitorar as empresas beneficiadas pelo plano.Qualquer transação cujo valor seja superior a US$ 25 milhões terá que ser submetida à avaliação desse funcionário e poderá ser simplesmente vetada por ele. De acordo com o projeto, a restrição se aplica a vendas de ativos, investimentos, contratos e qualquer outro tipo de compromisso assumido pelas empresas. >>

comentário:
por Almir Cezar

A economia mundial, com a ajudinha da crise econômica, caminha para acelerar seu processo de transformação em Capitalismo de Estado. Há um ciclo de estatização acelerando-se na economia. O socorro promovido pelos países da Europa as grandes empresas passa pela estatização parcial ou mesmo integral, quando não há transferência de propriedade acionária, como vêm acontecendo mesmo nos EUA (caso das seguradoras e bancos hipotecários), passa pelo controle executivo, como deve ser o caso do socorro das 3 grandes montadoras de automóveis dos EUA (Crysller, GM e Ford).
Mas a transformação da economia mundial em Capitalismo de Estado é visto também em outros fenômenos atuais não ligados ao socorro de grandes empresas e bancos. Com a crise e a desvalorização de ativos de várias empresas o ranking das maiores empresas do mundo mudou rapidamente, mas o viés já se via nos últimos 5 anos. Das 10 maiores empresas do mundo, 6 são estatais. Sendo que antigamente as estatais eram de atuação nacional e agora atuam internacionalmente (p.ex. a Petrobras) e empresas com forte participação acionária pública (p.ex. a Vale do Rio Doce). Ponto novo na história econômica.

Nos EUA não caminha para a estatização, apesar da rejeição das massas as empresas privadas e a gestão dos executivos de altíssimos salários (o plano financeiro de salvamento de empresas incluía limitação ao gasto com executivos).
Tal novo cenário abre ao potencial para intervenção às políticas diplomáticas na política internacional.

Mas abre também para os interesses diplomáticos cada vez mais se confunda com os interesses empresariais e vice-versa. As trombadas entre empresas transnacionais e entre empresa e governos serão cada vez mais trombada entre governos nacionais. E sabemos como acaba essa história de trombada entre governos nacionais: em guerra. Prognóstico que não podemos descatar.

A Primeira Guerra Mundial foi possível com entrada da Europa na era do Capitalismo de Estado, se esse tipo de capitalismo se reforça agora...é possível um revival de 1914.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Palavras que escorrem pelos dedos (4)

Em homenagem ao final do sempre emocionante (mas sempre problemático) Campeonato Brasileiro

A Procissão

Estádio, templo santo, sagrado
Onde rola a bola
Óbolo santo
Pão de vida, revigora-nos toda a semana
Cálice donde jorra a terrena alegria

Numa assembléia reunida
Em lados opostos rezando em euforia,
Num turbilhão de emoções,
Em que a cada lance litúrgico
Ora contempla a chance
De uma vitória gloriosa
Ou uma derrota honrosa.
Chances perdem-se, ganham-se
Tudo num gigantesco dado que é
A sorte.

Num drible, numa chegada
Num carrinho, numa embaixada
Num gol. Num cartão
E até num lance perdido
Por causa de um jogador que enche o pavão

Em um gol entupido, contido num grito
Entalado na goela
A chuteira que é boa que agüente
O coração que não se enche

A emoção num pênalti
Cobrado até ser perdido
Ou na triste bola que entrou
Na derrota ganha
Ou na vitória perdida
Tudo no futebol, um jogo que nos fascina
O jogo, que nos fascina.

domingo, 7 de dezembro de 2008

A importância de E. Preobrazhensky à moderna Economia

Por Almir Cezar Filho

Há uma literatura internacional que se utiliza e se cita muito Eugueny Preobrazhensky. Os economistas que trabalham com Economia do Desenvolvimento e Economia do Crescimento utilizam muito as contribuições de Preobrazhensky, mesmo aqueles que não vêm da tradição trotskista ou mesmo marxista. Gente como Paul Sweezy e Paul A. Baran, Alec Nove, mas também não marxistas como o pós-keynesiano Evsey Domar e o novo-keynesiano Stiglitz.

Por outro lado, todos os pais da moderna teoria do desenvolvimento, nascida nas décadas de 1940 e 50 (como W. W. Rostov, Rosentein Rodan, W. Arthur Lewis, e outros), têm como base inicial para seus pensamentos o debate sobre industrialização soviética da década de 1920, onde Preobrazhensky e Bukharin foram os dois maiores protagonistas no plano teórico. Sendo que as teses de Preobrazhensky, numa reviravolta histórica, acabaram sendo as vencedoras - embora aplicadas incorretamente por Stalin no I Plano Quinquenal - daí a sua importância para o pensamento econômico não exclusivamente marxista.

Mandel utiliza Preobrazhensky muito em sua obra econômica marxista, especialmente seus apontamentos de Economia Política oriundas de O Capital. Sobre o A Nova Econômica, questões metodológicas retiradas de O Capital e aplicados a uma sociedade socialista ler Preobrazhensky em "A Nova Econômica". Não tem contas, mas explica todas as categorias analíticas empregadas por Marx numa linguagem mais acessível.
Há uma edição brasileira de 1979 da editora Paz e Terra, traduzida pelo sociólogo Leôncio Martins. E as várias em espanhol e francês. Há uma edição em inglês cujo prefácio e introdução é do Alec Nove.

Tenho comigo uma fotocópia do livro A Nova Econômica e um em formato “.doc”, mas que está cheio de falha de digitação. Tenho também uma fotocópia de outro livro de Preobrazhensky uns em inglês, francês e espanhol (Em espanhol: "De la NEP al socialismo”; em inglês: "The Decline of Capitalism" e "Crisis of industrialization soviets"; em francês: “Declaration 46”).

Estes livros estão em bibliotecas espalhas por todo o país. Pretendo traduzi-las e editar no Brasil e escrever um livro sobre o pensamento de Preobrazhensky. Estou procurando por parceiros nessa empreitada.

sábado, 6 de dezembro de 2008

As dificuldades de leitura e entendimento dO Capital

por Almir Cezar Filho

Frequentemente amigos comentam comigo sobre a dificuldade de ler e entender O Capital de Karl Marx. Reclamam da linguagem exageradamente sofisticada e por hora rebuscada, das densidades dos conceitos a cada parágrafo e por fim, uma grande reclamação é o emprego de uma matemática difícil, onde as contas não batem, que muitas vezes um mais um vira cinco.

Além do mais, tem que saber um pouco de matemática para encarar O Capital. Embora Marx não tenha sido um matemático, e apesar disso, trabalhou bem os números, mas não apresentou soluções matemáticas que simplificassem os teoremas e esquemas de reprodução do capital e de transformação dos valores em preços. Colocava tudo em equações múltiplas, sistemas algébricos (duas equações que compartilha as mesmas variáveis), com as soluções das variáveis uma em função da outra.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Calúnia contra a Auditória Cidadã da Dívida

Amigos,

Recebi da Auditória Cidadã essa mensagem:

<http://www.divida-auditoriacidada.org.br/config/Notaredejubileuversao19horasde03.12.doc/download

Esta Nota encontra-se aberta a adesões de entidades e pessoas que apóiam o movimento da Auditoria Cidadã da Dívida.
Por isso, solicitamos ampla divulgação da mesma, com inserção nas páginas das entidades na internet. As adesões podem ser encaminhadas a este e-mail: auditoriacidada@terra.com.br >>>

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Entenda o Pré-Sal

Vídeo que explica o que é o pré-sal produzido pelo telejornalismo da TV BRASIL.

video

A Economia do Trabalho: "o desenvolvimento histórico da humanidade é a história da economia do tempo de trabalho"

por Almir Cezar Filho

A vida social é cheia de relações, a mais importante é são as relações ligadas a produção. Os homens precisam produzir para se alimentar, se abrigar, se agasalhar, se deslocar, etc. Portanto, o trabalho é a parte mais importante da vida social, e em si um relação social central da existência humana, tanto coletiva, como individual.

A importância do trabalho na sociedade

Marx e Engels definem o trabalho como elemento nato do ser humano, ao ponto de que Engels escrevesse que “o trabalho transformou o macaco em homem”. Nesse sentido, o trabalho assume um papel central também na constituição das relações sociais e na identidade humana, à medida que os homens têm como base da sua vida relações materiais constituída para sua sobrevivência individual e social. Cuja organização coletiva se estrutura a partir da busca da produzir, distribuir e consumir e correspondendo ao nível de desenvolvimento dos meios materiais e das relações constituídas para isso.

Os componentes do trabalho e sua manifestação no Capitalismo

O processo de trabalho envolve vários componentes, que são eles, a força de trabalho, os instrumentos de trabalho, o objeto do trabalho, que resultam sob o trabalho, em produto do trabalho. Cada qual cumpre seu papel no processo do trabalho. Sob o capitalismo os produtos do trabalho os fatores assumem a forma de mercadoria à medida que são trocadas entre si e por meio do valor presente nelas. 

O valor das mercadorias corresponderá, portanto ao valor dos fatores envolvido no processo de trabalho que lhe gerou. Esses componentes do processo de trabalho ganham a forma de capital – meios de trabalho (capital constante: capital fixo e capital circulante) e capital variável (força de trabalho) - à medida que realizam o processo de valorização desse mesmo capital. Em suma, o processo de trabalho é manifestado nas componentes do capital em seu processo de valorização.

Sob o capitalismo o processo de trabalho objetiva não a produção de mercadoria em si, mas de geração de valores, a serem acumulados pelo capitalista sob a forma de valorização do seu capital. O valor da mercadoria é o tempo socialmente necessário empregado no processo de trabalho da produção dessa mercadoria. O capitalista é o proprietário dos meios de produção (os instrumentos e os objetos do trabalho), que lhe garantem o direito ao produto do trabalho, propiciando-lhe o lucro, com a contrapartida ao proletário do salário, à medida que este lhe vende a força de trabalho, necessária a realização do trabalho.

Os componentes do trabalho e o processo do trabalho em sua forma capitalista

O salário é a preço da força de trabalho, é o valor de remuneração da força de trabalho, é a relação entre o proletário e o capitalista. A relação entre o proletário e o capital é o capital variável. O capitalista paga ao proletário apenas pelo uso da força de trabalho, cobrindo, portanto a reposição, a reprodução, desse fator, o que chamamos de valor da força de trabalho.

Da diferença entre o valor do conjunto do capital empregado pela aquisição dos fatores e o valor gerado no processo de trabalho, pelo trabalho praticado pelos proletários, é apropriado, e acumulado, pelo capitalista, consistindo naquilo que é chamado de mais-valia. A mais-valia formará o lucro do capitalista. A proporção da mais-valia obtida variara de acordo com as circunstâncias que envolvem o processo de trabalho.

O papel da concorrência no processo do trabalho

O capitalista na luta contra outros capitalistas pela garantia de maiores lucros e valorização de seu capital, a chamada concorrência, e mesmo em luta com os proletários, para reduzir a parte que lhe é obrigado a remunerar, e conseqüentemente aumentar seus lucros, realiza interferência no processo de trabalho.

Essas interferências se dão em forma de (i) aumentar a produtividade, aumentando os valores gerados, mas mantendo o salário (intensificação do trabalho), que se faz com melhorias tecnológicas-produtivas, ou (ii) obrigar ao proletariado a trabalhar mais horas pelo mesmo salário (extensificação do trabalho), quando não por salário menor.

Assim, em ambas situações varia-se na mais-valia apropriada. Faz-se com que reduza a importância da força de trabalho na composição dos componentes do processo de trabalho. No primeiro caso, temos a apropriação em termos da chamada mais-valia relativa, e no segundo caso na chamada mais-valia absoluta.

O primeiro caso é o mais empregado pelos capitalistas - em virtude da dificuldade de impor aos proletários ou sua capacidade de resistência que se dá com o caso da mais-valia absoluta -, mas implica numa forte modificação na composição dos componentes da valorização do capital; a chamada “composição orgânica do capital” do processo de trabalho. Obriga ampliar a quantidade de capital constante em detrimento da proporção do capital variável.

Contudo, é o capital variável (a força de trabalho) o elemento gerador da mais-valia e não o capital constante. Embora o objetivo seja ampliar a mais-valia, acontece que, esse ganho de mais-valia - uma mais-valia suplementar, à medida na concorrência que os preços das mercadorias são as mesmas, mas o valor socialmente necessário da mercadoria tornou-se diferente, menor, pode-se dizer, uma economia de trabalho - só se dá quando os concorrentes ainda não realizaram a mesma substituição tecnológica e produtiva, igualando a composição orgânica do capital. Após isso, a vantagem se desfaz.

Assim, nas sucessivas rodadas, justamente com o objetivo de aumentar a geração da mais-valia, diminui-se a possibilidade de geração dessa mesma mais-valia. Tal espiral manifesta-se tal qual nas crises econômicas, quando se precipita a gravidade da queda da mais-valia, quanto que na tendência de longo prazo de decrescimento da taxa de lucro.

Portanto, a interferência no processo de trabalho implica no desenvolvimento das forças produtivas, à medida que aperfeiçoa as condições técnicas do processo de trabalho, e modificações na valorização do capital, não apenas nos capitais individuais, mas no processo ampliado e nos capitais gerais.

A economia do trabalho e a redução da jornada de trabalho

O problema é que, à medida que a economia de trabalho no capitalismo é voltada a redução do tempo de trabalho socialmente necessário das mercadorias, leva ao desemprego no processo de trabalho da força de trabalho, e não na redução da jornada, visto que se objetiva a ampliação do lucro pela mais-valia relativa.

Com a redução da jornada não haveria alteração ao fim da composição orgânica do capital devido que haveria o imperativo da contratação de mais proletários para compensar as horas a menos trabalhadas, o que anularia os efeitos desejados pelos capitalistas. Muitas vezes o capitalista o faz, não apenas pressionado pela organização dos proletários enquanto classe social, mas porque a economia do trabalho torna a força de trabalho menos importante ao processo de trabalho.

A economia de trabalho mesmo reduz o valor da força de trabalho, rebaixa os salários, pela menor relevância da força de trabalho individual no processo de trabalho (subsunção) e pela ampliação do exército industrial de reserva (desemprego alterando o mecanismo de mercado de oferta e demanda de trabalhador). E por outro lado, essa mesma economia do trabalho geral rebaixa o valor das mercadorias, incluindo os bens de consumo, reduzindo, portanto os custos de reprodução da força de trabalho. 

Dessa maneira, o capitalista pode repassar parcialmente esses seus ganhos aos seus empregados, adquiridos com a própria redução do custo em tê-los, com a redução da jornada de trabalho, até porque pode obter um ritmo maior de geração de trabalho de cada proletário em menos horas trabalhada.

A dominação do capital sobre o trabalho e a resistência do trabalhador

A modernização da produção realizada pelo capitalista criou a fábrica como unidade produtiva básica da produção capitalista. Nela o trabalhador individual se dissolve, é absorvido, no trabalho e no trabalhador coletivo à medida que não tem conhecimento integral técnico e teleológico sobre o processo do trabalho (trabalho específico) e tendo seu trabalho submisso ao ritmo do processo de trabalho coletivo (trabalho parcial). Acaba, portanto tendo sua força de trabalho desvalorizada em decorrência disso.

A resistência do trabalhador individual é quebrada. A disciplina é garantida; prazo de entrega, forma e qualidade da mercadoria são asseguradas. A produtividade individual é multiplicada tanto pela disciplina, como pela maior divisão de trabalho, a interação com outros trabalhadores; como pela possibilidade de utilização maior na manufatura dos mais modernos instrumentos e objetos de trabalho, do que seria numa oficina ou em casa. Assim a apropriação da mais-valia se amplia consideravelmente.

Mas, apesar do desejo contrário do capitalista, pode sim dar-se, somente que em outra forma. Pode dar-se ou no plano político ou na atuação como trabalhador coletivo.

As Alternativas para o Brasil enfrentar a Crise - seminário

Hoje e amanhã seminário organizado por várias entidades da sociedade civil, jornal Monitor Mercantil e Conselho Regional de Economia.

Local é o auditório da ABI. Centro do Rio

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Depressão, uma visão de longa duração - artigo de Immanuel Walerstein

Um breve artigo do pensador IMMANUEL WALERSTEIN, um dos maiores expoentes da teoria do sistema mundo, aporte desenvolvida também por André Gunder Frank, Giovanni Arrighi, Theotonio dos Santos e Samir Amim.

(http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15320)

Estamos nos movendo em direção a um mundo protecionista. Estamos nos movendo para um papel muito maior do governo na produção. Mesmo os EUA e a Grã Bretanha estão nacionalizando parcialmente os bancos e as grandes empresas moribundas. Nos dirigimos a uma distribuição conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à centro-esquerda ou formas autoritárias de extrema direita.

Immanuel Wallerstein - La Jornada

Immanuel Wallerstein, sociólogo norte-americano, um dos teóricos da Teoria do Sistema Mundial (de onde vem a expressão Sistema-Mundo) e pesquisador sênior da Universidade Yale. É autor de Sistema Mundial Moderno, de 1974.


Tradução: Katarina Peixoto


A depressão já começou. Alguns jornalistas, um tanto constrangidos, seguem perguntando aos economistas se talvez não estejamos só entrando numa mera recessão. Não creia neles nem por um minuto. Já estamos no começo de uma depressão mundial de grande envergadura com desemprego maciço em quase todas as partes. Pode assumir a forma de uma deflação nominal clássica, com todas as suas conseqüências para as pessoas comuns. É um pouco menos provável que assuma a forma de uma inflação galopante, que é somente uma outra forma de deflacionar valores, inclusive pior para as pessoas comuns. É claro que todo mundo se pergunta o que disparou essa depressão. Serão os derivativos, que Warren Buffett chama de "armas financeiras de destruição em massa"? Ou são, por acaso, as hipotecas subprime? Ou os especuladores do petróleo? Julgar culpas não tem importância real. Isso é concentrar-se na poeira, como dizia Fernand Braudel, dos eventos de curta duração. Se quisermos entender o que está ocorrendo necessitamos lançar um olhar amplo para outras temporalidades, que são muito mais reveladoras. Um é o dos vai-e-vens cíclicos de média duração. O outro é aquele das tendências estruturais de longa duração. A economia-mundo capitalista teve, durante vários séculos, pelo menos duas formas de vai-e-vens cíclicos. Uns são os chamados ciclos de Kondratieff, que historicamente teriam uma duração de 50-60 anos. E outros são os ciclos hegemônicos, que são muito mais longos.Em termos de ciclos hegemônicos, os EUA foram um adversário dessa hegemonia nos idos de 1873; conseguiu sua hegemonia depois de 1945 e vem declinando desde os anos 70. As loucuras de George W. Bush transformaram esse declínio lento em precipitado. E agora já estamos longe de qualquer retomada da hegemonia estadunidense. Entramos, como acontece normalmente, num mundo multipolar. Os EUA permanecem como potência forte, talvez a mais forte, mas continuará declinando em relação a outras potências, nas próximas décadas. Não há muito o que alguém possa fazer para mudar isso. Os ciclos de Kondratieff têm uma temporalidade diferente. O mundo saiu da última fase B do ciclo Kondratieff em 1945, e então o retorno mais forte à fase A vem ocorrendo, na história do sistema-mundo moderno. Chegou ao seu clímax por volta de 1967-1973, e começou o seu descenso. Esta fase B foi muito mais longa que as fases B anteriores e seguimos nela. As características de uma fase B de Kondratieff são bem conhecidas e coincidem com o que a economia-mundo vem experimentado desde os anos 70. As taxas de lucro nas atividades produtivas baixam, especialmente naqueles tipos de produção que tenham sido mais rentáveis. Em conseqüência, os capitalistas que desejem níveis de lucro realmente altos se inclinam para o setor financeiro, e se envolvem no que basicamente é especulação. Para que as atividades produtivas não se tornem tão pouco rentáveis, têm de mudar-se das zonas centrais para outras partes do sistema-mundo, negociando custos menores de transação com mão-de-obra mais barata. É por isso que começam a desaparecer os empregos em Detroit, Essen e Nagoya, e a se expandirem nas fábricas da China, da Índia e do Brasil.Quanto às bolhas especulativas, algumas pessoas sempre fazem muito dinheiro com elas. Só que cedo ou tarde as bolhas especulativas sempre arrebentam. Se se pergunta por que essa fase B do ciclo Kondratieff durou tanto, é porque os poderes existentes - o Departamento do Tesouro e o Federal Reserve (Banco Central) norte-americanos, o FMI e seus colaboradores na Europa ocidental e Japão - intervieram regularmente no mercado e de maneira importante para ajudar a economia-mundo - em 1987, quando a bolsa despencou; em 1989, no colapso do crédito e das poupanças nos EUA; em 1997, com a queda das bolsas na Ásia oriental; em 1998, pelas mãos dos chamados Long Term Capital Management, um fundo Hedge de capitais de longo prazo; em 2001-2002, com Enron. Com base no que aprenderam com as lições das fases B anteriores de Kondratieff, os poderes existentes pensaram que podiam vencer o sistema. Mas há limites intrínsecos para fazer isto. E agora chegamos neles, como Henry Paulson e Ben Bernanke o estão aprendendo para sua vergonha e talvez assombro. Desta vez não será tão fácil, provavelmente será impossível, evitar o pior. No passado, uma vez que a depressão dava rédea solta a seus estragos, a economia-mundo se levantava com base nas inovações que podiam ser quase monopolizadas por um tempo. Assim, quando se diz que o mercado financeiro voltará a levantar-se, é isso o que se pensa que ocorrerá, agora como no passado, depois de as populações do mundo sentirem todo o estrago causado. E talvez em alguns poucos anos assim seja. Há, contudo, algo novo que pode interferir nesse belo padrão cíclico que tem sustentado o sistema capitalista por uns 500 anos. As tendências estruturais podem interferir nas tendências cíclicas. Os traços estruturais básicos do capitalismo como sistema-mundo operam mediante certas regras que podem ser traçadas num gráfico como um equilíbrio em movimento ascendente. O problema, como acontece com todos os equilíbrios estruturais de todos os sistemas, é que com o tempo as curvas se movem para muito além do equilíbrio e se torna impossível regressar ao ponto anterior. O que se fez para que o sistema tenha se tornado tão distante do equilíbrio? Grosso modo, o que ocorre é que, ao longo de 500 anos, os três custos básicos da produção capitalista - pessoal, insumos e impostos - têm subido constantemente no percentual dos preços possíveis de venda, de tal modo que hoje se tornou impossível obter grandes lucros da produção quase monopolizada que sempre foi a base da acumulação capitalista significativa. Não é porque o capitalismo esteja falhando no que faz melhor. É precisamente porque o está fazendo tão bem que finalmente minou a base para acumulações futuras. Quando chegamos a esse ponto o sistema se bifurca (na linguagem dos estudos de alta complexidade). As conseqüências imediatas são uma turbulência altamente caótica, que nosso sistema-mundo está experimentando neste momento e que seguirá experimentando por uns 20-50 anos. Como todos apostam na direção que pensam ser a mais imediatamente adequada para sua perspectiva, emergirá uma ordem de caos numa das veredas dos muitos caminhos alternativos diferentes. Podemos assegurar com confiança que o presente sistema não sobreviverá. O que não podemos predizer é qual nova ordem será escolhida para substituí-lo, porque esta será o resultado de uma infinidade de pressões individuais. Mas cedo ou tarde um novo sistema se instalará. Não será um sistema capitalista, mas pode ser algo muito pior (ainda mais polarizado e hierárquico) ou algo muito melhor (relativamente democrático e relativamente igualitário) que o atual sistema. Decidir um novo sistema é a luta política mundial mais importante de nossos tempos. E, quanto às perspectivas imediatas de curta duração, ad interim, é claro o que ocorre em todas as partes. Estamos nos movendo em direção a um mundo protecionista (esqueça-se da chamada globalização). Estamos nos movendo para um papel muito maior do governo na produção. Mesmo os EUA e a Grã Bretanha estão nacionalizando parcialmente os bancos e as grandes empresas moribundas. Nos dirigimos a uma distribuição populista conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à centro-esquerda ou formas autoritárias de extrema direita. E nos movemos em direção a conflitos sociais agudos no interior de alguns estados, à medida que todo o mundo passa a competir por uma fatia menor do bolo. No curto prazo, não é, de modo algum, um panorama agradável.

Indústria cresce 0,8% em outubro sobre um ano antes e fica abaixo do esperado

Folha de S. P. (veja íntegra da matéria http://economia.uol.com.br/ultnot/2008/12/02/ult4294u1960.jhtm)

A produção industrial brasileira cresceu 0,8% em outubro, em relação ao mesmo mês do ano passado, informou nesta terça-feira o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)(veja gráfico ao final do texto).É a menor taxa desde dezembro de 2003, quando a expansão havia sido de 0,3%. Na comparação com setembro, a atividade caiu 1,7%.
Os números estão aquém do esperado por economistas, segundo pesquisa feita pela agência Reuters de informações. Analistas ouvidos pela empresa previam expansão de 2,7% em relação a outubro do ano passado e queda de 0,3% em comparação com setembro.
De setembro para outubro, a queda foi liderada pelo setor de bens de consumo duráveis, que registrou uma retração de 4,7%. Este era um dos segmentos que mais vinham crescendo ao longo de 2008. Mesmo com a queda em outubro, a alta acumulada no ano é de 10,5%.


Ao meu ver, a retração é causada pela escassez de crédito realizada pelo banco. O setor de bens de consumo duráveis é o que mais sofre à medida que suas vendas dependem de crédito ao consumidor e de muito capital de giro às empresas. Esse vem sendo um dos três mecanismo de contágio da crise mundial à economia brasileira.

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Parte da culpa é da política monetária. Empresas vão mal, mas os bancos vão mal.

O Banco Central não faz nada, a não ser dar mais dinheiro aos bancos, enquanto que eles ficam "empoçando" recursos. Colocam esse dinheiro nos títulos da dívida pública brasileira, com a maior taxa de juros do mundo. Os lucros dos bancos estão garantidos, enquanto que as atividades produtivas ficam desprotegidas e sem crédito e giro.

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A outra parte da culpa pela desaceleração está com as empresas multinacionais

O dois outros meios de contágio da crise estão sendo (ii) a queda dos lucros das matrizes das multinacionais e (iii) queda nas exportações e captações de recursos para investimentos diretos.

O segundo mecanismo, o da queda dos lucros das matrizes das multinacionais também é bem visível nas empresas de bens de consumo durável, não por acaso setor dominado pela multinacionais. Com a crise nas economias que sediam as matrizes das empresas, EUA, UE e Japão, as filiais brasileiras foram obrigadas a cortar investimentos, aumentar a remessa de lucros (ver a Contas Externas brasileiras, que comprovam minha idéia) e enxugar despesas por aqui.
As demissões e as férias coletivas feitas por várias fábricas estão subordinadas a essa lógica de contenção e reestruturação preventiva nas plantas e processos.
Há um desespero dos executivos em aumentar a margem de lucro do negócio no Brasil para ver se salvam a matriz, que está em grande prejuízo ou descapitalizada com a crise.
Por sua vez, a expansão da atividade industrial está vinculada as exportações e novos investimentos que foram paralisados com a crise lá fora.

Crise expõe perigo de fortalecimento da direita, diz Hobsbawm

http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/10/081021_hobsbawncrise_fp.shtml

Hobsbawm comparou atual momento à queda da União Soviética
O britânico Eric Hobsbawm, considerado um dos historiadores mais influentes do século 20, disse à BBC nesta terça-feira que o maior perigo da atual crise financeira mundial é o fortalecimento da direita.


“A esquerda está virtualmente ausente. Assim, me parece que o principal beneficiário deste descontentamento atual, com uma possível exceção – pelo menos eu espero – nos Estados Unidos, será a direita”, disse Hobsbawn, em entrevista à Rádio 4.
O historiador marxista comparou o atual momento “ao dramático colapso da União Soviética” e ao fim de “uma era específica”.
“Agora sabemos que estamos no fim de uma era e não se sabe o que virá pela frente.”
Hobsbawn diz não acreditar que a linguagem marxista, que lhe serviu de norte ao longo de toda sua carreira, será proeminente politicamente, mas intelectualmente, “a análise marxista sobre a forma com a qual o capitalismo opera será verdadeiramente importante”.

Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Muitos consideram o que está acontecendo como uma volta ao estadismo e até do socialismo. O senhor concorda?

Bem, certamente estamos vivendo a crise mais grave do capitalismo desde a década de 30. Lembro-me de um título recente do Financial Times que dizia: O capitalismo em convulsão. Há muito tempo não lia um título como esse no FT.

Agora, acredito que esta crise está sendo mais dramática por causa dos mais de 30 anos de uma certa ideologia “teológica” do livre mercado, que todos os governos do Ocidente seguiram.

Porque como Marx, Engels e Schumpter previram, a globalização - que está implícita no capitalismo -, não apenas destrói uma herança de tradição como também é incrivelmente instável: opera por meio de uma série de crises.

E o que está acontecendo agora está sendo reconhecido como o fim de uma era específica. Sem dúvida, a partir de agora falaremos mais de (John Maynard) Keynes e menos de (Milton) Friedman e (Friedrich) Hayek.

Todos concordam que, de uma forma ou de outra, o Estado terá um papel maior na economia daqui por diante.

Qualquer que seja o papel que os governos venham a assumir, será um empreendimento público de ação e iniciativa, que será algo que orientará, organizará e dirigirá também a economia privada. Será muito mais uma economia mista do que tem sido até agora.

Acredito que esta crise está sendo mais dramática por causa dos mais de 30 anos de uma certa ideologia 'teológica' do livre mercado, que todos os governos do Ocidente seguiram.

E em relação ao Estado como redistribuidor? O que tem sido feito até agora parece mais pragmático do que ideológico...

Acho que continuará sendo pragmático. O que tem acontecido nos últimos 30 anos é que o capitalismo global vem operando de uma forma incrivelmente instável, exceto, por várias razões, nos países ocidentais desenvolvidos.

No Brasil, nos anos 80, no México, nos 90, no sudeste asiático e Rússia nos anos 90, e na Argentina em 2000: todos sabiam que estas coisas poderia levar a catástrofes a curto prazo. E para nós isto implicava quedas tremendas do FTSE (índice da bolsa de Londres), mas seis meses depois, recomeçávamos de novo.

Agora, temos os mesmos incentivos que tínhamos nos anos 30: se não fizermos nada, o perigo político e social será profundo e ainda mais depois de tudo, da forma com a qual o capitalismo se reformou durante e depois da guerra sob o princípio de “nunca mais” aos riscos dos anos 30.

O senhor viu esses riscos se tornarem realidade: estava na Alemanha quando Adolf Hitler chegou ao poder. O senhor acredita que algo parecido poderia acontecer como conseqüência dos problemas atuais?

Nos anos 30, o claro efeito político da Grande Depressão a curto prazo foi o fortalecimento da direita. A esquerda não foi forte até a chegada da guerra. Então, eu acredito que este é o principal perigo.

Depois da guerra, a esquerda esteve presente em várias partes da Europa, inclusive na Inglaterra, com o Partido Trabalhista, mas hoje isso já não acontece.
A esquerda está virtualmente ausente, Assim, me parece que o principal beneficiário deste descontentamento atual, com uma possível exceção – pelo menos eu espero – nos Estados Unidos, será a direita.

O que vemos agora não é o equivalente à queda da União Soviética para a direita? Os desafios intelectuais que isto implica para o capitalismo e o livre mercado são tão profundos como os desafios enfrentados pela direita em 1989?

Sim, concordo. Acredito que esta crise é equivalente ao dramático colapso da União Soviética. Agora sabemos que acabou uma era. Não sabemos o que virá pela frente.
A globalização, que está implícita no capitalismo, não apenas destrói uma herança de tradição como também é incrivelmente instável: opera por meio de uma série de crises

Temos um problema intelectual: estávamos acostumados a pensar até então que havia apenas duas alternativas: ou o livre mercado ou o socialismo. Mas, na realidade, há muito poucos exemplos de um caso completo de laboratório de cada uma dessas ideologias.

Então eu acho que teremos de deixar de pensar em uma ou em outra e devemos pensar na natureza da mescla. E principalmente até que ponto esta mistura será motivada pela consciência do modelo socialista e das conseqüências sociais do que está acontecendo.

O senhor acredita que regressaremos à linguagem do marxismo?

Desde a crise dos anos 90, são os homens de negócio que começaram a falar assim: “Bem, Marx predisse esta globalização e podemos pensar que este capitalismo está fundamentado em uma série de crises”.

Não acredito que a linguagem marxista será proeminente politicamente, mas intelectualmente a natureza da análise marxista sobre a forma com a qual o capitalismo opera será verdadeiramente importante.

O senhor sente um pouco recuperado depois de anos em que a opinião intelectual ia de encontro ao que o senhor pensava?

Bem, obviamente há um pouco a sensação de schadenfreude (regozijo pela desgraça alheia).

Sempre dissemos que o capitalismo iria se chocar com suas próprias dificuldades, mas não me sinto recuperado.

O que é certo é que as pessoas descobrirão que de fato o que estava sendo feito não produziu os resultados esperados.

Durante 30 anos os ideólogos disseram que tudo ia dar certo: o livre mercado é lógico e produz crescimento máximo. Sim, diziam que produzia um pouco de desigualdade aqui e ali, mas também não importava muito porque os pobres estavam um pouco mais prósperos.

Agora sabemos que o que aconteceu é que se criaram condições de instabilidades enormes, que criaram condições nas quais a desigualdade afeta não apenas os mais pobres, como também cada vez mais uma grande parte de classe média.

Sobretudo, nos últimos 30 anos, os benefíciários deste grande crescimento têm sido nós, no Ocidente, que vivemos uma vida imensuravelmente superior a qualquer outro lugar do mundo.

E me surpreende muito que o Financial Times diga que o que se espera que aconteça agora é que este novo tipo de globalização controlada beneficie a quem realmente precisa, que se reduza a enorme diferença entre nós, que vivemos como príncipes, e a enorme maioria dos pobres.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

OBAMA: super-herói?

por Almir Cezar

Ontem, domingo, na capa da revista JB Ecológico, que veio na edição do Jornal do Brasil, veio com a seguinte manchete "Obama: pacifista ambiental?". Essa manchete era um contraponto a capa da mesma revista publicada a dois anos atrás, que era a seguinte "Bush: terrorista ambiental".

A imprensa e mídia em geral tratam Obama como antítese de Bush, um super-herói que venceu o super-vilão. Durante os anos Bush a mídia foi muito condencente com ele, apesar do amplo sentimento dos leitores e espectadores que esse era o instrumento das políticas mais nefastas das corporações transnacionais e do imperialismo ianque.
Agora veria Obama para redimir os EUA e salvar o mundo das catastrófes. Contudo, Obama - que em verdade foi eleito num amplo movimento de massas de rejeição ao bushismo e por amplas mudanças - na prática já vem mostrando que esse não será seu papel e intenção.

A equipe de transição e o staff já anunciada do novo governo mostra sua cara que todas as mudanças serão dentro da linha traçada pelas elites. O que ao meu ver serão poucos.

Os homens de Obama são ligados a Era Clinton (como Larry Summers) esses mesmos que fizeram a desregulamentação do sistema financeira, que vem sendo apontada como uma das causas da crise financeira dos EUA.Esses neoliberais vêm se apresentando como portadores da mudança mas foram os mesmos que aprontaram.

Mas quando a lua-de-mel do povo com Obama acabar e ou for obrigado pelas circunstâncias ou pela pressão popular a avançar a linha-vermelha delimitada pela mídia, ele será intensamente cobrado. Cobrado como nenhum outro presidente dos EUA o foi.

Um super-herói sempre vence no final. No último instante encontra sempre uma solução para o problemas e dilemas. Derrota o vilão e salva o mundo e a mocinha. Obama não é super-herói. Super-herói só existem nos quadrinhos e filmes.

A história cobrará seu preço se ele não implantar mudanças efetivas e se não romper com os interesses dos ricos.

sábado, 29 de novembro de 2008

O capitalismo tentou romper seus limites históricos e criou um novo 1929, ou pior

O texto abaixo é do famoso economista marxista François Chesnais.

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"Não quero parecer um pastor com a sua Bíblia marxista, mas quero ler uma passagem de O Capital: o verdadeiro limite da produção capitalista é o próprio capital; é o fato de que, nela, são o capital e a sua própria valorização que constituem o ponto de partida e a meta, o motivo e o fim da produção. O meio empregado - desenvolvimento incondicional das forças sociais produtivas - choca constantemente com o fim perseguido, que é um fim limitado: a valorização do capital existente". Leia a íntegra da palestra do economista francês François Chesnais feita em setembro, em Buenos Aires.

O capitalismo tentou romper seus limites históricos e criou um novo 1929, ou pior
François Chesnais* - Esquerda.Net

Nesta apresentação feita em 18 de Setembro em Buenos Aires, o economista marxista francês François Chesnais expõe a forma como o capitalismo, na sua longa fase de expansão, tentou superar os seus limites imanentes. E como todas essas tentativas contribuíram para criar agora uma crise muito maior. Comparável à de 1929, mas que ocorre num contexto totalmente novo.


A tese que vou apresentar defende que no ano passado produziu-se uma verdadeira ruptura, que deixa para trás uma longa fase de expansão da economia capitalista mundial; e que essa ruptura marca o início de um processo de crise com características que são comparáveis à crise de 1929, ainda que venha a desenvolver-se num contexto muito diferente.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O mundo pós-crise

Uma interessante análise do jornalista econômico Luís Nassif, retirada de seu blog (http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=10009) , à respeito das transformações do capitalismo contemporâneo que se manifestou com a atual crise e que se manifestaram após.

Coluna Econômica - 26/11/2008

Luis Nassif

Alguns pontos relevantes sobre os desdobramentos da crise mundial
O primeiro é a constatação da mudança radical sobre o papel dos Estados Unidos no novo mundo. Ao contrário da Inglaterra, a grande hegemonia americana foi conduzida por suas grandes corporações, especialmente em três setores, a mineração-siderurgia, a indústria automobilística e o setor financeiro.
Coube a elas espalhar o poderio americano pelo mundo, os hábitos empresariais, a influência política. A diplomacia americana quase que caminhava atrás, respaldando suas ações.

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Com o tempo, essa expansão levou à perda da identidade nacional, dos vínculos com o país. A expansão levou-as a privilegiar a produção de manufaturas na Àsia. Especialmente na China. Com o tempo, as linhas de produção foram transferidas para lá, reduzindo o potencial de emprego norte-americano.
Os ganhos eram na forma de dividendos recebidos e na expansão das instituições financeiras.
Nas décadas passadas, os EUA perderam a primazia da mineração e da siderurgia. Desde o começo da década, a primazia do setor automobilístico. Problemas trabalhistas em Detroit, erros de avaliação sobre os novos modelos (com alto consumo de combustível), fizeram com que gradativamente seu espaço no mercado passasse a ser ocupado primeiros pelos japoneses, depois pelos europeus, finalmente, pelos coreanos.
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A bolha da tecnologia segurou a expansão do setor de telecomunicações. Manteve-se o da indústria de softwares.
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Nos últimos seis meses, caíram os últimos símbolos do predomínio americano, os grandes bancos de investimento que, desde o início do século 20 representaram a ponta de lança do poderio americano.
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Não significa a decadência americana, mas o fim do predomínio absoluto. Obviamente há no país um estoque imenso de pesquisa, inovação, capacidade gerencial, ambiente favorável de negócios. Mas, agora, sob um mundo bem mais equilibrado.
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Ponto importante nesse jogo é o novo papel desempenhado pelos emergentes. Tanto as montadoras quanto os bancos têm garantido que poderão abrir mão de subsidiárias em vários países, menos em alguns emergentes – como o Brasil.
Não se sabe como o mercado interno norte-americano emergirá da crise atual. Barack Obama já deixou claro que implementará um programa similar ao New Deal, de Roosevelt. Ou seja, prioridade para as pessoas físicas, para a geração de empregos, para a solução da inadimplência dos mutuários.
É um desafio ciclópico, o de unificar a nação em torno de bandeiras de solidariedade, já que os beneficiários do modelo anterior ainda mantém a influência política – como acontece em todo final de ciclo.
Mesmo assim, levará muito tempo até que o mercado interno americano recupere o dinamismo das últimas décadas – já que o motor principal, o crédito, ficou profundamente avariado.
Significa que, quando a economia mundial começar a mostrar sinais, ainda que tênues, de recuperação, o investimento preferencial das multinacionais será em grandes emergentes, como o Brasil.
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O desafio é prender a respiração e chegar à outra margem do rio.